Mais um domingo de pré-carnaval

(ou: O “pancadão” madredivino, volume dois)

[Tá, talvez eu esteja ficando chato. Talvez? Ficando? Tá, eu sei que eu SOU chato. “Tá incomodado? Se mude!”, recomendaria algum adepto da lixeira musical. Não acredito que eu esteja errado, como os críticos que disseram que o rock era lixo, em sua gênese; será que um dia hão de me mostrar e provar que a “nova” onda é que é a verdadeira música feita por verdadeiros gênios para o consumo de pessoas verdadeiramente inteligentes? Não creio, sinceramente. Abaixo, o Diário Cultural de hoje.]

“Finalmente um domingo de pré-carnaval de verdade”, pensou o cronista pela manhã, ao ouvir, ao longe, o batuque de um bloco tradicional. Engano, ele perceberia à noite, enquanto namorava e bebia algumas cervejas na Praça da Saudade. Soubesse, teria aproveitado a missa para rezar para que o carnaval maranhense tenha uma boa morte (na UTI ele já está!). Ao menos o cemitério fica próximo. Que a terra lhe seja leve!

Há razão em dizer que, no Brasil, o ano só começa depois do carnaval. A turma tem muito pique. Era mais um domingo de pré-carnaval. Gastei-o em curtir a preguiça natural das manhãs dominicais e em curar uma leve ressaca adquirida numa ótima festa em que estive presente no dia anterior, emendando-a com a madrugada de domingo. Música e literatura como companhia, eu esperava a tarde/noite para ir à missa com a namorada e depois “cair no frevo”.

Manhã. Tambores, ao longe, me (des)enganavam. Sim, eu estava ouvindo um batuque de carnaval. De carnaval maranhense. “Opa, hoje estaremos livres dos pancadões”, pensei. Um sorriso percorreu-me a face. Era o “terceiro domingo comum”, conforme a igreja católica me diria mais tarde; e somente agora, carnaval de verdade.

Tarde. Após um delicioso peixe cozido no almoço, mais um pouco de sono, para ficar inteiro de vez. E mais literatura. E mais música. Missa às 18h. Depois, Madre Deus. Sim, hoje seria diferente.

Noite. “Cair no frevo” é força de expressão. “Acho que estou ficando velho”, eu dizia para a namorada. “Já não tenho mais o mesmo ânimo para o carnaval”. Ela concordava. São Pantaleão, Norte, Praça da Saudade, Largo do Caroçudo. Tudo cheio demais e nada nos agradava. É, estávamos meio ranzinzas. Optamos por um bar em frente à “praça do cemitério” – como é mais conhecida a citada Praça da Saudade – observando o movimento. Na verdade não optamos pelo bar: foi o único onde encontramos uma mesa e duas cadeiras desocupadas. Providencial. “É isso que eu gosto de fazer: escolher um local, me posicionar e ver ‘o bloco passar’”, eu disse. “Uma cerveja!”.

Uma aparelhagem de som na praça anunciava, deduzi: logo um bloco se apresentaria por ali. “Carnaval de verdade”, pensei mais uma vez, apesar de tudo: carros, parados ou passando, com porta-malas abertos em alto volume (na verdade os porta-malas de carros mudaram de lugar, já que hoje os “malas”, em sua grande maioria, ocupam o volante), dvds exibindo as porcarias da música baiana ou do pseudoforró cearense ou de qualquer outra coisa que a renitência e a chatice deste cronista costuma chamar de “lixo musical”.

Os tambores de um bloco “tradicional” (entre aspas, já não sei se minha antipatia ainda permite designá-lo assim) aqueciam pelas mãos de “foliões” (entre aspas pela mesma razão). Logo estava formada uma babel sonora, para tristeza de meus ouvidos. Iludido, eu ainda esperava ver um carnaval de verdade, quando conseguia, no baralho auditivo, distinguir sons vários: o dos carros, o dos dvds, o batuque do bloco, além de alguns outros que, assim como apareciam, sumiam.

Dali a pouco, o tal bloco entrava em cena definitivamente, com o vocalista assumindo o microfone ligado à aparelhagem instalada na praça. Qual não foi minha surpresa, durante os pouco mais de quinze minutos em que conseguimos permanecer ali, enquanto terminávamos a última cerveja: em ritmo de carnaval maranhense (quem nunca ouviu o batuque de um bloco tradicional não saberá do que estou falando), foram interpretados diversos “sucessos” do “monturo” musical que assola o país.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

diga lá! não precisa concordar com o blogue. comentários grosseiros e/ou anônimos serão apagados

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s