Diário Cultural de ontem, domingo, 9 de abril

Abaixo, o Diário Cultural de ontem, publicado com algumas falhas nossas e algumas do Diário da Manhã. Explico: estava eu escrevendo o texto, quando bateram a vassoura na tomada do computador; aí, quando o reiniciei, o word pediu que eu salvasse o arquivo para não perder informações, o que fiz; pedi para “salvar como” na área de trabalho, sem perder nada; daí fiz a revisão, acrescentei uma coisa aqui, tirei outra ali. Na hora de copiar o arquivo em disquete para levar ao jornal (estou sem internet em casa), botei o arquivo velho, que foi com algumas informações a menos. A falha do DM: o texto foi feito para ser página inteira, com fotos de Hilda Hilst e Sérgio Sampaio, e reproduções das capas dos discos [disponíveis no fotoblogue]; acabou saindo espremido em nosso espaço. Saravá!

Saravá, Malditos Cruéis!

O maranhense Zeca Baleiro inaugura o selo Saravá Discos para lançar projetos especiais e estréia de forma bonita: “Cruel”, disco póstumo do compositor capixaba Sérgio Sampaio, e “Ode Descontínua e Remota Para Flauta e Oboé – de Ariana Para Dionísio”, dez poemas da poetisa paulista Hilda Hilst musicados por ele, fã e amigo dos dois “malditos” que inauguram este selo. De qualidade.

Cruel. Capa. Reprodução
Ode contínua e remota para flauta e oboé – de Ariana para Dionísio. Capa. Reprodução

Nem Sérgio Sampaio nem Hilda Hilst apareciam entre os malditos adorados pelo maldito Zeca Baleiro em sua canção “Maldição”, que encerrava “Vô Imbolá”, seu segundo disco de carreira, onde aparecia “Tem Que Acontecer”, canção do primeiro aqui citado, já gravada pelo maranhense no “Balaio do Sampaio”, em 1998.

A “Maldição” de Zeca Baleiro diz: “o meu coração não quer dinheiro, quer poesia”. Sinceridade comum em sua obra, ele capaz de dar guinadas sem perder o rumo, vide seu último disco.

E por não querer dinheiro, querer poesia, Zeca inventa mais uma: acaba de inaugurar a Saravá Discos, selo dedicado a lançar projetos especiais, como é o caso dos que acabaram de sair do forno, em tiragens de três mil exemplares cada – projetos realmente especiais: “Cruel”, disco póstumo do compositor capixaba Sérgio Sampaio, e “Ode Descontínua e Remota Para Flauta e Oboé – de Ariana Para Dionísio”, poemas de Hilda Hilst musicados por Zeca Baleiro e interpretados por (na ordem do disco) Rita Ribeiro, Verônica Sabino, Maria Bethânia, Jussara Silveira, Ângela Ro Ro, Ná Ozzetti, Zélia Duncan, Olívia Byington, Mônica Salmaso e Ângela Maria.

Cruel

Em 1987, Zeca Baleiro meteu-se a editar uma revista cultural em São Luís do Maranhão. Ele e uma turma: Joãozinho Ribeiro, Henrique Bois, Sérgio Castellani e Solange Bayma. “Umdegrau”, a revista teve apenas um número, que deveria ter saído com uma entrevista com Sérgio Sampaio, com quem Zeca havia topado, ao assistir um show dele. Como o “maldito” de Cachoeiro de Itapemirim – terra de “sua majestade” Roberto Carlos – demorou a respondê-la, a revista saiu assim mesmo e a entrevista permaneceu inédita até agora, resgatada no luxuoso encarte de “Cruel”.

“‘Cruel’ era uma gíria muito usada pelo João [filho de Sérgio Sampaio], que aparece na letra da música, para designar algo bom; tipo, o atacante que fazia muitos gols era ‘cruel’”, explica-nos Sérgio Natureza, parceiro de Sampaio, organizador da homenagem póstuma “Balaio do Sampaio”.

Sérgio Sampaio subiu em 1994, pouco depois de gravar as demos aproveitadas por Baleiro, confiadas a ele pela família do autor de “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”. Ao “esqueleto”, voz e violão, deixado por Sérgio, Zeca, que não aparece como instrumentista no disco, acresceu “carne sonora” à altura do que Sampaio vinha fazendo: compondo cada vez melhor.

Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão

O outro lançamento da Saravá Discos é a “Ode Descontínua e Remota Para Flauta e Oboé – De Ariana Para Dionísio”, que traz dez poemas da poetisa paulista Hilda Hilst. Os poemas são do livro “Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão”, no trecho homônimo que batiza o disco.

Com admiração de fã, ao lançar o primeiro disco, “Por Onde Andará Stephen Fry?”, Zeca Baleiro enviou um exemplar do trabalho à poetisa, sem maiores pretensões. Quando o ouviu, ela ligou para o maranhense: “Literatura não dá camisa a ninguém. Quero ser famosa, cansei dessa história de prestígio”, disse, como ele relata no encarte do disco. Dias depois, Baleiro recebeu um disquete com toda a obra poética de Hilda. Nascia ali uma amizade com admiração mútua.

O maranhense começou a pensar e a trabalhar, e antes do falecimento da autora d“A Obscena Senhora D”, em 2004, já havia obtido dela, que ouviu e opinou sobre as canções, o aval para a realização do disco, feito sem pressa, sem exigências contratuais, charme e sinceridade no clima medieval encontrado por Baleiro nos poemas do trecho que dá nome ao biscoito.

Não, não é a estréia musical de Hilda: em 1960 ela foi parceira bissexta do sambista ítalo-paulista Adoniran Barbosa, que compôs algumas poucas músicas inspiradas em versos da autora; no ano seguinte, o músico Gilberto Mendes compôs “Trova I”, inspirada em poema de “Trovas de Muito Amor Para um Amado Senhor”, dela.

Se “literatura não dá camisa a ninguém”, como disse Hilda Hilst, estão aí seus poemas vestidos com a cumplicidade de fã e amigo de Zeca Baleiro pelas vozes de Rita Ribeiro, Verônica Sabino, Maria Bethânia, Jussara Silveira, Ângela Ro Ro, Ná Ozzetti, Zélia Duncan, Olívia Byington, Mônica Salmaso e Ângela Maria. Como diz a Canção V: “e no meu quarto se fez verbo de amor”. Poemúsica. Puro, pura.

Saravá!

Saravá é interjeição de saudação, herdada de escravos. Saravá saúda a boa música brasileira. Ouvidos, ávidos de boa música, saúdam a Saravá. O selo inaugurado por Zeca Baleiro dedica-se a lançar projetos especiais, como é o caso dos dois aqui tratados. Tiragens pequenas registrando obras essenciais, que poderiam ficar esquecidas.

Entre os planos de Baleiro para o selo estão um disco de outro maldito, Walter Franco, um de músicas infantis, um de músicas pornográficas, além do registro de uma pequena parte da obra do falecido compositor maranhense Lopes Bogéa, este último já em andamento. Os discos podem ser comprados através do site do compositor maranhense, http://www.zecabaleiro.com.br

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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