75 quilos de músculos, fúria, ironia, rebeldia e bom jornalismo

[Diário Cultural de ontem. A leitura desta biografia é envolvente. Você acaba viciado. Foda é escrever sobre ela depois das opiniões de Ademir Assunção e Reuben em seus blogues (links ao lado). Fica pouco a dizer.]

A “vida louca vida” de um dos maiores jornalistas que o Brasil já teve. As histórias hilárias de Tarso de Castro, que conquistou o país com seu estilo único. “Grosso e finíssimo”, como adverte Mário Prata na contracapa do livro, que torna-se um vício. Interromper sua leitura? Nem por um boteco! [Pouco antes do fechamento do texto, o colunista recebe uma ligação. Ainda não são dez da manhã e um amigo o convida para um café a la Tarso de Castro. Concluído o trabalho, os dois se encontram para a “peleja”]

75 kg de músculos e fúria – Tarso de Castro: a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros. Capa. Reprodução

“Neste momento, 75 kg de músculos e fúria se reúnem para fazer mais uma coluna”, anunciava o jornalista Tarso de Castro ao sentar-se à máquina de escrever quando trabalhava na Folha de São Paulo. Terminadas as cinco linhas iniciais do novo texto, Tarso dava um grito: “Hora de beber água!”. E arrastava alguém da redação até o boteco mais próximo. Perto do fechamento do jornal, ele voltava à redação e, para admiração de uns e espanto e indignação de outros, terminava o texto.

“Se um outro cabeludo aparecer / na sua rua / e isto lhe trouxer saudades minhas / a culpa é sua”. Os versos de Detalhes, a famosa canção de Roberto Carlos, trazem Tarso de Castro: é ele o cabeludo em questão. Cantando baixinho, a la João Gilberto, o “rei” conquistou Silvia Amélia, com quem Tarso namoraria tempos depois.

Acima duas das diversas e hilárias histórias de 75 kg de músculos e fúria – Tarso de Castro: a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros (editora Planeta, 2005, R$ 37,50, em média). Aos 32 anos, com passagens pelo Jornal da Tarde, O Estado de São Paulo e Valor Econômico, o biógrafo Tom Cardoso dá o tom do que foi a vida de Tarso: um texto agradável de ser lido, como eram os escritos por Tarso de Castro. Certo, eu era criança quando Tarso subiu. Mas os trechos trazidos por Tom para ilustrar seu texto provam isso.

Em entrevista à jornalista Maria do Rosário Caetano, em agosto de 1984, para o Correio Brasiliense, Tarso foi – e não foram poucas vezes – certeiro: “Minha coluna na Folha de São Paulo é meu analista. Lá faço meus desabafos. As pesquisas mostram que é uma das colunas mais lidas do país. Dá maior Ibope. Não sei por quê. Suponho que seja descontração, pela quebra da monotonia dominante no jornalismo brasileiro. Nosso jornalismo tornou-se tão especializado que perdeu a alma. Os jornais ficaram muito iguais. Minha coluna é irreverente, nela dou esporro, chamo o Maluf de ladrão, defendo a dignidade deste país angustiado. Busco munição nos bares, nas ruas. Sou um veículo dos anseios que as pessoas externam, nas conversas cotidianas. E não há copidesque para a minha coluna. Ela sai como um esporro. Os jornais brasileiros acabaram com o talento individual, com o jornalista de estilo próprio”. Está pior, caro Tarso.

Tarso de Castro nasceu em 11 de setembro de 1941, em Passo Fundo/RS, passando parte da infância em “O Nacional”, principal gazeta da cidade. Seu pai, Múcio de Castro, era o proprietário do jornal, onde ele, cedo, aprendeu a fazer jornalismo: aos treze anos era linotipista e aos quinze já assinava uma coluna por lá. Seu grande talento era montar equipes. Passou por diversos veículos importantes: Última Hora, Folha de São Paulo – onde editou a Ilustrada, na melhor época do caderno –, Tribuna da Imprensa e O Pasquim – que ajudou a fundar – não necessariamente nessa ordem.

No dia 20 de maio de 1991, vítima de cirrose hepática, Tarso de Castro faleceu. Alcoólatra, era visto por vezes tomando um suculento café da manhã em bares diversos: um copo de vodca, algumas gotas de limão e uma pitada de açúcar. “Prefiro viver pela metade por uma garrafa de uísque inteira do que viver a vida inteira bebendo pela metade”, tascou quando Palmério Dória tentou convencê-lo a parar de beber, ao menos pela manhã. Tarso viveu intensamente, exemplo de bom jornalismo – coisa rara de se ver hoje em dia. Em 1983, confidenciou à revista Playboy: “Mas me diga uma coisa: e se o governo cair? Se eu acordar e mudou o governo? Aí, porra, vou ficar irritado com todo mundo durante anos! Eu quero estar presente! É uma espécie de doença, mas paciência!”.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

2 comentários em “75 quilos de músculos, fúria, ironia, rebeldia e bom jornalismo”

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