gerô

[isto não é jornalismo! é antes, um comentário emocionado de alguém que perdeu um amigo; gerô foi assassinado no fim da tarde da última quinta-feira, 22]

procurei em diversos discos de back-up, uma foto de gerô. não a encontrei. ele, com o parceiro moisés nobre, embolando numa das (duas) edições da feira da praia grande. alegres, ambos.

apesar da truculência de dois policiais (que, infelizmente, traduzem o comportamento geral da polícia), não é a imagem de gerô morto, no caixão, que vai ficar. fica a imagem de gerô (sempre) alegre, sua voz diferente, única, aos gritos, chamando a todos, “ê, fuleiro!“, “ê, doido!“, bem ao seu estilo. bebi com gerô não mais que meia dúzia de vezes. uma só, seria suficiente: era cativante a figura do poeta/repentista/compositor, seus inseparáveis chapéu de couro, violão e língua afiada.

não engulo (um trecho d)a versão apresentada em algumas matérias jornalísticas: confundir jeremias pereira da silva (o gêro, 46) com um ladrão, é balela. e ainda assim, não justificaria a ação imbecil dos policiais.

acompanhei (parte d)a coletiva de imprensa do comitê estadual de combate a tortura. li a fala de sálvio dino, secretário extraordinário de estado de direitos humanos, no sentido de propor uma pensão à família. não trará gerô de volta, mas é o mínimo que se pode fazer. e urgentemente! “gerô foi assassinado pelo estado”, afirmou magno cruz, presidente da sociedade maranhense de direitos humanos (smdh). urgente deve ser também a punição exemplar dos envolvidos no inexplicável, inaceitável e vergonhoso crime. urgente deve ser também a mudança de comportamento na polícia como um todo.

a morte de gerô (espancado/torturado enquanto algemado) ganha visibilidade. a pergunta que não quer calar: quantos pretos-pobres (nada de eufemismos, por favor!) morrem todos os dias em condições semelhantes?

gerô subiu. hora dessas, já deve estar tocando com cristóvão, coxinho e escrete.

gerô, tu que tanto nos gerou alegria, não morreu!

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

5 comentários em “gerô”

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