O canto forte, delicado, poético e político de Manu Saggioro

Clarões. Capa. Reprodução

 

Há 20 anos Ceumar estreava no mercado fonográfico com Dindinha, produzido pelo maranhense Zeca Baleiro. Agora é a vez de a mineira devolver a gentileza, assinando a direção artística e dividindo a produção musical com Manu Saggioro em Clarões [2019, distribuição: Tratore], disco de estreia da paulista.

Delicado como não poderia deixar de ser, com tal encontro, o disco é sensível ao tocar em temas de nossos tempos, como, por exemplo, o uso excessivo de tecnologia, sobretudo o telefone celular, em Um dedo de prosa (Levi Ramiro), cuja letra graceja, séria: “vai de cabeça baixa sem ouvir a ninguém/ sem olhar pros lados, parecendo quem/ tá no mundo da lua”.

Se Ceumar demorou a revelar-se talentosa compositora, Saggioro apresenta logo suas credenciais: sozinha ou em parceria assina seis das 14 faixas de Clarões – a faixa-título leva a assinatura de Tetê Espíndola e Tavinho Limma – inclusive Moda de viagem, parceria dela com Ceumar, que cantam juntas fechando o disco, sua beleza aproximando-a tematicamente de clássicos como A vida do viajante (Luiz Gonzaga/ Hervê Cordovil) e Cantiga do estradar (Elomar), mas por um prisma feminino: “essa é minha natureza/ viajar é minha cura/ andar solta e sem rumo/ liberta do que me anula/ sentindo pulsar nas veias/ a vida fluindo pura”.

As paisagens sonoras de Saggioro evocam a brejeirice mineira de Titane, ao canto pantaneiro de Tetê Espíndola e à música de protesto latino-americana, irmanando-a a nomes como Violeta Parra e Mercedes Sosa. Das primeiras, o disco é completamente permeado; das últimas, bons exemplo são Aguita (Ana Beatriz Pereira Rolando), cantada em espanhol, e Pachamama (Osvaldo Borgez) – “Terra, quem me dera contê-la, guardá-la/ no vaso de minhas mãos/ pudera, cuidava, zelava/ num bonsai, mas cabe não”, lamentam alguns versos urgentes.

Soma de tudo isso, Saggioro tem personalidade e é ótima instrumentista – toca os violões do disco, a cuja ficha técnica comparecem nomes como Adriana Holtz (violoncelo), Antonio Loureiro (bateria), Lelena Anhaia (contrabaixo), Webster Santos (violão, dobro, bandolim, banjo, cuatro venezuelano) e Ari Colares (percussão).

Saggioro presta também reverências a companheiras de ofício, registrando composições de mulheres que merecem ser mais gravadas, ouvidas e conhecidas, casos particularmente de Tata Fernandes (Graça) e Déa Trancoso (Só restarão as estrelas), ambas de talento indiscutível.

Disco de alma feminina mais que pela delicadeza, pelo conteúdo político que cerze seu tecido poético: “mais um morador de rua/ de um condomínio fechado/ quem compra contos de fada/ acaba em cantos de fado”, dispara em Cantos de fado (Levi Ramiro/ Carlinhos Campos), preci/o/sa em tempos de pós-verdade. Afinal de contas, “cadeia de pensamento/ serve pra libertar”, como canta em Graça.

Ouça a faixa-título:

Sebos unidos

Foto: Zema Ribeiro

 

Quando a Editora Autêntica começou a republicar a obra do monumental Campos de Carvalho (não confundir com o outro Carvalho, ideólogo de revisionistas), brincávamos, um grupo de amigos: éramos uma espécie de seita, descobrindo ou reencontrando a literatura do autor de Vaca de nariz sutil.

Íamos além, numa matemática maluca: se somos três leitores apaixonados por Campos de Carvalho em São Luís, isso faz da ilha a cidade brasileira com mais leitores do autor de A chuva imóvel. A equação é simples: a tiragem média de um livro no Brasil é de algo em torno de 3 mil exemplares, o que dá menos de um livro por cidade, pouco mais de meio.

E ríamos também de nossa própria falta de talento, já que talvez essa matemática tivesse alguma graça se proposta literariamente pelo próprio escritor de A lua vem da Ásia – ou Macedónio Fernandez (autor do Museu do romance da eterna).

Lembro da devoção ao mineiro Campos de Carvalho, de saudosa memória, por ocasião da inauguração, ontem (10), da 1ª. Feira do Livro Usado (vascaíno que sou, é melhor não inventar sigla), evento que acontece até amanhã (12), na Galeria Valdelino Cécio, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande) – para quem não sabe, aliás, Valdelino e Odylo dois importantes escritores.

O acontecimento congrega diversos sebos que vêm configurando um corredor literário no centro da capital maranhense: estive na abertura, ontem, e por lá encontrei Natan Máximo, Riba da Feira da Tralha, Silvia do Paço Prosa e Arteiro – Riba do Poeme-se se somaria, me disseram.

Enquanto jogava conversa fora, tomava café cubano e amealhava exemplares, rato de sebo que sou, me deparei com a diversidade dos frequentadores, motivados pela paixão pelos livros, curiosidade e, às vezes, circulando por ali como quem não quer nada.

Certamente muitos dos passantes, quando acabar a Feira, voltarão a estes espaços em seus endereços fixos e eventos: sem periodicidade no Sebo do Arteiro e no Paço Prosa, às últimas quintas-feiras do mês no Poeme-se, e todo domingo na Feira da Tralha, um com discotecagem de vinil, outro com roda de choro ao vivo, alternadamente – a propósito, amanhã, na noite de encerramento da iniciativa, João Eudes (violão sete cordas) e Ronaldo Rodrigues (bandolim) se apresentarão.

Cumprimentei conhecidos, vi uma desconhecida catar um exemplar de bolso do On the road de Jack Kerouac, topei com um exemplar do Hemóstase de Bruno Azevêdo, volume de contos de que até então eu só ouvira falar, a primeira edição de O desatino da rapaziada de Humberto Werneck, uma conferência proferida por Josué Montello sobre o Arthur Azevedo contista e seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, entre outros volumes de seus consagrados romances.

Eis uma das graças de sebos – e livrarias, em geral: entrar procurando uma coisa (ou nem procurando nada especificamente) e sair com várias coisas completamente diferentes e tudo bem, tudo certo. Aliás, ainda prefiro comprar livros e discos presencialmente, mais ainda conversando com alguém que entenda daquilo que está vendendo.

Em um tempo em que o desmonte da educação e da cultura é uma política pública do governo federal, não faltam motivos para visitar a 1ª. Feira do Livro Usado, ainda que São Pedro não colabore. É praticamente um ato de resistência.

Senti saudade de Moema de Castro Alvim, em cujo Papiros do Egito iniciei essa perambulação que espero que nunca termine.

A força das mulheres cantando o Brasil

Foto: Zema Ribeiro

 

São impressionantes a qualidade e o entrosamento da Orquestra Guajajaras, em atividade apenas desde agosto de 2018. O show apresentado ontem (9), no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), foi uma prova da vitória de um esforço coletivo que, embora recente, já mostra a que veio.

A Orquestra Guajajaras surge “da admiração pela consagrada formação instrumental das big bands e da paixão pela renovação estética empreendida pelas orquestras de baile brasileiras na primeira metade do século XX, das quais a Tabajara”, sua irmã de rima, “foi a mais conhecida e longeva”, em atividade até hoje – as aspas são do texto lido pelo mestre de cerimônias da noite, o cantor Fernando de Carvalho.

A Orquestra Guajajaras é formada por Ricardo Mendes, Emerson de Paula, Danilo Santos, Lucas Lima e Paulo Rafael (saxofones), Hugo Carafunim, Evandro Maia, Daniel Cavalcante e Gabriel Oliveira (trompetes), Elder Ferreira, Daniel Miranda, Adrian Ferreira e Sidney Diniz (trombones), Rafael Bruno (contrabaixo), Anselmo Rômulo (violão), Ronald Nascimento (bateria) e Wesley Sousa (piano).

A noite musical – dedicada inteiramente a repertório brasileiro – começou pela instrumental Brooklyn High (Nelson Faria), a única música que a orquestra tocou sem uma convidada no palco. O show chamava-se Orquestra Guajajaras e Elas e podia ser entendido como uma espécie de prolongamento das celebrações às mulheres pelo mês de março.

10 cantoras maranhenses de todas as gerações e timbres desfilaram um repertório impecável – difícil até elogiar pontos altos em uma apresentação que tampouco pode ser considerada uniforme diante das particularidades dos talentos de cada convidada. No fundo do palco, o telão exibia fotografias das cantoras e de outras grandes mulheres da história: Annah Harendt, Chiquinha Gonzaga, Janis Joplin, Malala Yousafzai, Maria da Penha, Maria Firmina dos Reis e Simone de Beauvoir, entre outras.

A primeira a subir ao palco foi Bruna Lussaray, que interpretou Maçã, de Djavan, o autor mais interpretado da noite, autor da peça seguinte, Açaí, interpretada por Adriana Bosaipo. Um problema técnico tirou o piano elétrico de Wesley Sousa de cena e enquanto isto se ajustava, ele continuou cumprindo seu papel de anunciar as próximas músicas e intérpretes, fazendo-lhes as devidas e merecidas referências e reverências.

A troca de elogios entre cantoras e orquestra era sincera. Elas eram unanimes em reconhecer a importância da iniciativa da orquestra e de o público prestigiar tal iniciativa – o Teatro Alcione Nazaré estava completamente lotado.

Após cantar Viagem de novembro (Erasmo Dibell), Regiane Araújo revelou o quanto foi difícil fazê-lo sem o piano de Wesley, que seria substituído na sequência. Ele chamou Anna Cláudia, paraense radicada no Maranhão há mais de 20 anos, recomendando: “ela tem um disco lindão no spotify, quem não conhece está pecando”, disse, referindo-se a Bons ventos, segundo disco da carreira da cantora, que interpretou Papel marché (João Bosco e Capinam).

Com o piano devidamente trocado, Wesley pode participar do momento seguinte, em que à sua exceção, todos os músicos da orquestra se retiram do palco e ele dueta com o violino de Thaynara Oliveira em Beatriz (Edu Lobo e Chico Buarque). “Ela sempre chora nessa música, vamos ver hoje”, provocou, mas ela aguentou firme, até seus agradecimentos.

Milla Camões arriscou uns passos de dança na síncope de Capim, de Djavan, cuja letra cita de raspão o “tronco do juremá” dO canto da ema de João do Vale (com Ayres Viana e Alventino Cavalcante), metáfora-síntese para as camadas descortinadas ao longo do espetáculo. Tudo isso antes de Gabriela Marques por toda sua exuberância à prova em Dindi (Tom Jobim e Aloysio de Oliveira), não perdendo o prumo nem na única (ligeira) microfonia da noite.

Ao revelar que a Orquestra Guajajaras está trabalhando em seu disco de estreia, antecipou que uma das faixas do repertório será Flanelinha de avião (Cesar Teixeira). Revelou ainda que não conhecia Milena Mendonça, tendo topado convidá-la por indicação de outros dois integrantes da orquestra: deve ter sido a cantora que mais causou reações no público, sendo aplaudida de pé no meio da música. A cantora interpreta Maria Bethânia no musical João do Vale – o gênio improvável e recomendou ao público valorizar a arte produzida no Maranhão, “para que a gente possa fazer aqui, para vocês, e não tenha que ir para lá, fazer só para eles”, afirmou, aludindo ao fluxo migratório a que Gianfrancesco Guarnieri e Carlos Lyra se referiam em Missa agrária – que Bethânia gravou junto ao Carcará (João do Vale e José Cândido) em seu disco de estreia – e que durante tanto tempo foi regra para o sucesso de artistas nascidos maranhenses.

A Célia Maria pediu aplausos e tratou de diva, tudo merecido. Engraçadíssima, chegou fazendo o povo rir, embora estivesse sendo apenas modesta, virtude das grandes: “maravilhosos são eles”, disse ao público, referindo-se aos músicos que a acompanhariam em As rosas não falam (Cartola) – nem errando a letra ela se apequena.

Tássia Campos brilhou em Ladeira da preguiça (Gilberto Gil), dançou e arrematou o discurso unânime: “todos nós estamos aqui por amor à música. Prestigiem e valorizem iniciativas como essa, por que nós, além de fazermos com profissionalismo, fazemos com amor”. Como dizem os tabeliães: o referido é verdade e dou fé.

Encerrando o espetáculo, Maria Maria (Milton Nascimento e Fernando Brant) foi entoada por todas juntas no palco, traduzindo a grandeza de cada uma, colocando a letra no plural: essas mulheres são dons, certas magias, forças, sons, cores, suores, as doses mais fortes.

Jazz até no escuro

Foto: Zema Ribeiro

 

​​”O doce é melhor”, respondeu-me Daniel Cavalcante (trompete e flugelhorn) quando eu disse que finalmente havia ido ver “se esse Buriti prestava”. Ambos brincávamos e eu me referia ao quarteto que ele forma ao lado de Ronald Nascimento (bateria), Wesley Sousa (teclado) e Mauro Sérgio (contrabaixo).

Ontem o Quarteto Buriti se apresentou no Buriteco Café (Rua Portugal, 188, Praia Grande) para um bom público, a despeito do rodízio: difícil entender como alguém consegue sair no meio de um show com um nível tão bom (tocaram pouco mais de duas horas).

Começaram com So what (Miles Davis), que abre o clássico Kind of blue (1959), quase sempre apontado por jazzófilos insuspeitos como o maior disco de jazz de todos os tempos. Seguiram-se Naima (John Coltrane) e All the things you are (Jerome Kern e Oscar Hammerstein II), sucesso de Ella Fitzgerald. Durante a execução de Corcovado (Tom Jobim) faltou energia. Com o apagão dos instrumentos elétricos, trompete e bateria duelaram no escuro, até o fim da canção.

Menos de meia hora depois a plateia aplaudiu o retorno da energia elétrica. Novamente tirei onda com Daniel: “difícil agora vai ser superar o aplauso da luz”. Ele riu e anunciou que tocariam Corcovado novamente. Para mim não precisava, dado o fecho incrível ante o inusitado. “Eu adoro!”, revelou-me antes do bis no meio do show, que puxou outra sequência instrumental de bossa nova. Seguiram-se Só danço samba (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), Garota de Ipanema (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) e Amazonas (João Donato e Lysias Enio).

Conhecedor dos talentos individuais dos integrantes do Buriti, não me restavam dúvidas sobre a qualidade do quarteto, embora uma constelação de craques nem sempre traga títulos, vide o time que o Flamengo montou quando de seu centenário em 1995. Não bastasse a enorme qualidade do grupo, afiado e despojado, entre execuções precisas, solos inspirados e improvisos idem, a noite ainda nos guardava uma surpresa.

Gabriela Marques subiu ao palco, apresentou os músicos e acabou esquecendo de se apresentar (ou eles a ela). Seu cartão de visitas, no entanto, foram as três canções que interpretou com bastante personalidade: Chega de saudade (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), Desafinado (Tom Jobim e Newton Mendonça) e Autumn leaves (Joseph Kozma, John Mercer, Jacques Prevert e Jacques Enoch), que ganhou versão em português de Chico César, em 2006.

Ela canta tamborilando o microfone com os dedos, como se estivesse diante de um trompete imaginário. Ou um piano, já que ela, antes das canções que interpretou, armava acordes no teclado de Wesley antes de ditar o tom aos escudeiros da noite.

Após sua descida do palco, Mauro Sérgio foi temporariamente substituído por Davi Oliveira, na sequência formada por Wave (Tom Jobim), Isn’t she lovely (Stevie Wonder) e A rã (João Donato), executada em versão instrumental. A música tem letra de Caetano Veloso e me peguei imaginando como teria sido, na ocasião, se cantada por Gabriela Marques, mas já era querer demais. A essa altura havia se somado ao quarteto o guitarrista Júlio César, até então sentado num canto do bar, bebericando discretamente.

Um bom número de alunos da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo ocupava o recinto. Daniel e Mauro (novamente de volta ao palco) são professores da instituição; Ronald e Wesley, alunos – o trompetista Gabriel Oliveira, aluno de Daniel, chegou a dar uma canja.

O bis já havia rolado ao fim do apagão e a noite foi encerrada com Blue train (John Coltrane) e Doralice (Dorival Caymmi). O Quarteto Buriti se apresenta hoje (4), às 21h, no Talkin Blues (Rua Auxiliar II, quadra 9, nº. 16, Cohajap).

Lição

Foto: Gilson Teixeira

 

Em abril de 2016, na sessão da Câmara dos Deputados que deliberou pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff, o então deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) dedicou seu voto à memória do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, seu ídolo. O pesselista não sofreu nenhuma sanção por quebra de decoro e pouco mais de dois anos depois, em uma campanha baseada em fake news e no elogio à violência, tornou-se presidente da república, eleito pelo voto popular.

O deputado federal Márcio Jerry (PCdoB) apresentou recentemente projeto de lei (PL 1798/2019) que criminaliza a apologia ao retorno da ditadura militar, tortura ou pregação de rupturas institucionais. Um passo importante em um país que, ao contrário dos vizinhos latino-americanos, para ficarmos em exemplos mais próximos, não acertou suas contas com o passado: agentes da repressão envelhecem tranquilamente sem nenhuma punição, sequer no campo simbólico.

Um ato realizado ontem (30) no Memorial Maria Aragão, na praça homônima, prestou homenagens à médica que dá nome ao logradouro, ao poeta, jornalista e economista Bandeira Tribuzi e a Manoel da Conceição. O governador Flávio Dino assinou um projeto de lei que concede pensão especial ao líder camponês, vítima da ditadura militar.

O compositor Cesar Teixeira cantou Oração latina, de sua autoria, verdadeiro hino de movimentos sociais maranhenses, cujos versos “com as bandeiras nas ruas ninguém pode nos calar/ ninguém vai ser torturado com vontade de lutar” foram cantados a plenos pulmões, enquanto os presentes agitavam bandeiras e rosas brancas.

“Em nosso governo, todos os dias, temos procurado reparar injustiças. Essa é uma reparação ínfima, diante do que Mané sofreu”, afirmou o governador, referindo-se às torturas sofridas por Manoel da Conceição, que teve um prego martelado no pênis e perdeu uma perna em decorrência de uma gangrena ocasionada por tiros, não tendo o atendimento médico sido realizado em tempo hábil. Parece cruel descrever sua tortura, mas é um exercício necessário: lembrar, para que nunca mais aconteça.

Gabriela Campos, neta de Bandeira Tribuzi, relatou casos de familiares que sofreram com a ditadura. Sua mãe nasceu prematura, pois sua avó foi vítima de violência durante o estado de exceção. A revelação contraria o falacioso argumento da direita que elege torturadores como ídolos, de que a ditadura militar brasileira só “mexia” em quem “fez algo errado”.

O advogado Mário Macieira, ex-presidente da OAB/MA, neto de Maria Aragão, celebrou: “é bastante simbólico que este ato esteja sendo realizado em uma praça com o nome de Maria Aragão, que combateu a ditadura militar, e não com o nome de um general, de um torturador”. Cabe lembrar que o projeto arquitetônico da praça é de Oscar Niemeyer, outro respeitado comunista.

“Aqui no Maranhão não se celebra ditadura, não se exalta torturador”, afirmou Flávio Dino em meio a palavras de ordem do público: “Manoel, guerreiro do povo brasileiro!” e “Lula livre!” foram as mais ouvidas. “É contraditório que alguém democraticamente eleito faça apologia a um regime que cassou mandatos e fechou o congresso nacional”, continuou.

“Quais os pecados de Bandeira Tribuzi, de Manoel da Conceição e de Maria Aragão?”, perguntou Flávio Dino. Ele mesmo respondeu: “Bandeira Tribuzi compôs o hino de São Luís [Louvação a São Luís, no ato interpretado por Serginho Carvalho], que fala nos “claros sóis da liberdade”; Manoel da Conceição queria que os trabalhadores do glorioso Vale do Pindaré se organizassem e tivessem acesso a terra; e Maria Aragão, uma médica que não enricou, atendia mulheres humildes sem cobrar nada e reunia a juventude na sala de sua casa para realizar cursos de formação política. Percorro mentalmente os códigos de processo penal de hoje e da época e não encontro o crime. Não há crime! O crime está na cabeça de quem não aceita quem pensa diferente”, finalizou.

O Maranhão deu ontem mais um belo exemplo ao Brasil. Mirem-se!

O crítico

O jornalista Pedro Alexandre Sanches está em São Luís a convite do Sesc/MA. Ele ministra desde sexta-feira (22) até amanhã uma oficina de Escrita e Crítica Cultural, dentro da programação da Mostra Nape – Napoleão Ewerton, que acontece no Condomínio Fecomércio (Av. dos Holandeses, Renascença).

Sanches é um dos idealizadores do Farofafá, site especializado em jornalismo musical, e atualmente é um dos editores de cultura da revista semanal CartaCapital, ao lado dos jornalistas Eduardo Nunomura e Jotabê Medeiros, seus parceiros também de Farofafá.

Ex-crítico do jornal Folha de S. Paulo e ex-colunista da revista Caros Amigos, é ainda autor dos livros Tropicalismo: decadência bonita do samba (2000) e Como dois e dois são cinco: Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa) (2004), ambos publicados pela Boitempo e fora de catálogo há algum tempo.

No carro, entre o almoço e a visita ao Sesc, antes do primeiro dia de oficina, ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

À esquerda, Pedro Alexandre Sanches em ação durante a oficina de Escrita e Crítica Cultural. Exercício prático com a turma: entrevista coletiva com Vicente Melo (ator que interpreta João do Vale) e Celso Brandão (diretor do Teatro Arthur Azevedo e idealizador do musical “João do Vale: o gênio improvável”). Foto: Marla Batalha

Como e quando surge a ideia do Farofafá? O nome vem da música do Mauro Celso. Por que ela e não outra?
Essa semana mesmo eu estava ouvindo Farofafá, estou escrevendo um livro falando de vários discos da música brasileira e o disco do Mauro Celso é um dos que eu falo. É uma música muito maravilhosa. Farofa é aquela refeição que tem uma base básica, de farinha, e você coloca o ingrediente que você quiser, cada um coloca a seu gosto. A sua farofa é diferente da minha, minha farofa pode ter Mauro Celso, a sua pode ter Joelma, e de qualquer maneira a farofa é um alimento popular, talvez as elites não apreciem tanto por que valem ingredientes chulos, digamos assim, azeitona, sei lá o quê. Mas a ideia é isso, estou brincando, mas falando sério: todos os ingredientes fazem parte da música popular brasileira, tudo o que você quiser comer e for gostoso pro seu paladar. Então a ideia original do Farofafá é essa. Ele nasceu no seguinte contexto: meu segundo emprego tinha sido a CartaCapital, eu saí de lá em 2009, fiquei fazendo frila, e o Eduardo Nunomura, meu parceiro, meu colega, meu amigo, desde que a gente fez faculdade de jornalismo juntos, falava: “você tem que ter seu site, você tem que ter seu site, você tem que ter seu site”. E ele foi me ajudar a fazer meu site, e a gente foi tentar uma Lei Rouanet pra esse site. No processo a gente foi chegando a várias conclusões: não deveria ser o site do Pedro Alexandre Sanches, que devia ser uma coisa mais legal, podia ter uma ideia por trás, um conceito. E meio assim, no susto, na garra, a gente ganhou essa Lei Rouanet, nunca conseguiu captar um centavo sequer, então o Farofafá se mantém desde 2011, estreou no dia 13 de maio de 2011, data não casual, é o dia da libertação dos escravos, tem oito anos, e nunca viu um centavo até hoje. Viu alguns, alguns centavos a gente conseguiu, mas não foram muitos.

Hoje o Farofafá é tocado pelo trio de editores de cultura da CartaCapital. Como é que Jotabê chega e como é a relação do site com a revista?
A gente começa eu e o Edu apenas, ficamos juntos uns três anos, no começo a gente era bem ativo, tem umas matérias bem legais, tipo, Mano Brown é o principal intelectual brasileiro, é uma matéria do Eduardo, uma dissertação de mestrado que defendia essa bandeira, tem muita visualização, é um dos textos mais lidos do Farofafá até hoje. Fomos indo, fomos fazendo dentro desse princípio da mistura musical, pode falar de brega, pode falar de rap, pode falar de forró, axé, tudo. E o Jota é um parceiro desde sempre. Eu era o jornalista de música da Folha, ele era o do Estadão, a gente se conhecia pouco, se cruzava por aí nas pautas da vida e o Edu, na verdade, não sei se estou deixando de citar algum amigo do Edu, mas meio que eu e Jotabê éramos os melhores amigos do Edu, que era amigo do jornalista de música da Folha e do jornalista de música do Estadão. E aos poucos ele começou a tentar unir os dois, nunca houve, que eu saiba, nenhum empecilho para que eu e Jotabê fôssemos amigos, mas o Edu sacramentou isso. E isso foi por volta de 2014, portanto, o Farofafá já tinha uns três anos. O Jotabê vinha enfrentando dificuldades de emplacar matérias importantes no Estadão, onde ele trabalhava e a gente começou a publicar umas matérias de política cultural, que Jotabê ou fazia ou ajudava a gente a fazer, que foram matérias muito importantes também, naquele momento que a Dilma tinha acabado de ser eleita e nomeou a Ana de Holanda ministra da cultura, o que era um despropósito, uma pessoa totalmente despreparada, mal sabíamos nós que viriam pessoas muito mais despreparadas para a cultura, mas aquilo já era intolerável pra gente, então a gente fez umas matérias bem engajadas, por que a Ana de Holanda chegou destruindo tudo o que o Gilberto Gil [ministro da Cultura nos governos Lula] e o governo Lula tinham feito. Foram matérias que o Jotabê fez, que repercutiram muito e a partir desse momento o Jotabê ficou mais unido com a gente, mais colado. Eu não sei te dizer exatamente a sequência das coisas, mas os anos passaram, o Jotabê saiu do Estadão, nós levamos adiante o Farofafá, já os três nessa ocasião, e surgiu a oportunidade de a gente editar a cultura da CartaCapital. Foi uma coisa muito sem querer. O Farofafá funcionou independente por uns dois anos e depois a CartaCapital passou a ancorar, isso por que a gente já tinha uma relação anterior, eu já tinha trabalhado lá, tinha uma boa relação com eles, a gente acabou levando o Farofafá pra lá, dentro de um processo deles de congregar um monte de blogues progressistas, essa coisa toda. A gente estava nesse momento e pintou a chance de a gente se responsabilizar pelo conteúdo da revista também, que é um arranjo bem maluco, bem novos tempos, precariado. A gente não é funcionário da CartaCapital mas cuida de todo conteúdo [de cultura] da revista, que são oito páginas semanais. Tem dado super certo, a gente está super feliz, a gente adora o Mino [Carta, jornalista, fundador da CartaCapital], tem altos embates com ele, de concepções de cultura e tal, mas por enquanto está dando certo. Fizemos dois anos no final do ano.

Você está vindo à São Luís novamente para ministrar um curso pelo Sesc. Fala um pouco desse curso e de tuas expectativas em relação à participação dos inscritos.
Se não me engano eu vim três ou quatro vezes para São Luís. A primeira com Rita Ribeiro, hoje Rita Benneditto, lá nos anos 90, foi maravilhoso. Depois eu vim no festival BR-135, foi louquíssimo por que eu aproveitei a vinda e voltei pela BR-135. Vim pro festival e voltei de ônibus, percorrendo o Brasil por dentro, sem ser pelo litoral, percorrendo o Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul. Agora volto, sei lá, vamos dar um laboratório de jornalismo cultural, seja lá o que isso for. Acho que assunto não falta, o jornalismo está em crise, o Brasil está em crise, está tudo em crise, a cultura está em crise, Bolsonaro está querendo matar de inanição principalmente a cultura, mas acho que o jornalismo também, então eu acho que não falta assunto pra gente debater, teremos uma turma de 20 pessoas, espero que seja uma turma bem bacana, pra gente dar asas à imaginação.

Você falou que o jornalismo está em crise. Como você avalia a produção em jornalismo cultural no Brasil e, fora vocês três da CartaCapital, que outros nomes você destacaria, que têm te chamado a atenção? Da nova e da velha guarda, gente que fez tua cabeça e continua escrevendo, ou gente que surgiu agora…
Houve realmente uma dizimação. Eu sou mais do jornalismo musical, muitas vezes eu vou entrevistar ou fazer matérias sobre músicos e é recorrente, todos eles dizem a mesma coisa: “acabou a crítica musical, não existe mais”.

Acabou qualquer crítica, na verdade, não é?
É, eu tenho dúvidas. É um bom assunto pra gente debater lá no curso. A crítica não acabou, ela migrou para a famigerada caixa de comentários. Quando tinha blogue, o blogue tinha caixa de comentários, hoje em dia os portais ainda têm, é aquela carnificina, mas aquilo ali, assim como eu em 1997 falava horrores do Caetano Veloso, do Djavan, na Folha de S. Paulo, hoje em dia o cidadão comum fala horrores sobre o Lula ou a Dilma ou o Bolsonaro no espaço que ele tiver, pode ser a caixa de comentários da Folha, pode ser o facebook ou o twitter. Na verdade, os formatos esfacelaram, houve uma explosão e estilhaços pra tudo que é lado. O que era concentrado, você podia ir no jornal ou na revista e encontrar a crítica nossa de cada dia, hoje em dia ela está por todos os lugares. Então, na cultura, fica essa impressão de que ela acabou. E aí entram outras questões, a gente estava conversando sobre isso no almoço: aparece o youtuber, que é o crítico dos novos tempos, que é um cara que também vai lá e dá um monte de opinião, é o bonzão, e fala e acontece, e tem milhões de espectadores, e algum dia alguém descobre que esse cara está recebendo para falar de um livro sem ter lido o livro. E aí se descobre que não só é um crítico como é um mau crítico, por que ele não ouve o disco, ele não lê o livro, ele só recebe uma quantia de dinheiro para escrever alguma coisa e dar publicidade para aquilo. Essas coisas não são crítica cultural, muito embora elas frequentem, assim como a azeitona frequenta a farofa, o youtuber frequenta a crítica cultural.

Mas isso que você está dizendo não acaba por corroborar com essa tese da morte da crítica? Comentarista de portal não é crítico, embora ele emita uma opinião sobre uma obra, assim como o youtuber não é um crítico por que ele nem lê o que está comentando. Do ponto de vista da qualidade da crítica, da credibilidade e da seriedade da crítica.
Mas veja: eu também não era. Essa é a outra volta do parafuso. Por que eu fiz jornalismo. No jornalismo eu estudei história do jornalismo, sociologia, teorias sobre o jornalismo televisivo, eu estudei um monte de coisa, mas eu não estudei crítica, não aprendi a ser crítico na faculdade, foi uma coisa meio no fazer diário. Chegar na Folha de S. Paulo e entender que a Folha gostava que todo mundo falasse mal de tudo, aí eu comecei a falar mal dos cantores, e funcionou, eu fiquei 10 anos lá. Mas não era uma coisa científica ou estudada ou, sei lá, então, na verdade, eu acho que toda geração tem críticos mal formados, eu fui o da minha geração, pelo menos lá no comecinho eu fui, em algum momento eu fui.

Mas em algum momento você aprendeu.
Essa é uma questão: talvez eles nunca aprendam. Ou talvez eles aprendam e a gente vai queimar nossa língua.

O que esperar da mordaça do governo Bolsonaro?
Acho que não vai funcionar. O Bolsonaro só vai fazer mordaça se ele merecer, se a gente se acovardar. São três meses, é muito pouco tempo, mas assim, todo mundo está falando o que quiser. Quem está falando muito é por que quer falar muito, quem está falando pouco é por que quer falar pouco. Quem estiver acovardado, com medo de criticar ou de fazer cultura ou de fazer peça, ou de gravar um disco falando mal do Bolsonaro, eu acho que a sociedade que se autoamordaça [se interrompe]. Eu próprio, confesso, estava com muito medo, que ele ia reprimir geral, tudo. Seja dita a verdade, ele está reprimindo no sentido econômico, ele está tirando a grana, aí a gente vai ter que dizer se precisa de grana pra criticar ele ou se pode criticar de graça.

Sonhar em travesseiros de pedras de cantaria

O abraço dos poetas José Maria Nascimento e Fernando Abreu. Foto: divulgação

 

Aluno aplicado e devotado de Cesar Teixeira, há duas lacunas em minha formação boêmia: nunca bebi com o saudoso Nauro Machado (apesar de termos nos encontrado em não raras ocasiões de copos nas mãos – minha timidez impediu aproximação, à época) nem com José Maria Nascimento, que parou de beber e tem uma memória milimétrica sobre farras homéricas, suas e alheias. Conta histórias tão incríveis que às vezes ficamos em dúvida se este ou aquele episódio de fato aconteceu ou é fantasia de Cabeça de Poeta, salve Odair!

Ontem (19), pela calçada da Livraria Poeme-se, ocupada pelo recital de lançamento de Contra todo alegado endurecimento do coração, novo petardo do poetaço Fernando Abreu, passaram nomes como Adriana Gama de Araújo, Antonio Carlos Alvim, Celso Borges e Laura Amélia Damous – e é muito provável que eu esteja esquecendo o nome de alguém –, além da discotecagem de Eduardo Júlio e da performance do grupo Teatrodança.

Em suma, a noite foi linda, sem desmerecer a participação de ninguém. Mas quem, literal e literariamente roubou a cena, foi José Maria Nascimento: declamou um poema escrito sob o impacto da leitura (e releitura, “eu li ontem e reli hoje de manhã”, confessou) do volume, homenageando o bardo. Leu o poema em meio a trejeitos que imitavam o andar de bêbados e velhos. Ele e Fernando Abreu não ingerem álcool há décadas.

“Você vai ficar como eu”, galhofou José Maria Nascimento para gargalhada geral da plateia, inclusive o homenageado. Bendita maldição, que a praga pegue, vida longa a ambos, um brinde! – eles não bebem, mas eu sim.

Uma imagem não me saiu da cachola, desde que a ouvi da boca do poeta mais velho, não sei se fruto de exagero, de licença poética ou simplesmente de memória – lembram do que eu disse? Guardei na memória, sem nada anotar, o verso em que ele rememorava algumas farras, ocasiões em que, em alguma praça da cidade, “fizeram de travesseiros as pedras de cantaria”.

Devoção à poesia

Contra todo alegado endurecimento do coração. Capa. Reprodução

 

Contra todo alegado endurecimento do coração [7Letras, 2018, 73 p.] é uma pedrada, para quase usar a expressão com que a massa regueira designa os melhores reggaes, o gênero jamaicano que também faz a cabeça do poeta Fernando Abreu.

O título nos chega em hora urgente, num tempo em que a brutalidade e a ignorância – vizinha da maldade, já nos alertaria Renato Russo, outra referência do poeta – tentam se impor como políticas de Estado.

“Poesia mata fascistas” é slogan usado pelo poeta em redes sociais, mas a palavra não pode estar distante da ação, como já ensinou Paulo Freire, outro nome odiado por eles, vocês sabem quem. Em terreno minado de referências, Fernando Abreu aprendeu a lição de outro, o cearense Belchior: “sempre desobedecer/ nunca reverenciar”.

“Uma ocasião para a beleza”, crava certeira, citando Jorge Luis Borges, a poeta Adriana Gama de Araújo, que escreveu a apresentação de Contra todo alegado endurecimento do coração. Quinto livro de poemas de Fernando Abreu, este volume aprofunda algumas características de sua obra.

“O que é bom para o lixo é bom para a poesia”, nos ensinou Manoel de Barros, a cuja poesia a de Fernando Abreu se irmana. Não teme sujar as mãos com nada e merecem destaque os poemas Ghost news e Mesmo assim um poema, eminentemente de cunho político, refletindo o desastroso momento que o Brasil atravessa – este último figura na antologia Lula livre Lula livro.

É um eternizador de instantes, como Marcelo Montenegro, outro irmão de sua poética, também permeada de referências da cultura pop, entre literatura, cinema, artes visuais, música e cotidiano.

Sucessor de Manual de pintura rupestre (2015), Aliado involuntário (2011), O umbigo do mudo (2003) e Relatos do escambau (1998), em Contra todo alegado endurecimento do coração, Fernando Abreu se despe da poesia para vesti-la ainda melhor. É como se praticasse uma espécie de anti-poesia, aproximando seus versos da prosa, como se num diálogo cara a cara com o leitor. Como o chileno Nicanor Parra.

É a roupa do rei que pode ser vista mesmo por quem não tem olhos privilegiados, como os do próprio Fernando Abreu, como quando reprocessa Jim Jarmusch: “mesmo que seja apenas um filme/ um poeta de verdade sim”.

“Em Contra todo alegado endurecimento do coração, as exigências que o poema faz ao poeta não são sutis”, alerta Fernando Koproski, na orelha. Reflexões sobre o ofício poético, espécie de making of do livro – ou de determinados poemas – também aparecem ao longo das páginas do volume.

Autor consciente de sua condição de poeta, a cada poema encontra-se diante de uma encruzilhada. “Se não é capaz de/ enfrentar esse dilema,/ é melhor continuar escrevendo/ poemas que exigem de você/ apenas habilidade com as palavras/ mas a habilidade com as cartas/ não faz de um jogador/ um mágico”, como afirma certeiro no poema Promessas, central no livro e, de resto, na obra de Fernando Abreu.

Em Amor: fuga impossível crava, direto: “você pode enrolar seus credores/ mas não pode fugir do amor/ você pode dar uma de joão sem braço/ diante da suprema corte/ mas não pode fugir do amor/ você pode se disfarçar de monge/ só pra mudar de hábito/ mas não pode fugir do amor/ você pode se tornar um alpinista/ treinando em suas dunas de solidão/ você pode ser um novo líder/ um mártir, um revolucionário/ um careta, um picareta, um otário/ mas não pode fugir do amor”. Nem do amor, nem da poesia.

*

Leia o poema Sobre homens e destinos:

alguns diálogos no cinema
valem pelo filme inteiro
como certos momentos
justificam uma existência

ainda vou ver umas duas ou três vezes
a batalha final do remake do remake
de sete homens e um destino
só pra ver o atirador goodnight robicheaux
e seu servo zen
acossados pela metralha dos canalhas
travarem esse diálogo maluco:

– me lembro sempre do que meu pai falava.
o chinês vira o rosto, todo ouvidos
para a sabedoria do mestre.
nada.
a espera dura segundos eternos.
de repente:
– bem, meu pai falava muitas coisas…
diz goody
e caem os dois na gargalhada
em meio às balas que zunem
no velho campanário incendiado
de onde caem mortos
menos de cinco segundos depois

*

Serviço

A noite de autógrafos de Contra todo alegado endurecimento do coração acontece hoje (19), às 19h, na Livraria Poeme-se (Rua de Santo Antônio, 264-A). Com performance do grupo Teatrodança, discotecagem de Eduardo Júlio e recital com o autor e os poetas Celso Borges e Adriana Gama de Araújo.

Segunda chamada: dia 28 de março (quinta-feira), no mesmo horário, Fernando Abreu autografa o novo livro no Restobar Villa 25 (Rua Gago Coutinho, 25, Laranjeiras, Rio de Janeiro/RJ).

(Re)Lançamento inaugura novo endereço literário na cidade

O futuro tem o coração antigo. Capa. Reprodução

 

“O futuro tem o coração antigo/ não é um livro saudosista”, como também não o é seu autor, o poeta Celso Borges, que pela primeira vez, em quase 40 anos dedicados ao ofício – não à toa é chamado “homem-poesia”, ou simplesmente CB, pelos mais próximos – desde a estreia com o renegado Cantanto (1981), vê um livro seu chegar a uma segunda edição – a primeira é de 2013 (escrevi sobre aqui; folheie trechos acolá). “Mas um exercício de ternura/ a pele da flor na carne da cidade futura”, continua.

A carne da cidade histórica e patrimônio cultural da humanidade de São Luís do Maranhão, em que Celso Borges voltou a morar há 10 anos – após 20 de São Paulo –, está representada, na obra, em preto & branco, pela técnica de pin-hole, por alunos do Ifma, sob a batuta do professor Eduardo Cordeiro. Qual a primeira edição, esta segunda também sai pela guerrilheira Pitomba! livros e discos.

Para a noite de autógrafos o poeta sentará praça no Sebo Chico Discos, que passa, a partir desta quinta-feira, 14, dia da poesia – e um ano da bárbara e covarde execução de Marielle Franco –, a ocupar o térreo do Bar homônimo, na esquina de Afogados e São João, no Centro, afinal de contas palco de memoráveis tertúlias, bar e proprietário personagens fundamentais do poema chamado São Luís e daqueles que costumam ler a cidade com a devida atenção.

Aliás, cabe um parêntese, benza Deus a fartura!: há um corredor literário interessantíssimo no centro da cidade, fervilhando para além de seus acervos à venda, com eventos movimentando casas como, além do Chico Discos (tanto o bar quanto o sebo, a partir de amanhã), o Sebo do Arteiro (Rua do Sol, próximo ao Sindicato dos Bancários), a Livraria Poeme-se (Rua de Santo Antonio, 264-A, com seu sarau sempre às últimas quintas-feiras do mês e onde Fernando Abreu autografa quinta que vem, às 19h, seu quinto livro, Contra todo alegado endurecimento do coração, de que este blogue falará oportunamente) a Feira da Tralha (Edifício Colonial, nas imediações do Teatro Arthur Azevedo, com seu chorinho ao vivo e discotecagem nas manhãs entrando pelas tardes de domingo) e o Paço Prosa (Rua João Gualberto, 52-Altos, Praia Grande, mesmo endereço em que funcionava o Poeme-se).

“O futuro tem o coração antigo” é uma frase do poeta e pintor italiano Carlo Levi, que Celso Borges já havia usado na epígrafe de XXI (2000), livro-disco-coletânea em que começou suas experiências de ligar poemas a trilhas sonoras, para além da “leitura com fundo musical” – tão em voga ainda hoje –, no que se irmana a poetas da pesada como Ademir Assunção, Marcelo Montenegro e Rodrigo Garcia Lopes, para citarmos uns poucos.

O futuro tem o coração antigo, mas Celso Borges mesmo, num poema de Belle Epoque (2010), adverte: “antigamente era antigamente e era muito pior”. Como diz neste livro: “chega uma hora em que chegou a hora”. Repito: é amanhã (14), às 19h, no Sebo Chico Discos.

Show de Tião Carvalho reinaugurou o Papoético ontem

Momento histórico: Tião Carvalho e Chico Saldanha soltam a voz em Itamirim. Foto: Zema Ribeiro

 

O poeta Paulo Melo Sousa reinaugurou ontem o Papoético, cerca de sete anos depois de o projeto ter agitado a ilha. A reestreia aconteceu no Bar Latino (Rua do Giz, Praia Grande).

Ao menos na edição de ontem, o Papoético assumiu outras feições: em vez do debate-papo, bonitos espetáculos: de passagem pela ilha o poeta Dyl Pires leu um belo trecho de Éguas! (Pitomba, 2017), seu livro-poema mais recente, antes de se mandar para o sarau No Olho da Rua, evento mensal que acontece no novo Poeme-se (Rua de São João, 246A, Centro). Até o momento em que Paulo Melo Sousa anunciou a apresentação de Tião Carvalho, colocou o microfone à disposição dos presentes, mas ninguém se atreveu a recitar um poema.

Em ambiente aconchegante, apesar do preço proibitivo da cerveja (13 reais uma Eisenbahn), Tião Carvalho fez show inspirado, apesar do “em cima da hora” das articulações: maranhense radicado há décadas em São Paulo, o artista torna ao estado natal para shows na temporada carnavalesca e, já tendo se apresentado no Papoético àquela época, aceitou o convite do idealizador para regressar ao palco.

Subiu a ele acompanhado por João Simas (guitarra), Davi Oliveira (contrabaixo) e Thierry Castelo Branco (bateria), para um desfile de clássicos, entre composições de João do Vale (Uricuri), a quem tributou em disco [Tião canta João, Por do Som, 2006], da irmã Ana Maria Carvalho (Até a lua) e autorais (Quando dorme Alcântara, título de seu primeiro disco solo, de 2003). O próprio Tião revezava-se entre triângulo, maracá, apito e cavaquinho.

Num intervalo no meio do show, Paulo Melo Sousa sorteou exemplares de livros e cds entre os presentes. Erivaldo Gomes foi chamado a participar de Cajapió, composição de sua autoria gravada por Tião Carvalho em Quando dorme Alcântara e acabou recrutado pelo cantor a continuar ao triângulo durante quase toda a apresentação. Antes, da plateia e também na base do improviso, o convidado foi Chico Saldanha, que dividiu o palco com o amo do Boi de Cupuaçu em Itamirim.

A toada de Saldanha foi registrada em seu disco de estreia, o homônimo Chico Saldanha (1988), com a voz de Tião Carvalho – o disco, gravado em São Paulo, tem Erivaldo Gomes na percussão. Caminhos que se cruzam, momento histórico.

O show terminou com a Sapaiada (Xavier Negreiros e Marquinhos Mendonça) e Nós, clássico de Tião Carvalho imortalizado por Cássia Eller.

A intenção do idealizador é realizar o projeto Papoético quinzenalmente.

“O trem da vida apitou chamando”

O ouro do pó da estrada. Capa. Reprodução

 

O ouro do pó da estrada [Deck, 2018], título do novo disco de Elba Ramalho, o 38º. da carreira, é uma boa metáfora para a própria trajetória da cantora, que completa 40 anos de carreira em 2019 – se contados a partir de sua estreia, Ave de prata, em 1979; no ano anterior ela havia cantado, em dueto com Marieta Severo, O meu amor (Chico Buarque), em A ópera do malandro. O pó colecionado com o passar do tempo ao longo das estradas que percorreu para ir aonde o povo está, o ouro sua própria trajetória, de cantora sensível, repertório inspirado e popular, sempre atenta às origens.

No patamar de Maria Bethânia e Ney Matogrosso (este participa do disco em O girassol da caverna, de Lula Queiroga), Elba Ramalho compõe o time dos artistas que são, em si, a unidade do trabalho: o mesmo conjunto de canções que a outro intérprete poderia soar estranho, nela (neles) não. As canções reunidas, a princípio, não parecem coesas. Mas no fim são costuradas por seu talento e o resultado é um disco que cumpre o papel de celebrar seus 40 anos de carreira, sem soar meramente revisionista.

Não é coletânea mas passeia por diversas fases (e/ou setores) da carreira de Elba Ramalho: a reverência à origem e aos mestres do lugar, o diálogo entre o Nordeste e outras regiões, a atenção, em igual medida, aos grandes mestres e às novas gerações – entre compositores e convidados.

Na capa e encarte, a cantora aparece envolta em bordados com o título das canções do disco, como se a elas pertencesse seu corpo e vice-versa. E de algum modo é justamente disso que se trata: desde sempre ela se apropria do que canta.

Há canções inéditas, regravações de temas bastante populares e de músicas menos conhecidas. Entre as primeiras, Calcanhar (Yuri Queiroga/ Manuca Bandini) e a faixa-título (Yuri Queiroga/ Lula Queiroga, de onde pesco o verso que intitula esta resenha); na coluna do meio, Girassol (Pedro Luís/ Bino Farias/ Toni Garrido/ Lazão/ Da Gama), sucesso do grupo Cidade Negra, regravada com arranjo e regência de cordas de Arthur Verocai, Além da última estrela (Dominguinhos/ Fausto Nilo), gravada originalmente por Maria Bethânia, aqui relida com a sanfona de Mestrinho, Se tudo pode acontecer (Arnaldo Antunes/ Alice Ruiz/ Paulo Tatit/ João Bandeira) e O fole roncou (Luiz Gonzaga/ Nelson Valença); e entre as últimas o reggae Princesa do meu lugar (Belchior), antes gravado por Amelinha, O mundo (André Abujamra) – que conta com as participações especiais de Roberta Sá, Maria Gadu e Lucy Alves – e José (Siba), faixa inaugural do grupo pernambucano Mestre Ambrósio.

É disco que exala nordestinidade, calcada no reggae, mais explicitamente ou se valendo da proximidade das células rítmicas jamaicanas com gêneros nordestinos como o xote, entre outros agrupados no amplo guarda-chuva que se convencionou chamar simplesmente forró.

Por falar em forró, merece destaque Oxente, parceria de Chico César e Marcelo Jeneci, que participa da faixa (sanfona, synth e vocal).

O sobrenome Queiroga é central em O ouro do pó da estrada: Lula é autor de Girassol da caverna e da faixa-título, esta em parceria com o filho Yuri (que pilota diversos instrumentos no álbum), autor também de Calcanhar (com Manuca Bandini e texto incidental de Bráulio Tavares), que abre o disco, com a adesão dA Barca dos Corações Partidos (presente também em José), além de dividir arranjos e produção com Tostão Queiroga (que toca bateria).

O par final de faixas, José e O fole roncou, (re)liga a paraibana ao movimento (pernambucano) mangueBit, de que o Mestre Ambrósio foi representante e Luiz Gonzaga inspiração, com os forrós ponteados pelas guitarras de Yuri Queiroga.

Estradas de chão e o pó que delas sobe quando nelas pisamos, a evocar, certamente não inconscientemente, as salas de reboco de que falava o rei do baião, são obsessões particulares de Elba Ramalho neste repertório. “Até no chão/ no chão de areia/ quente pedra eu vou pisar/ eu vou seguir você até doer o calcanhar”, diz a letra de Calcanhar; em Na areia (Juliano Holanda), com arranjo e regência de cordas de Zé Américo Bastos, canta: “Eu sei que a vida é breve/ e não tarda a passar/ Deixo cair de leve/ que é pra não quebrar/ o silêncio pisando bem devagar/ cuida pra não apagar/ o caminho que eu fiz na areia”; e “Meu olho adora/ o ouro do pó da estrada/ eu não preciso do fim pra chegar”, diz na faixa-título.

Senhora de si, o trem da vida certamente ainda reservará várias estações à produtiva carreira de Elba Ramalho, para alegria de seu fã clube.

*

Veja o lyric vídeo da faixa-título:

João do Vale, atual e eterno

Opinião. Foto: Marla Batalha
Vicente Melo: gigante como o gigante João do Vale. Foto: Marla Batalha

 

A publicidade em torno da temporada Grandes Espetáculos do Maranhão (Gema), que movimentou os fins de semana de fevereiro no Teatro Arthur Azevedo, com reprises à altura de seu nome e sua sigla, afirmava sem medo de errar: “para encerrar com chave de ouro”, referindo-se ao musical João do Vale: o gênio improvável, reapresentado sexta-feira, sábado (em duas sessões) e ontem.

A superprodução leva ao palco a trajetória de João Batista do Vale, eleito por voto popular o maranhense do século 20. Começa com o então deputado Rubens Paiva, cassado e desaparecido pela outra ditadura militar, convocando trabalhadores e estudantes à resistência pelas ondas da Rádio Nacional, na data daquele golpe.

É um espetáculo comovente, a equilibrar-se entre a genialidade do protagonista (magistralmente interpretado por Vicente Melo), o contexto político da época em que o nome de João do Vale firmou-se como compositor – apreciado por nomes como Chico Buarque (Leonardo Fernandes), Fagner e Fernando Faro, que produziram juntos um disco do maranhense em 1982 – e o bom humor típico do autor de Pipira (com José Batista) e Peba na pimenta (com José Batista e Adelino Rivera), até seu falecimento, em 1996.

O elenco inteiro está à altura e todo o roteiro musical do espetáculo é executado e interpretado ao vivo, por banda liderada pelo violonista Júnior Maranhão. Merece destaque a interpretação de Carcará (parceria com José Cândido) – com trechos da Missa agrária (Gianfrancesco Guarnieri e Carlos Lyra) – por Milena Mendonça, que encarna Maria Bethânia.

O Brasil é um país de improbabilidades, se não o que explica a genialidade de nomes como João do Vale, Aleijadinho e Carolina Maria de Jesus, para ficarmos em uns poucos exemplos? Tendo um sonho como guia, João do Vale foi ousado, pegou carona em caminhão e desceu para o eixo Rio São Paulo em busca de ser artista – o que de fato já era, mas só ele mesmo acreditava. Servente de pedreiro, teve as primeiras músicas gravadas por Marlene (Juliana Cutrim) e, quando as cantava na obra, os colegas zombavam, não acreditavam ser dele.

O roteiro da peça lida bem com temas como o preconceito racial e geográfico enfrentado por João, negro e nordestino, bem como com a crueldade da outra ditadura militar. Foi em 1964 que estreou o show Opinião, com texto de Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho e Paulo Pontes, dirigido por Augusto Boal, com João do Vale, Zé Keti (Tiago Andrade) e Nara Leão (Nicole Meireles), convertida de musa da bossa nova em cantora de protesto.

De protesto, aliás, João do Vale também entendia. Suas músicas estão recheadas de mensagens questionando o status quo. Só não vê – ou ouve – quem não quer: Minha história (com Raymundo Evangelista), Sina de caboclo (com J. B. de Aquino) e o próprio Carcará, entre muitas outras. Ficamos a imaginar os petardos que estaria disparando contra a ditadura eleita em outubro passado.

Espetáculo à altura do homenageado, João do Vale: o gênio improvável circulará por algumas capitais brasileiras este semestre, além de outras cidades do interior do Maranhão (passou por algumas na turnê De Teresina a São Luís). Para quem perdeu esta recente oportunidade, volta a se apresentar em São Luís por ocasião do aniversário do Teatro Arthur Azevedo, em junho. A temporada Gema atestou a ótima safra de espetáculos teatrais atualmente produzidos no Maranhão. A ideia do diretor do TAA Celso Brandão é realizá-la anualmente, no período das férias de início de ano. As antenas da curadoria estão sempre de pé.

Artista de obra relevante e atual, João do Vale segue vivo. Vida longa ao musical que o homenageia e ao Gema!

O barato pesado de Siba

Não mexe comigo que eu não ando só. Foto: José de Holanda

O Bloco Bota Pra Moer, capitaneado pelo duo Criolina, formado por Alê Muniz e Luciana Simões, percorrerá o Circuito Beira-Mar, oficial do Governo do Estado do Maranhão, dia 4 de março (segunda-feira de carnaval), às 16h. O convidado do bloco, em seu segundo ano, é o cantor e compositor eterno novo baiano Moraes Moreira, que ganhou uma homenagem da dupla, Demorô Moraes, composta em parceria com o poeta Celso Borges.

O Bota Pra Moer realiza amanhã (23), às 17h, ensaio aberto na Praça dos Catraieiros (Praia Grande). O Criolina terá como convidados o grupo Divina Batucada, o dj Jorge Choairy e o pernambucano Siba.

Embarcando para o Maranhão o convidado ilustre conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos sobre sua participação na temporada pré-carnavalesca de São Luís, política e seu disco novo, que lança em maio ou junho. Siba disponibilizou hoje nas plataformas digitais um single do novo trabalho, a faixa Barato pesado.

Barato pesado. Capa do single. Foto: José de Holanda

Siba, como se deu o convite e qual a sua sensação em voltar ao Maranhão para uma apresentação na temporada de pré-carnaval?
Quem me conhece sabe que eu tenho uma longa história de amor com o Maranhão. Cada vez que eu tenho uma oportunidade de ir aí é sempre um momento especial pra mim. O convite se deu através de minha relação de admiração e amizade com o Alê e a Luciana do Criolina. Foi um convite de surpresa, agora, muito próximo do carnaval, a possibilidade de ir aí cantar com eles, viver um pouco dessa [temporada] pré-carnavalesca de São Luís, que eu nunca tive a oportunidade de ver. Vai ser duplamente especial para mim dessa vez.

Como será sua participação e qual o set list previsto?
Eu vou cantar coisas minhas que têm relação com o carnaval, especialmente frevos, A bagaceira, Canoa furada, A velha da capa preta, Bicharada, esse repertório que dialoga diretamente com o carnaval, não poderia ser diferente.

O folião Siba é representado na letra de A bagaceira? “Pode acabar-se o mundo/ vou brincar meu carnaval”?
A bagaceira é meio autobiográfica, do meu carnaval de juventude, muito novo, brincando como folião mesmo, sem nenhum vínculo mais direto com a tradição do carnaval que eu fui depois elaborando. Então, quando eu era um garoto de subúrbio em Olinda eu brincava de mela-mela e depois, mais pra frente, tomar uns goles, e sair na sexta e voltar na quarta-feira, esse foi o meu carnaval folião por alguns anos. Depois eu me envolvi com o carnaval, primeiro com o maracatu, e depois profissionalmente como cantor e compositor, e aí deixei esse lado folião para outros momentos, por que já não dava mais para ser no carnaval. Embora eu não sinta falta por que eu gosto muito de fazer carnaval, de atuar e construir o carnaval, de cima do palco. É um momento muito especial, de muita intensidade pra mim.

Em seu disco mais recente [O ouro do pó da estrada, Deck, 2018] Elba Ramalho gravou José, faixa inaugural do Mestre Ambrósio. O que você achou do registro e o que ele significa para você, enquanto compositor?
José é uma música muito importante pra mim, do repertório do Mestre Ambrósio, do primeiro disco [1997], uma música que eu cantei, sei lá, mais de 12 anos a fio, que foi a história da banda. Na voz de Elba ficou incrível, especial, ela é uma intérprete fabulosa, segue sendo uma intérprete única, de voz imediatamente reconhecível, uma marca muito forte na música nordestina e brasileira. Pra mim foi uma honra também de ter essa versão na voz dela. Me deu até vontade de cantar a música novamente no repertório, quem sabe agora eu bote ela de volta na minha lista.

Mais do que nunca o carnaval será uma espécie de escape da realidade. Como você tem acompanhado o cenário político e o que espera do Brasil sob a égide dos militares eleitos em outubro?
Olha, eu não gosto de dizer que o carnaval é escape da realidade, eu acho que o carnaval é a realidade intensificada. É onde a gente coloca pra fora o que há de melhor e pior da nossa realidade, concentrado em comportamento, em fantasia, em música, em expressão. Eu acho o carnaval muito importante para a saúde de nosso país, por que ele é central de nossa cultura e de nossa dinâmica de vida em sociedade. Você me pergunta o que eu espero do Brasil militarizado como ele está: eu sou bastante pessimista, acho que o governo atual é um desastre, um desastre caótico, uma família envolvida com milícia, um trato caótico do governo, cada um diz uma coisa uma hora, um vereador diz o que o presidente tem que fazer, é uma coisa realmente muito complicada. Parece vir dos próprios militares as vozes às vezes mais balanceadas, o que pra mim não é uma vantagem. Na verdade, a gente lutou muito para ter uma democracia de direito, e agora vê a volta dos militares, eu não vejo com bons olhos. Eu espero estar errado, mas eu acho que a gente tem aí um longo período de incertezas pela frente.

O que o fã clube pode esperar de Siba em 2019? Vem disco novo por aí?
Tem sim um disco novo, agora, estou preparando ele. Hoje nós lançamos nas plataformas digitais, um single desse disco, se chama Barato pesado, é uma música que tem muito a ver com o carnaval, por isso que a gente se apressou em lançá-la logo, podem procurar e ouvir. É uma música muito especial para mim, ela é talvez prima-irmã dA bagaceira e está aí pra todo mundo ouvir. O disco sai em maio ou junho, não quero adiantar muito sobre ele. O que eu tenho de melhor pra adiantar está na música que eu lancei hoje, dá para ouvir e ver qual é a pegada do disco. Até já! Estou indo para o Maranhão agora.

Olhai os lírios do Illinois

A mula. Still. Reprodução

 

Clint Eastwood é um monumento vivo do cinema. Seu novo filme, A mula [drama, EUA, 2018, 116 minutos], é ao mesmo tempo brutal e delicado, com várias camadas e diversas lições (aprendamos com os erros alheios, pois não teremos tempo para cometê-los sozinhos novamente, parece dizer uma delas).

Com direção e atuação magistrais, como é de seu feitio, Eastwood é Earl Stone, um velho premiado por produzir os mais belos lírios do Illinois. É um daqueles seres de que se pode dizer que vive de férias, pois trabalha com o que gosta, mesmo isso custando certo desleixo nas relações familiares.

Decorrem daí a culpa, a falência e uma eterna busca do tempo perdido. Acaso e remorso acabam levando Earl a uma aventura no universo ilegal, perigoso e, por que não dizer, glamouroso do tráfico de drogas. São as viagens que faz a serviço de um cartel mexicano, a princípio numa velha caminhonete – imediatamente pensei em Gran Torino [2008], ao vê-la em cena –, depois numa caminhonete de luxo, adquirida já com o pagamento recebido pelo transporte da primeira carga.

O filme é baseado em um artigo do New York Times, da década de 1990. As viagens e a ousadia de Earl – que dirige cantarolando o que ouve no rádio, a trilha sonora do road movie um espetáculo à parte – prendem o espectador, afinal de contas, ele é um velhinho simpático, bon vivant, bom de papo, um tipo, afinal, acima de qualquer suspeita, dono de fina ironia, bom humor e, por outro lado, de alguma forma, conhecedor da malandragem, já que é um veterano de guerra.

“A geração de vocês”, começa a palestrar a qualquer um que encontre pelo caminho com os olhos enfiados na tela do celular. Ele culpa a internet pela falência de seu negócio com os lírios. É um anacrônico que lamenta não poder comprar mais tempo para recuperar o que deixou de passar com a mulher (Mary, interpretada por Dianne Wiest), a filha (Iris, por Alison Eastwood, filha do diretor) – com quem não fala há 12 anos e meio – e a neta (Ginny, Taissa Farmiga). “Eu pude comprar tudo, só não pude comprar o tempo”, diz a certa altura, arrependido.

Líder da caça ao cartel, o agente Colin Bates (Bradley Cooper) chega a tomar um café com Earl. O policial, com a cara enfiada no celular, lamenta ter esquecido seu aniversário de casamento, e recebe conselhos do protagonista. Estabelece-se uma relação afetuosa, para além da de caça e caçador.

É comovente quando Earl assume os riscos de atrasar a entrega de uma carga para acompanhar os últimos dias da ex-esposa moribunda, e hilariante quando ela lhe pergunta onde ele havia arrumado o dinheiro para retomar a propriedade hipotecada em que plantava lírios e pagar a formação universitária e a festa de casamento da neta.

A única redenção que Earl quer é junto à família. “A família é o mais importante”, diz, noutra passagem. Mesmo isto significando o rompimento definitivo do convívio familiar, assume sua culpa a demonstrar que há limites éticos, ainda que se trate do submundo do crime. Baseada em fatos reais, os criminosos da ficção de Eastwood são maiores que os protagonistas da triste realidade brasileira. O cerco e o ciclo se fecham: A mula começa e termina com a beleza dos lírios, metáfora para o bom da vida, que apesar de tudo, está por aí: basta abrir bem os olhos e prestar a devida atenção.

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Veja o trailer:

Salve o compositor Ernesto Cardenal!

Homem de vícios antigos conversou com Zé Modesto, parceiro do sacerdote nicaraguense recém-reabilitado pela Igreja Católica; disco de estreia do paulista – que tem parceria dos dois – completa 15 anos em 2019

Sábado passado (16), o religioso hispano-brasileiro Dom Pedro Casaldáliga completou 91 anos. Radicado em São Félix do Araguaia/MT, um dos ícones da Teologia da Libertação, ele gravou, com o também poeta Pedro Tierra e o cantor e compositor Milton Nascimento, o álbum Missa dos Quilombos (1982). Por ocasião de seu aniversário, Gisa Franco e eu tocamos uma faixa do álbum no Balaio Cultural, na Rádio Timbira AM, na data.

O sacerdote, poeta e revolucionário Ernesto Cardenal. Foto: divulgação

Ontem (18), li na coluna de Clóvis Rossi na Folha de S. Paulo, a notícia de que Mário Jorge Bergoglio, o Papa Francisco, havia reabilitado o nonagenário Ernesto Cardenal, nicaraguense, outra referência da Teologia da Libertação na América Latina. Em comum, os dois sacerdotes têm o apreço pela poesia, não são burocratas da religião. Dedicaram suas caminhadas ao povo, sobretudo o mais humilde, em busca de uma sociedade mais justa, no que se juntam a nomes como os de Leonardo Boff (1938) e Frei Betto (1944), além de mártires como Dom Oscar Romero (1917-1980), Irmã Dorothy Stang (1931-2005), Frei Tito (1945-1974) e Pe. Josimo Moraes Tavares (1953-1986).

Internado desde o início de fevereiro em um hospital de Manágua, sua cidade natal, Cardenal completou 94 anos no último dia 20 de janeiro e desde 1985 estava “sob suspensão do exercício do ministério devido a sua militância política”, “censura canônica” imposta por João Paulo II. Cardenal foi ministro da Cultura da Nicarágua no primeiro governo de Daniel Ortega (1985-1990), atual presidente da Nicarágua, eleito em 2006 e reeleito em 2011 e 2016.

Dissidente da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), o sacerdote vem sendo perseguido por Ortega desde que este reassumiu o poder em 2007 – episódio estapafúrdio foi a imposição de uma multa no valor de 800 mil dólares (o equivalente a R$ 2,9 milhões), “por supostos danos e prejuízos em disputa relacionada à posse de terrenos em Solentiname. Foi lá que Cardenal fundou sua comunidade de pescadores, camponeses e artistas primitivistas”, de acordo com o colunista da Folha. Qualquer semelhança com o que a Justiça brasileira vem fazendo com o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva não é mera coincidência.

Cardenal é considerado um dos mais importantes poetas de língua espanhola, tendo sido indicado ao Prêmio Nobel de Literatura em 2005. 40 anos antes havia sido consagrado com o Prêmio Rubén Darío, maior honraria das letras nicaraguenses. O perdão da Igreja Católica me fez lembrar de uma pérola de sua autoria.

Esteio. Capa. Reprodução

Em 2004 o compositor paulista Zé Modesto lançou seu disco de estreia, Esteio, com participações especiais de nomes como Ceumar, Ana Leite, Kléber Albuquerque, Rubi e Renato Braz, entre outros. O disco é um primor de delicadeza, um dos melhores lançados no Brasil naquela década, com sua poesia muito particular, evocando universos urbanos e rurais, festas populares, sambas, natureza, Guimarães Rosa e… Ernesto Cardenal. Depois, o historiador e compositor paulista lançaria ainda Xiló (2007) e Ao pé do ouvido (2015), também verdadeiros artigos de ourivesaria musical, o mais recente com a participação especial das caixeiras do Divino da Família Menezes, da Casa Fanti-Ashanti, de São Luís.

Do ótimo repertório de Esteio sempre me chamou a atenção, especialmente, o choro Estrelas, registrada no álbum em dueto com sua irmã Ana Leite e com o advento do grupo Sociedade do Choro, capitaneado por Carlinhos Amaral. Pela beleza do casamento de letra e melodia, pela parceria inusitada. E volta e me comover neste baile de debutante do disco, enquanto me pergunto o porquê de ter demorado tanto a ir atrás desta história.

O historiador e compositor Zé Modesto. Foto: divulgação

Zé Modesto contou com exclusividade a Homem de vícios antigos a história da parceria: “Lá pelo início dos anos 2000 eu tive acesso a um livro do Ernesto Cardenal, que se chamava As riquezas injustas [Círculo do Livro, 1982], uma antologia poética dele, eu ganhei da minha ex-mulher. Eu sempre gostei da história da revolução nicaraguense, sempre me interessei pela ideia de ter um religioso contribuindo para um governo mais popular, sempre me interessei pela vida do Ernesto Cardenal, Dom Pedro Casaldáliga, no Brasil. São poetas e ao mesmo tempo religiosos, e ao mesmo tempo engajados em causas populares, numa utopia, num sonho de uma sociedade mais justa e assim por diante. O que acontece é que eu comecei a ler o trabalho dele e gostei muito e especialmente esse poema me deu vontade de musicar”.

O compositor tece elogios às imagens poéticas do parceiro distante: “Eu gostei demais dessa imagem que ele constrói, que “o céu estrelado é como uma cidade à noite, uma cidade vista de um avião”, então as estrelas não estão no céu, as estrelas estão nas ruas, são os mercados iluminados, são todas as luzes da noite, aí ele vai dizendo, “brancas e vermelhas dos carros que vão e vem”, o branco dos faróis, o vermelho das lanternas. Eu gosto dele falar dos lugares, de night clubs, motéis, é interessante o religioso falar dessa vida profana. Essas estrelas, numa comparação ao que são as estrelas do céu, que elas também desaparecem, essas estrelas “que se queimam por nada/ o céu estrelado é um desperdício de energia”, e é tanta energia mesmo, quando a gente olha pro céu estrelado. Ele compara com as energias daqui, que se perdem no vazio das avenidas, da vida que a gente leva aqui embaixo, e compara tudo isso com uma superprodução de Clarck Gable”.

“É uma produção curta, mas que contribui tanto para um mergulho poético nesse universo das estrelas, nessa brincadeira que ele faz, do céu e da terra. Eu gosto demais desse poema e falei: “isso aqui dá um samba”. Comecei a pensar e fui cantarolando e saiu Estrelas. Foi muito legal. Mostrei a música para as pessoas, gostaram bastante, falei: “vou gravar!”, continua.

Modesto e Cardenal nunca estiveram juntos pessoalmente. Indago-lhe sobre a burocracia para a formalização da parceria, envolvendo despachos, carimbos, assinaturas, cartórios. “Eu imaginei que fosse ter um trabalho muito grande, que ia ser muito burocrático. Consegui o contato dele, entrei em contato, a secretária dele, Luz Maria Costa, me atendeu, muito simpática, ele já era velhinho, assinou, eu tenho até hoje um documento lavrado em cartório em Manágua, da autorização dele para a publicação da música. Aí eu mandei uns discos para ele, ele gostou. Foi um atrevimento meu que acabou dando certo”.

Deus abençoe o Papa Francisco, Ernesto Cardenal, Zé Modesto e qualquer um/a que se comova diante de tanta beleza! Há quem espere por milagres extraordinários, mas como dizem os poetaços Paulo Leminski e Marcelo Montenegro, “a cor amarela é um milagre”, “uma melodia linda é um milagre”. Contentemo-nos. Não é pouco!

A seguir, leia e ouça Estrelas (letra: Ernesto Cardenal; música: Zé Modesto)

Olha as estrelas no céu, olha as estrelas
Olha as estrelas do céu, olha as estrelas

O céu estrelado é feito uma cidade de noite,
uma cidade de noite vista dum avião:
as estrelas são como ruas, são mercados iluminados,
anúncios de neon, motéis, nigth clubs, cinemas e luzes
brancas e vermelhas, dos carros que vão e vêm,
dos carros que vêm e vão pelas estradas escuras
e se queimam por nada… para nada.

O céu estrelado é um desperdício de energia,
um esbanjamento de energia na perpétua noite.
Como a energia daqui perdida no vazio
nas avenidas, lojas, cafés, nigth clubs, motéis, cinemas
com uma superprodução de Clark Gable.