uma visão tridimensional

pois ainda bem que contamos, em nossos dias, com aquele que pode salvar a poesia da degradação pela qual vem ela passando. poucos são hoje os poetas capazes dessa difícil missão. difícil, porque, como já disse o próprio nauro, ser poeta é duro e dura a vida inteira, enquanto a grande maioria dos fazedores de versos parece achar que ser poeta é mole e por isso mesmo não dura nada o que fazem.

acima, em itálico, com minúsculas e grifos por minha conta, um trecho do que josé chagas escreveu sobre “pátria do exílio”, o novo livro do poeta nauro machado. o texto, cujo título repete-se neste post, foi publicado ontem (25) no jornal o estado do maranhão, caderno alternativo, página 3.

(talvez) este trech(inh)o traduz(a) (em parte) o porquê deste blogueiro ter abandonado a poesia.

amor = brega = lindo

dedico os três parágrafos abaixo aos amigos sadoquenn (que me deu o disco de presente de aniversário), bruna beber e suely mesquita. tive o prazer de re-apresentar essas duas cariocas, ontem, via msn, em história que contarei (de forma breve, como a resenha abaixo), ainda este fim de semana, no blogue da segunda (já linkado ao lado). sem mais, nossa modesta colaboração ao jornal pequeno de ontem. (o texto saiu fora do lugar habitual, salvo engano na página 2 do jp turismo).

No “Compasso” de Ro Ro

Compositora carioca lança álbum de inéditas após seis anos sem gravar.

por Zema Ribeiro*

Versos como “Estou deixando o ar me respirar”, “Meu alvo é a paz” e “Amo a vida a cada segundo / pois pra viver eu transformei meu mundo” são encontrados em “Compasso”, faixa que abre e batiza o novo trabalho de Angela Ro Ro [R$ 32,00, Indie Records, 2006], e traduzem o espírito do disco: positivo, otimista, vibrante.

Ro Ro esbanja alegria, feliz com a volta por cima: um bem sucedido álbum de inéditas após seis anos sem gravar. Quem esperar novos “clássicos”, do quilate de “Fogueira” ou “Amor meu grande amor” poderá não encontrar, embora a faixa-título seja, já, hit chiclete radiofônico – merecidamente.

Ricardo Mac Cord (teclado e arranjos) assina, em parceria com Ro Ro, sete das 13 faixas de “Compasso”, incluindo esta. Ana Terra [“Paixão”] e Antonio Adolfo [“Chance de amor”] também dividem composições em um disco que passeia por reggae [“Dá pé!”, parceria com Mac Cord], forró [“Não adianta!”] e baladas dignas de manhãs (e tardes e noites e madrugadas) de fossas e ressacas, que só mostram o quanto o amor é brega e, por isso mesmo, lindo.

*correspondente para o Maranhão do site Overmundo, escreve no blogue http://zemaribeiro.blogspot.com

tráfico de brahma

Era um dia qualquer de carnaval; não careço dizer se ontem, anteontem ou hoje, mas o que segue, realmente aconteceu. A(s) cena(s) se passa(m) no Ceprama. Procurando algo para comer e beber, encontramos uma barraca que vendia batata-frita (e sanduíches) e, lembrando oásis em meio a desertos (como em desenhos animados), cerveja Brahma na paisagem dominada pela Nova Schin. Peço uma porção de batatas e uma Brahma. Sentamos e começamos a comer e beber. Duas latas depois, terminada a “refeição”, resolvemos nos aproximar do palco, para “rebolar”/pular/cantar (não necessariamente nessa ordem) ao som do grupo que se apresentava (“rebolando”/pulando/cantando, não necessariamente nessa ordem). Peço mais uma cerveja e, paga a conta, um homem, que nos pareceu apenas mais um interessado em beber Brahma também, pergunta-nos onde havíamos comprado aquela lata. Discretamente aponto a barraca mais próxima e, arrependido do gesto, descubro que se tratava de um fiscal da cervejaria patrocinadora do evento, que passa um pito numa das barraqueiras e manda “recolher” o produto, ordem esta não obedecida (graças a Deus). Instantes mais tarde, voltamos para nova carga e vejo-me obrigado a carregar a cerveja envolta na barra da camisa, ao menos até estarmos longe o suficiente daquela “boca* de Brahma”.

[* boca = nome comumente dado a pontos ilegais de venda de drogas (ilegais)]

[este blogue só volta segunda-feira; a não ser que o blogueiro presencie/seja protagonista de cena digna de nota, como a acima]

[a coluna do blogueiro no jp circula normalmente, na edição de sexta, 23/2]

admirável pop-rock novo

apresento-lhes hoje, reproduzindo texto publicado na primeira classe, jp turismo, jornal pequeno, a banda, o disco que não tem saído do meu cd player: lasciva lula, sublime mundo crânio. lembro que há pouco mais de uma semana (ou duas?), assistindo ao atitude.com, uma tarde, na tve, comentei, entusiasmado: “nossa, eles tocam pra se divertir, e isso é que é legal”. querem uns exemplos de seu pop-poesia? tomem:


pra matar a fome
(felipe schuery)

fandangos mole com coca sem gás
e você ao meu lado zombando de mim
pra matar a fome eu como o que tiver
pra te amar escolho tintim por tintim
um brinde, só pra começar
carinhos, só pra relaxar
um beijo então…

lá vai (1, 2, 3…), vai
lá vai (e tem mais)
lá vai (mais um outro)
lá vai (vou dormir)

acordei, levanto com sono
pão francês desce junto ao café
pra você, deixo a mesa posta
laranjada, tufu, croissant
e um bilhete dizendo que amo
que quero casar assim que voltar do trabalho à noite
trazendo buquê e um bocado de nomes
pra dar pro bebê

lá vai (1, 2, 3…) vai
lá vai (vão crescer)
lá vai (venham netos)
lá vai (vou feliz)

celofane
(felipe schuery)

embrulhei com papel celofane
fiz um laço, pus cartão
“remetente: anônimo”
na calçada
escrevi com pincel e tinta branca no asfalto
“ass.: eu”
por um mês paguei um outdoor
coloquei anúncio em jornal
hesitei: e se ela descobrir?
minto, fujo, finjo que morri

no cardápio, o mais barato é fantasia
no brinde eu me viro só
é festa no sublime mundo crânio

rabisquei o tapume da obra de uma entrada do metrô
com haicais de amor
consultei tarô e mãe-de-santo
freqüentei curso de don juan
hesitei: e se ela descobrir?
minto, fujo, finjo que morri

acima, duas músicas bem bonitinhas, apaixonadas, um jeito novo de dizer “eu te amo!”. você já disse eu te amo pra alguém hoje?

bom, abaixo a resenha; mais um texto onde não consigo dizer tudo o que o disco é. e é bem mais que isso.

Miolo (de) pop

Beleza e diversão garantidas em “Sublime Mundo Crânio”, inspirada estréia em disco dos cariocas da Lasciva Lula.

por Zema Ribeiro*

Saudei com entusiasmo o aparecimento da Lasciva Lula ao ver a banda no Atitude.com, programa vespertino da TVE Brasil, há coisa de poucos dias – não mais que duas semanas. Surpreendeu-me o “tocar por diversão” que os “meninos” cariocas deixavam transparecer. Sucesso – seja lá o que isso for – será/é (mera) conseqüência.

Sublime Mundo Crânio[Independente, 2007, R$ 10,00; preço promocional de lançamento no site da banda: http://www.lascivalula.com.br], a estréia, é álbum, como diz o título, embora não seja esta a intenção, sublime. Pop rock sem frescuras, sem exageros: um disco literalmente redondo.

Felipe Schuery (voz e guitarra), guga_bruno (guitarra e voz), Jamil Li Causi (baixo e voz) e Marcello Cals (percussão e voz) fazem-se interessantes ao misturar boas músicas e(m) letras originais, sem esquecer a diversão: carnaval sem samba nem tristeza, para durar o ano inteiro. 12 faixas, coincidência?

Comparações a bandas como Repolho, Mombojó e Los Hermanos – apenas para citar contemporâneas – talvez sejam inevitáveis; mas são, também, desnecessárias: Lasciva Lula tem personalidade própria para uma vida longa no mar predatório – e cheio de detritos (o que não é o caso de nenhuma das citadas) – da cena rock nacional. O título evoca o clássico maior de Aldous Huxley: “Sublime Mundo Crânio” é, sem dúvidas, admirável pop-rock novo.

*correspondente para o Maranhão do site Overmundo, escreve no blogue http://zemaribeiro.blogspot.com

maranhensidade(s)

e então o carnaval chegou. você já escolheu o que fazer? pra onde ir?

então… provavelmente todos os poucos mas fiéis leitores deste blogue já sabem que estou trampando na secretaria de estado da cultura. assim, prometi de mim para mim, não transformar este blogue num espaço da assessoria do órgão. ou não somente. há mais de uma semana, recebi, por e-mail, do jornalista, professor universitário (ufma/imperatriz) e amigo ed wilson araújo, o texto abaixo, que já deveria estar pendurado no quer dizer (não creio em censura, nem farei teoria da conspiração). antecipo-me aqui, pois, ao tempo em que, na contramão, coisas como essa aqui ganham as páginas dos jornais.

Maranhensidade

por Ed Wilson Araújo

A gestão de Joãozinho Ribeiro na Secretaria de Cultura pode vir a ser um marco na política de desenvolvimento do Maranhão, na perspectiva da inclusão dos atores sociais no trabalho de fazer cultura. O abre alas, pelo que está dito, será o Carnaval da Maranhensidade. As interpretações deste termo evocam um conjunto de ações do poder público, dos produtores culturais e seus diversos parceiros em tentar definir as marcas simbólicas que distingüem o Maranhão, sua gente e suas festas, das demais aldeias do mundo.

A Maranhensidade busca apreender e fortalecer uma estética local no contexto global das manifestações artísticas ou daquelas vendidas como arte na cadeia produtiva da indústria cultural, alicerçada nos meios de comunicação.

É significativo que o Carnaval 2007 priorize os fazeres e saberes elaborados nos batuques, nas cores e nos movimentos emanados das raízes da cultura maranhense, colocando em segundo plano os artifícios importados: a mesmice midiática dos abadás e das coreografias que automatizam os foliões. Chega de axé!

Este Carnaval é da casinha da roça, do baralho, do tambor de crioula, dos blocos tradicionais e alternativos, dos fofões, dos corsos, das escolas de samba e de tantos outros bambas das nossas marcas culturais. São ritmos enraizados na composição econômica, política e cultural do Maranhão, fruto das influências africanas e européias aportadas na ilha e interiorizadas, miscigenadas com as outras formações culturais da Baixada, do Litoral, dos Cocais, do Sertão e do Sul do Estado.

A Maranhensidade está também na gula, no arroz de cuxá com peixe-pedra, no sururu e no caranguejo, na “arte” de fazer farinha, na roça de toco, no manejo do babaçu, nos apetrechos de pescaria, na carpintaria dos barcos, nas múltiplas formas de sobrevivência e entretenimento, na cachaça e na dança, nos azulejos, nas pedras de cantaria, nos casarões, na rede, na sesta depois do almoço, nas praias, nos rios e nas cachoeiras; enfim, numa alquimia resultante das múltiplas formas de ser do nosso território.

Estes componentes, elevados a uma dimensão estética, fazem a base da produção cultural característica da Maranhensidade. Trata-se da demarcação de um campo simbólico que nos protege e delimita uma fronteira com os outros campos, com os quais devemos interagir, influenciando e sendo influenciados. A Maranhensidade está, ainda, no desafio dos novos descobrimentos que devemos fazer para tentar definir a nós próprios.

Porém, a Maranhensidade não pode ser entendida por uma ótica etnocêntrica que se recolha aos preconceitos e estereótipos sem interagir com os demais movimentos da indústria cultural. Nesta perspectiva, devemos nos afirmar para influenciar esta dita indústria, agendando uma produção cultural autêntica no circuito nacional dos meios de comunicação.

A Maranhensidade deve ser buscada no sentido fortalecer aquilo que nos identifica e também o que nos distingüe dos outros territórios. O desafio é saber caminhar no terreno adubado pelo tradicional e incrementado com o moderno, sem medo das inovações. As festividades são apenas um aspecto do conjunto de formulações e práticas que envolvem a Maranhensidade. No sentido primeiro de cultivar, produzir, cuidar, o termo cultura remete-nos de imediato à noção de trabalho (cultivar a terra). Neste momento, abrimos parêntesis para refletir sobre a enorme quantidade de maranhenses que foram trabalhar em outras terras, expulsos ou por falta de oportunidade no seu próprio território. Outros tantos vivem escravizados, sem sequer receber pelo seu trabalho.

A Maranhensidade precisa ser ampliada para além das festividades, dentro de um projeto político de reordenamento econômico e social do nosso território. É um caminho longo e difícil, ainda a percorrer, mas que já deu um passo importante com a nova concepção do Carnaval. Joãozinho Ribeiro defendeu o seu pirão primeiro. Pena que no governo faltem outros tantos ribeiros para arribar as bandeiras e ajudar a sonhar.

no overmundo, ao mesmo tempo

os que me lêem aqui, sabem que eu escrevo também no overmundo. e sabem que tenho direcionado para lá (sempre que possível) notas do tipo “agenda cultural”.

o site inaugurou agora um serviço chamado “overfeeds“, que linkará blogues parceiros, republicando o conteúdo dos posts por lá, e estes poderão ser votados seguindo o esquema do site (quem já visitou conhece; quem não, pode conhecer agora). qualquer blogueiro pode participar: basta fazer o cadastro no overmundo e em seguida cadastrar seu blogue.

boa navegada!

todo dia é dia de beber

não por hoje ser sexta. o negócio é como diz o título acima. então, como disse um título abaixo, bóra beber. aí, nosso texto no jornal pequeno (primeira classe, jp turismo) de hoje. (acho que) fui infeliz no título, já que, se há uma coisa com que bb não se preocupa é com rimas. ainda bem! amém!

Outras rimas para “amor”

Falar de amor sem ser piegas. É o que faz a poetisa carioca Bruna Beber em seu livro de estréia.

por Zema Ribeiro*

Recentemente a senhora dona crítica saudou – não sem razão – o aparecimento de Bruna Beber, poetisa carioca de 22 anos de idade, o que poderia, de já, detonar o preconceito guardado em alguns. Antes de mais nada, leiam a moça: “você quer um dia / ser estudado / numa sala de aula qualquer / por uma turma de pirralhos / que vão zoar suas roupas hoje modernas / falar que o que você escreveu é chato pra caralho / fazer chifrinho na sua foto / interrogação. // queira morrer antes / comendo caramelos / a estranha paixão de Hitler / caramelos.” (no poema “A novíssima literatura”). Auto-ironia, tirar onda de si mesmo e de seus pares contemporâneos? Sim, mas com classe.

As referências são as mais variadas, lemos nos títulos dos poemas (fora o que “está dentro” deles): “John Cage”, “Um pop para Aretha Franklin”, “Neil Young”, “Nabokov”, “Graciliano Beat”, “Guess Rô Rô”, “Vladimir Maiakovski” e até mesmo o vídeo-game “Mega drive”. Se você faz poesia – o que não é muito difícil em São Luís do Maranhão – certamente Bruna Beber se tornará influência sua.

De uma pichação em um viaduto carioca, a menina – e “menina” é, aqui, elogio – tirou o título de seu livro: “A fila sem fim dos demônios descontentes[Editora 7Letras, 2006, 60 páginas, R$ 20,00], omitindo o “do amor” da frase original. É que ela fala de amor sem exageros, sem mela-cuecas desnecessários, assim, ó: “se o mundo não fosse / esse aterro de / máquinas / barbas / pilhas // débitos / prazos / e canetas / marca-texto // medos / dúvidas / e embalagens / tetrapak // se o mundo não fosse / um aterro de babacas / ou se o mundo não fosse / um abrangente / e resumido / aterro de sinônimos // e se essa rua / se essa rua / fosse tua / eu ia me mudar pra lá.” (em “Neighborhoods”). Poesia não tem que incomodar, emocionar e outros ares? Pois aí está: Bruna Beber, beba-leia sem moderação – e, não, não se trata de um pseudo-sobrenome artístico, só por a moça gostar de emendar umas, quando em vez: Beber é herança alemã; sua poesia, carioquíssima. A exemplo do conterrâneo-contemporâneo João Paulo Cuenca, Bruna Beber rascunhou na blogosfera (escreve em http://www.badtrip.com.br/bifesujo) até chegar ao livro (não necessariamente “o” objetivo).

O poeta Sérgio Mello, na apresentação d“A fila…”, afirma, já no título de seu texto: “Não é preciso uma bateria no quarto pra incomodar o Rio de Janeiro”. E para ser incomodado, não carece ser vizinho dessa garota recém-saída da adolescência. Não se acomode!

*correspondente para o Maranhão do Overmundo, escreve no blogue http://zemaribeiro.blogspot.com

[duas notas enviadas por bb após a leitura do texto acima: 1) a pichação tem autor: é o artista plástico gustavo speridião; 2) e a poesia beberiana pode ser lida no http://www.badtrip.com.br/cutelaria, já que o bife sujo dedica-se a outros fins não tão “menos poéticos” assim]

bóra beber!

escrevo jazz
você lê jás
se escrevo gas
você lê gués
ou gás?
mata-me
de blues

[bruna beber (link ao lado), “guess rô rô”, n”a fila sem fim dos demônios descontentes“, sobre o que escrevo sexta que vem, no jornal pequeno]

você já ouviu ângela rô rô?
você já leu bruna beber?
não?
então,
tá esperando o quê?

um filme literário de bunker

ok, a resenha abaixo, nossa modestíssima colaboração ao jornal pequeno de hoje (primeira classe, jp turismo), ficou meio assim, aqueles textos penduráveis em sites e encartes com o intuito de vender. e talvez seja esta, realmente, a intenção. é ou não é? “o menino” é um bom livro, vale a pena, cada página, urgente e violenta, quando vamos nos perguntando o que acontecerá a alex hammond na página seguinte. ou quando nos emputecemos e perguntamos: será que este menino não se emenda(rá) nunca? ok, não vou contar-lhes a história, um verdadeiro filme literário, se é que isso existe. o fim? bom, não sei se o menino teve o fim que merece(ia), mas como bons filmes (novelas?), não há como agradar a gregos e troianos. só posso repitir: vale (muito) a pena.

Experiências violentas

Terceiro romance de Edward Bunker é relançado 25 anos depois. Fábula sem (falsa) (lição de) moral.

por Zema Ribeiro*

Talvez Edward Bunker seja mais conhecido por sua atuação no cinema (como ator e roteirista) que por sua obra literária. Quiçá as duas coisas estejam interligadas, dada a forma com que constrói a segunda – particularmente no romance “O menino[“Little boy blue”, tradução de Francisco R. S. Innocêncio, Editora Barracuda, 2006, 426 páginas, R$ 45,00], talvez pela urgente violência de retratar esta.

A fábula – sem moral ou (falsa) lição de – de Bunker se passa na década de 40, século passado, e conta a saga do menino órfão Alex Hammond; ou antes, a história da destruição de sua infância, transtornado e transformado que é, pela vida, num ser amargo, perambulando entre escolas militares, reformatórios, hospitais psiquiátricos e toda a sorte de estabelecimentos prisionais a que “delinqüentes” podem ser confinados, além de suas fugas constantes dos mesmos.

Lançado originalmente em 1980, “O menino”, terceiro romance de Bunker, é obra de ficção, embora se percebam ali, pitadas da experiência própria do autor, falecido em 2005, aos 71 anos: ele, outrora criminoso e prisioneiro, o mais jovem a chegar a San Quentin, cadeia americana especializada em “guardar” homens à espera de cadeiras elétricas e/ou condenações homicidas similares – e que gerou outros criminosos-escritores, a exemplo de Caryl Chessman, o autor de “2455 – Cela da morte”.

Outros títulos de Bunker traduzem a violência a que o autor – como o protagonista de “O menino” – sempre esteve exposto: “Cão come cão”, ”Nem os mais ferozes” e “Educação de um bandido”, este, sua autobiografia dedicada a seu filho, todos lançados também pela Barracuda.

*correspondente para o Maranhão do site Overmundo, escreve no blogue http://zemaribeiro.blogspot.com