A urbanidade rural da música de Silvério Pessoa

(Ou: Nas pegadas dos nômades)

[Diário Cultural de hoje]

Aliando tradição e modernidade, Silvério Pessoa chega, de arroba em arroba (aqui tanto a antiga unidade de medida de peso quanto o símbolo usado nos endereços de e-mail) e com competência, ao terceiro disco solo. Um pé no antigo – embora não necessariamente ultrapassado – outro no novo – tão novo que ainda vai surgir; ou melhor, surgiu na música de Silvério. Um pé no acústico, outro no elétrico; ou melhor, a cabeça na eletricidade, o coração desplugado. “Eletric head, acoustic heart”, que Silvério agora é universal!

Cabeça elétrica coração acústico. Capa. Reprodução

Tradição e modernidade são dois temas cada vez mais difíceis de trabalhar. Por andarem juntos, hoje em dia, e a linha que os separa, ser muito – e cada vez mais – tênue. Silvério Pessoa sempre soube casar as tradições da música pernambucana – nordestina – com as “mudernices” eletrônicas que tanto incomodam os puristas. “’Cumpade’ Zema, toda a força do som do nosso povo”, escreveu-me na dedicatória de meu exemplar do seu “Batidas Urbanas – Projeto Micróbio do Frevo”, segundo disco solo do músico, um tributo a Jackson do Pandeiro, um dos pilares da música nordestina.

Silvério vem mostrando a força de sua música desde a estréia, ainda com o grupo Cascabulho. “Fome Dá Dor de Cabeça” é um disco excelente, a começar pelo título, forte e verdadeiro como a música do grupo – e de Silvério, em particular. Lá já se apresentavam as influências que iriam compor o trabalho de Silvério, que com o grupo gravou apenas um disco. (No segundo disco do Cascabulho, já sem Silvério, o grupo gravou a música “Choro de Lera”, conhecida dos maranhenses na voz de Dona Teté do Cacuriá).

Perene temporal

Junte num balaio – ou num cofo? – Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Jacinto Silva, Frank Zappa, o aboio dos criadores de bode nordestinos e a poesia dos repentistas. Eis aí o trabalho de Silvério Pessoa, que neste terceiro disco solo, “Cabeça Elétrica, Coração Acústico”, se apresenta como compositor: todas as músicas são de sua autoria, com exceção de “Sabor de Frevo”, de Luiz Guimarães e Alvacir Raposo.

Silvério consegue fazer um disco carnavalesco para ser ouvido o ano inteiro. Ou um disco para o São João que pode ser ouvido no carnaval? Enfim, um disco perene, forte, sincero, como é toda a sua obra. E muito mais vem por aí. Preparem-se! Apertem o cinto na boléia da toyota.

“O título “Cabeça Elétrica, Coração Acústico” vem de um cordel do poeta Bráulio Tavares [que assina uma parceria com Silvério neste disco: “Eu vi a máquina voadora”]. Essa imagem reproduz bem os textos e a sonoridade das canções. (…) Essa novela musical, resultado de composições e parcerias, mestiça não só por ter início em Pernambuco, Nordeste do Brasil, mas envolvendo a França e a Occitania, resultado das minhas últimas turnês, promove uma nova possibilidade étnica de reencontros e formação de novas conexões culturais. Mas isso fica para um novo futuro.”, adverte/explica Silvério “Nas pegadas dos nômades”, texto bilíngüe do encarte do disco.

Pode(m) ter certeza: o futuro já chegou, “cumpade”! Boas audições, turma!

Discografia

“Fome Dá Dor de Cabeça” (1998), com o grupo Cascabulho; “Bate o Mancá (a música de Jacinto Silva)” (2000); “Batidas Urbanas – Projeto Micróbio do Frevo (a música de Jackson do Pandeiro)” (2002); e “Cabeça Elétrica, Coração Acústico” (2005).

Serviço

O quê: “Cabeça Elétrica, Coração Acústico”
Quem: Silvério Pessoa, com participações especiais de Alceu Valença, Dominguinhos, Fábio Trummer (Eddie), Lenine, Lula Queiroga e Zé Vicente da Paraíba.
Quanto: sob consulta no site da Casa de Farinha Produções e/ou pelo telefone (81) 9967-7815.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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