O beijo no asfalto terá exibição hoje em São Luís

Adaptação de Nelson Rodrigues, filme marca estreia de Murilo Benício como diretor. Sessão abre festival Maranhão na Tela

Lázaro Ramos em cena de O beijo no asfalto. Frame. Reprodução

Ator consagrado, Murilo Benício estreia na direção com O beijo no asfalto [Brasil, drama, 2017, 101 minutos; classificação indicativa: 12 anos], adaptação – de que assina o roteiro – da peça de Nelson Rodrigues. Filmado em preto e branco, a opção do diretor não esbarra no óbvio, contrariando quem eventualmente pensar na escolha como uma busca das facilidades ao refazer um texto consagrado. Ao contrário, o diretor parece guiar-se justamente por essa preocupação: o que pode ainda atrair espectadores em um texto tantas vezes adaptado e encenado?

Para começar, Murilo Benício cerca-se de grandes nomes – Lázaro Ramos (Arandir), Débora Falabella (Selminha), Luiza Tiso (Dália), Otávio Muller (Amado Ribeiro), Stênio Garcia (o sogro de Arandir) e Fernanda Montenegro, entre outros – da televisão, do cinema e do teatro, e nos apresenta um filme, de atmosfera noir (a fotografia é de Walter Carvalho), híbrido dessas linguagens, no caso do cinema transitando com desenvoltura entre a ficção, o documentário e o making of.

Todo o grupo de atores está sentado ao redor de uma mesa, repassando o texto, a que são acrescidos comentários, sobre a grandeza rodrigueana, a hipocrisia social reinante desde sempre ou a monumentalidade de outros atores e atrizes que já encarnaram os papéis naquela peça – o próprio diretor aparece, sentado e discreto. O filme mescla esse ambiente de ensaio com bastidores de teatro e de set, com câmeras, microfones boom e outros equipamentos dividindo a cena com o dream team da dramaturgia de Nelson Rodrigues repaginada por Murilo Benício.

O enredo é por demais conhecido: um homem (Arandir), na Praça da Bandeira carioca, vê outro ser atropelado por um lotação e atende seu último desejo: um beijo na boca, visto por toda sorte de transeuntes, entre homens comuns, meros curiosos, e um jornalista inescrupuloso (Amado) que ganha a vida com o sensacionalismo nosso de cada dia. A partir daí este homem tem a vida devassada, num conluio entre a mídia, a polícia e a sociedade conservadora.

Qualquer semelhança entre a ficção sessentista de Nelson Rodrigues e a realidade brasileira de 2018 não é mera coincidência. A adaptação de Murilo Benício coloca em debate temas infelizmente ainda bastante atuais: a homofobia, a manipulação das pessoas por meios de comunicação (ou por redes sociais, em nossos tristes tempos) e um sentimento de culpa baseado em uma moral cristã. “Nelson Rodrigues tem um teatro da culpa; embora em busca de redenção, mas esta se dá pela culpa”, afirma categoricamente Fernanda Montenegro – que afinal de contas, era a Selminha da montagem original e aqui aparece como dona Matilde, uma vizinha fofoqueira.

Outra fala da atriz nos traz à triste realidade: passado tanto tempo, o Brasil segue atrasado em matéria de “moral e bons costumes”, no que imagino que a opção de Benício pelo preto e branco, mais que estética, seja também um modo de dizer: de nada adiantaram as cores e a tecnologia se um texto que se passa em 1960 pode ser encenado como atual no Brasil em pleno 2018.

Serviço

O beijo no asfalto será exibido hoje (15), às 20h, no Kinoplex (Golden Shopping, Calhau), na sessão de abertura do 11º. Festival Maranhão na Tela, com a presença do diretor Murilo Benício. A sessão é gratuita e aberta ao público, como toda a programação do festival.

Convergência em T

Meu corpo é politico. Cartaz. Reprodução

Quatro histórias se cruzam em Meu corpo é político [drama/documentário, Brasil, 2017, 71 minutos], documentário da diretora paulista Alice Riff. As personagens fogem ao padrão heteronormativo vigente e o grande trunfo do filme reside em revelar-lhes em ações cotidianas. O quarteto mora em distintas periferias da cidade de São Paulo.

A câmera-corpo acompanha-as no dia a dia: um operador de telemarketing, uma professora ocupando o cargo de direção de uma escola, uma jovem fotógrafa que coloca sua arte a favor da militância pelos direitos de transexuais e uma artista do funk idem.

Meu corpo é político é didático sem ser panfletário. É um mergulho ousado na temática, a apontar questionamentos que deveriam ser feitos por cada um de nós, diante de tema (relativamente) novo, pouco abordado, ao menos com a devida responsabilidade, sobretudo por (grande) parte da mídia.

O olhar sensível de Alice Riff passa a merecer ainda mais respeito justamente por ela tê-lo devotado a seu próprio mergulho no universo dos Ts da sigla LGBTQI+: sendo mulher cisgênero (e aqui o resenhista não foge ao lugar comum de enquadrar seres humanos no binarismo que rege/ia a identidade de gênero), ela consegue contar, com louvor, as histórias a que se propõe.

O roteiro é bem urdido, entremeando as vidas de Fernando Ribeiro, Paula Beatriz, Giu Nonato e Linn da Quebrada, que além de protagonistas, assinam o roteiro do filme com Alice Riff.

Se todo corpo é político, o corpo de um/a transgênero o é ainda mais, vivendo em estado permanente de ameaça, e na iminência de toda forma de violência. Existir é político: resistir se faz necessário.

Em uma época em que um presidente recém-eleito ameaça toda sorte de cotas e de censura o mais importante mecanismo de acesso ao ensino superior do país, o filme de Alice Riff é peça fundamental na re/educação da sociedade, ou ao menos da parcela ainda disposta a abrir a mente.

Selecionado pelo mais recente edital do Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro (Prodav), que garante a produção de conteúdo audiovisual para a veiculação em emissoras públicas, uma versão estendida de Meu corpo é político foi exibida ontem (12), no Cine Teatro Aldo Leite (Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão – DAC/UFMA, Canto da Viração, Centro), na mostra Corpos Elétricos, que integra a programação da 13ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, do Sesc/MA.

A sessão foi seguida de debate com a diretora, a atriz Áurea Maranhão e o técnico em cultura do Sesc/MA Fábio Azevedo. A programação continua daqui a pouco, com Uma mulher fantástica [drama, 2017, direção: Sebátian Lelio, duração: 104 minutos; classificação indicativa: 14 anos], às 16h, e Corpo elétrico [drama, 2017, Marcelo Caetano, 94 minutos, 16 anos], às 18h. As sessões têm entrada franca.

Veja o trailer de Meu corpo é político:

O gigante Wander Piroli

Foto: Fernando Rabelo

 

Dois poderosos cartões de visita abrem Wander Piroli: uma manada de búfalos dentro do peito [Conceito Editorial, 2018, 256 p.], perfil biográfico do escritor mineiro assinado pelo jornalista e poeta conterrâneo Fabrício Marques, terceiro volume da coleção Beagá Perfis: o primeiro, uma foto do biografado engraxando os sapatos (esta que abre este post); o segundo, uma coleção de frases que ele deixou organizada em um livro inédito, de entrevistas, Todo amor é marginal – de onde sai, inclusive, o subtítulo do presente volume.

Wander Piroli: uma manada de búfalos dentro do peito. Capa. Reprodução

A grandeza desta biografia reside justamente em dar conta da dimensão humana do escritor, para quem a literatura (e o jornalismo) se confundia/m com a própria vida. “Tenho vergonha de ficar triste, porque a vida me ofereceu coisas demais”, diz outra frase, que vem a intitular a orelha, assinada pelo contemporâneo Ignácio de Loyola Brandão.

Fabrício Marques escreve uma espécie de “Wander Piroli por ele mesmo”, dando voz ao próprio biografado, através de depoimentos deixados, entrevistas e principalmente através de sua atuação, sobretudo no campo jornalístico, em Belo Horizonte, enriquecido e endossado por depoimentos de quem conviveu com o autor de O menino e o pinto do menino, entre redações, botequins e as então incipientes tertúlias literárias Brasil afora. “E lá ia eu com essa cara de cachaceiro falar de literatura infantil”, disse Piroli certa vez, ele, autor diverso, que conversava com os adultos mesmo em suas obras infantis.

O livro é recheado de preciosas lições a jornalistas que, se seguidas à risca, poderiam representar algum novo fôlego ao agonizante ofício no Brasil – sobretudo em tempos de fake news. Piroli foi grande mesmo fazendo jornalismo policial, editoria em geral alçada à segunda categoria: nunca se contentou com o que estava registrado nos famigerados boletins de ocorrência. “Fulano matou? Matou. Por quê? Sempre tem um porquê. Precisamos ir atrás dos porquês”, aconselhava colegas e focas. Foi professor de jornalismo sem nunca ter estudado para exercer a profissão para a qual pareceu ter nascido talhado: as primeiras faculdades de jornalismo estavam começando no Brasil quando ele se iniciava entre as máquinas de escrever, oficinas gráficas e seu discreto garrafão de cinco litros de pinga sob a mesa.

“Alguns autores estão presos à página impressa. Estou preso à página viva, que é a rua”, disse em entrevista ao jornalista Aramis Milarch, em 1979, sobre a matéria-prima de sua obra, literária ou jornalística. Essa busca incessante por histórias e personagens, a ele tão fundamental quanto respirar, beber ou fumar, foi um dos fatores que o tornou um gigante.

Piroli nunca saiu de Minas Gerais – a não ser em viagens curtas para um evento aqui, outro acolá – e a Lagoinha, bairro da capital mineira, é personagem constante em sua obra, mas isto está longe de enquadrá-lo como provinciano: a qualidade de sua obra é indiscutível e não são poucos os depoimentos a colocá-lo ao lado de nomes como Hemingway, Tchecov e Kafka, para ficarmos em uns poucos.

“[Charles] Bukowski e [John] Fante têm é de lamber frieira do Wander Piroli”, disse o escritor Joca Reiners Terron ao jornalista Jotabê Medeiros, em 2011 – ambos figuram na vasta galeria de depoentes à obra do jornalista, poeta e escritor Fabrício Marques, que equilibra seus ofícios na construção de um texto que deixa transparecer a enormidade (a eternidade e a atualidade) de Piroli – para além da aparência física –, autor infelizmente ainda menos conhecido do que deveria, apesar de sucessivas reedições de sua obra, cujos direitos atualmente pertencem à editora Sesi-SP, que já publicou alguns dos 18 inéditos deixados pelo escritor, falecido em 2006.

Um teatro na contramão

 

Fotos: Ascom/Sesc/MA

Alvíssaras! Em concorrida solenidade o Sesc inaugurou ontem (7) o mais novo equipamento cultural de São Luís, como apregoou a campanha publicitária pendurada em outdoors e traseiras de ônibus: o Teatro Sesc Napoleão Ewerton, localizado no Condomínio Fecomércio/Sesc/Senac (Av. dos Holandeses).

Mais importante ainda: sua completa acessibilidade. Um bom percentual dos 245 lugares do teatro é reservada a pessoas obesas e há oito espaços para cadeiras de rodas, rampas de acesso, piso tátil e banheiro adaptado. Tudo o que foi apresentado ontem contou com tradução simultânea em libras e audiodescrição: das falas das autoridades do assim chamado Sistema S às apresentações musicais da Orquestra Filarmônica Sesc Musicar e da cantora Flávia Bittencourt – que, acompanhada do músico Carlos André (sanfona e bases eletrônicas), apresentou uma espécie de redução de Eletrobatuque, show que lançará em dvd em breve –, às intervenções teatrais, que homenagearam o falecido ex-presidente da Fecomércio que batiza o lugar e nomes como a atriz Apolônia Pinto e a escritora Maria Firmina dos Reis, entre outros.

Entre as autoridades presentes, os secretários municipais Marlon Botão (Cultura) e Socorro Araújo (Turismo) somaram-se a representantes da classe artística maranhense e servidores do Sesc – sobretudo de seu Departamento de Cultura – para prestigiar a inauguração, numa demonstração da importância que tem o Serviço Social do Comércio no fazer cultural do Brasil, configurando-se no mais importante organismo não estatal do país na área. Não à toa é comum ouvirmos referências ao Sesc de São Paulo, por exemplo, capitaneado pelo gigante Danilo Santos de Miranda, como uma espécie de “ministério da Cultura paralelo”.

“A Cultura no Sesc se caracteriza como ferramenta democrática de difusão de conhecimento possibilitando a educação transformadora da sociedade, por meio de projetos e ações voltados para as áreas de biblioteca, música, dança, teatro, circo, audiovisual, artes visuais e literatura objetivando a formação de seus diversos públicos”, diz um trecho da Apresentação, em folder distribuído aos presentes, ontem.

Há muito para se comemorar com a inauguração do Teatro Sesc Napoleão Ewerton, em São Luís. Inclusive pelo momento em que acontece, quando as ações culturais empreendidas pelo Sesc estão sob ameaça do governo federal recém-eleito – que nutre pouco ou nenhum apreço por diversas palavras(-chave) do parágrafo anterior –, sobre o que o próprio Miranda se manifestou em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.

Só os projetos institucionais da entidade certamente já garantiriam ocupação qualificada do espaço inaugurado ontem, mas a pauta será aberta a agentes culturais em geral, observando-se os princípios que regem as ações do Sesc: atendimento a seu público prioritário (trabalhadores dos setores de comércio, serviços e turismo), mas não só, gratuidade ou ingressos a preços populares, entre outros.

Por falar em programação, ela já começa intensa: amanhã (9), às 18h30 a Klinger Trindade Cia./AM apresenta o espetáculo Pneumático [classificação indicativa: livre; duração: 60 minutos]; dia 10 (sábado), às 16h30, a Companhia Cambalhotas apresenta Os Saltimbancos [livre; 60 minutos], esta última integrando a programação da 13ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes.

Algo a ser comemorado não apenas por São Luís e seus artistas, que ganham um novo espaço, na contramão do que se desenha para o Brasil, com a dilapidação de instituições – o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro e a ventilada extinção do Ministério da Cultura, para ficarmos em apenas dois exemplos –, a inauguração do Teatro Sesc Napoleão Ewerton reafirma a importância e dá a real dimensão do quão imprescindível é o Sesc para a cultura brasileira.

Crônica de feira

Retrato: Zema Ribeiro

 

Peço quentinhas de bisteca e pescada, fritas na hora. Como demoraria alguns minutos, resolvo pedir uma cerveja. Minto: havia vários restaurantes no entorno, inclusive a quilo, em que eu me serviria mais rapidamente, mas resolvo adentrar a tradicional Feira da Praia Grande com o intuito de uma transgressora cerveja em plena quinta-feira antes do meio-dia.

Quando me serve a cerveja, Roxinha, apontando para o padrão “véu de noiva”, diz: “essa aqui resolve todos os problemas. Eu quando tomo uma assim vou nos Estados Unidos e volto no Iraque”, certamente referindo-se aos sabores da embriaguez e ressaca. “É de uma dessas que estou precisando”, penso. “A senhora gosta?”, indago e ela ri. “Não quer tomar um copinho?”, ofereço. “Rapaz”, ela diz e se interrompe, sem aceitar, como se a resposta fosse “não bebo durante o expediente”.

As frituras continuam chiando no interior do restaurante e ela liga a tevê. Uma reportagem dá conta de acidentes causados por mangas em Balsas: as frutas caem das mangueiras e esmagadas por pneus transformam-se numa lama viscosa, levando motoqueiros e ciclistas a derrapagens, pelo menos foi o que eu entendi sem prestar muita atenção, um olho no celular, outro no gibi do Tex.

“Com farinha é bom demais”, comenta Maria Ferreira, a Roxinha. “Manga e jaca mole”, complementa. “Eu saí do interior, mas o interior não saiu de mim”, confessa, revelando a saudade de Brejo, sua cidade natal, a 313 km da capital, onde passa até três anos sem ir.

Finalmente ela me serve os bandecos em uma sacola. Agradeço e digo que vou apenas terminar a cerveja. “Fique à vontade”, ela recomenda, sentando-se para terminar de ver o telejornal.

“Posso tirar um retrato seu?”, peço permissão. “Claro!”. Aponto o celular e fotografo Roxinha – com o contrabaixista Nema Antunes (conversando com o também contrabaixista Mauro Sérgio, encoberto por ela) ao fundo. Mostro-lhe o resultado: “ficou bom?”, pergunto. “Ficou, escritinho uma mucura”, ri de si mesma. E completa: “a gente tem que brincar. Depois que cai duro não dá mais”.

Amado para sempre

O cineasta Orson Welles em ação. Netflix. Reprodução

 

Orson Welles (1915-1985) foi, como ele mesmo admitia, vítima de uma espécie de maldição, causada por sua própria genialidade: aos 25 anos lançou Cidadão Kane [Citizen Kane, 1941, 119 minutos], considerado por muitos o melhor filme da história do cinema em todos os tempos. Até o fim da vida, sempre que lançava um novo filme, as expectativas em torno eram acrescidas da inevitável comparação com sua obra-prima ou pela ansiedade em torno da superação do cineasta por si próprio. Qualquer outro realizador, americano ou não, poderia também ser considerado genial (muitos deles merecidamente) sem ter precisado fazer um Cidadão Kane, portanto livres de cobranças do gênero.

O outro lado do vento [The other side of the Wind, 2018, 122 minutos] joga luzes sobre esta espécie de maldição: filme de montador (Bob Murawski), o inédito deixado por Orson Welles acaba de ser lançado pela Netflix. Metacinema, cinema sobre cinema, cinema para cineastas, cinema para cinéfilos, seu fã-clube, nada desprezível, comemora. Fragmentário, entrecortado. Uma sátira cinematográfica, uma contundente crítica à indústria cinematográfica, mas também um comovente tributo à sétima arte – sua polifonia impressiona. Cinema, simplesmente.

Ao mesmo tempo a plataforma disponibiliza também Serei amado quando morrer [They’ll love me when I’m dead, 2018, 98 minutos], dirigido por Morgan Neville, documentário sobre a feitura de O outro lado do vento, este, sobretudo, uma aula de cinema. Aliás, ambos são verdadeiras aulas de cinema: a mensagem final de O outro lado do vento é certeira: “filmem tudo, filmem até morrer”, recomenda o diretor, antes que as pessoas deixassem de ver espetáculos com os próprios olhos para vê-los através das telas de seus smartphones – certamente não era disso que falava, mas como todo grande artista era também um visionário.

Mas estará enganado quem pensar que Serei amado quando morrer é mero making of, manual de instruções, chave de leitura ou “os extras do dvd” de O outro lado do vento: o documentário ajuda a entender a figura plural (em todos os sentidos) de Orson Welles.

O outro lado do vento é uma espécie de cinebiografia de um alter ego de Welles, um obcecado por cinema, que apesar da grandeza, nem sempre teve vida fácil para realizar este ou aquele projeto – palavrinha surrada hoje em dia –, um dos motivos pelos quais acabaria se “exilando” de Hollywood. Com trilha de Michel Legrand, o filme é cheio de referências cinematográficas e literárias (sobretudo Ernest Hemingway) e tem uma das mais bem feitas cenas de sexo da história do cinema.

Orson Welles escreveu e dirigiu O outro lado do vento ainda nos anos 1970 e nele trabalhou até morrer. Falta de financiamento, batalha judicial, mais de 100 horas de material bruto filmado, inúmeras anotações e diretrizes compõem a saga do lendário filme inacabado do cineasta. Mais de três décadas depois sua genialidade é posta à prova. O par de filmes prova que ele segue merecedor do epíteto.

A poesia parou o trânsito

Clima de poesia, tempo de poesia. Fotos: Adriana Gama de Araújo

 

Às vezes me demoro mais do que gostaria para escrever (sobre) algo. Às vezes simplesmente não escrevo, embora o texto passe dias me fermentando o juízo.

Cá estou, tardiamente, escrevendo sobre a reinauguração do Poeme-se, o sebo de José Ribamar Silva Filho, vulgo Riba do Poeme-se, que havia deixado a Rua João Gualberto, na Praia Grande, onde o conheci ainda na adolescência, para funcionar apenas virtualmente – Riba estava vendendo livros, cds, dvds, gibis etc. apenas pela internet, mas como bom homem de vícios antigos não resistiu à saudade de abrir as portas físicas de sua casa. Literalmente.

Sorte a nossa.

Riba agora atende na Rua de Santo Antonio, na quadra entre Sete de Setembro e 13 de Maio, a mesma da CUT (Central Única dos Trabalhadores), em frente à Praça Antonio Lobo, onde fica a recém-reformada Igreja de Santo Antonio, onde acontece um dos mais tradicionais arraiais da capital.

Mas tergiverso.

Ao lado do Papiros do Egito, da saudosa Moema de Castro Alvim, em L na Sete de Setembro a partir do Poeme-se de agora, estes foram os dois sebos mais importantes em minha formação de leitor, comprador compulsivo de livros, rato de sebo, enfim.

A noite de re/abertura do Poeme-se foi bonita. Por que não dizer: mágica. O dj Pedrinho Dreadlock comandou o som, que silenciava a cada rodada de poesia, dita sem amplificação, sob a lua que se somava às lâmpadas dos postes para iluminar os versos lidos em livros ou telas de celular. Uns se postavam de frente para a igreja; outros para o vale na contramão que vai dar na Rua do Egito.

Teria sido aniversário de Carlos Drummond de Andrade, 31 de outubro. Era aniversário de Carlos Drummond de Andrade: poetas não morrem. Ele foi um dos lembrados no recital. Ele, Roberto Piva, Waly Salomão, Paulo Leminski, Alen Ginsberg, Fabrício Corsaletti, Ferreira Gullar e tantos outros que minha preguiça de repórter vadio – que estava ali para rever amigos, bater papo, ouvir poesia, comentar política (impossível não fazê-lo nestes tristes tempos!) e beber – impediu de anotar.

Adriana Gama de Araújo inaugurou a noite lembrando Ginsberg – uma das organizadoras do sarau, ela me revelou a ideia de realizá-lo mensalmente, oxalá! Celso Borges lembrou Piva e Waly. O veterinário e inveterado colecionador de vinis Otávio Costa perdeu a timidez e mandou um Leminski, para minha surpresa (não pela escolha do poeta ou do poema). Márcio Vasconcelos, que fez um livro de fotografias baseado no Poema sujo de Gullar lembrou a importância e a necessidade do saudoso conterrâneo. Uimar Jr. lembrou Nauro Machado e Franck Santos mandou o vivíssimo Corsaletti. E tantos outros.

Riba, o anfitrião, esquivou-se de dizer algo, ao ser convidado por CB, agitador poético fundamental. Outros livreiros de uma espécie de triângulo literário do centro da capital estavam por lá: os indispensáveis Arteiro e Riba (o outro, apelidado Riba Careca, da Feira da Tralha) – este “corredor” sebístico, aliás, merece atenção (Homem de vícios antigos voltará ao tema).

“Esta máquina mata fascistas”, pregou em seu violão o bardo americano Woody Guthrie, “professor” de Bob Dylan. “Poesia mata fascistas”, lemos aqui e ali, sobretudo no triste momento político vivido no Brasil. A rua do Riba não foi interditada na altura de seu sebo, sua casa. Os poetas recitavam no meio da rua e foi louvável a postura da maioria absoluta dos motoristas, que preferiu aumentar o trajeto a interromper o curso dos poemas.

Radiografia de um gênio

Raphael Rabello: o violão em erupção. Capa. Reprodução

 

​Logo nas primeiras páginas de Raphael Rabello: o violão em erupção [2018, Editora 34, 349 p.; R$ 64], o jornalista Lucas Nobile adverte: desista o leitor em busca das ​​tragédias pessoais do artista de vida curta e obra extensa. É um livro mais sobre a obra que sobre o personagem.

Cavaquinista diletante, Nobile escreveu a biografia do mais importante violonista de sua geração, falecido aos apenas 32 anos de idade após deixar como legado a participação em mais de 600 faixas em discos de artistas de todos os espectros da música popular brasileira.

Precoce, Raphael Rabello (1962-1995) encantou a família ainda na infância ao executar, para a surpresa dos parentes, o Brejeiro de Ernesto Nazareth. Dali para encantar o mundo, literalmente, não demorou: aos 13 anos fez sua primeira gravação em disco, um compacto da cantora Gisa Nogueira, em 1976, iniciando então sua profícua trajetória profissional.

Revolucionário, reinventou várias vezes o violão. Migrou do de seis para o de sete cordas e tornou este protagonista: de instrumento de acompanhamento a solista, escrevendo seu nome em capas de discos de artistas, colocando o violão em pé de igualdade a vozes como as de Elizeth Cardoso, Ney Matogrosso e Nelson Gonçalves. E pé de igualdade aqui não é força de expressão: Raphael Rabello não era o tipo de músico que buscava aparecer mais do que deveria, com firulas desnecessárias. Colocava-se na medida do que este ou aquele trabalho exigia, como o faz Nobile ao reconstituir essa trajetória em texto – o livro tem patrocínio do programa Rumos Itaú Cultural e é também fartamente ilustrado por imagens de acervos diversos, além de relacionar todos os discos em que Raphael Rabello tocou, entre solos, grupos, como músico acompanhante e póstumos.

Membro dOs Carioquinhas (nome dado pelo jornalista Sérgio Cabral, o pai, não o corrupto), embrião da Camerata Carioca, grupo responsável pela revalorização e, por que não dizer, revitalização do Choro, em meados da década de 1970 e início da de 80, Raphael Rabello já nasceu pronto, como a ele se referiram vários professores (que se tornaram amigos), entre os quais Jayme Florence, o Meira (que também ensinou ninguém menos que Baden Powell) e Radamés Gnattali, cuja diferença de 56 anos era literalmente zerada na música.

Da esquerda para a direita: Turíbio Santos, Raphael Rabello, João Pedro Borges e Jonas, em imagem que figura no livro. Acervo Raphael Rabello

A parceria e amizade com os maranhenses Turíbio Santos e João Pedro Borges, com quem, como integrante do conjunto Choros do Brasil, gravou os discos Choros do Brasil (1977) e Valsas e Choros (1979), também está lá, devidamente registrada pela pesquisa acurada de Nobile – apoiada em mais de 130 entrevistas –, que maneja a prosa fazendo grande reportagem: dá à biografia o status de jornalismo (em vez de tentar romancear, como fazem alguns biógrafos) e a este o de grande literatura.

O conhecimento musical do autor, que além de músico diletante atua na grande imprensa como repórter e crítico, permite a análise mais apurada de determinadas gravações e discos do biografado, no que o caráter crítico do texto biográfico aproxima Raphael Rabello: o violão em erupção de Belchior: apenas um rapaz latino-americano [Todavia, 2017], de Jotabê Medeiros.

A relação de Lucas Nobile com a obra de Raphael Rabello não é recente: desde que ouviu o antológico Mistura e manda (1983), de Paulo Moura, em que Rabello figura na ficha técnica, ao violão sete cordas, o autor, picado pelo vício antigo de fuçar fichas técnicas e encartes, passou, por hobby, a colecionar discos em que o músico toca. Como ele também confessa no início do livro – que tem prefácio de Zuza Homem de Mello, autoridade em música (brasileira ou não, popular ou não) e orelha de Edson Natale, gerente de música do Itaú Cultural –, a brincadeira ficou séria quando, em 2012, ao escrever uma reportagem para a Folha de S. Paulo sobre os 50 anos que o violonista completaria, percebeu o quanto era escassa a bibliografia sobre o gênio. A lacuna está devidamente preenchida.

O poder do samba

Saved by the drums. Capa. Reprodução

 

No antológico Samba da bênção, Vinicius de Moraes dizia ser “o branco de alma mais preta” do Brasil, reafirmando ali o seu compromisso com a valorização da cultura negra do país, sobretudo os afrossambas, desenvolvidos em parceria com o violonista Baden Powell.

O francês (de Nancy) Stéphane San Juan parece ser, musicalmente, hoje, o gringo mais brasileiro, o que se traduz (mais uma vez) logo na faixa de abertura de Saved by the drums (salvo pelos tambores, em tradução livre), seu segundo disco solo: Elegua é introduzida por berimbau e deixa clara a influência dos terreiros na música de San Juan (sobrenome que também tem tradução brasileiríssima).

San Juan é baterista da Orquestra Imperial, supergrupo surgido do encontro de cantores, compositores e instrumentistas de vertentes, gerações (e nacionalidades, no caso do baterista) distintas, a valorizar a brasilidade sonora para muito além do carnaval, no que são especialistas.

Foi na big band carioca que San Juan conheceu o baterista Wilson das Neves (1936-2017), a quem chama carinhosamente de “pai espiritual” e a quem dedica Saved by the drums. O baterista reconhece no saudoso amigo “a pessoa que me encorajou a aprofundar não apenas a minha paixão pela música brasileira, mas especialmente meu trabalho criativo como compositor”, como afirma no material de divulgação de seu novo disco. O lendário ritmista do Império Serrano, que tocou com Chico Buarque por mais de três décadas, se referia a San Juan como “o francês mais brasileiro que eu conheci”.

Saved by the drums é um amálgama jazzístico brasileiro (embora majoritariamente cantado em francês) que reúne, ao longo de suas oito faixas (em formato digital; no vinil são apenas seis), nada menos que 15 músicos, incluindo o autor e o homenageado Wilson das Neves, que emprestou sua voz à parte em português de Le jour ou descendra la favela et que ce ne sera pas le carnaval, versão em francês para sua O dia em que o morro descer e não for carnaval (parceria com Paulo César Pinheiro, que aprovou a versão, que mantém a força da mensagem política da letra).

Entre outros músicos que comparecem estão Alberto Continentino (contrabaixo em Elegua e no afrossamba e metasamba A voz que não se cala), Armando Marçal (percussão em Le jour ou descendra la favela et que ce ne sera pas le carnaval), Guto Wirtti (contrabaixo em Mon papa etait là, homenagem a Fernand San Juan (1949-2012), pai de Stéphane, e Notre histoire), Michael Leonhart (trompete), Rogê (voz e violão em A voz que não se cala, parceria dos dois), Zé Manoel (voz e wurlitzer em Notre histoire) e Zéro (voz e percussão em Elegua), alguns dos quais seus colegas de Orquestra Imperial.

Entre a Orquestra Imperial, Système de Son (2014), seu disco solo de estreia, e álbuns de nomes como Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes, Caetano Veloso, Jorge Mautner, Maria Gadú, Mariana Aydar, Péricles Cavalcanti, Thaís Gulin, Thiago Pethit, Tulipa Ruiz, Vanessa da Mata e Zélia Duncan, Stéphane San Juan já havia dado provas de que aprendeu a lição brasileira. Wilson das Neves certamente está lisonjeado com a comovente homenagem.

2019, uma microfábula distópica

Ilustração: Paulo Stocker. Reprodução

 

Os índices de acidentes de trânsito nas cidades cresceram assustadoramente, apesar de o fato não preocupar os governantes. Os semáforos operam apenas com as cores verde e amarelo, já que o vermelho foi proibido pelo decreto presidencial número 1.

Um setor do comércio severamente atingido por uma crise inédita e nunca imaginada foi o das floriculturas: com a proibição do vermelho, rosas deixaram de ser cultivadas e vendidas. Símbolos do amor e da paixão desde sempre, casais tiveram que reinventar o jogo da conquista, e os sentimentos tornaram-se clandestinos.

Armas de fogo levaram guarás à extinção. “Onde já se viu? Aves vermelhas? É proibido!”, bradou uma autoridade, eufórica, pouco se lixando para a beleza das revoadas e o equilíbrio ambiental.

A coca-cola mudou as cores de suas embalagens e faturou em cima, tornando tudo mais uma jogada de marketing e ironizando o velho jargão de que “comunista não bebe o líquido símbolo do capitalismo”.

A Cruz Vermelha teve que retirar-se do país, pois, ao contrário da marca de refrigerantes, não teve como investir pesado em publicidade, além de avaliar que não faria sentido modificar uma marca e um nome consolidados há mais de 150 anos.

Os caminhões dos Corpos de Bombeiros espalhados pelo país perderam sua cor padrão. Não fossem as sirenes, seria mais difícil identificá-los no trânsito e abrir passagem para evitar que o fogo consumisse algo mais em um incêndio – embora o fogo não agisse sozinho em sua sede de destruição.

Em Parintins, no Amazonas, o Boi Caprichoso foi declarado campeão. O Garantido, vermelho, foi proibido de desfilar no Festival Folclórico. No Rio Grande do Sul, o Internacional foi proibido de disputar o campeonato gaúcho – e outros certames.

De vermelho sobrou apenas o sangue derramado de negros, indígenas, mulheres, homossexuais e pessoas com deficiência. Mas vermelho é modo de dizer, imaginação baseada em lembrança: como uma imensa máquina do tempo nos levou de volta a um passado de pouco mais de 50 anos, a televisão em cores ainda não havia chegado ao Brasil.

Garrincha do Brasil

Garrincha, a alegria do povo. Cartaz. Reprodução

 

Nada mais simbólico que neste domingo de missa, praia, céu de anil, sangue no jornal e bandeiras e adesivos nas avenidas, o Canal Brasil exibir Garrincha, alegria do povo [documentário, Brasil, 1962, restaurado em 2006; 58 min.], tributo cinematográfico de Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988) ao anjo das pernas tortas – de carioca para carioca, de craque pra craque, tabela perfeita, um gol de cinema. O filme tem roteiro do diretor com Luiz Carlos Barreto, Armando Nogueira (1927-2010), Mário Carneiro (1930-2007) e David Neves (1938-1994).

Personagem emblemático do futebol brasileiro, Garrincha (Manuel Francisco dos Santos, 1933-1983) é até hoje adorado não só por botafoguenses: seus dribles desconcertantes encantavam até mesmo os adversários – e seguem encantando, em videotapes ou no filme de Andrade. Eis aí um brasileiro capaz de unir o Brasil.

Acervo Cinemateca Brasileira. Reprodução

Eram outros tempos, em que um futebol tinha uma dimensão menos espetacularizada (e monetizada, através da publicidade, sobretudo) e a gente humilde (onde vez por outra surge um Garrincha) tinha condições de frequentar estádios, antes de estes passarem a ser chamados de arenas.

A homenagem de Andrade a Garrincha, prestada ainda em vida, como advogavam Nelson Cavaquinho (1911-1986) e Guilherme de Brito (1922-2006), acertadamente não se prende a ser uma espécie de “melhores momentos” do craque (o que qualquer produtor de tevê faz na segunda-feira, após a rodada do fim de semana), nem adentra a tragédia do alcoolismo que o vitimou, talvez por ter sido realizado no auge do futebolista, em 1962 – e já que falamos em música, à trilha sonora comparecem as escolas de samba Portela e Império Serrano.

Andrade equilibra a montagem entre o delírio das torcidas e o silêncio das fotografias em preto e branco com que também ilustra seu filme, antológico qual um drible do homenageado, a reação do craque à fama (uma câmera escondida acompanha o ídolo pelas ruas do Rio de Janeiro) e a dimensão humana do personagem: pai de sete filhas, a casa humilde, na Pau Grande natal, decorada quase completamente com temas futebolísticos – retratos, flâmulas –, e o aparelho de som, diante do qual aparece dançando e botando as filhas para dançar, numa coleção que tinha Nat King Cole, sambas e marchinhas, o próprio Garrincha personagem de alguns clássicos da música popular brasileira.

É cinema, mas contém teatro (o espetáculo das jogadas individuais de Garrincha e as vitórias alcançadas pelo Botafogo e pela Seleção Brasileira nas copas de 1958 e 62), dança (não apenas na sala de casa: Garrincha bailava ao deixar adversários – os joões, como ele mesmo se referia a seus marcadores – no chão), pintura (cada fotografia de um drible de Mané merece moldura) e poesia: adaptando Leminski (1944-1989, que posteriormente se referiria a Zico, com essa pergunta), “como explicar um gol de Garrincha?”. Tarefa impossível: quem explica um milagre? Em se tratando de Garrincha, é simplesmente disso que se trata.

Uma história curiosa que comparece à película narrada por Heron Domingues é a de que Garrincha chegou a se empregar na fábrica de tecidos em torno do qual girava a vida em Pau Grande. Conseguia a proeza de dormir em pleno expediente, apesar do barulho ensurdecedor das máquinas. Sua demissão ficava adiada para a próxima segunda-feira e nunca se concretizava, pois no fim de semana ele fazia os gols das vitórias do Sport Club Pau Grande, o time da fábrica, ampliando o respeito dos colegas – e garantindo a sobrevida no emprego.

Criador de passarinhos, entre os bichos de sua “coleção”, havia um mainá, ave reconhecida pela capacidade de aprender algumas palavras, quando em cativeiro. Duas ou três vezes ao longo do filme ouvimos o bichinho de estimação de Garrincha gritar: “Vasco!”.

É vendo Garrincha, alegria do povo que entendemos a resposta de Vinicius de Moraes (1913-1980) a um superior no Itamaraty, quando perguntado se não gostaria de prolongar sua função no estrangeiro: “e você sabe lá o que é um choro de Pixinguinha, o que é torcer pelo Botafogo?”.

O recado eletroacústico de Flávia Bittencourt

O encontro de Flávia Bittencourt e Sandra de Sá em Eletrobatuque. Foto: Zema Ribeiro

 

Um ótimo público compareceu à Concha Acústica Reinaldo Faray (Lagoa da Jansen), ontem (26) à noite, para a gravação de Eletrobatuque, novo dvd da cantora Flávia Bittencourt.

Com uma banda enxuta, um quarteto formado por Felipe Tauil (percussão), Rui Mário (sanfona), Daniel Silva (violoncelo) e DeepLick (dj). A formação explora um casamento harmonioso entre instrumentos acústicos e timbres eletrônicos, num passeio por diferentes vertentes musicais.

A cantora estava muito à vontade, inicialmente trajando um vestido vermelho – depois trocado por um preto e branco, mais esvoaçante. No fundo do palco um telão projetava a diversidade brasileira, entre desenhos do planeta Terra, retratos de indígenas e de João do Vale e Luiz Gonzaga – artistas homenageados por Flávia Bittencourt na ocasião.

Do primeiro, ela lembrou Na asa do vento (Luiz Vieira e João do Vale); o segundo é citado em Escavucando o nada, inédita que ganhou de presente do baiano Carlinhos Brown.

Joel Farias e Fernando Saraiva, bailarinos da Companhia Pulsar, emolduraram algumas canções. Flávia Bittencourt também dançou, senhora da cena e de si.

Simbólico vê-la e ouvi-la cantar O sal da terra (Beto Guedes e Ronaldo Bastos), diante da histórica encruzilhada brasileira, o sucesso do mineiro Clube da Esquina de versos como “quero não ferir meu semelhante/ nem por isso quero me ferir”, “vamos precisar de todo mundo/ pra banir do mundo a opressão” e “um mais um é sempre mais que dois”.

O repertório passeou entre sucessos da carreira da artista – a autoral Sentido, que intitulou seu primeiro disco, de 2005 –, inéditas – Escavucando o nada e Roseira (Flávia Bittencourt), single que já vem tocando na Rádio Universidade FM (que a cantora citou, agradecendo) – e clássicos da MPB, destaque para Espumas ao vento (Accioly Neto) e De volta pro aconchego (Dominguinhos e Nando Cordel), interpretada por ela ao teclado, com direito a introdução em francês.

Momento muito aguardado da noite, a participação especial de Sandra de Sá começou bem humorada: Flávia Bittencourt havia sentado num banquinho e dedilhava um ukulele, cantando os versos iniciais de Bye bye tristeza (Carlos Colla e Marcos Valle), quando chamou a carioca ao palco. Ela subiu escovando os cabelos, anunciando o próximo número que fariam juntas: Olhos coloridos (Macau), sucesso também conhecido por “Sarará crioulo”, uma espécie de título alternativo que a música ganhou.

Como se tratava da gravação do show para registro em dvd, este repórter imaginou que haveria mais repetições, que o show seria mais burocrático. Pouca coisa precisou ser refeita, tamanho o entrosamento entre cantora, músicos, dj e convidada. Quando anunciaram que iriam regravar Bye bye tristeza, Sandra de Sá tirou onda: “eu vou entrar de novo, faz de conta que vocês não me viram ainda”. O público entrou no jogo e vibrou ainda mais que quando da primeira entrada. Quando o público pediu mais uma para Sandra de Sá, a anfitriã anunciou que iria guardá-la para o bis. Aos gritos de “joga fora no lixo!”, lembrando o hit Joga fora (Paulo Massadas e Michael Sullivan) – que ela acabou não cantando –, outros responderam “joga Bolsonaro no lixo!” e um coro de “ele não” se iniciou.

Já era hora do bis e Flávia, agora ao violão, cantou Mar de rosas (Rose Garden, de Joe South, versão de Rossini Pinto), contando com o vocal de Sandra de Sá. Outro número sintomático do espetáculo foi o grand finale, também dividido pelas duas, com Fora da ordem (Caetano Veloso).

O dvd chegará depois, a saciar a curiosidade dos que não compareceram ao show de gravação ou o desejo de replay de quem lá estava – aos mais atentos o recado está dado.

Um palhaço brasileiro

Foto: Zema Ribeiro

 

​”Era uma vez uma boca de fumo. Nessa boca de fumo havia drogas e doces. Chapeuzinho Vermelho encheu uma cesta de doces, botou na garupa de sua bizinha para levar para a vovó e saiu pilotando pela floresta. No meio do caminho apareceu o lobo. “O que tem na garupa, Chapeuzinho?”, perguntou. “Doces para a vovó”. “Me dá a metade?”. “Não posso, são para a vovó”. O lobo insistiu, pedindo quantidades menores, até arrematar: “Se você não me der os doces, eu pego um atalho, chego antes de você na casa da vovó, mato ela e toco o terror em você; todo mundo conhece a história, vem o caçador e me mata. Dois homicídios por causa de um punhado de doces. É isso que você quer para sua vida?”.

O palhaço Klaus (Márcio Douglas) atualiza a história infantil para os perigosos ares que o Brasil respira no momento. Para bom entendedor, uma fábula basta. Foi longamente aplaudido pelo ótimo público presente ao Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), onde foi apresentado ontem (24) o espetáculo da La Cascata Cia. Cômica, de São José dos Campos/SP, integrando a programação do Palco Giratório, do Sesc. E arrematou, irônico, para a plateia novamente irromper em aplausos: “isso sim é uma história infantil: ninguém morre!”.

Klaus é um palhaço aposentado. No monólogo tragicômico ele compartilha sua experiência animando festas infantis. O palhaço é uma metáfora: alvo de toda sorte de preconceitos e violência. Politicamente incorreto, a personagem bebe e fuma em cena. Beira o desalento. Logo de cara, adverte: “quem está em busca de algo lúdico, algo mágico, pode ir embora”. Soa cruel, mas é apenas sincero.

Animo festas, o espetáculo, se vale do universo infantil para debater temas em torno das relações de trabalho: qualificação, violência, preconceito, assédio, direitos. E também realização e felicidade: não à toa a pergunta “você é feliz?” aparece diversas vezes no texto, dirigida ao palhaço, quando ele relata encontros com pessoas diversas após as festas.

Hábil ao embrulhar estes questionamentos no “inocente” mundo das crianças, Klaus provoca gargalhadas na plateia durante o espetáculo inteiro. Beira o nonsense quando, por exemplo, saca um canivete ao ameaçar as “crianças” (dois adultos escolhidos aleatoriamente em meio ao público) para que deixem a aniversariante (outra adulta idem) vencer o jogo da dança das cadeiras – quando joga luz sobre outro assunto em voga no Brasil: a corrupção.

“Todo DJ é um “filha” da puta”, provoca: “a gente pede uma música, ele sempre toca outra. O DJ é aquele cara que não aprendeu a tocar um instrumento, mas teve dinheiro pra comprar o equipamento”, ataca. Provocar é uma especialidade de Klaus, que vai parar numa penitenciária após provocar um policial. É outra história em que se equilibra entre o hilariante e a denúncia social, a debater a questão carcerária, tema sempre urgente e quase sempre escamoteado, não apenas no período eleitoral.

Vez por outra, a palavra palhaço é injustamente usada como xingamento. Klaus define a si mesmo como um palhaço profissional. Ousa peitar contratantes, aniversariantes e quem mais achar que deve em nome de sua dignidade, que não desaparece sob uma camada de tinta e maquiagem. Ao contrário de muitos (não apenas palhaços) que se deixam tanger como gado para o abatedouro, ele dá um importante alerta a quem, por ação ou omissão, em nome de valores no mínimo dúbios, se arrisca a abdicar de seus próprios direitos. Klaus é brasileiro e se reinventa para existir e resistir.

Serviço

O grupo La Cascata Cia. Cômica apresenta hoje (25), às 17h, o espetáculo Precisa-se de um mané, no Cine Teatro Aldo Leite (Palacete Gentil Braga, Rua Grande, 782, Centro). A entrada é gratuita. A programação integra o projeto Palco Giratório, do Sesc.

Homenagem aos Racionais Mc’s denuncia racismo e violência contra a população negra no Brasil

Foto: Zema Ribeiro

 

​Logo que o espectador mais atento adentra o teatro, lê, distribuída em três das seis placas que representam corpos negros: “por qu​​e o senhor atirou em mim?”. A pergunta, com um último exercício de respeito – referir-se ao próprio assassino chamando-o de senhor – é possivelmente a última coisa dita por mais gente do que sonha a nossa vã filosofia. No cenário, casebres emulam uma favela.

Os dois atos de Farinha com açúcar ou Sobre a sustança de meninos e homens invertem a ordem da vida curta de boa parte da população de favelas e ocupações urbanas do tipo, habitadas majoritariamente por negros: começa pela morte, categorizando-a entre morte morrida (de causas “naturais”, por exemplo uma cirrose contraída diante da falta de perspectivas de vida) e morte matada (assassinatos, muitas vezes camuflados sob o eufemismo “auto de resistência”, uma espécie de carta branca para matar dadas às polícias).

Farinha com açúcar ou Sobre a sustança de meninos e homens baseia-se em estudos feitos a partir de entrevistas realizadas com 12 homens pretos, como o próprio texto, espécie de libreto ao vivo, anuncia logo na introdução da peça, misto de teatro, música, poesia e dança. 12 homens pretos de diversas faixas etárias e ocupações, o mais conhecido deles KL Jay, DJ do grupo de rap Racionais Mc’s, afinal de contas homenageado pela peça e seu inspirador.

O texto, narrado e encenado por Jé Oliveira, é acompanhado de uma banda formada por (da esquerda para a direita) Raphael Moreira (pianos e mpc), Melvin Santhana (guitarras, violão e voz), dj Tano (Záfrica Brasil, dj residente), Fernando Alabê (percussão e bateria) e Cássio Martins (contrabaixo), que encorpa o que ele diz/denuncia, de forma contundente, sustança sonora, cênica, poética, política.

Peça urgente e necessária, sobretudo no momento conturbado que o país atravessa. O extermínio da juventude negra, habitante das periferias, de algum modo legitimado pelos poderes constituídos (meios de comunicação inclusos), é o tema central do debate. O Coletivo Negro é se São Paulo, a intervenção militar vige no Rio de Janeiro, mas esta chaga social não é “privilégio” de um ou outro estado do sudeste.

Jé Oliveira questiona em cena, os assassinatos dos cinco jovens em um carro branco, 111 tiros, apenas por que eram pretos, antes questiona o massacre do Carandiru, quando (coincidência?) 111 presos foram assassinados pela polícia paulista. Ainda que fossem bandidos, será que mereciam?, indaga o texto da peça, de sua autoria, duro, seco, sem meias palavras, perpassando a formação social do Brasil. Com as roupas que vai vestindo ao longo do espetáculo, o narrador simula a fragilidade de corpos mortos, vítimas da violência urbana que tem os pretos como alvo preferencial. Recorta um microcosmo como a explicar boa parte do país: um tio seu ergueu um primeiro barraco há algum tempo, dando origem a um conjunto de seis favelas, para onde vieram, a reboque, todos os outros parentes, abandonando as roças em Minas Gerais, tentar melhor sorte em São Paulo, cidade grande, sede do Coletivo Negro, berço dos Racionais Mc’s e ainda sonho, mesmo hoje em dia, de muita gente que vislumbra uma vida melhor.

Foto: Zema Ribeiro

A trilha da peça mistura gravações com temas tocados ao vivo e também traça uma espécie de linha evolutiva que desemboca em Racionais Mc’s. Enquanto Jé Oliveira desce do palco e distribui copos descartáveis com farinha e açúcar, que circulam de mão em mão com a plateia provando a iguaria, o dj Tano emula um baile em que tocam Hyldon, Cassiano, Tim Maia, Jorge Ben e Jackson’s Five, entre outras influências sem as quais o grupo de rap, ou o próprio rap brasileiro não existiriam. Também nisto passam uma mensagem: não só no campo cultural a mão de obra negra foi, desde sempre fundamental para a construção do país, literalmente, embora quase nunca valorizada como deveria. É contraditório amarmos nossos ídolos negros, sobretudo na música e no esporte, e sermos racistas. Em meio a tudo isso, uma homenagem a Marielle Franco, vereadora carioca assassinada há mais de sete meses. O crime permanece impune – ela também era negra.

Foto: Zema Ribeiro

Arte é política e os integrantes do Coletivo Negro sabem que estarão mais do que nunca na alça de mira num eventual governo Bolsonaro. Manifestam-se sem meias palavras contra o candidato neonazista, enquanto pequenos canhões de luz projetam nas paredes a frase “todo poder ao povo”, síntese que une o líder negro Martin Luther King e a Constituição brasileira de 1988. Há ainda homenagem a Carlos Marighella, enquanto toda a boca de cena é coberta por uma enorme faixa com a frase “O nosso júri é racional, não falha: não somos fãs de canalhas”. Imaginei os esgares de Sérgio Sá Leitão, ministro da Cultura de Michel Temer, caso assistisse a peça – ele recentemente criticou o ex-Pink Floyd por seu posicionamento político explicitado em shows recentes no Brasil. O inglês também manifestou-se contra o candidato pesselista, projetando a #elenão em um telão gigante – ontem a plateia bradou “ele não” em uníssono, diante da postura corajosa de Jé Oliveira.

Farinha com açúcar ou Sobre a sustança de meninos e homens foi apresentada ontem (21), no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), na programação do Palco Giratório, rede de intercâmbio em artes cênicas do Sesc. A programação completa desta etapa pode ser conferida no site do Sesc MA. Hoje os integrantes do Coletivo Negro participam de bate-papo, às 18h30, na sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Praia Grande). Toda a programação do Palco Giratório tem entrada gratuita.

Divulgação

O respeito às diferenças precisa entrar na moda

Foto: Zema Ribeiro

 

As areias da paradisíaca praia de Mangue Seco foram o palco escolhido para o lançamento de uma grife de moda íntima, o Ateliê Demodê, que aportuguesa a palavra francesa démodé, usada para qualificar algo que está fora de moda.

O evento aconteceu na manhã de ontem (20) e foi marcante pelo inusitado do lugar e da proposta: “o material dita a forma”, no que se baseou a decisão pela malha utilizada nas peças do Ateliê Demodê, feitas à mão, em São Luís do Maranhão, 100% orgânica, de algodão cultivado na Paraíba e Ceará, com embalagens de papelão reciclável produzidas na Bahia, de acordo com o catálogo também artesanal distribuído aos presentes.

As coleções são batizadas por alusões ao litoral: Areia, Duna, Brisa e Maresia, referindo-se às cores das peças, formas e a beleza.

Consumo é política e é impossível dissociar o desfile a que assisti ontem do atual momento conturbado que o Brasil atravessa. A beleza – e a força – do lançamento das coleções do Demodê reside em entender e colocar a moda como uma possível contraposição aos padrões vigentes: os modelos que desfilaram eram homens e mulheres, altos e baixos, brancos e negros, magros e gordos, “pessoas cinzas normais”, como diria Belchior.

Por falar em música, a trilha sonora do desfile foi pensada criteriosamente, marcada pelo compasso de cocos de Pernambuco e Paraíba e pela força percussiva da música do maranhense Tião Carvalho. Não só a música: tudo ali foi pensado com carinho, nos mínimos detalhes: das acomodações da plateia que foi prestigiar o desfile ao generoso e saudável café da manhã servido – consumo é política, repito.

Se “amar ao próximo é tão démodé”, como cantou Renato Russo, o grande grito dado pelo vai-e-vem de modelos tão diversos, foi justamente a tentativa de superação disso: é justamente a diferença, e saber conviver harmoniosamente com ela, que nos torna humanos.