Um biscoito com recheio de maxixes

[Diário Cultural de ontem]

Autor de diversos sucessos como “Revelação” e “Cebola Cortada”, ambos gravados por Fagner, o piauiense Clodo Ferreira, dono de obra para além disso, arrisca-se a revisitar importante compositor brasileiro, Sinhô. O resultado é um disco que mantém as características originais da obra do carioca, sem que isso signifique repeti-lo. É “a eternidade do Sinhô na beleza do Clodo(ô)”, como nos antecipou o amigo jornalista Márcio Jerry.

Clodo Ferreira interpreta Sinhô. Capa. Reprodução

Alguns se (me) perguntarão: quem é Clodo? Clodo Ferreira, compositor piauiense radicado em Brasília é irmão dos também piauienses e também compositores Clésio e Climério, com quem lançou seis LPs. Pouco? Certo. Com eles, Clodo escreveu versos do quilate de “minha mãe me olhava / e me dizia o seu silêncio agrário / a profissão do sonho / não tem salário” (da música “Silêncio Agrário”, registrada no disco dos três, “Tiro Certeiro”). Bonito, não? Mas ainda não suficiente? Pois Clodo é o compositor de alguns grandes sucessos de Fagner, como “Revelação” (em parceria com Clésio), “Cebola Cortada” (com Petrúcio Maia) e, entre outros, “Ave Coração” (com Zeca Bahia). Além de Fagner, diversos outros nomes da música brasileira o gravaram, a exemplo de Nara Leão, MPB-4, Ednardo e Amelinha. Marlui Miranda também tem relação com o trio de irmãos piauiense: cantou “Timon” (cidade maranhense vizinha à Teresina, capital do Piauí) num show dos três e depois a gravaria em disco.

Outros perguntarão quem é Sinhô. E responder que este era o apelido, pseudônimo ou coisa que o valha de José Barbosa da Silva (ou J. B. da Silva) não será suficiente. Sim, apesar de falecido em agosto de 1930, aos quarenta e dois anos, Sinhô é ainda um “ilustre desconhecido”, apesar do estrondoso sucesso de “Jura”, música de sua autoria, na voz de Zeca Pagodinho, que chegou à abertura de “O Cravo e a Rosa”, global novela das seis de outrora. Depois de “Jura”, talvez suas músicas mais conhecidas sejam “Gosto que me enrosco” (dos versos “Deus nos livre das mulheres de hoje em dia / desprezam o homem só por causa da orgia”) e “Maldito Costume” (“Eu juro acabar / com esse costume que você tem / falando de mim / dizendo horrores, me querendo bem”), esta última registrada por Ceumar em seu disco de estréia, o belíssimo “Dindinha” (1999), produzido por Zeca Baleiro.

O perfeito casamento de Clodo e Sinhô

Em “Clodo Ferreira interpreta Sinhô” (2005), o resultado de um árduo trabalho de pesquisa iniciado com um show em 2003, no Clube do Choro de Brasília/DF. As músicas registradas pelo compositor piauiense mantêm a estética adotada – ou talvez ditada, já que samba era, antes de estilo, a designação comum dada a “festas de pretos e pobres”, à época – entre o fim da década de 20 e início da de 30 do século passado: a cadência amaxixada das músicas.

O projeto, realizado entre março e agosto do ano passado, teve a concepção de Clodo Ferreira e produção executiva da ABRAVÍDEO (Associação Brasiliense de Apoio ao Vídeo no Movimento Popular); teve direção artística de Alencar 7 Cordas – que aparece tocando violão em algumas faixas – e foi patrocinado pela Eletrobrás, através da Lei de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura.

Talvez uma revisitação de Sinhô fosse inútil, já que o grupo “Lira Carioca” (com o brilhante intérprete Marcos Sacramento em sua formação) já havia, recentemente, dedicado dois discos à obra do carioca. Mas Clodo não teve medo de arriscar e brinda-nos com este “capitoso vinho que nos embriaga com um só pinguinho” (da letra de “Maldito Costume”, registrada no disco); aqui é bom indispensável o vinho todo, digo, ouvir o disco inteiro.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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