Rebelião independente: as zonas de Ademir Assunção

[texto nosso publicado no Caderno Alternativo, d’O Estado do Maranhão, sábado passado]

Rebelião na zona fantasma. Capa. Reprodução

São Paulo. Não sei porque, de lá espero sempre o caos. E ao contrário, por humilde obra do acaso – será? – nos chega algo doce, com sua pitada de acidez, mas belo enfim. Assim é o primeiro disco – de poemas – de Ademir Assunção. O jornalista e poeta nos chega em hora oportuna. Embalado pelos acordes de Madan, Ricardo Garcia, Mintcho Garramone e Luiz Waack – este último, ao lado de Ademir, diretor musical do disco.
“Rebelião na Zona Fantasma”. Nada de rebeldia sem causa. Talvez rebeldia na forma de se fazer o disco. Foram quase dois anos entre a gravação e o resultado final, com que nos deliciamos agora. Sem grana. Vontade, tesão. Paixão, amor. Paulo Stocker desenha as artes do disco, capa, encarte. Resultado condizente. “E ainda dirão que somos lunáticos / até o céu começar a cair”, anuncia Ademir, no fundo da caixa do fino biscoito.
Edvaldo Santana e Zeca Baleiro em participações especiais. Os três – eles mais Ademir – se admiram mutuamente, o que gera a cumplicidade/sinceridade necessária para o belo resultado. “Poesia’n’blues, outono ~ 2005”, a contracapa informa. O blues predomina, é verdade. Mas há espaço para outras cores/sons/sabores/imagens. Dessa “Rebelião” esperem tudo: menos tédio e monotonia.

ZONA BRANCA

Meu primeiro contato com Ademir Assunção se dá com Zona Branca (Editora Altana, 2001). De lá, sempre lembro da “Anti-Ode aos Publicitários (De um Guerrilheiro Morto em Combate)”:

“querer eu quero
que vocês morram

sufocados em nuvens
de inseticidas

talvez limpóis, bombris
e bemdefuntos

como baratas que comem
as próprias patas

olhos vendados
com vendas garantidas

e uma estaca
cravada no prepúcio

assim eu possa
propagar em outdoor

a dor de um jovem
promissor e sanguessuga:

aqui jaz um bom rapaz
cuja vida se reduz a um anúncio”

E uma nota explica: “Poema especialmente dedicado aos publicitários que usaram a imagem de Ernesto Che Guevara (morto por balas de metralhadora, no meio da selva boliviana) em anúncio do detergente Limpol, no ano da graça de 1.998.”
A partir deste, e de outros poemas do Zona Branca, comecei a (tentar) acompanhar mais de perto a obra deste bom rebelde. Sobre ele, escreveu Glauco Mattoso, na contracapa daquele livro: “Sei que um poeta nunca se completa, mas Ademir Assunção caracteriza o poeta que poderia ser chamado de completo, no sentido dos sentidos: tem olhar oswaldiano, ouvido de músico, tato psicossocial, faro jornalístico e paladar tipicamente brasileiro, embora globalmente antropofágico”.

OS OUTROS BÁRBAROS

Recentemente, Ademir Assunção aprovou e realizou, pelo Itaú Cultural, o projeto “Os Outros Bárbaros”, que promoveu, em São Paulo, quatro noites com oito shows de poesia e música. Oito poetas próximos, mas com linguagens peculiares entre si, tanto na palavra escrita quanto na falada ou cantada. Entre eles, o maranhense Celso Borges, radicado há tempos em Sampa; ele que também teve uma experiência interessante ao mesclar poesia, música e fotografia em seu “XXI – poemas de celso borges” (2000).
Casa cheia em todas as noites, “provando que poesia é uma coisa viva para vivos”, como bem escreveu o próprio Ademir em seu blogue.

LITERATURA URGENTE

Ademir Assunção é o que podemos chamar de multiartista. Ou nestes tempos, artista multimídia. E é ainda um “militante literário”, um dos escritores que encabeça o Movimento Literatura Urgente, que prevê a formulação de políticas públicas para o fomento à criação literária.
O movimento recentemente foi alvo de infundadas críticas da Revista Veja, na pessoa do jornalista (?) Jerônimo Teixeira, logo apelidado por Marcelino Freire – outro agitador liderança do movimento – de “Jerônimo, o matador”. Mas ele sequer feriu alguém, com seu discurso inflamado de preconceito. Ainda bem.

REBELIÃO NA ZONA FANTASMA

“escapo com vida
desconverso
verso escrito a sangue
desapareço
quanto mais
menos
me pareço
eco de bicho homem
ego sem endereço”

Os versos de “Escrito a Sangue” traduzem bem o espírito do disco. “De tudo o que se escreve, aprecio somente o que é escrito com o próprio sangue”, já disse Nietzsche; se vivo fosse e o ouvisse, com certeza gostaria do disco. Ego sem endereço, que a obra deve ter vários: ganhar mundo. O povo precisa de poesia, que nem só o corpo vive de alimento.
Quando Reuben escreveu sobre o disco em seu blogue, fiquei imediatamente curiosíssimo por ouvi-lo. Ele que, após o citado Zona Branca aumentou ainda mais o meu interesse por Ademir, sempre elogiando a obra do amigo – eles já andaram se encontrando em idas do maranhense à São Paulo. Agora que o ouvi, que o ouço, que o ouvirei sempre, digo: expectativas superadas. E Reuben disse tudo no texto dele (procurem naquele endereço, “Pedalando uma velha calói eu procuro a Zona Fantasma”). Mas tudo, quando se trata de Ademir Assunção, é pouco. Muito pouco. E este texto aqui é nada.

SERVIÇO

O quê: CD “Rebelião na Zona Fantasma”
Quem: o poeta, escritor e jornalista Ademir Assunção, com participações especiais de Zeca Baleiro e Edvaldo Santana
Onde: pedidos podem ser feitos pelo e-mail zonafantasma@uol.com.br
Quanto: R$ 25,00, frete incluso.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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