Édson Mondego: um silêncio colorido com a paz

Uma manhã ensolarada cobria a Ilha de São Luís do Maranhão quando batemos à porta de um antigo casarão – uma porta e duas janelas – na rua Cândido Ribeiro, Centro. Lá mora Édson Mondego, artista plástico dos mais importantes na história maranhense em todos os tempos. Descalço, trajando uma calça e uma camisa branca (suja de tinta), com a sua peculiar simplicidade, ele mesmo abre a porta e nos conduz à sala, onde concede a entrevista que você lerá a seguir. O repórter inaugura um caderno novo, do qual são consumidas, em oito perguntas, mais de vinte páginas e três horas de “conversa” [Mondego não se comunica usando a palavra falada desde os fins do ano 2000], entrecortada por batidas à porta [por vezes o artista a abriu], carros e bares tocando alto, música ruim. As fotos que ilustram a entrevista foram feitas pelo repórter, noutra data no Ateliê que Mondego ocupa, desde 2001, na Morada dos Artistas (Praia Grande). Hoje, 13 de janeiro, o artista completa 47 anos de idade. A ele, aqui, uma homenagem do jornal Diário da Manhã.

Entrevista e fotos [disponíveis em http://olhodeboi.nafoto.net]: Zema Ribeiro

Zema Ribeiro – Vamos começar pela infância. Gostaria que você falasse um pouco dela, data e local de nascimento, experiências…
Édson Mondego
– Nasci em 13 de janeiro de 1959, em casa, com parteira, em São Luís, no Cavaco [atual Bairro de Fátima]. Na infância, brinquei com bolinhas de gude, chuço, papagaio [pipa], e também confeccionava meus brinquedos; com caixas de fósforos fazia trens, barcos; com frutas verdes, animais; com latas fazia carrinhos…

ZR – Então já havia, de certa forma, na infância, uma experiência com artes plásticas, na confecção dos brinquedos… Quando é que entra a pintura?
Mondego
– Ah… sim… É uma necessidade expressar-me através do gráfico e confeccionar formas. Vem desde o jardim de infância, quando comecei – lembro a partir daí – a riscar, as coisas que via no cotidiano, brincadeiras folclóricas, como bumba-boi, barcos, automóveis e, mais tarde, por influência de meu irmão, já falecido, que era um caprichoso artesão, desde a infância, pois ele fazia carrinhos com lata, madeira, pregos, rodinhas de borracha, eixo com giro etc. e, a partir desse convívio eu também fazia os meus. A pintura, iniciei por volta de 1974, com um amigo de infância, Rubens Amaral, com quem estudei no primário. A partir daí comecei a ter experiências com tinta a óleo, confeccionar telas, molduras e aprimorar a técnica de desenhar, estudando anatomia, perspectiva. Um pouco mais tarde comecei a usar nanquim, bico de pena etc.

ZR – Reli, recentemente, uma entrevista que você concedeu ao jornalista Cesar Teixeira, em março de 2002. Lá, ele fala de sua formação acadêmica em dança, além de estudos na Itália. Há motivos para o “abandono” dessa forma de expressão? E o retorno a São Luís?
Mondego
– Minha formação em dança, a iniciação, se deu por acaso. Eu gostava muito de brincadeira, imitar pessoas, animais, fazer as pessoas rirem. Numa certa época passei a morar com um tio que tinha uma filha que fazia balé; minha tia convidou-me para fazer teatro. Chegando lá, fui apresentado a Reinaldo [Farah], que me deu uma malha e disse: “entra nessa sala”. Achei esquisito, mas fiquei quieto. Daí, todo desajeitado, comecei a fazer dança. Logo descobri que era interessante, passei a gostar e dediquei-me totalmente. Depois de um ano, comecei a dar aulas. Passei a integrar um grupo e, mais um ano, fui para São Paulo, em busca de mais conhecimento técnico. Fui contemplado com uma bolsa para fazer aulas no Ballet Stagium, de melhoramento técnico e profissional. Era um curso de férias, e terminado, ganhei outra bolsa, para permanecer na escola e estagiar no grupo profissional. Fiquei um certo tempo com eles e logo surgiu uma outra profissional de dança, do cenário internacional, dançarina do Ballet do Século XX, de Bruxelas, Laura Proença. Com ela, fiquei um ano entre São Paulo e Rio de Janeiro. Fui seu assistente em eventos, oficinas, e depois voltei a São Luís, para fazer o espetáculo Maré/memória [baseado no livro homônimo do poeta José Chagas]. Voltando ao Rio, acidentei-me de motocicleta, machuquei o joelho e abandonei a dança por não ter mais condições físicas. Cheguei a ser homenageado no Teatro Arthur Azevedo, casa cheia, depois abandonei [a dança] em definitivo. Tornei a expressar-me novamente com expressão corporal de seis anos para cá, através da capoeira [sem cantar os refrãos]. Minha ida à Itália, foi através da pintura; consegui um apoio para fazer um curso em Firenze, mas não foi possível ficar naquela cidade. Fui para Napólis. Passei a fazer parte do corpo do ateliê de [Luigi Eboli] Tavolozza, no Centro Histórico de Napólis. Lá fazia aula de desenhos, pinturas, aquarelas e um pouco de modelagem em argila, e também fiz decoração em cerâmica.

ZR – Mondego é um sobrenome não tão comum. De onde vem? E voltando ainda à infância, gostaria que lembrasse um pouco da família e falasse um pouco também, da família atual.
Mondego
– Meus pais são de Guimarães/MA. Nossa geração, alguns irmãos e primos, fizeram uma busca sobre nosso sobrenome, mas nada conseguiram descobrir, da raiz; minha família é de mestiços: tem negro, branco, índio. Mondego é um rio em Portugal, próximo do Porto. Meus pais tiveram dez filhos; sou o terceiro. Meu pai era pedreiro, um pedreiro-artesão, que fazia tudo “no capricho” [aspas nossas]. Ele também gostava muito de desenhar, mas o fazia sem nenhum conhecimento técnico. Fazia rascunhos de arquiteturas, de maneira bem primitiva. Creio que essa seja a minha árvore. A geração após a minha, tem revelado novos artesãos; tenho uma sobrinha se formando na Academia de Belas Artes, na Itália. Ela é filha de italiana com meu primo (maranhense) [parênteses dele]. Tenho cinco filhos, quatro garotas e um garoto. Minhas filhas, todas, têm tendência às artes, embora não se apliquem. Buscaram outras áreas: jornalismo, propaganda, marketing, direito. Meu filho também tem esta facilidade, faz alguns trabalhos, mas não forço ninguém a nada, deixo a vida falar. Ele também toca vários instrumentos de percussão. Sou casado há vinte e seis anos, com a Wanise [52], que é comerciante.

ZR – A sua inspiração para a pintura, ao menos o que vi, até hoje, é o cotidiano ludovicense: paisagens, pessoas, o imaginário da cultura popular etc. Quais são as suas referências? Música te inspira? O que você ouve? E o que você lê?
Mondego
– Minhas referências são várias: belle époque, impressionismo, pós-impressionismo e movimentos paralelos a estes, talvez cubismo, futurismo, pop art, expressionismo etc. Rembrandt, Da Vinci, Michelangelo, e ainda as artes egípcia e grega, além da arte rupestre, a mais “pura” [aspas dele], pois penso que quanto mais primitivos formos, mais pura é a nossa expressão artística. Minha inspiração se dá no cotidiano, do cotidiano. São Luís é onde vivo, é daqui que surgem minhas paisagens, pessoas do povo, o comportamento humano, me atraem bastante suas características, sem pensar que seja um regionalista. Para mim, tudo é universal. Ou será que não fazemos parte do universo? Aprecio muito música erudita, pois através da dança, aprendi a dividir compassos, marcação, harmonia musical; também ouço rock, jazz, blues, bossa-nova, tropicalismo, reggae e estou sempre atento a novas tendências, pois os movimentos surgem de misturas, além dos modismos, que logo se acabam. Tenho lido romances, dramas, alguns começo e não termino, vou lendo vários ao mesmo tempo. Josué Montello, “Os Tambores de São Luís”, estou com Homero, “A Odisséia” para ler, comecei “Fausto” [de Goethe] e parei…

ZR – Qual a tua ligação com religiosidade?
Mondego
– Nasci no catolicismo, sou cristão. Uma época, passei por protestantismo. Através da dança conheci a ioga, e a partir daí, o budismo. Há diferenças na maneira de ver o mundo, entre a forma cristã e budista. É uma maneira prática, só conhecendo é possível entender. Por ser tão simples, fica quase sem sentido explicar a diferença, pois as palavras muitas vezes tiram o sentido da ação. A prática do que é simples, dá um sentido grandioso dentro daquele que pratica, causando uma revolução, uma força que jamais, com palavras, poderei transmitir como acontece. A não ser através das palavras escritas pelos mestres; eu não conseguirei, não estou apto, a transmitir estas mensagens; só posso através da minha ação, do meu comportamento. E ainda assim, talvez as pessoas não consigam observar ou sentir, pois está dentro de mim, o que absorvo dos mestres e pratico. É uma árdua luta comigo mesmo.

ZR – Quando você diz que “muitas vezes as palavras tiram o sentido da ação”, há nisso alguma ligação com o teu voto de silêncio? [Mondego decidiu deixar de se comunicar usando a fala em fins de 2000].
Mondego
– Quando digo isso, veja bem: se você tem algo para realizar e fala, fala, fala sobre isto, esse algo, você percebe que esse algo começa a ficar distante de sua ação, de sua realização, perdendo a força, não é? E quando guarda em si mesmo, como um tesouro, um segredo, esse algo fica cada vez mais sólido, mais próximo da ação, da realização. Pois bem, observe e sinta a diferença. A questão do silêncio é uma força interior, que se encontra no universo, em nosso redor. Veja que quando alguém se ajoelha diante de uma imagem de santo, ou mesmo sem imagem, e põe-se a rezar, orar ou meditar para alcançar uma graça, entrará em um universo, e esse universo em um silêncio profundo. Só dessa maneira perceberá seu contato com o grandioso, para alimentar sua alma. E o silêncio tem um som. Só assim sentirá que poderá alcançar sua graça transcendental. O que aconteceu comigo, está guardado, dentro de mim, meu tesouro; um tesouro que muitos já tentaram entrar, até mesmo tentando agredir-me fisicamente. Mas o grandioso saberá o meu dia e o que acontece comigo. Não me sinto privilegiado falando assim, pois todos nós temos condições de senti-lo. A diferença é que uns já observaram isto, outros, ainda não; é como se uns já tivessem acordado e outros ainda não. Mas isto não é de minha responsabilidade, dizer quem ainda dorme e quem já acordou. O tempo e o universo de cada um dirá para si mesmo e as coisas se aproximarão de cada um, mesmo o mundo vivendo em guerra eternamente na história da humanidade. (falar da religião pessoal é até um perigo, pois o domínio do pensamento americano tolhe muito a individualidade do pensamento livre do ente humano: o homem como parte da natureza). [parênteses dele].

ZR – Uma mensagem ao(s) povo(s)?
Mondego
– Que o ente humano busque mais sua paz interior, verdadeiramente, em vez de ficar fazendo somente ação social – paliativo para suas dores – para diminuir seu egoísmo, preconceito, racismo. Que busque essa paz dentro de si, e conseqüentemente, possamos respeitar mais as diferenças entre os costumes dos povos, diminuindo as lutas, as guerras. O homem tem como característica, ser guerreiro, conquistador, o domínio sobre o mais fraco, o poder, enfim. Talvez isso faça parte da nossa própria natureza, pois somos animais como quaisquer outros, e através desse domínio, acontecem as transformações da cadeia humana. Mas, que busquemos mais o silêncio, dentro do nosso próprio universo interior. Isso influirá em nosso convívio social, humano em nosso planeta. A partir daí, teremos paz.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

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