O TESTAMENTO DE JUDAS

Transcrevemos abaixo a íntegra da edição 2005 do Testamento de Judas, escrito pelo jornalista e compositor Cesar Teixeira para a tradicional brincadeira realizada anualmente pelo Laboratório de Expressões Artísticas – LABORARTE. 

O TESTAMENTO DE JUDAS

por Cesar Teixeira

São Luís-MA

2005


Na Inquisição da História

testamento é uma arte

pro forno da Aeronáutica

criado por Bonaparte.

Eu também serei queimado,

ofendido e esquartejado

na porta do Laborarte.

 

Laborarte que este ano

tem a idade de Jesus,

mesmo que ele ressuscite

vou pregá-lo numa cruz.

Trinta e três anos perdidos,

um museu no Céu erguido

entre nuvens de urubus.

 

Ficam muitas carapuças

para a escória obsoleta

que busca o meu tropeço

em sua alma abjeta,

que a mediocridade empalha

dando pernas aos canalhas

nas calçadas dos poetas.

 

Para o presidente Bush,

esse vampiro de fraque

que defende a eutanásia

e bebe o sangue do Iraque,

deixo em seu peito cravado

o voto dos trucidados

nessa guerra de almanaque.

 

Ah, os Estados Unidos

são um país muito escroto,

fala que no Sul é peido

e que no Norte é arroto.

Vende armas e as discrimina,

mata, polui, nunca assina

Protocolo de Kyoto.

 

E ao repórter Larry Rohter,

esse fantoche incauto

que diz que o Brasil é gordo

e Lula só vive “alto”,

deixo um visto permanente

pra beber com o Presidente

no Palácio do Planalto.

 

Para o Fernando Henrique

e seu ato desonesto

contra a América Latina

ficará o meu protesto,

bastam Kissinger e a CIA

para a Democracia

condenar seu manifesto.

 

Lá na Zona Industrial

vou botar uma porteira,

pra não fazerem do Porto

um Cabaré de terceira.

Patativa, sem pecado,

trocou logo o Pau Deitado

pela Ponta da Madeira.

 

Se a chinesa Baosteel

a Lei do Solo mudar

libero uma encruzilhada

para o Bulcão despachar.

No Itaqui vou fazer bico

vendendo no meu penico

sushi com arroz-de-cuxá.

 

Deixarei as minhas lágrimas

no Rio Itapecuru,

que o Pólo Siderúrgico

vai beber feito urubu

no copo do Italuís,

para ver o infeliz

se acabar no leito nu.

 

Lá no Rio dos Cachorros

vou rezar um Pai Nosso,

a Vale do Rio Doce

no seu navio de ossos

levará para o Espaço

um bumba-meu-boi de aço

pra dançar sobre os destroços.

 

Quase 15 mil famílias

sei que vão pedir esmola

lá na Vila Sarney Filho

ou lá Vila Kiola.

Suicídio eu já tentei

da ponte José Sarney,

me roubaram a sacola.

 

Vou deixar o meu pandeiro

como uma alternativa

pra quando Sarney voltar

à TV Educativa,

pois, enquanto ele mentia,

a mão direita tremia

no programa Roda Viva.

 

Pras almas da Liberdade

vou acender 20 velas,

foi o povo brasileiro

quem deu o sangue por ela.

Tancredo não teve cura

e o filho da Ditadura

se enfiou pela janela.

 

O Convento das Mercês

quero devolver à plebe

para ver no Big Brother

ou no Programa da Hebe

o caixão da Oligarquia

sobre o mármore da pia

onde o Demônio bebe.

 

Mandarei de São Luís,

capital do rendez-vous,

placa de aço pra China,

Alemanha e Seul,

camarão para o Timor,

banana pro Imperador

da ilha de Curupu.

 

Vou deixar uma cartilha

pros feitores na nação

contra o Trabalho Escravo

do homem que, sem ter chão,

já nasce escravizado

pela fome e é exportado

para uma outra prisão.

 

Levo contas do Ricardo

ao TCE com urgência,

pois a Procuradoria

hoje pede transparência,

mas, procura o que não vê,

tem fantasma que não crê

no avanço da Ciência.

 

E na Base de Alcântara,

onde morador não passa,

deixo a nave do passado

que subiu pela fumaça.

Tecnológico muro,

a Bastilha do futuro

é cercada de desgraça.

 

Deixo um “agronegócio”

que devasta a esperança

ao Ministério da Fome.

A soja só enche a pança

dos porcos do Ocidente,

mas no Cerrado indigente

esvazia as crianças.

 

No cofre do Banco Santos

a muamba que eu guardei

era dos aposentados

e da assistência, eu sei,

mas por causa da herdeira,

compadre Cid Ferreira

me ligou e eu saquei.

 

Jackson e Zé Reinaldo,

ex-amiguinhos da Branca,

agora juntam os trapos

pra alternarem a pelanca

do poder no Maranhão

– quarenta anos se vão

e a mula ainda é manca.

 

Pra ruminante Polícia

que fere pobre amarrado,

deixo a corda da Vitória

para que seja laçado

o ex-prefeito bufalino,

dos campos um assassino

protegido pelo Estado.

 

Acenei pro velho Judas

que não ama o chão natal

com 30 milhões de dólares,

mas na Cena Federal

o boicote é o seu hobby

para combater o pobre,

não a pobreza rural.

 

Deixo verbas desviadas

do projeto Salangô

para irrigar o Inferno,

onde faz muito calor.

A Lunus foi lá pra baixo,

já desviou um riacho

com bomba d’água e trator.

 

Agora posso plantar

e colher o meu conforto,

exportando breu e soja,

ferro e cruzes pelo Porto.

Se esperasse a ordinária

dessa tal Reforma Agrária

eu já estaria morto.

 

Lula riscou Severino,

mandou José pro sembal,

porém, vou botar a Branca

num Ministério legal,

nem que seja o do Barraco

pra chutar pau do sovaco

de aleijado em Carnaval.

 

Peço ao Fernando Bicudo

que devolva enquanto é cedo

a herança que roubou

do “Seu” Arthur Azevedo.

Com Lei não se faz beicinho,

porque senão o padrinho

não lhe dá outro brinquedo.

 

Para o Ministério Público

deixo empresas de valor:

Petra, Diamantina, Trasco,

Sercen, Beton e Primor.

L.J. é Trans-Parente

e a Ducol também tem gente

de um esperto Senador.

 

Jota-Jota me lembrou

nessa lista fantasmeira

para acrescentar no Sinfra

uma estrada pro Teixeira.

Guerreiro ainda habilita

Machado, Izidro, Mesquita,

Dominice e Bandeira.

 

Para Gasparzinho e Pluft

deixo a estrada rupestre

de Arame a Paulo Ramos,

onde a força extraterrestre

da EIT e Planor

fez milhões virarem pó

naquele Golpe de Mestre.

 

Vou deixar muitas estradas

cheias de borocotó

pros fantasmas desfilarem

arrastando o chamató.

Dominice vai na frente,

atrás, Lourival Parente

com a égua pocotó.

 

Pedirei ao Severino

que aumente o salário

do trabalhador que arrasta

a sua cruz de otário.

Nessa Câmara de Nero

come o alto e o baixo clero

o pão do nosso Calvário.

 

O Governo Federal

vai herdar um souvenir

que o Severino trouxe

do sertão do Cariri.

É um tal supositório

que meu compadre Gregório

chama de abacaxi.

 

A Jorge Sudam Hussein

deixo foro especial:

por causa da Usimar,

lá no Juízo Final

o seu couro utilitário

vai pro Pólo de Rosário

e bloco de Carnaval.

 

Para o Raimundo Louro,

ex-prefeito de Pedreiras,

deixo a minha Bolsa-Escola

e a fome prisioneira

para mostrar no Fantástico

em um saquinho de plástico

feito uma caranguejeira.

 

Pro Governo Zé Reinaldo

não continuar aflito,

eu vou deixar uma ponte

toda feita de palito

para atravessar inseto

sem cair feito concreto

no Estreito dos Mosquitos.

 

A foto de um Carcará

com sua cara-de-pau

vou colocar no projeto

contra fraude eleitoral.

Se eu fosse João Alberto,

com Zé Vieira por perto,

não votava em Bacabal.

 

Deixo aos nobres jornalistas

que o Sistema embalsama

uma procissão de asas

pra salvarem-se das chamas,

que a palavra é um abismo

cavado pelo cinismo

em seu Mirante de lama.

 

A velha Turma do Quinto

nenhum segredo nos trouxe:

seu enredo para o ano

é a Vale do Rio Doce.

“Do Itaqui pra todo mundo:

Vale festejar”, no fundo,

é puxar saco, e danou-se!

 

Preparei para a Favela

um kit contra acidente.

Atrás do seu trio elétrico

eu vou beber uma quente

pra não ver, desenganado,

o samba eletrocutado

por um júri impertinente.

 

A herança do Maurício

lá do “Boguedá” Café

são minhas luvas de boxe

pra ele fazer cafuné

em um músico golpista,

papagaio de artista,

que não respeita mulher.

 

Deixo pra Ópera Night

uma produção vendida

para Maria Vitória,

que será muito aplaudida

de fralda e mamadeira,

“arrasando” na primeira

apresentação da vida.

 

Fica para Márcio Jerry

o meu velho celular.

De Imperatriz a Brasília,

todos vão participar

da sua Rede de Intrigas:

toda vez que ele liga,

põe um besta pra falar.

 

Pra Joãozinho Ribeiro,

meu parceiro de água benta,

eu vou deixar a cachaça

“Recordação de 50”.

Cada dose é um comício

quando faz tributo ao vício

e novo projeto inventa.

 

Vou devolver os troféus

do Paraguai importado

pra Rádio Universidade,

já que vou ser enforcado.

Eu sei que Rose Ferreira

quis ver a minha caveira,

porque cheguei atrasado.

 

Deixo para Chico César

um jurará com ervilha

e o champanhe da humildade

que é pra tomar na bilha.

Entre pedras de responsa,

foi montado nessa onça

que Zeca voltou pra ilha.

 

Falei ao Príncipe Charles

que não posso lhe deixar

a calcinha de Faustina

se o IPHAN não liberar.

Por que é que a realeza

não fica só com a Duquesa

que a Cornualha lhe dá?

 

O castelo lá da FUNC

mais parece o Chantilly,

para receber dinheiro

ninguém mais pode subir.

Moisés Nobre foi barrado,

por quatrocentos soldados

e nem Cicarelli eu vi.

 

Por isso deixo a Veloso

o cachê do ano passado

das brincadeiras juninas

nas Eleições divulgado.

Prêmio só quem recebeu

foi o prefeito Tadeu

pela Gazeta ofertado.

 

Deixo a pomba da paz

para a dor-de-cotovelo

do Prêmio Carnavalesco

que já virou pesadelo.

Nesse Baile do Cabide,

Moraes cuspiu no Euclides,

que puxou o seu cabelo.

 

Quando ganhou o guindaste

da CVRD caído,

Escrete chamou e disse

pra enfermeira no ouvido

que aplicasse em seu bracinho

sangue novo de “bofinho”

pra se sentir possuído.

 

Deixo pra Seu Adalberto

uma vela pra queimar,

expulsou o Zé Maria

Quinta-Feira do seu bar,

porém, hoje ele confessa:

a Festa foi só promessa

que terminou de pagar.

 

Fabriquei para a Cemar

lamparinas do futuro

pra iluminar o Programa

que só tem deixado furo.

A gestão é um engodo,

desvia Luz para Todos

e deixa o pobre no escuro.

 

Para as crianças indígenas

no céu guarani-kaiowá

deixo o coração de pano

para que possam enxugar

a chuva que cai sem data,

sem teto, nem terra ou mata

– chuva, seu pranto no ar.

 

Em Mato Grosso do Sul

morrem de desnutrição

depois que o gado, a soja

e o madeireiro ladrão

destruíram sua casa.

Hoje a Funai e a Funasa

levam cestinhas de pão.

 

Vou pedir a Leonardo,

Bogéa e Cecílio Sá

pra convencerem São Pedro

a me permitir entrar

disfarçado de Noel

num barzinho lá do Céu,

onde Rui vai me cobrar.

 

Boto o dedo na ferida

e a Justiça tem que olhar,

porque João Leocádio

é a prova que um crime há

na sua própria impunidade,

então, que surja a verdade,

tem Buriti pra cobrar.

 

Se Brasil é um cinema

que vive de bang-bang,

deixo estes versos de luto

pra Irmã Dorothy Stang.

Nesse governo de Lula

a Reforma Agrária é nula

e também vive de sangue.

– FIM –

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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