O BOM EXEMPLO DE PEDREIRAS

“toda vez que se agride a cultura de uma cidade, cravamos um punhal afiado no seu coração”

Joãozinho Ribeiro (*)

Foi com muita honra e satisfação que estive no último final de semana (29 e 30 de maio), contribuindo com a realização de um singular evento de relevante interesse para a cultura do nosso Estado como um todo. Refiro-me ao I Festival João do Vale de Música Popular em Pedreiras; uma louvável iniciativa do movimento cultural local, coordenado pelo incansável cantor, compositor e produtor cultural Paulo Pirata, que mereceu expressivas e sinceras manifestações de apoio da população do município e das demais cidades da vizinhança.

Em tempos de massacrante mediocridade cultural, onde uma onda de eventos da pior qualidade artística assola a imaginação e a inteligência dos habitantes da nossa Ilha, é bastante gratificante nos depararmos com decentes exemplos de valorização da produção dos artistas maranhenses, ainda que sejam isolados e tratados com desprezo e arrogância pelos cegos e ignorantes Chefes do Poder Executivo Municipal, que não conseguem perceber que toda vez que a Cultura local é maltratada pelos seus insanos atos, é o coração da cidade que acaba sendo dilacerado.

Não foi diferente na princesa do Mearim. Apesar do quixotesco esforço dos artistas locais, e da grande expectativa gerada na cidade pelo acontecimento, o atual prefeito, Raimundo Louro, presenteou a todos com uma atitude impregnada de tanto autoritarismo, que nem mesmo o nome do poeta João do Vale foi poupado da truculência de sua brutalizada “Excelência”.

O Festival do João, orçado inicialmente em 10 mil reais, tinha tudo para servir de um bom exemplo de parceria estabelecida entre a Prefeitura de Pedreiras e o movimento cultural da cidade; merecedor de ampla divulgação em todo Estado, com direito a um site na internet, cobertura de rádio, jornal e tv, além da premiação de 7 mil reais aos primeiros colocados nas categorias de melhor música e melhor intérprete. Por assumir tal importância, o evento foi integrado ao Plano de Ação da FUP – Fundação Pedreirense de Cultura, principal beneficiária das peças publicitárias.

Às vésperas de sua realização, esta verba foi, inexplicavelmente, reduzida para 7 e 4 mil reais, respectivamente, sendo finalmente descartado, em caráter irrevogável pelo prefeito, o repasse de qualquer centavo. O infame motivo alegado pela autoridade maior do município foi que o evento estava sendo organizado por pessoas que eram “contra ele”. Isso tudo, quando grande parte dos artistas concorrentes oriundos de outras localidades já se encontravam presentes na cidade e todos os serviços de infraestrutura devidamente contratados: sonorização, músicos acompanhantes, transporte, alimentação, divulgação, hospedagem, etc.

Felizmente uma rede poderosa de solidariedade e apoio à comissão organizadora foi constituída, juntando personalidades dos mais diferentes credos políticos e culturais: dos prefeitos das cidades de Caxias e Trizidela do Vale ao pré-candidato do PT à Prefeitura de Pedreiras; dos artistas convidados (Joãozinho Ribeiro, Daffé, Rogério du Maranhão, Nato Silva, Luís Carlos Dias) aos poetas, compositores, componentes da banda e intérpretes locais; dos proprietários dos estabelecimentos comerciais mais modestos àqueles de considerável porte econômico. Neste ponto, merece destaque o importante papel assumido pelo Presidente da Câmara Municipal de Pedreiras, Alan Roberto, responsável, juntamente com a comissão organizadora do Festival, pelas oportunas articulações que evitaram que o I Festival João do Vale de Música Popular se transformasse num tremendo fracasso. O numeroso público que lotou o aconchegante espaço da praça Correia de Araújo durante os dois dias do evento foi quem deu a resposta mais democrática e civilizada aos inesperados desmandos do prefeito Raimundo Louro.

A Cidade ganhou e o arbítrio perdeu. Ganharam os artistas, os cidadãos decentes, a comissão organizadora e o movimento cultural pedreirense, que sai deste episódio bastante fortalecido e credenciado para desenvolver outras ações culturais em prol desta respeitável comunidade do Mearim.

De resto: merecidos aplausos para os premiados e para todos que, mesmo sem premiação, contribuíram com suas presenças e talentos para o sucesso deste memorável evento. Para as atuais autoridades municipais, e para todos os que postulam, este ano, vagas de prefeito e vereadores em nossas cidades, sugiro uma acurada leitura das recomendações expressas no documento “Carta de Pedreiras pela Cultura”, aprovado por aclamação em praça pública pelos participantes do I Festival João do Vale de Música Popular em Pedreiras, a ser brevemente divulgado em todo o Maranhão.

“Carcará, lá no sertão…”

(*) poeta/compositor, presidente da Comissão Julgadora do I Festival João do Vale de Música Popular/2004

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

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