Voltando…

[Diários Culturais de 25 e 27/12]

A música baiana de Xangai

Hoje é 25 de dezembro, data em que se comemora – ou ao menos se deveria – o nascimento de Jesus Cristo. Uma ótima dica de presentes – sem que a coluna embarque no consumismo barato – é a ressurreição de alguns títulos do catálogo da gravadora Kuarup. Diário Cultural esmiúça, minimamente, dois “Xangais” nas mal-traçadas a seguir.

Quê qui tu tem canário. Capa. Reprodução
Dos labutos. Capa. Reprodução

Eugênio Avelino, o popular Xangai é, reconhecidamente um dos mais importantes cantadores do país. Baiano como o menestrel Elomar Figueira de Melo, a quem muito já gravou, ele une música “urbana” e a música “rural”, aprendida principalmente com os aboios de vaqueiros, ele mesmo um, um dia.

A gravadora Kuarup, detentora de todo o catálogo de Xangai, recoloca no mercado, dois títulos do malungo: “Qué qui tu tem canário” (1981) e “Dos labutos” (1991), ao preço médio de R$ 24,90 cada.

No encarte do primeiro, escreve o parceiro José Carlos Capinam: “Na verdade parentesco bom não lhe falta: neto de Manezinho Araújo, irmão de Jackson do Pandeiro, primo de João do Vale e filho, como todos nós de Luiz Lua Gonzaga”. O versátil compositor está certíssimo.

Também versátil, em canto e repertório, Xangai une compositores da estirpe do já citado Capinam, Jatobá, Hélio Contreiras, Ivanildo Vila Nova e o mestre Elomar. Para a festa, comparecem os músicos Contreiras (violão), Djalma Corrêa (percussão) e Marquinho (acordeon), apenas para citar alguns, além das participações especiais de Zé Ramalho e Almir Sater, empunhando violas de 10 cordas.

Em “Dos Labutos”, quem escreve no encarte é Elomar, que traduz muito bem – talvez – a falta de reconhecimento dada aos verdadeiros gênios da música brasileira (como um todo): “um cantor, um artista, um menestrel, um dos maiores poucos gatos-pingados e tresloucados sonhadores-de-mãos-sangrentas-contrapontas-afiadas-inimigas. Remanescente que teima em guardar a moribunda alma desta terra. Que também vai se atropelando contra multidão de astros constelados que fulgurantes espargem luz negra dos céus dos que buscam a luz”.

É de Elomar a faixa que batiza o disco (segundo canto do Auto da Catingueira); é ele mais um certeiro ao escrever sobre Xangai. “Dos Labutos” é outra bela festa, que reúne, entre músicos e compositores (alguns nas duas condições), Juraildes da Cruz, Jatobá, Salgado Maranhão, Elino Julião, Dílson Dória, Paulo Britto, Hélio Contreiras, Cao Alves, Oswaldinho, Jacques Morelenbaum e o maranhense Erivaldo Gomes, responsável pela percussão e efeitos do disco.

Para quem acha que a Bahia é “bunda pra lá, peito pra cá”, a coluna recomenda, por ora, estes dois títulos. E fica, novamente, com o Capinam do encarte de “Dos Labutos”: “Quantos cantos a Bahia têm? Tão difícil descobrir”.

Retrospectiva Introspectiva 2005

Diário Cultural faz uma retrospectiva 2005 para além do ano que se encerra. Livros e discos – obras, enfim – fundamentais (ao menos sentimentalmente falando) que chegaram ao conhecimento deste colunista somente este ano, além de shows que ele viu.

Um: “Ô, Copacabana!”, João Antonio – publicado originalmente em 1978, este livro traz João Antonio em sua melhor forma (melhor forma é modo de falar: o cara é sempre ótimo!): captando a alma das ruas, coisa que só os grandes cronistas sabem fazer. Relançamento luxuoso da Editora Cosac & Naify.

Dois: “Reminiscências do Sol Quadrado”, Mário Lago – de 1979, este livro traz as memórias bem humoradas e irônicas do compositor, dramaturgo, escritor e mais uma série de adjetivos que cabem muito bem em Mário Lago. É outro relançamento da C&N.

Três: “Real Grandeza”, Jards Macalé – lançado este ano, este disco (literalmente redondo) traz diversas parcerias de JM com o eterno Waly Salomão. Com participações especiais de Adriana Calcanhoto, Luiz Melodia e Maria Bethânia, entre outros, tratamento luxuoso às obras dos mestres. Lançamento da Biscoito Fino.

Quatro: “Corpo Presente”, João Paulo Cuenca – pela editora Planeta, o economista carioca estreou bem. Seu romance teve boa aceitação pela crítica (merecidamente) e ganhou elogios de Chico Buarque de Holanda: “Há um escritor novo de que gosto muito, o João Paulo Cuenca”, diria o compositor. Corpo Presente está sendo adaptado para a televisão: virará mini-série na tela global.

Cinco: “Budapeste”, Chico Buarque – Terceiro romance do compositor, conta a história de José Costa, ghostwritter que se torna tão real ao longo da narrativa, que acaba por “confundir” a cabeça do leitor: até onde aquilo tudo é ficção vinda da cabeça do autor de “Construção”?

Seis: dois shows que aconteceram (oh!) em São Luís/MA: Elomar (19/8) e Raimundo Sodré (25/11), ambos no Circo da Cidade e ambos produções da Muito Mais (leia-se Ópera Night). Dois shows de música baiana. Apresentações para um público pequeno, que sabe que a música baiana é bem mais que o axé (em seu sentido deturpado). Impagáveis, é o mínimo que se pode dizer.

Sete: a realização das conferências municipal e estadual de cultura. Garantiram representatividade maranhense na I Conferência Nacional de Cultura, realizada em Brasília/DF, entre os dias 13 e 16 do corrente. A cidade de Imperatriz/MA fez feio: não enviou delegados à I CNC.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

diga lá! não precisa concordar com o blogue. comentários grosseiros e/ou anônimos serão apagados

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s