duas, nada a ver com eleições, antes das eleições

1. as inscrições para o programa bnb de cultura 2006 foram prorrogadas até a próxima 6ª. feira, 6/10. maiores informações na página do banco;

2. os interessados em adquirir “na boca do bode“, podem escrever para o e-mail nabocadobode@gmail.com

primeira classe

outro texto meu [sem ilustração] no jornal pequeno de hoje. na “primeira classe“, seção do suplemento jp turismo.

Mergulhe Na Boca do Bode!

Livro faz um profundo mergulho em um importante capítulo da(s) história(s) da música (im)popular brasileira. Fundamental para fãs de Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção. Fundamental para apreciadores de boa música.

por Zema Ribeiro*

Enquanto (quase) todas as atenções d(e uma pequena parte d)a (grande) mídia se voltaram – não que não se tenha uma boa razão para tal, pelo contrário – para “PretoBrás: Por que que eu não pensei nisso antes? O livro de canções e histórias de Itamar Assumpção” (Ediouro, em dois volumes vendidos em conjunto ou separadamente, R$ 45,00, cada), outro lançamento que também tinha, entre outros, o genial – e pouco conhecido – compositor como um dos personagens principais, passou praticamente despercebido: “Na boca do bode – Entidades musicais em trânsito” (140 páginas, Atrito Art Editorial R$ 40,00), de Fábio Henriques Giorgio, faz minuciosa pesquisa sobre a “vanguarda paulista(na)”, nascida em Londrina, Paraná. A partir do show que batiza o livro, o pesquisador resgata histórias, entrevistas e fotografias em uma bem cuidada edição, luxo só. No show, nomes pouco conhecidos – hoje –, que agitavam a cena de uma cidade – à época – jovem, além dos (hoje) “consagrados” Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé.

Com patrocínio da Secretaria Municipal de Cultura de Londrina, o livro inaugura a Coleção Londrina, cuja proposta é ser uma espécie de espelho da cidade. Na orelha do livro, um aviso: “não espere aqui a visão sistemática, distante, acadêmica”. Num texto agradável, com um tratamento visual cuidadoso, Fábio Giorgio conta histórias, entrevista personagens, resgata textos publicados em jornais da época e chega a brindar os leitores com as fichas técnicas de diversos festivais londrinenses – além da participação de londrinenses em outros festivais – ocorridos a partir de 1968.

Na boca do bode” é o mergulho de um pesquisador em diversas histórias que os meios oficiais não contam. Os principais nomes do show – os “consagrados”, entre aspas, acima e aqui –, Itamar Assumpção (falecido em 2003, vítima de um câncer no estômago) e Arrigo Barnabé (que pela Thanx God/Tratore acaba de lançar “Missa in memoriam: Itamar Assumpção”, em homenagem ao primeiro) são (ainda) bastante desconhecidos do grande público. Uma pena.

O nome do show foi escolhido por acaso, numa reunião de um grupo, na casa de Valter Guimarães – em história contada por Robinson Borba, no livro –, ao folhearem um dicionário ilustrado. Casou-se perfeitamente com o tempo vivido: era a época da ditadura militar, às vésperas da tragédia, do “bode”, gíria corrente. Como essa, diversas outras histórias povoam as páginas de “Na boca do bode”. Um livro fundamental para quem deseja conhecer melhor esta importantíssima parte da música (im)popular brasileira.

*Correspondente para o Maranhão do site Overmundo

perdoa*

bebo cerveja pela manhã, após passar a noite anterior fazendo a mesma coisa. embriago-me de amor (mais uma dose!) enquanto contemplo suas esculturas na massinha de modelar da sobrinha. é domingo. a pimenta – ardosa – temperava o churrasco. “disseram que copacabana é a praia mais linda que pode existir / juro, quem disse isso nunca viu o araçagy”**. o sol, a flor – os esculpidos aí e os de verdade -, a manhã, o amanhã, a praia do araçagy: tudo fica ainda mais bonito quando estou em sua companhia.

(*) título de samba de paulinho da viola, dos versos “você sabe que jamais / eu viverei sem o seu amor”.

(**) trecho de “araçagy”, de cristóvão alô brasil.

tião na praia de joão [bonus track]

Entrevistei Tião Carvalho para o Overmundo. Tião é bastante espontâneo em suas falas. Dá vontade de pegar o texto e publicar do jeito que a gente tira ouvindo a fita. Por conta de espaço, precisei enxugar um pouco a entrevista. O que não saiu lá, segue abaixo, bonus track aos leitores deste blogue. Fica a recomendação: ouçam “Tião canta João” [Por do Som/Atração, 2006, R$ 20,00 pelo site http://www.tiaocantajoao.com.br]. “Ai do brasileiro que não ouvir este disco”, avisa/intima Chico César no encarte da bolachinha.

Com vocês, Tião Carvalho!

(…)

Zema Ribeiro – Essa coisa das raízes acaba traduzindo aquela máxima [de Tolstoi], “se queres ser universal, canta tua aldeia”, não?

Tião Carvalho – É difícil levar este trabalho para uma direção musical, para pessoas que têm uma visão de mercado, enquanto você trabalha com a raiz, que também é mercado. Aí você pensa no mercado brasileiro e pensa lá fora. Aqui no Brasil é algo mais delicado, quando você parte para as percussões, a parte africana, aí você tem que atravessar o oceano e tentar ir vender isso na Europa. Eu quero fazer um trabalho universal quando gravo, pra não ficar bitolado. Já participei de vários festivais no exterior, graças a Deus, já saí do Brasil várias vezes para encontros, simpósios, oficinas, para palestrar sobre cultura brasileira. Isso também é importante, não pensar só no Brasil. Fui tentar ver o país de fora pra dentro, se não eu ficava muito preso aqui e com medo de trabalhar minhas raízes, com medo de não vender, que às vezes eu não vendo, mesmo, aqui; então eu penso em vender fora. Daí, quando eu chego lá para fazer o show, o cara olha e diz “puta que pariu, esse cara é bom pra caralho!, era pra estar em outro patamar”. Já participei de grandes festivais de música no mundo inteiro, Montreux, na Suíça, poucos brasileiros tiveram oportunidade, Holanda, Bélgica, França, Portugal, circuito universitário dos Estados Unidos, são lugares em que já andei e tive o trabalho muito admirado. Muitas das vezes você precisa ficar toda hora falando disso pra o cara ir ao teatro te assistir. Uma vez estávamos aqui fazendo show no Ceprama [centro de comercialização de produtos artesanais, na capital maranhense; por vezes, palco de shows, em especial nos períodos carnavalesco e junino] e o cara foi me apresentar e tinha falado todo mundo e quando ele foi me apresentar, disse; “segundo ele, já tocou em tal lugar”, ou seja, colocou em dúvida uma informação sobre mim.

ZR – É o retorno à competição de que falávamos: não acreditamos em nossos pares.

Tião – É, vai ver que por eu ser maranhense igual a ele, negro, vindo de Cururupu, nordestino igual a ele. Agora deixa chegar um engravatadinho de olho azul, o cara diz que é “a” e o outro já vai botando o “b”, o “c” e o “d”. Mas vamos em frente.

(…)

ZR – Essa coisa de “vai tocar minha música, se não não vai sobrar pedra sobre pedra”. Isso seria uma saída para o fim do jabá?

Tião – Falta organização. Mas acho que falta mais vergonha na cara que outra coisa.

ZR – A gente sabe que o jabá existe e é algo que faz com que as rádios não toquem a música do Tião Carvalho e toque isso que a gente tá ouvindo aqui. [pagodes tocavam nas barracas da Avenida Litorânea]

Tião – ‘Cê quer saber duma coisa? Houve um tempo em que eles pagavam para que tocassem as músicas deles. Hoje em dia eles estão pagando para que não toquem as nossas. Não sei se ‘cê ta sabendo disso. Se já era ruim, agora é pior. [Elias cita outra forma de jabá, dando o exemplo do pai de Zezé de Camargo & Luciano, que comprava fichas telefônicas e fazia a música dos filhos ser pedida nas rádios pela vizinhança, como conta o filme “2 filhos de Francisco”]

ZR – Outra forma de jabá, disfarçada.

Tião – Pois é, mas de certa forma, ele estava abrindo um espaço para se mostrar. Se não se mostra, ninguém vê, e se você não vê, você não gosta.

ZR – Partindo para a política, é como a eleição de Lula para presidente. Ninguém podia dizer, antes, se gostava ou não de sua administração. Só a partir da posse dele, em 2003, é que se pode aprová-lo ou não. Você vota em Lula? Votou em Lula?

Tião – Não ando satisfeito com a política brasileira. Mas sempre peço para que as pessoas me apresentem candidatos melhores que os meus. Eu voto. Apresente um candidato melhor que o meu, que eu voto. Prove que é melhor, eu voto. Me parece, não sei se voto no Lula, muita coisa pode acontecer daqui pra lá [faltavam 14 dias para as eleições]. As pessoas tinham medo de que ele não pudesse estar governando até hoje, mas que bom que ainda tá, assim como eu diria o mesmo se fosse outro. Votar, eu não deixo de votar. Eu sempre me posicionei como esquerdista, mas sempre vi mais pessoas que partidos. É bem possível que eu vote no Lula sim, de novo. Votei no Lula e pode ser que eu vote de novo. Embora eu não goste dessa coisa, como é que chama? [tenta lembrar de um termo], quando o candidato fez um mandato e depois…

ZR – É “reeleito”?

Tião – Não, não é reeleito, é… [Elias sugere “sucessão”] é…

ZR – “Continuidade”?

Tião – É, continuidade, mas a gente tem outro termo, agora fugiu da nossa memória, é “ício”, não sei o quê…

ZR – “Vitalício”?

Tião – Isso! Vitalício, eu não gosto disso. Acho que você chega e diz, “vou fazer esse trabalho aqui, fiz, e vou abrir para outro fazer”. Não gosto dessa coisa de vitalício não. Faz seu trabalho em quatro anos, te prepara e sai, deixa a vaga pra outro. É o mesmo que aconteceu em São Paulo e hoje eu posso falar, que eu sou cidadão paulistano, tenho filho, neto paulistano; o cara vai pra Prefeitura, chega no meio do mandato dele e deixa outro. Pô, eu não votei em ti? Agora tu sai e deixa outro que eu nem conheço! É a mesma coisa de quem contrata um motorista, seleciona entre cinco candidatos, chama um e diz: “olha, tu vai levar minha esposa ao trabalho, minha filha ao colégio”. Aí você é chamado e começa a trabalhar e de repente bota um primo, um irmão, um cunhado no lugar, pra fazer teu serviço. Não dá! [Elias aponta isso como um motivo para seqüestros].

ZR – E sobre Gilberto Gil no Ministério da Cultura, qual a tua opinião?

Tião – Eu não sei muito quais as condições de Gil, o que ele pode fazer como Ministro, mas eu acho que é bom. Eu não ‘tou na pele do cara para dizer “ah, ele poderia fazer isso ou aquilo”. As coisas funcionam melhor, sem dúvidas, o Projeto Pixinguinha voltou. Me parece bom. Ótimo eu não diria. É a tal história, será que eu no lugar dele, faria mais? O que é que ele tem que fazer? É acabar com o jabá? É botar música brasileira tocando no rádio, na novela? É sentar aqui, conversar com a gente e descobrir as necessidades? O diálogo tem acontecido, sim.

ZR – Em tua fala, tu tocas num ponto interessante que é o fazer com que música brasileira toque na novela, que música regional toque no rádio etc. Há uma discussão já bastante antiga, que é a sobre cotas para negros em universidades. Qual a tua opinião sobre o assunto?

Tião – Talvez essa não seja a solução, mas ela é bem melhor que não se fazer nada. O lance das cotas é positivo, sim. Pode ser que existam idéias melhores que essa. Mas tem que acontecer algum tipo de reparação.

ZR – É algo histórico, não? Os negros sempre foram discriminados, escravizados.

Tião – Tem que ter algum tipo de reparação. Se esse é o tipo, então que se faça. O que não se pode é pensar que tá tudo certo e não se discutir essas questões. Agora, cota pra negro na universidade, parece que é só isso, e não é. São várias questões. Há pessoas muito hábeis, muito sensíveis discutindo esse assunto. Eu também faço meu movimento, trabalhando com cultura negra, fazendo isso aqui [aponta o “Tião canta João” sobre a mesa]. Cada um faz do seu jeito, do jeito que sabe, do jeito que dá pra fazer. E só sabe o que é discriminação quem sente na pele. É muito grave. É o que eu sinto quando eu chego num lugar e as pessoas me olham diferente, a conta chega antes de eu pedir, em vez de me responder “bom dia!”, alguém fala “pois não”, sempre um olhar desconfiado. O negro também se sente discriminado quando, por exemplo, vai fazer um concurso e às vezes uma pessoa com menos formação que ele passa e ele não passa, e a gente sabe que isso acontece. As cotas têm que ser debatidas, tem que reparar essas pessoas [os negros]. E os índios. O índio tem um tempão morando em um lugar, de repente o homem branco precisa construir algo e tira o índio dali, manda não sei pra onde. Aí a gente vê índio sendo queimado e tal. Existe coisa que você pode até dizer que há um poder maior e não tem jeito. Tipo “ah, você vai ter que sair daqui, não tem jeito, tu vai ter que sair de tua terra”. Mas tem que perguntar: “o que é que tu precisa? Há quanto tempo você vive na terra?” Então, tem que garantir ao menos um tempo igual. Se não, te tiram daqui, tu só sabe pescar, te botam pra São Paulo pra trabalhar com computador, aí tu vai pedir esmola, pois não sabe fazer isso. Tem que dialogar. Tem que indenizar e não é só coisa de dar sobrevivência por seis meses não. Tem que garantir o cara e as gerações do cara. As cotas vêm de um contexto social antigo. Essa discriminação, essa separação não é de hoje. Eu tava uma vez em São Paulo, com meu filho no braço. Passou um cara num táxi, eu fiz sinal, ele diminuiu, olhou e foi embora. Diminuiu, olhou e foi. Construíram isso na cabeça dele, ele que tá me discriminando.

ZR – Ele acaba sendo tão vítima quanto tu, que ficou no ponto de táxi…

Tião – Se bem que tava chovendo, eu fico gripado e ele não [risos], que ele tá dentro do carro, mas é vítima sim.

(…)

zema ribeiro entrevista tião carvalho. no overmundo.

Confiram o site www.overmundo.com.br, um roteiro cultural de âmbito nacional, que temos no Maranhão como correspondente, Zema Ribeiro.

O itálico acima é de Vanessa Serra, em seu Check In, seção do Diário de Bordo (22/9), publicado todas as sextas-feiras no JP Turismo, suplemento do Jornal Pequeno. Agradecemos a divulgação, o espaço, a atenção.

E aproveitamos para avisar: tem texto deste blogueiro no Overmundo. Uma entrevista com Tião Carvalho, aproveitando a passagem do músico pela Ilha, quando lançou no TAA seu “Tião Canta João“.

trilhas do zé

este texto foi publicado [sem a ilustração] no jp turismo, encarte do jornal pequeno, de ontem.

“Um pé no mato um pé no rock” revê carreira de Zé Geraldo

Músico mineiro, autor de “Senhorita” e outros sucessos mais que conhecidos, revisa carreira em dvd e cd inspirados.

por Zema Ribeiro

Alguns fãs de Zé Geraldo vêem nele – com razão – um quê de Bob Dylan. Talvez por suas canções “visionárias”, e aí entram “Milho aos pombos”, “Cidadão” (de Lúcio Barbosa), ou mesmo “Como diria Dylan”, que ele batizou depois de alguém dizer que o homem que acaba de lançar “Modern Times” a assinaria. Outros podem ver Dylan ainda – seu pé no rock – por sua interpretação para “Negro Amor”, versão de Caetano Veloso e Péricles Cavalcante para “It’s all over now, baby blue” do gênio folk.

Outra influência confessa de Zé Geraldo – não só – em “Um pé no mato um pé no rock (ao vivo)(dvd, R$ 40,00; cd, R$ 20,00, pelo site http://www.zegeraldo.com) é a de Tião Carreiro. Somados, Dylan e Carreiro, temos o autor de “Senhorita”, canção adotada por onze entre dez seresteiros do país, em discos, shows, botequins e similares espalhados pelo Brasil.

Dividido entre as duas vertentes – o rock, urbano; o mato, rural – Zé Geraldo faz uma revisão de sua carreira. É o 15º disco (14 faixas), é o primeiro dvd (19 faixas). Urbano e/ou rural, um Zé emocionado. Que emociona. Um Zé que envelheceu e permanece jovem. Um Zé entre amigos, cúmplice de banda, platéia e participações especiais: Renato Teixeira (em um pé no mato), Alexandre Lima (da banda Manimal, em um pé no rock). Um Zé que – como se não bastasse – não pariu só canções bonitas: sua filha Nô Stopa, backing vocal em todo o disco, canta com ele “Terceiro mundano” e é homenageada com “Olhos mansos”, que ele compôs quando ela nasceu. Homenagem à altura, assim como a “dedicada ao amante da natureza” (diz o encarte) Chico Mendes, “O seringueiro”.

As ausências de “Negro amor” e “Reciclagem” nem de longe empobrecem o disco/dvd; lá está a – quiçá – mais bela música de Zé Geraldo: “Semente de tudo”. Um disco que fala, sobretudo, de amor, do amor de Zé pela música: “minha vida é a poeira, o canto e você” – você, ouvinte! – ele canta em “A poeira, o canto e você”, esta, só no dvd.

vale protestar realiza espetáculo para enterrar a oligarquia sarney

[release recebido por e-mail]

O Vale Protestar retorna nesta sexta-feira com todo gás à Praça Nauro Machado (Praia Grande), a partir das 18h30min, com um espetáculo que inclui a reapresentação do intrigante esquete “O Batizado do Boi de Taipa” e um esperado show musical com a participação dos compositores maranhenses Escrete, Joãozinho Ribeiro e Cesar Teixeira, além da cantora Lena Machado e do Bloco Afro Akomabu.

A abertura ficará sob a responsabilidade do ator Moisés Nobre e da noviça Nadnamara, com seu violão rebelde, seguindo-se a apresentação do drama das Catirinas famintas que enfrentam a Madrinha vitalícia dos bois do Maranhão, mais conhecida como “A Branca”, ou “Rosengana”. O show musical está marcado para as 19h30min e não tem hora para acabar, pois o palco vai ficar à disposição dos sambistas do Beco da Faustina.

Durante todo o dia, a Praça Nauro Machado será também ocupada por uma mobilização em torno da campanha “Xô Rosengana“, com panfletagem contra a candidatura da filha do Faraó de Curupu e a continuação dos trabalhos de serigrafia em camisas.

O movimento Vale Protestar está nas ruas de São Luís desde o dia 21 de julho, quando realizou uma passeata até o Convento das Mercês, onde a Polícia Militar fechou os portões e impediu seus integrantes de entrarem para fazer uma panfletagem contra a grilagem do prédio pelo grupo Sarney. Nas semanas seguintes foram realizadas várias encenações de “O Batizado do Boi de Taipa” na Praia Grande e na cidade de Alcântara.

No dia 18 de agosto houve passeata e panfletagem na Rua Grande, sendo a personagem “Rosengana” vaiada o tempo todo, enquanto tentava comprar o voto do povo com dinheiro falso. A manifestação contou com a presença de militantes do Movimento Popular de Lutas Urbanas do João de Deus, do MST e lideranças de alguns partidos contrários ao monopólio da oligarquia Sarney na vida política do Maranhão, seguindo-se ainda a apresentação da peça teatral na Praça Deodoro.

Segundo o comitê de organização do Vale Protestar, a cacetada vai ser dura nesta sexta-feira, porém com muito humor, poesia e música. “É assim que a comunidade de São Luís pretende fazer os últimos preparativos para o enterro definitivo dos supostos donos do Maranhão, e, sobretudo festejar sua derrota ao ritmo das matracas, antes mesmo das eleições de 1º de outubro”.

VALE PROTESTAR
Convite Político-Cultural

O Vale Protestar realiza nesta sexta-feira, a partir das 18h30min, uma programação cultural com a apresentação do esquete teatral “O Batizado do Boi de Taipa” e show musical com Moisés Nobre, Nadnamara, Escrete, Joãzinho Ribeiro, Cesar Teixeira, Lena Machado e a Banda Afro Akomabu. Em seguida, o palco ficará à disposição do grupo de sambistas do Beco da Faustina, sem hora para acabar.

Durante todo o dia, a Praça Nauro Machado vai ser mobilizada pela Campanha “Xô Rosengana“, com a continuação das atividades de serigrafia em camisetas e panfletagem contra a candidatura de Roseana Sarney ao governo do Estado. A programação faz parte da mobilização político-cultural iniciada em julho pelo Vale Protestar contra a Oligarquia Sarney.

A Comissão Organizadora

*

Visitem: http://www.flogao.com.br/valeprotestar; as ilustrações deste post são de lá.

algumas das afiadas 394 maneiras de não se esquecer são luís

O homem caminha a cidade ou a cidade caminha o homem que caminha em direção a um lugar que vive mudando de lugar. A cidade é um bicho doido de sete ou de incontáveis cabeças que cresceu para todos os lados, alimentando-se das coisas que homens que desgovernam cuspiram no seu ventre frágil e cheio de limites. A cidade não é mais romântica, seus pés de cinderela agora são de concreto armado e ratos desfilam pelas entranhas da Praia Grande enquanto que notívagos bêbados e meninas prostituídas na infância oferecem o sexo adolescente para os gringos cheios de euros. A violência explode na periferia, da Liberdade inexistente ao Coroadinho sem Cristo, na Olímpica miragem onde até os deuses mais imprudentes não colocam os pés ou na Operária onde o trabalhador amarga a duras penas um transporte urbano precário e que vive caindo aos pedaços.

Meninos sem futuro se arrastam nos sinais de trânsito do Renascença ou do São Francisco, cheirando cola de sapateiro e abreviando a própria existência desprovida de sentido. Não há vagas para pais desesperados e mães solteiras desinformadas, analfabetas de amor que deixam os próprios filhos em casa para caírem na gandaia das noites. Mas o carnaval, o São João, o Marafolia e os shows de forrós continuam cheios de pessoas vazias que gastam o último centavo para curtir um gole de alegria.

A cidade também se alimenta da lascívia do Tambor-de-Crioula, do agarradinho do reggae, do frenesi das discotecas, da cachaça e do uísque importado, da poesia dos intelectos e da imbecilidade dos pobres de espírito, dos desfiladeiros das escadarias do Centro Histórico com suas escorregadias e inebriantes pedras de cantaria, da gastança burguesa nos Shopping Centers, onde a modernidade dos cinemas revela um mundo que não está ao alcance de todos os dedos, das grifes da vida e dos hambúrgueres cancerígenos e deliciosos. A vida dura o tempo de um palito de fósforos queimando, então, porque não aproveitar o brilho e o calor da chama? As igrejas estão aí, os terreiros estão aí, os templos estão aí, e cada crença acredita que a sua crença é A crença, enquanto que a crença do outro não passa de loucura e pecado. Mas o pecado maior é a ignorância, e “ quem dentre vós que não tiver pecado que atire a primeira pedra”, antes que a Ilha exploda de gente saindo pelo ladrão, cercada de politiqueiros podres e de desvario por todos os lados.

São Luís é uma Babilônia, Górgona pós-moderna, com enésimas faces à espera de uma identidade cada vez mais distante, fragmentada na própria ausência de planejamento, onde a politicagem gelatinosa busca a todo custo raspar as sobras do tacho, onde a instalação de grandes indústrias, um equívoco alicerçado na idéia de um progresso manco que só convence os idiotas de plantão e os desinformados crônicos continua a crescer como doença leucêmica a sugar a essência sanguínea dos seus rios poluídos e mortos, onde os homens descarregam seus dejetos sem tratamento e que vão parar nas praias contaminadas pelos coliformes fecais de uma sociedade alienada ou paralisada pelo medo ou pela própria conivência com as arbitrariedades.

Mas temos que comemorar porque comemorar é preciso, com praças sendo reformadas, escolas sendo inauguradas, turistas chegando e carregando para a Europa meninas pobres, de preferência negras, mais exóticas na sexualidae segundo os padrões dos nórdicos. Porém, não existe tragédia que não possa ser esquecida pelo calor das bebidas, pelo frenesi das festas intermináveis e pela perpetuação da distribuição das migalhas, das “pérolas aos porcos”. Vamos comemorar, sim, que ninguém é de ferro, e não há mal que dure para sempre… ou será que a proposição está equivocada? Não, não existe a pretensão de ser palmatória, principalmente do mundo. Lembrança rápida do poeta John Cage: “não tente melhorar o mundo, você só tornará as coisas piores”. Nessa babel cosmopolita na qual São Luís se transformou, quase todos não falam a mesma língua, mas todos se entendem ou entendem a inevitável necessidade da falta de entendimento. Nada de choro, pois entre mortos e feridos, todos seremos salvos… ou não! Ainda bem que existe muito sangue bom lutando pela cidade. A todos que sairem destas palavras, por favor, não se esqueçam de acender a própria ou a próxima luz…

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Acima, texto de Paulo Melo Sousa, o Paulão.

É o editorial do Suplemento JP Turismo (encartado às sextas-feiras no Jornal Pequeno) do dia em que São Luís completou 394 anos. Paulão tem dado uma valiosa contribuição ao jornalismo cultural e ambiental “cometidos” no Maranhão. Além do Suplemento, ele escreve no Almanaque JP Turismo (onde este blogueiro assina o “Quintal Poético“) e iniciou recentemente colaboração com a (nova) revista ComCiência Ambiental (mensal, Editora Casa Latina), já no segundo número, nas bancas.

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Sonho interrompido por guilhotina“, de Joca Reiners Terron: daqui a um mês, como ele já avisou em seu blogue, link ao lado.

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Altamente recomendável a leitura dos posts de hoje e ontem no blogue de Idelber Avelar, lúcido como sempre, link ao lado.

sorrindo na praça [da igreja do desterro, ontem (16/9/2006), 18h]

Minha mãe e eu passávamos em frente à Praça do Pescador (Portinho), rumo ao Largo da Igreja do Desterro, quando percebemos uma morena olhando pra cima, na direção da secular construção de uma torre só, enquanto atravessava a Avenida. “Vocês sabem onde fica a Igreja do Desterro?”, perguntou-nos. “Vais ao Chorando na Praça? Estamos indo pra lá”, perguntei/respondi.

Subimos os três a escadaria por sobre a sede da Flor do Samba, ao lado do Bar da Didica. Os chorões já se aqueciam e os comerciantes pareciam, inicialmente, não acreditar na iniciativa: faltavam mesas e cadeiras para quem desejava sentar, ouvir boa música e, claro, tomar uma cerveja – que não chegou gelada do jeito que gostamos, mas foi, aos poucos, melhorando. Mais um pouco e (quase) todo mundo estava confortavelmente instalado.

Ricarte Almeida Santos – “incansável batalhador pelo chorinho no Maranhão”, como bem observou Adriana, pedagoga e bacharel em filosofia, ex-aluna do Lara Ribas (vulgo SESI do Santa Cruz), a morena do início do texto, com quem dividimos a mesa – anunciou o projeto: iniciativa do Clube do Choro do Maranhão, tinha até ali, apenas a Associação do Pessoal da Caixa como patrocinadora. “Chorando na Praça: o choro na comunidade” terá edições mensais por diversos bairros da capital maranhense, a exemplo do “Samba da Minha Terra”, que talvez tenha lhe inspirado. O próximo agraciado será o Anjo da Guarda, em data e local a confirmar [novidades em breve, neste blogue].

O Regional Tira-Teima abriu a noite. Entre os choros instrumentais, um cantado: “Ray-Ban”, de Cesar Teixeira. Não por coincidência, Paulo Trabulsi (cavaquinho solo) e Léo Capiba (pandeiro) – este com uma camisa preta com uma inusitada imagem de Kurt Cobain e a inscrição “Nirvana” – tocaram nessa faixa em “Shopping Brazil”, disco de estréia do autor.

O segundo grupo a tocar foi o Toque Brasileiro, liderado por Luiz Jr., um dos mais versáteis violonistas em atividade no Maranhão (ele que também tocou no excelente disco supra). Ele anuncia “Samba pra Lua”, música quilométrica do irmão Carlinhos Carvalho (piano), que “tá no nosso disco que nunca saiu…”. Ouve-se então uma espécie de chorinho progressivo. Depois, Luiz Jr. se coloca na trincheira de quem luta – com todas as forças, atesto a veracidade da fala – pela música instrumental no Estado. E brinca com o batido slogan do PSTU: “Só a luta muda a vida!”

É a vez do grupo Um a Zero – nome provavelmente inspirado na música homônima de Benedito Lacerda e Pixinguinha, ícone maior do gênero. “Um dos mais novos grupos de chorinho da cidade”, anuncia o incansável Ricarte, misto de produtor, assessor de imprensa, locutor e funções outras que aparece(re)m. O trio – violão, cavaquinho e pandeiro – ataca. É gol! Um a Zero. “Czardas” (de Vitório Monte), com o pandeiro entrando somente na parte mais acelerada da música. Dois a Zero. “Brasileirinho” (Waldir Azevedo). Três a Zero. É goleada! E a filha do jornalista e músico Hamilton Oliveira, um bebê que mal começou a andar, arrisca uns passinhos de dança e aplausos.

O Instrumental Pixinguinha – cuja formação é toda de professores da Escola de Música Lilah Lisboa – chega desfalcado. Zezé Alves (flauta) passa pela mesa e cumprimenta este escriba. Ao microfone, chamam Léo Capiba para substituir o pandeirista faltoso, além de Zezé, que parecia não ter se tocado, ainda, que já iria começar a apresentação de seu grupo.

Joãozinho Ribeiro, professor universitário, compositor e poeta que, menino, correu as ruas do Desterro onde morou – e, de coração, ainda mora e é habitado – é chamado para uma participação especial. Diz que lhe mexeram com a alma e o coração e anuncia a retomada do Projeto Serenata dos Amores, que outrora embalava quinzenais noites de sexta-feira das ruas, becos e ladeiras daquele bairro mágico: dia 29 de setembro, às 21h, o cortejo sairá da porta do Jornal Pequeno, indo – tocando, cantando, declamando poemas – até o Largo dos Amores, que é como se rebatiza o Largo da Igreja do Desterro por ocasião da Serenata. Com “S” maiúsculo.

Saiba Rapaz” (gravada por Josias Sobrinho) e “Milhões de Uns” (gravada por Célia Maria, música vencedora do Prêmio Universidade FM em 2002), ambas de sua autoria, são cantadas por Joãozinho Ribeiro, que se reveza ao microfone com a flauta de Zezé, que esbraveja gestualmente com o técnico de som. Encerrando sua participação, Joãozinho canta “Terra de Noel” (de Josias). Ele(s) não tira(m) o chapéu para qualquer vagabundo, como diz a letra do samba, mas para iniciativas como essa, de democratização do acesso à cultura para comunidades que muitas vezes não têm oportunidades, vale a pena tirar. Chapéu na mão, devolve a batuta ao Instrumental Pixinguinha, que executa ainda os clássicos “Delicado” (Waldir Azevedo) e “Santa Morena” (Jacob do Bandolim).

Uma jam-session mesclando músicos maranhenses e tocantinenses – que, de passagem pela Ilha, assistiam à estréia do projeto – formou-se, sob o comando do “tarado” Luiz Jr. Sopros, violão, alegria: a noite terminou em gafieira.

P.s.: se a ausência da namorada, que viajava a trabalho, não permitiu a plenitude da noite, este blogueiro arrumou outro motivo, lá em cima, para que nem tudo, na ocasião, fosse perfeito: uma péssima foto da ótima apresentação do Tira-Teima.

sobre vacilos e, em tempo, um convite

tenho dedicado notas como o post anterior (algo mais, digamos assim, “agenda cultural”) ao overmundo. quem me lê aqui, pode me ler por lá também.

por um vacilo, perdi o prazo de postar a nota sobre o excelente show de tião carvalho [gracias, lu!], e por outro vacilo, cheguei atrasado para a apresentação, confiante no (péssimo) hábito maranhense de as coisas (quase) nunca começarem no horário por aqui. mas isso é outra história.

tá no overmundo [lá, com ilustração; procurem na fila de edição da agenda], nota deste blogueiro sobre o projeto “chorando na praça: o choro na comunidade“, que terá início amanhã, às 16h, no largo da igreja do desterro. a iniciativa do clube do choro do maranhão terá edições mensais, em difeferentes bairros da capital maranhense. esta (a de amanhã, no caso), terá como atrações o regional tira-teima, o instrumental pixinguinha e participações especiais dos grupos toque brasileiro e um a zero. ricarte almeida santos [que apresenta o programa “chorinhos & chorões” às 9h das manhãs de domingo, na rádio universidade fm, 106,9] antecipou que o próximo capítulo desta bonita história que continua a ser escrita [foi começada com a serenata dos amores e, antes, com o samba da minha terra, duas ótimas idéias do sempre reverenciado por aqui joãozinho ribeiro, que também fará participação especial, lá, amanhã] acontecerá no bairro do anjo da guarda, em data e local a confirmar.

serviço

o quê: projeto chorando na praça: o choro na comunidade
quando: amanhã (16), às 16h
onde: largo da igreja do desterro
quanto: grátis

tião canta joão no taa, hoje

eis a capa do belíssimo tião (carvalho) canta joão (do vale) [pôr do som, 2006], onde o cidadão paulistano nascido em cururupu/ma, interpreta a obra do pedreirense. não, não se trata de um disco fácil, em se tratando de sua feitura. qualquer um teria selecionado os “clássicos” de joão do vale e feito um belo disco, já que é tão bela a obra de joão. tião carvalho foi além: viveu a poesia do autor de “carcará” (registrada no disco como uma toada de bumba-meu-boi), conheceu seu zezinho (o menino que pode estudar, da autobiográfica “minha história“, que não entrou no disco), selecionou músicas famosas e outras nem tanto, caso da bela (adjetivo repetitivo, mas perfeitamente cabível, só se ouvindo pode crer) “os óio de ana bela“.

bom, depois escrevo mais sobre o disco, sobre tião, sobre joão. por enquanto, este blogue avisa: hoje, às 21h, no teatro arthur azevedo (rua do sol, centro), acontecerá o show de lançamento do disco. ingressos entre r$ 15,00 e r$ 20,00. imperdível!

eu já falei (e ainda vou falar) de “música” aqui

celso borges avisou-me, por e-mail, que a revista cult deste mês deu destaque ao seu “música“. ainda devo um texto sobre. quero ver se consigo juntá-lo com a vinda de cb ao maranhão, para o lançamento do livro-disco (compacto simples? compacto composto?), o que deve acontecer até outubro. tomara! outubro ou nada!

na trip desse mês, li o texto abaixo, de um dos 50 poetas/músicos/artistas da obra(-prima).


para ler e ouvir – música – celso borges (medusa)

a eterna discussão sobre as fronteiras entre música e poesia ganha novo ingrediente com o lançamento de música, livro/cd do poeta celso borges recém-lançado pela editora curitibana medusa. segundo trabalho do maranhense no gênero, música celebra bodas explícitas entre o texto poético e a canção popular, apostando na dissolução de fronteiras defendidas manu militari por gente dos dois lados do front. para esse casamento, o poeta arrolou um grupo cintilante de 50 testemunhas, entre poetas, músicos e letristas, além do jornalista e dj otávio rodrigues, com quem desenvolve projetos similares. zeca baleiro, vanessa bumagny e vitor ramil e os poetas ademir assunção, ricardo corona e micheliny verunschk são alguns deles. para ser degustado sem pressa, música reserva momentos sublimes como o fado “devoluto“, poema de sérgio natureza em homenagem ao poeta, musicado por kleber albuquerque. para comprar ou obter mais informações: cbpoema@uol.com.br

(fernando abreu, jornalista e poeta)

eu já falei (e ainda vou falar) de "música" aqui

celso borges avisou-me, por e-mail, que a revista cult deste mês deu destaque ao seu “música“. ainda devo um texto sobre. quero ver se consigo juntá-lo com a vinda de cb ao maranhão, para o lançamento do livro-disco (compacto simples? compacto composto?), o que deve acontecer até outubro. tomara! outubro ou nada!

na trip desse mês, li o texto abaixo, de um dos 50 poetas/músicos/artistas da obra(-prima).


para ler e ouvir – música – celso borges (medusa)

a eterna discussão sobre as fronteiras entre música e poesia ganha novo ingrediente com o lançamento de música, livro/cd do poeta celso borges recém-lançado pela editora curitibana medusa. segundo trabalho do maranhense no gênero, música celebra bodas explícitas entre o texto poético e a canção popular, apostando na dissolução de fronteiras defendidas manu militari por gente dos dois lados do front. para esse casamento, o poeta arrolou um grupo cintilante de 50 testemunhas, entre poetas, músicos e letristas, além do jornalista e dj otávio rodrigues, com quem desenvolve projetos similares. zeca baleiro, vanessa bumagny e vitor ramil e os poetas ademir assunção, ricardo corona e micheliny verunschk são alguns deles. para ser degustado sem pressa, música reserva momentos sublimes como o fado “devoluto“, poema de sérgio natureza em homenagem ao poeta, musicado por kleber albuquerque. para comprar ou obter mais informações: cbpoema@uol.com.br

(fernando abreu, jornalista e poeta)

semente de tudo

não sei onde ouvi, há tempos, alguém (e devia ser um professor de português ou coisa que o valha) dizer que “detalhes” (roberto carlos & erasmo também) é “a canção mais bonita já escrita em língua portuguesa”. embora eu até faça isso às vezes (de dizer que algo ou alguém é o maior e/ou melhor), e sei que faço bastante, é uma tremenda bobagem. num universo tão grande musicalmente falando (digo, nosso quintal, o país), é praticamente impossível definir se esta ou aquela é a música mais bonita já escrita em língua portuguesa, ou no brasil etc.

bom, acabo de enviar uma resenha de “um pé no mato um pé no rock“, dvd/cd de zé geraldo para um matutino ludovicense, cujo nome não direi (ainda). só mandei o e-mail, sem fazer nenhum contato telefônico e/ou pessoal com alguém de lá. não sei (ainda) se será (ou não) publicado. um aperitivo aos leitores deste blogue, a letra (que, por exemplo, acho bem mais bonita que “detalhes”, se é que é possível comparar) de “semente de tudo“, do mineiro autor de “senhorita“, que como digo em meu texto (e aqui, outro aperitivinho), “canção adotada por onze entre dez seresteiros do país, em discos, shows, botequins e similares espalhados pelo brasil“:

eu sou o atalho de todas as grandes
estradas por onde passei
das vilas pequenas cidades
por onde andei
herança de casos passados
migalhas do pão consumido
eu sou a metade de tudo
que você tem sido

nas ruas num sol de dezembro
eu sou o farol e a contra mão
da flor que carregas no peito
simples botão
sou parte maior desse germe
que prolifera e contamina
querendo construir morada
em você menina
doce menina

eu sou uma parte do pó
que compõe a estrada de terra
você é a água cristalina
lá no pé da serra
retalhos de noites vividas
num albergue, pensão, motel
mostrando caminho seguro
um jeito de céu
eu sou uma parte da noite
que entra no dia
no alvorecer
você é a semente de tudo
eu vivo a partir de você