SERENATA DOS AMORES

confira a programação logo após o belo texto abaixo

Por Norton F. Corrêa*

Por obra e graça deste menestrel de idéias, cantos, músicas, poesias (e magias?) que se chama Joãozinho Ribeiro, mais uma vez seremos brindados como uma serenata à moda antiga, no Desterro. Na primeira etapa a gente se reúne em algum local e de lá o grupo sai pelas ruas do bairro, cantando, tocando, parando em locais significativos, trilhando um roteiro sentimental e histórico que deságua no Terraço dos Amores, na frente da igreja. Lá nos espera um sofisticado cardápio artístico, com alimentos de alta sustância para o espírito. Mas quem, com justeza, não se descuida do corpo, pode contar com uma grande e sortida barraca de comidas típicas, não esquecendo o estoque de geladíssimas, que afinal ninguém é de ferro.

Indiscutível, não pode haver lugar mais adequado para serenatas, na cidade, do que o Desterro. São as suas construções seculares, a beleza nostálgica que emana de ruínas, modestas portas-e-janelas se acotovelando com sobradões vetustos, a mornidão lânguida da noite maranhense, o vento trazendo, sabe-se de onde, cheiros indistinguíveis que nos chegam entremeados com longínquos cantos de galo – além da gente humilde com cadeiras na calçada, como um dia viu o poeta. Cada vez que passo por ali, não tem jeito: embora nunca tenha recebido qualquer resposta, insisto em pedir silenciosamente àquelas construções centenárias que me contem pelo menos alguma coisa sobre seus antigos habitantes. Imagino dores e prazeres, alegrias e tristezas, pequenas e grandes coisas que compõem a tessitura do cotidiano. Há quem diga que de alguma maneira a presença das pessoas fica como que indelevelmente impressa nas coisas que usaram, nos lugares onde viveram.

Em noites de luar o bairro vira um campo de batalha – quem brilha mais? – entre os lampiões e a Lua. Os elegantes faróis metálicos, por serem muitos, sem dúvida são hegemônicos quanto a impor sua luz dourada ao ambiente. Mas a Lua se vinga, jogando na cara da concorrência o condão de ordenar que seus raios azul-prata, móveis e inconstantes, como ela, inventem sucessivamente novos esboços cambiantes de claro-escuro nos desvãos dos prédios. Daí, feixes miscigenados de luz espraiam-se pelos telhados, mexem nas cores dos azulejos, esgueiram-se por fachadas, aplicam novos matizes às pinturas de paredes e aberturas, chocam-se contra as pedras do calçamento, jogando cacos luminosos para todos os lados. Aqui e ali botam sombras fantasmagóricas nos beirais, criam ilusões de ótica ao complicar ainda mais a geometria caprichosa dos gradis e parapeitos de ferro. Na verdade, a dupla faz é brincar de artista, até que a desmancha-prazeres da aurora acabe com a diversão (mas de noite tem mais!, debocham).

No início estava a rua da Estrela. Quem puxa o canto é o vozeirão do Léo Capiba, logo escoltado por cascatas sonoras que fogem da flauta endiabrada do Zezé, do cavaquinho do Trabulsi, do sete cordas do Domingos, do pulsar macio do pandeiro do Lazico – todos estrelas de primeira grandeza da constelação musical da cidade. Velhas canções de outrora se alternam com modernas, do Vicente Celestino ao Chico Buarque. Surpresos pelo inusitado do acontecimento, moradores abrem janelas, saem à calçada, aplaudem e são aplaudidos pelos seresteiros.

Eu já participara de outras destas serenatas, mas naquela noite, sentia, havia algo a mais, estranho, que não consigo descrever. Era como se pairasse no ar uma espécie de aura, misteriosa, etérea, surreal, como um envoltório invisível flutuando à nossa volta. Quem sabe, o efeito conjunto dos sons dos instrumentos, vozes, ecos e revérberos nas velhas paredes, corpos, mentes, os sentimentos que fluíam de cada um de nós, tudo, tenha de alguma maneira entrado em consonância harmônica, digamos, com o ambiente que nos rodeava, sei lá. Mas havia algo, sim.

Adiante está um sobradão enorme, recém restaurado, belo e majestoso em sua grandeza e requintes arquitetônicos. Com a aproximação do cortejo, uma luz interna se acende e logo se apaga, janelas do pavimento superior se abrem desconfiadas, moradores debruçando-se nos parapeitos das janelas, ouvindo. Na porta de uma das sacadas surge uma moça, o comprido roupão branco drapejado por reflexos fugazes do ouro-prateado que banha a rua, o vento colando o tecido em suas curvas bem talhadas, fazendo-lhe esvoaçar os longos cabelos soltos. Imóvel, sorriso com um quê de enigmático, observa o cortejo, que pára e aplaude, seresteiros curvando-se e tirando galantemente os chapéus. Quando vê que seguiremos caminho, agradece com um leve aceno de cabeça e volta para dentro, seguida pelos demais.

Continuamos. Mais abaixo, à esquerda, surge a boca de uma ruelinha enladeirada, mal e mal passa um carro. Subimos. Alguns poucos metros mais, um mini largo, um beco estreitíssimo que leva não sei pra onde, uma esquina, uma quadra curta, outra esquina, outra ladeira. Subimos de novo. Andando, dobrando esquinas à direita e à esquerda, subindo, descendo, finalmente chegamos ao Terraço dos Amores.

Mais uns dias, lá passo eu de novo pela rua da Estrela – lógico, também um fiozinho de esperança de rever a bela do casarão. Vou devagar com o carro, procurando, mais à frente está a porta-e-janela azulejada vizinha ao prédio, lembro, a outra casinha, no lado aposto, mas onde o tal de casarão? De repente, percebo que ele está ali, exatamente onde sempre estivera. Mas o que o sol da manhã iluminava era uma semi-ruína, o portão de madeira pregado com tábuas, restos de janelas carcomidas nas aberturas em arco, a pintura esmaecida pelo tempo, a sacada da moça sem o balaústre. Completando o clima de abandono, franjas de trepadeiras verdes pendiam do telhado, deixando-se balançar preguiçosamente aos sopros vento.

Só então me dei conta de que minhas insistentes perguntas, porque, claro, pronunciadas numa noite mágica, tinham recebido enfim uma resposta.

*antropólogo, professor da UFMA



Confira a programação completa da última edição, em 2004, do Projeto Serenata dos Amores

DATA E HORA

18/12, sábado, às 20h30min (horário da concentração)

PONTO DE ENCONTRO

Em frente à Pousada Colonial (Rua Formosa)

ITINERÁRIO

Rua Formosa – Travessa da Lapa – Rua da Palma – Terraço dos Amores

PARADAS

Mirante da Lapa (ex-residência do poeta Joãozinho Ribeiro) –

Casa de Dona Diomar – Terraço dos Amores

ARTISTAS CONVIDADOS

Ângela Sollares e Augusto Pellegrini

PERFORMANCES

Sociedade Artística Beto Bittencourt

PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS

Costa Neto, Murilo Oliveira e Escola de Música Lilah Lisboa

HOMENAGEADOS

Dedé da Flor(*), Roberto Ricci, Mestre Antonio Vieira, D. Toinha e Zeca Curau

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

diga lá! não precisa concordar com o blogue. comentários grosseiros e/ou anônimos serão apagados

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s