Flores pra São José no “Avarandado” da capela

[Diário Cultural de ontem]

Num mundo cada vez mais vertical – não, nada a ver com política partidária –, competente cantora elabora um “tributo às varandas”. Talvez ela nem quisesse, mas consegue prestar também um tributo às flores e à São José – ao menos é esta a associação que o colunista consegue fazer, ao escrever sobre o disco no dia em que se celebra o dia do santo que batiza onze em cada dez maranhenses.

Avarandado. Capa. Reprodução

Como esta coluna é católica, mas nem tanto, não vamos aqui, celebrar o dia de São José. Quer dizer, não apenas. Hoje é dia do santo. E isso é, sim, um assunto para uma coluna “de cultura”. Mas fiquemos por aqui, num viva àquele que batiza tantos zés Maranhão – e país – afora, este colunista um deles. “Virge, como tem Zé lá na Paraíba”, cantaria o saudoso mestre Jackson do Pandeiro – ele também um José na pia batismal – em música assinada por Manezinho Araújo e Catulo de Paula. Bom, deixemos os Zés em paz, inclusive o santo, procissões à vontade e vamos ao assunto de hoje. Antes, meus parabéns aos amigos Raimundo Nonato – que não sei por que não é Zé também – eGisele Brasil, vindos ao mundo em diferentes dezenoves de março.

E hoje, aqui, escrevo sobre o “Avarandado”, disco de Ana Salvagni, esposa do violeiroPaulo Freire, com página na internet já recomendada por aqui. Esta “audição” aqui também anunciada na ocasião (Diário Cultural de 14 de março). Vale dizer que isso de ser “esposa de Paulo Freire” é mero detalhe. A participação dele no disco resume-se – o que não é pouco, diga-se – a três adaptações de temas de domínio público – “Balaio”, “Beira-mar dos canoeiros” e “Maricota” – e a composição de uma das faixas, parceria com Milton Dornellas – “A luz dos olhos dela”, que não é dito no encarte, mas deve ter sido composta em homenagem à Ana, de belos olhos, vistos no mesmo encarte onde ela escreve, explicando o título do disco – sim, a canção de Caetano, gravada por Gal Costa em fins dos anos sessenta, século vinte: “Varandas são espaços abertos e, ao mesmo tempo, acolhedores. Uma boa varanda nos convida a sentar e a desfrutar de um livro, da conversa com um amigo, do canto de um passarinho ou, simplesmente, do momento. Algumas músicas foram feitas para serem ouvidas em amplas e lindas varandas. No mais das vezes, lá dentro, na varanda da alma. Corpo descansado e coração avarandado”.

Calma, leitor: não há aí pretensão. É isso mesmo: “lá dentro, na varanda da alma”. Com certeza, “Você vai gostar”. Este, aliás, tema que abre o disco, composição de Elpídio dos Santos, já gravado por Dércio Marques em seu “Fulejo”, 1983 (naquele disco como “Casinha Branca”). “Satisfeito, vou levar você de braço dado atrás da procissão”, diz a letra. O santo lá de cima – literalmente – ainda não está satisfeito com tanta prece. Flores para ele. Rosas. “Das Rosas”, Dorival Caymmi comparece ao repertório. Festejo de santo que se preze tem que ter algo de profano. Após a missa, “Seresta” (única composição de Ana, parceria com José Eduardo Gramani). No melhor formato seresta: violão sete cordas e sax soprano – Swami Jr. e Mané Silveira. Abaixo os teclados sintetizadores!

Dia de São José, “Carta pro Zé” (Ricardo Matsuda): “a luz lá de cima pro meu amor sorrir, rezar”. Do menestrel Elomar, a tristeza – isso é um elogio! – revisitada com competência em “Incelença do amor retirante”, onde Ana é acompanhada apenas do acordeom de Toninho Ferragutti. Daí à alegria de “Balaio”, sem descontinuidade. Do repertório de Ataulfo Alves, “Favela” (Hékel Tavares e Joracy Camargo, o primeiro, plagiado por Fagner, que alterou uma palavra de sua “Você” e gravou “Penas do Tiê” como “folclore recolhido e adaptado”). “Você tem açúcar” (Roberto Martins e Osvaldo Santiago), apesar da óbvia rima fel/mel, é um chorinho que nada deve a grandes mestres do gênero. “A luz dos olhos dela” é seguida por “Rosa amarela” (Levi Ramiro, sobre tema tradicional alagoano). Rosas, aliás, não faltam nesse disco. Viva São José!

De Caetano Veloso, a faixa título, seguida por uma animada “Roda de ciranda” (adaptação de Edmilson Capelupi – que toca alguns violões e cavaquinhos no disco – para diversos temas do gênero, de Pernambuco). Linda! E assim permanece, “Além de Olinda” (José Eduardo Gramani). Entre dois temas de domínio público (“Beira-mar dos canoeiros” e “Maricota”, que fecha o disco), a presença maranhense de Dilu Melo, que compõe “Fiz a cama na varanda” (parceria com Ovídio Nunes), do verso “deu um vento na roseira”. Mais uma música que fala de rosa, de flor.

Não só na varanda: em qualquer lugar. “Avarandado”, um disco para se ouvir em festejos de qualquer santo, que todo dia é dia de um.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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