Alguém já disse sobre Xico Sá: “homem de diversas conclusões numa só frase” ou algo parecido. Versátil, eu acrescentaria, e digo mais: escreve sobre o amor como ninguém. Do escriba de mancheia meio cearense, meio pernambucano, meio paulista – é tão fantástico que tem três metades – transcrevemos o abaixo, extraído d’O Carapuceiro.



No varal do sol da nega



Eu me abaixei e bebi aqueles pingos. Caiam lentamente com gosto de confusão e precipício



por Xico Sá



Foi lindo o dia em que a Cachorra pendurou a primeira calcinha na torneira do chuveiro lá do meu mocó-saló, pé-direito-baixo, quase ninho de cobra, réptil-fulô. Toda grande merda linda começa nesse ato. Pelo jeito que a calcinha fica pendurada a gente sabe se o amor vai ser fodido ou se apenas mais um que passa. A calcinha pingando lentos gerúndios sem “d”, como na minha terra, ino, fazeno, sentino, fodeno, morreno…

Eu me abaixei e bebi aqueles pingos. Caiam lentamente com gosto de confusão e precipício.

Sempre acho que a imagem da primeira calcinha pendurada equivale a bandeira que o primeiro homem a pisar a lua enfiou por lá. A terra amorosa por si mueve. É momento muito importante no Gênesis do amor. Ela também cantava, Fêmea-passarinho. Feliz sim. Nossos corpos não se entendiam, nossas almas nem sei. Ela pôs uma música daquele filme que faríamos depois…

Amores perros guardado nas gavetas, amores perros no varal do sol da nega, a desalmada quarando na espera, a desalmada e o marzão das nossas mágoas, a desalmada roendo as feridas, roupa velha no sabão de nossas pedras.

Envolvidos em delicada ruína cinzenta, como nos versos do alma sebosa, sebosa soul, Gregory Corso, começamos a nossa vida de cada um.

“Chinelos ossos-de-cisne conservam seus passos intactos; ela desliza suave por uma sala externa… despeja leite dormido para o gato dormido”. Ela dizia na janela, como se nunca fosse comigo.

Seus pés cada dia ficavam mais lindos.

O buraco lá embaixo.

O Japão dos encontros & desencontros do amor.

Ela sentou a bundinha morena na bacia de leite, do gato, como naquele Bataille. Subiu ao meu pau pingando.

Ela passeava na bicicleta dos meus óculos, lá em cima, na testa, sobre os aros.

O cachecol dela, colorido, voava por trás do pescoço ao vento.

Passeava nas rodas dos meus óculos e me deixava a esperar, cego.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

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