Que disco mudou sua vida?

Diário Cultural de hoje. E você: que disco mudou sua vida?

Uma coluna com defeito de fabricação

Plagiando – sem combinação (?) – o jornalista Pedro Alexandre Sanches, o colunista escreve sobre “o disco que mudou sua vida”. O texto abaixo reúne duas “teorias” tra[du]zidas na obra em questão: a estética do plágio e os diversos defeitos de fabricação (e estrada) que tornam este colunista humano.

Ao ler “O homem da gravata florida” no blogue de Pedro Alexandre Sanches, corri para casa e me botei a ouvir Jorge Ben, “A Tábua de Esmeralda” (1974), coisa que faço sempre, de vez em quando – e não há, aqui, contradição. E pensei em fazer a mesma coisa: “que disco mudou a sua vida?”, perguntei-me.

Ano passado, numa saudável “brincadeira” proporcionada pelo blogue do professor Idelber Avelar, elaborei uma lista com “os dez melhores discos de música brasileira produzidos entre 1950 e 2005”. A lista, bastante pessoal e apaixonada, conforme afirmei à época – e reafirmo hoje –, era cheia de falhas e trazia algumas ausências injustificáveis: Nelson Cavaquinho, Cartola, Caetano Veloso, Tom Zé e o próprio Jorge Ben ficaram de fora.

Corta. Ano 2000. O escriba aqui era estagiário do Banco do Nordeste e, à época, apenas sonhava em um dia estudar jornalismo. Algo que eu gostava muito de fazer – ainda hoje – é visitar o sebo Papiros do Egito, da amiga Moema (Rua da Cruz, 150, Centro); lembro de freqüentar o espaço desde criança, quando, em 1992 fui morar no Centro da Ilha. Sempre foi garantia de bom papo estar ali. Nesse aspecto, pouca coisa mudou de lá para cá.

Quem também tinha um sebo também na Rua da Cruz era o professor Carlos Menezes, aficionado por música, fã extremado dos Beatles e colecionador de discos de bumba-meu-boi que, para não se desfazer de certas paixões – este(s) ou aquele(s) disco(s) – colocava preços altos em suas mercadorias. O sebo, também ambiente de boa conversa sobre música – quase sempre vazio, o que garantia diálogos ainda melhores –, fechou pouco depois.

Numa dessas tardes mágicas, vi um disco que, inicialmente, julguei caro: ainda no plástico original, da loja, com reproduções de opiniões de veículos como New York Times, Rolling Stone e Village Voice, estava lá, acenando para mim o “Com Defeito de Fabricação” (1998), Mr. Tom Zé. Já estava mais que na hora de eu conhecer o autor de “Parque Industrial”, cuja versão com Gil, Gal, Caetano e Mutantes eu já conhecia. Sem pestanejar, peguei o disco, paguei, levei, ouvi. Dali a sair, louco, procurando tudo o que encontrasse de Tom Zé, foi um pulo só. Corta, para uma fala ligeira da (minha) imodéstia: o relatado aqui foi “meu primeiro tom zé”; hoje, tenho todos os discos do baiano lançados em formato digital.

Mais que um disco, “Com Defeito de Fabricação” é um conceito; defende-se a idéia de que somos operários terceiro-mundistas mais baratos que robôs fabricados na Alemanha ou Japão, porém cheios de defeitos para o patrão primeiro mundo; alguns deles – catorze – as canções do disco (na ordem): O Gene, Curiosidade, Politicar, Emerê, O Olho do Lago, Esteticar (Espinha Dorsal), Dançar, Onu: Vendem-se Armas, Juventude Javali, Cedotardar, Tangolomango, Valsar, Burrice e Xiquexique. O disco trazia ainda as faixas bônus “Curiosidade”, em remix de Amon Tobin, e “O Olho do Lago”, esta reinventada por Sean Lennon, sim, o filho do beatle.

Outro conceito defendido no conceito que é o disco, é a estética do plágio: “podemos concluir, portanto, que terminou a era do compositor, a era autoral, inaugurando-se a era do plagiocombinador, processando-se uma entropia acelerada”. Na pauta do dia – hoje, 2006 – a discussão sobre os “creative commons”.

A partir dos “arrastões” – nome dado a uma técnica de roubo urbano muito em voga no Brasil há alguns anos – Tom Zé re(cria) sua obra e a de outros nomes: Martinho da Vila, Gilberto Gil, Caetano Veloso, a poesia concreta, Alfred Nobel (sim, o homem com que batizaram o prêmio), o músico que toca na noite paulistana (e, por que não?, brasileira) e outros e outros mais.

Engraçado este disco de Tom Zé – ou qualquer outro, genial que ele sempre é, rima não-intencional – não ter figurado entre os do meu top10. No encarte do “disco que mudou minha vida”: “A arte de tecer foi uma grande ousadia. Pensar sempre será”.

Óbvio: este texto foi escrito ao som de “Com Defeito de Fabricação” (Luaka Bop, 1998), de Tom Zé.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

15 comentários em “Que disco mudou sua vida?”

  1. Não foi um disco, foi uma enquete lá pelos idos de 1979, em cima de um viaduto da REFFSA, em Campina Grande. Eu ia passando na guarita do guarda e na Rádio Caturité AM perguntavam quem é melhor compositor Chico Buarque ou RC? – Só conhecia à epoca do Chico “A Banda” e nada mais… do RC umas tantas, porém o que me intrigava era o resultado: uns 50 a 03 pro Chico. Cheguei na Escola técnica e tinha um rolo com gravações do Chico… de lá pra cá não tenho escutado o RC

  2. jana, não conheço quase nada de joni mitchell e interesso-me por tudo; ainda quero o sérgio sampaio sim. vamos fazer essa “troca de dádivas” (é assim que se diz, não é?); cipy, é verdade: gênio! abração!

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