Samba de segunda

[dedico este post aos amigos Victor Hugo, o dj que me deu a dica, e Nielsen Furtado, pelo reencontro e companhia; e a Zé Pivó, imortal]

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

​É segunda-feira, passa das 21h, e no canteiro central da Av. Dep. Mauro Bezerra, vulgo Canal do Caratatiua, uma roda de samba segue a toda. São nove instrumentistas, entre os quais três banjos, únicos instrumentos harmônicos em meio ao naipe de percussão formado por tantã, repique, pandeiro e reco-reco, entre outros. Sem amplificação, tudo direto do gogó, a plenos pulmões. Ao longo da noite os músicos se revezam em um ambiente em que despontam majoritariamente camisas do Sampaio Corrêa (um dos banjos é ornado​​ com as cores do tricolor), mas onde se veem também camisas do Flamengo e do Fluminense. O proprietário do bar traja uma do Grêmio.

Estamos no Samba do Peixe, que acontece semanalmente, tocado pelo mesmo grupo que religiosamente inicia a roda de samba pontualmente às 14h30 na Feira da Praia Grande, aos sábados.

O céu escuro anunciava chuva, o que não diminuiu a disposição do bom público presente. O repertório passeava por temas de Zeca Pagodinho, João Nogueira, Alcides Malandro Histórico da Portela, Monarco, Martinho da Vila e Dona Ivone Lara, entre outros bambas.

O endereço da sede do samba fica em frente à tenda armada no canteiro central: o Bar do Joka, cujo nome está estampado em uma placa de publicidade de cerveja, onde abaixo se lê num toldo: Samba do Peixe. Chama-me a atenção a inscrição em letras miúdas, ao lado: “Pivó eterno”, aludindo ao saudoso Zé Pivó, integrante da ala de compositores de agremiações carnavalescas como a escola de samba Turma de Mangueira, do bairro do João Paulo, ali próximo, onde morava, e do bloco Fuzileiros da Fuzarca, da Madre Deus.

É ele o autor do clássico samba-enredo que festejou o cinquentenário da verde e rosa da ilha: “50 anos faz que a primeira escola desfilou”. Sobre o transitar com desenvoltura entre o João Paulo e a Madre Deus, diz a letra de Sandália de prata, um de seus maiores sucessos: “mas se quiser ficar em casa/ o problema é seu/ eu sou joão-paulino/ mas vou brincar na Madre Deus”.

A foto da foto, por Zema Ribeiro
A foto da foto, por Zema Ribeiro

Entre uma cerveja e outra e um delicioso tira-gosto de tambaqui assado na brasa (por honestíssimos 12 reais) e após ter ido pegar mais uma no balcão (apesar de o local dispor de garçons, inclusive o proprietário), avisto um painel à esquerda da entrada, onde se veem vários retratos de Zé Pivó. O primeiro, em especial, me fisga, impedindo-me até de examinar melhor os outros: o sambista está de pé, num palco, ladeado por Joãozinho Ribeiro (foi num show dele no João Paulo, no começo dos anos 2000, que vi Zé Pivó ao vivo pela primeira vez), Josias Sobrinho (que completou 66 anos ontem) e Lena Machado (a cujo show Divino Espírito Samba o convidado Zé Pivó faltou há alguns anos).

Indago a Joka se ele tem algum parentesco com Pivó. Ele ri e me aponta na parede o retrato de um casal e para abaixo dele. “Veja a semelhança”, diz, e só então me espanto: Joka é a cara do pai. Em seguida me aponta o retrato que tinha prendido minha atenção, de um réveillon do Governo do Maranhão: “essa foto aqui é do último show dele, ele morreu uns dois meses depois”.

Seu legado permanece vivo, a julgar pela disposição de músicos e plateia que dividem o calçadão nas noites de samba no Bar do Joka, segunda após segunda.

RicoChoro ComVida na Praça estreia nova temporada com choro e guitarrada

[release]

Mestre Solano é o convidado da primeira edição do projeto este ano; apresentações acontecem até novembro em diversas praças de São Luís

A estreia da quarta temporada de RicoChoro ComVida na Praça acontecerá dia 20 de julho (sábado), às 19h, na Praça da Fé (Casa do Maranhão, Praia Grande). O projeto, idealizado e produzido por Ricarte Almeida Santos, segue firme no propósito de estimular o encontro entre diversas linguagens musicais brasileiras, entre o instrumental e o cantado. Este ano abre espaço também para a poesia.

O projeto é uma realização de Eurica Produções, Girassol Produções Artísticas e RicoChoro Produções Culturais, com patrocínio de TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão. Em 2019 RicoChoro ComVida na Praça terá cinco edições e acontece até novembro. Toda a programação (veja completa ao fim do post) é gratuita.

Outra novidade nesta temporada de RicoChoro ComVida na Praça é a parceria com a Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo. Às vésperas das apresentações de convidados nacionais, haverá rodas de conversa com os artistas, que serão realizadas nas dependências da Emem. “Para nós é uma alegria estabelecer essa parceria. A Emem é um símbolo de qualidade na formação sólida de diversos talentos nossos. Por exemplo, os integrantes do Caçoeira, todos foram alunos da Escola de Música”, celebra Ricarte.

Em caricatura de Nuna Neto, o homenageado da temporada, o compositor Joãozinho Ribeiro
Em caricatura de Nuna Neto, o homenageado da temporada, o compositor Joãozinho Ribeiro

Ano Joãozinho – A partir deste ano, RicoChoro ComVida na Praça passa também a homenagear uma personalidade do Choro no Maranhão. Em 2019 o escolhido é o poeta e compositor Joãozinho Ribeiro, que celebra 40 anos de carreira. Samba e choro são dois gêneros de destaque no repertório do artista, que, nos moldes do projeto, percorreu diversas comunidades da ilha de São Luís entre os anos de 2002 e 2003 com o projeto “Samba da Minha Terra”.

O requisitado e talentoso DJ Franklin. Foto: divulgação
O requisitado e talentoso DJ Franklin. Foto: divulgação
O mímico Gilson César inaugurará as performances poéticas na temporada. Foto: divulgação
O mímico Gilson César inaugurará as performances poéticas na temporada. Foto: divulgação

A primeira edição terá como convidados o DJ Franklin, desde sempre um dos mais requisitados da Ilha, e performance poética com o mímico Gilson César. “Eles ajudam a criar uma ambiência, um clima, mas são parte do espetáculo. Queremos que as pessoas curtam música, poesia, num exercício de vivência comum, ocupando espaços públicos, dando nossa modesta contribuição para os esforços de revitalização da cidade que têm sido anunciados”, comenta Ricarte.

O Regional Caçoeira: rede de pescar ritmos. Foto: divulgação
O Regional Caçoeira: rede de pescar ritmos. Foto: divulgação

O grupo anfitrião da noite será o Regional Caçoeira, formado por João Eudes (violão sete cordas), Lee Fan (flauta e saxofone), Wanderson Silva (percussão) e Wendell Cosme (bandolim e cavaquinho), jovens virtuoses que há algum tempo ganharam notoriedade na cena musical da cidade, figuras fáceis em fichas técnicas de shows e discos de diversos artistas maranhenses.

A rede de pesca que empresta nome ao grupo alude ao passeio por diversos gêneros que o quarteto faz a cada apresentação, sobretudo mesclando o Choro a ritmos da cultura popular do Maranhão. Um balanço – para novamente lembrar do mar, do Maranhão – inigualável.

Mestre Solano, o rei da guitarrada, com mais de 60 anos de carreira. Foto: divulgação
Mestre Solano, o rei da guitarrada, com mais de 60 anos de carreira. Foto: divulgação

Choro e guitarrada – O grande convidado do sarau de estreia é Mestre Solano, o rei da guitarrada, direto do Pará. Ele lançou em setembro passado o cd “As guitarradas de um mestre”, em que, além do gênero que lhe dá título, passeia por cumbia, merengue, calipso, carimbó e bolero, entre outros. Aos 63 anos de carreira, com 17 álbuns lançados, o artista promete uma noite dançante.

“Americana” (Frank Carlos), também já gravada por nomes como Alípio Martins e Arnaldo Antunes, é seu maior hit, gravado por ele na década de 1980, na formação Solano e Seu Conjunto, e regravado no novo disco.

Mestre Solano nasceu em Abaetetuba – “terra morena de garotas de valor”, como canta o conterrâneo Pinduca –, onde ainda na infância começou a “arranhar” um banjo. Depois mudou-se para a capital Belém, onde ingressou no Corpo de Bombeiros, tendo sido músico da corporação militar.

Acessibilidade — Todas as edições de RicoChoro ComVida na Praça garantem a presença confortável de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. O projeto garante banheiros acessíveis, assentos preferenciais com sinalização, audiodescrição e tradução simultânea em libras.

Serviço

Sarau

O quê: estreia da temporada 2019 de RicoChoro ComVida na Praça
Quando: dia 20 de julho (sábado), às 19h
Onde: Praça da Fé (Casa do Maranhão, Praia Grande)
Quem: Gilson César, DJ Franklin, Regional Caçoeira e Mestre Solano (Pará)
Quanto: grátis
Patrocínio: TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão
Realização: Eurica Produções, Girassol Produções Artísticas e RicoChoro Produções Culturais

Roda de conversa

O quê: Roda de conversa
Quando: dia 19 de julho (sexta-feira), às 16h
Onde: Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Rua da Estrela, 363, Praia Grande)
Quem: Mestre Solano e Ricarte Almeida Santos
Quanto: grátis
Patrocínio: TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão
Realização: Eurica Produções, Girassol Produções Artísticas e RicoChoro Produções Culturais

Programação completa (sempre às 19h)

20 de julho

Local: Praça da Fé (Casa do Maranhão, Praia Grande)
Grupo anfitrião: Regional Caçoeira
Artista convidado: Mestre Solano (Pará)
Dj: Franklin
Poesia: Gilson César

24 de agosto

Local: Praça do Letrado (Vinhais)
Grupo anfitrião: Mano’s Trio
Artista convidado: Chiquinho França
Dj: Pedro Dread Lock
Poesia: Mano Magrão

21 de setembro

Local: Praça Carlos de Lima (Lagoa da Jansen)
Grupo anfitrião: Quarteto Buriti
Artistas convidados: Paulão e Mila Camões
Dj: Victor Hugo
Poesia: Áurea Maria

19 de outubro

Local: Largo da Igreja do Desterro
Grupo anfitrião: Trítono Trio
Artistas convidados: Cláudio Lima e Célia Maria
Dj: Vanessa Serra
Poesia: Rosa Ewerton

9 de novembro

Local: Praça Gonçalves Dias (Centro)
Grupo anfitrião: Quarteto Crivador
Artista convidado: Messias Britto (Bahia)
Participação especial: Joãozinho Ribeiro (homenageado da temporada)
Dj: Joaquim Zion
Poesia: Celso Borges

Vieira inédito e festejado

Fim de festa: Lena Machado e Edilson Gusmão, juntos, interpretam Banho cheiroso. Foto: Zema Ribeiro
Fim de festa: Lena Machado e Edilson Gusmão, juntos, interpretam Banho cheiroso. Foto: Zema Ribeiro

 

Desde o último 9 de maio começaram as celebrações em torno do centenário do compositor Antonio Vieira (9/5/1920-7/4/2009) – a ser completado em 9 de maio de 2020.

Capitaneada por Helena, sobrinha do artista, e pelas produtoras culturais Tatiana Ramos e Márcia Carvalho, uma temporada de shows tem percorrido diversos espaços da cidade, escalando sempre um par de artistas para explorar majoritariamente o repertório inédito deixado pelo compositor.

A estreia aconteceu no Bar Latino (Praia Grande), com Inácio Pinheiro e Tássia Campos; no mês seguinte, Alexandra Nicolas e Josias Sobrinho comandaram a festa, na Feirinha São Luís (Praça Benedito Leite, Centro).

A banda que acompanha as duplas é sempre a mesma: ​Arlindo Carvalho (percussão, foi companheiro de Vieira no Regional Urubu Malandro e integrou, com ele, a primeira formação do Regional Tira-Teima, na década de 1970), Rui Mário (sanfona e teclado), Thiago Fernandes (violão sete cordas), Danilo Santos (flauta e saxofone), Sadi Ericeira (cavaquinho), Ronald Nascimento (bateria) e Davi Oliveira (contrabaixo).

Ontem (9) foi a vez de Edilson Gusmão e Lena Machado, que se apresentaram no Anfiteatro Beto Bittencourt (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). Revezando-se no palco, cada qual cantou meia dúzia de canções.

Edilson Gusmão abriu o show com Mulata bonita, primeira composição de Vieira, escrita quando ele tinha 16 anos. Destacou-se em seu repertório a interpretação do choro inédito Aquele rapaz, que versa sobre um homem que, abandonado pela mulher, entrega-se ao álcool. Mas as lentes de Vieira nunca são moralistas, pedindo-nos que não julguemos o personagem.

A crítica social que sempre marcou o trabalho do mestre – “era chamado de mestre por que era um mestre”, alertou o elegante Augusto Pellegrini, outro mestre, de cerimônias, da noite – compareceu ao repertório de Lena Machado em Zé do lixo, atentando para a pouca atenção dispensada pela sociedade aos garis.

Em sua interpretação para A pedra rolou, a cantora incorporou os graves e o bailado de Célia Maria, referência em interpretação e quando o assunto é a obra de Vieira, sempre reverenciado por ela.

No bis, o dueto dos artistas em Banho cheiroso, na base do improviso, parecendo antecipar a necessidade de um descarrego que exigiria o dia de ressaca, com os falecimentos de Paulo Henrique Amorim e Chico de Oliveira. Sinais de Vieira.

Em breve os áudios das apresentações serão disponibilizados em plataformas de streaming.

Sobras

Em fevereiro passado estreei com Suzana Santos o Radioletra, programa semanal de 15 minutos dedicado à literatura. O entrevistado inaugural foi Zeca Baleiro, que, na ocasião, desejou “bons ventos e vida longa!” à empreitada.

Mais conhecido como cantor e compositor, Zeca Baleiro tem publicados os livros A rede idiota [Reformatório], Bala na agulha – Reflexões de boteco, pastéis de memória e outras frituras [Ponto de Bala], ambos volumes de crônicas, e Quem tem medo de curupira [Companhia das Letras], peça teatral escrita quando ainda morava em São Luís. Além do box A vida é um soulvenir made in Hong Kong [Ed. UFG], precioso mimo, item de colecionador, um raro e delicado conjunto de artefatos poéticos.

Isso era o bastante para justificar a presença de Baleiro num programa de literatura. No final de janeiro, nos estúdios da Rádio Timbira AM, conversamos com ele por cerca de uma hora – depois selecionamos os trechos mais afeitos à área. Você pode ouvir o primeiro Radioletra aqui.

O programa está temporariamente fora do ar, passando por reformulações e negociações. Em breve anunciaremos novidades, aguardem. Enquanto isso, você pode ler, a seguir, as sobras completas do papo com Zeca Baleiro.

Zeca Baleiro ladeado pelos apresentadores do Radioletra. Foto: Leno Edroaldo
Zeca Baleiro ladeado pelos apresentadores do Radioletra. Foto: Leno Edroaldo

Zema Ribeiro – Quais as suas lembranças do ambiente literário e musical de sua infância?
Zeca Baleiro – Nosso pai era muito zeloso por essa coisa, a literatura era uma coisa muito presente. Ele era muito exigente com isso, que a gente lesse e tal. Eu comecei lá com 10 anos a fazer poemas infantis, verdes, imaturos, e aos 14 eu comecei a aprender violão, que já era uma presença familiar, meus irmãos já tocavam, estava sempre ali o violão, era uma coisa que eu ia lá, mexia, pegava a palheta deles, brincava um pouco. Mas aos 14 eu fui aprender de fato. Meu pai chamou um professor, um velho boêmio, da época, tocou com [o compositor Antonio] Vieira, o professor Osvaldo. Ele me deu três aulas e eu falei: “não quero mais professor”. Aí fui aprender sozinho, com os amigos. E assim que eu aprendi um pouquinho eu já quis compor. Então eu vi que não seria um músico instrumentista, que domina o instrumento. A minha intenção com aquilo era compor canções e assim se deu. A música prevaleceu como uma coisa importante, por que é meio difícil você ser músico e alguma coisa. Algumas pessoas conseguem, o cara é bancário, advogado e é músico também, mas é difícil, é uma coisa que te toma um tempo quase integral. Então eu avancei ali na música, aquela seara, aquela estrada pareceu promissora. Tempos depois que eu fui redescobrir certos desejos, certos anseios que estavam guardados, o de escrever literatura, ter uma coisa, um tipo de pensamento que às vezes não cabe na canção, que foi o que me fez escrever esses dois livros de crônicas. Tenho a ambição de escrever contos um dia. São coisas que ficaram guardadas, depois que eu, de certa maneira me coloquei no mundo da música, ganhei certa visibilidade, eu tive um pouco de calma para dar vazão a esses talentos ou inclinações, por que eu não sei se o talento existe, mas a inclinação sim [risos]. O teatro é uma paixão antiga. Eu comecei aqui em São Luís no Grupo Ganzola, do querido Lio Ribeiro, que foi muito importante pra mim. A gente tinha um grupo exclusivamente dedicado a peças infantis, a gente fez Flicts, do Ziraldo, que é um texto clássico, depois O reizinho mandão, da Ruth Rocha, e a essa altura, eu fiquei lá entre os 18 e 21 anos, eu escrevi esse texto aí [aponta o exemplar de Quem tem medo de Curupira?]. Eu tinha 21 anos quando escrevi esse texto, ele ficou guardado, datilografado, numa pasta rosa, até que em 2008, uma amiga diretora, com quem eu já tinha trabalhado lá em São Paulo, a Débora Dubois, perguntou “não tem nada pra criança?”. Eu falei: “olha, tem um texto que eu escrevi há 20 anos, mas está antigo, desatualizado”. “Tu tens ele?”. Eu não tinha nem salvo em computador, era um texto datilografado, transcrevi todo, revisão, ela falou: “ah, vamos dar uma atualizada, esse texto tem futuro”. Acabou que a gente encenou, com chancela do Teatro Sesi, lá em São Paulo, ficou seis meses, depois prorrogou, foi tão bem sucedida que prorrogou mais três meses a temporada, de graça. Muita gente viu, teve gente que viu 20 vezes. Dizia assim: “pô, se algum ator faltar, pode me chamar que eu vou”. Tem esse encantamento, essa coisa bonita e lúdica, das criaturas da mata, que é uma coisa muito vivida na infância, esse medo do saci, do curupira, da mãe d’água. Eu lembro que lá no Rio Mearim dava uma hora, todo mundo vazava, por que a mãe d’água, era a hora que ela aparecia [risos]. Então todo mundo saía voado pra casa. Eu fui espalhando meus tentáculos, eu sempre tive muita curiosidade, mas fora a música, todo o resto é experimentação. Eu não me considero um escritor, eu não me considero um dramaturgo, são experiências, felizmente deram certo, foram bem sucedidas, mas não é uma coisa que eu pretendo [se interrompe]. Meu trabalho, eu sou um compositor, se alguém perguntar minha profissão, músico, compositor, é isso que eu faço.

ZR – É assim que você preenche a ficha do hotel.
ZB – Do hotel, é [risos].

ZR – Você falou do zelo de teu pai na infância com a leitura e das aulas poucas de violão. Quais são as tuas primeiras lembranças de leitura e música que você ouviu?
ZB – Música é o rádio. Era muito presente, ficava ligado o dia inteiro na casa. Tinha o programa do Zé Branco de manhã, tinha depois ao meio dia o programa do [locutor e comentarista esportivo Herberth] Fontenele, a gente ouvia, saudoso Fontenele, de esporte, depois vinha o noticiário, à tarde tinha um programa de música nordestina, acho que era o Jairzinho que apresentava. Eu tou falando assim, não sei as estações, mas era meio assim o itinerário da rádio no dia a dia da gente. Às cinco da tarde tinha um programa que o César Roberto apresentava, que era de música jovem, já música pop. Então você passava o dia ouvindo de Luiz Gonzaga a Elton John, de Martinho da Vila a Trio Nordestino, essa informação foi muito rica, não só na minha vida. Dos meus irmãos também, inclusive os que não são artistas, é uma memória muito rica. Essa é a primeira grande informação. A outra é da rua, as brincadeiras de rua eram todas muito musicais, cantigas de roda, eu tenho um acervo na memória de mais de 100 canções, estou até querendo publicar, acho que é um legado. Minhas irmãs também lembram, toda vez que eu venho aqui eu recolho, ontem mesmo a gente estava cantando várias canções. São lindas, vêm de linhagem portuguesa, uma coisa bem lírica. A música sempre esteve presente. Depois as outras coisas, terecô, que ia dançar na praça da cidade, os terreiros de macumba, que chegavam do outro lado do rio, na Trizidela, os cânticos de igreja, procissão, tudo era permeado por música. Então eu acho que o despertar foi na infância mesmo.

ZR – E leituras?
ZB – Leituras, a leitura básica, lembro de alguns livros, O menino do dedo verde, daquele francês, Maurice Druon, muita coisa de José de Alencar, Lucíola, Diva, essa literatura básica. E aqui e ali uma coisa mais estranha. Eu lembro que tinha um livro do Mário Quintana, um livro de sonetos que eu li muito cedo. A ilha do tesouro [de Robert Louis Stevenson], esses clássicos assim. Alguma coisa de Monteiro Lobato, acho que Urupês, tinha uma pequena biblioteca e a gente passeava por ela.

Suzana Santos – Além dessas referências de infância, hoje, tanto entre os clássicos, quanto novidades, quais as referências de hoje, nomes de tua preferência?
ZB – Me perguntam nomes e eu fico numa saia justa, por que é muito difícil. No começo da carreira eu dizia Frank Zappa e Jackson do Pandeiro, pra provocar, ou Bob Dylan e Luiz Gonzaga, querendo criar um arco que descrevesse um pouco a abrangência do que eu ouvi, o que eu tinha de repertório, vocabulário musical, que ia desde essa vertente mais pop, meus pais ouviam muito samba, papai adorava Jair Rodrigues, adorava Cauby [Peixoto], Nelson Gonçalves, comprava disco, minha mãe tem uma memória, tinha uma memória incrível de músicas do repertório popular brasileiro, marchinhas de Braguinha, sambas de Wilson Batista e Geraldo Pereira, punha a gente pra dormir cantando Ismael Silva, uma informação muito rica. Eu me alimentei disso tudo. Depois tinha a própria cena local, que foi importante, quando a gente conheceu Chico Maranhão, Sérgio Habibe, Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, e aquele disco do Papete foi um acontecimento, o Bandeira de aço fez a gente despertar um pouco para a produção local, a gente não tinha olhos e ouvidos para isso, a gente estava mais plugado, conectado com uma produção nacional. A gente descobriu, aquilo foi um pequeno alumbramento, tinha uma estranheza na produção da música do Maranhão, que eu só me dei conta completamente quando eu saí daqui para morar fora. Eu falei: “rapaz, aquilo lá é muito específico”. A gente é muito específico. Acho que o Maranhão um dia vai se separar do Brasil.

SS – Tomara!
ZR – Eu acho que já começou.
ZB – E vai fazer uma república à parte [gargalhada].

ZR – Pela primeira vez o Maranhão está na contramão do Brasil por uma coisa positiva.
ZB – É verdade. Depois de 100 anos de tenentismo.

SS –Você falou de nomes da música. E nomes da literatura? Algum nome em especial, alguma referência que seja mais marcante?
ZB – Olha, falando dessa literatura básica, infantil, infanto-juvenil, Meu pé de laranja lima [de José Mauro de Vasconcelos], essas coisas que a gente lia, que toda criança lia. Com 14 anos, eu estudava no Colégio Batista, e eu tive um professor chamado Furtado, que é um mestre mesmo, um cara incrível, e ele deu pra gente, 14 anos era primeiro ano científico na época, primeiro ano do segundo grau, e ele deu como trabalho de literatura ler Memórias póstumas de Brás Cubas, que é o livro mais ácido do Machado de Assis, e O estrangeiro, de Albert Camus. Aquilo foi uma porrada, foi um despertar, eu nunca mais fui o mesmo [risos]. Nunca mais fui o mesmo. São dois livros que permanecem como dois dos livros mais interessantes e instigantes que eu já li. Aquilo ali mudou, eu mudei de patamar na compreensão das coisas, na busca de um tipo de arte mais adulta e mais questionadora. Voltando ao  gancho do violão, quando eu entrei no mundo do instrumento eu me afastei um pouco dessa literatura em prosa e fui mergulhar mais na poesia, por que era uma coisa que me parecia mais próxima daquele universo ao qual eu queria pertencer, ainda não pertencia. Então eu fui descobrindo muito instintivamente poetas, poetas brasileiros, comecei a ler Jorge de Lima, Murilo Mendes, comecei a descobrir poesia beatnik, os grandes poetas essenciais, os franceses Rimbaud, Baudelaire, Verlaine, essa coisa toda. Só depois que eu fui retomar esse gosto pela prosa, pelo romance, pelo conto. Acho que a gente deve muito, a minha geração, de maneira geral, deve muito à literatura. A canção brasileira ela foi muito influenciada pela literatura, de um modo ou de outro. Não é à toa que a canção brasileira alcançou esse status de uma quase obra literária, Chico Buarque, Luiz Melodia, Noel Rosa, esses grandes poetas todos que a gente tem.

ZR – Tua obra passa também por musicar poemas de poetas como e. e. cummings, Paulo Leminski, Fernando Abreu, Celso Borges. Vou fazer uma pergunta de estagiário.
ZB – Faça!

ZR – Letra de música é poesia?
ZB – Rapaz, essa é uma discussão antiga, até no meu primeiro livro eu abordo isso, mas não chego a nenhuma conclusão. Eu acho que é. São dois tipos de linguagem diferentes, a poesia literária tem outro ritmo, outra respiração, ela não é escrava da rima, pelo menos a poesia moderna, não é escrava do ritmo, é outro tipo de pulsação. E na canção, eu vi uma vez acho que o Edu Lobo falando, eu não concordo, contesto, mas é interessante a reflexão dele, que disse que qualquer texto é musicável. Eu não acho, não. Mas é bacana isso, você se desafiar, pegar um texto qualquer, antimusical às vezes, sem uma sonoridade, um ritmo evidente e se dispor. Eu tive essa experiência, por exemplo, quando eu musiquei os poemas da Hilda Hilst para fazer aquele disco, Ode descontínua e remota [para flauta e oboé: de Ariana para Dionísio, 2006], não tinha uma métrica, não tinha um ritmo, não tinha uma cadência, nem rimas muito óbvias. Não eram canção. Mas não era também um texto super livre, tinha uma fluência qualquer que eu tentei descobrir. Foi desafiador aquilo lá. Mas eu acho que é poesia sim. Por isso que talvez, no caso da canção brasileira, que é muito alto esse grau de lirismo, é muito rico, não deve nada a ninguém. Chico Buarque é tão grande quanto Drummond e Sérgio Sampaio é tão grande quanto João Cabral de Melo Neto, só que são de territórios distintos. A canção tem uns apelos, facilidades, a própria emoção é passada com mais facilidade, tem o encantamento, o apelo da dança, do ritmo, de fazer dançar.

ZR – Chega a um público maior.
ZB – É mais acessível.

ZR – Leminski com a coisa da música foi o maior best seller de poesia no Brasil até hoje.
ZB – Exatamente.

ZR – Por conta de gravações de Caetano Veloso, A Cor do Som, Moraes Moreira, enfim.
ZB – E vários poetas que migraram pra canção. Salgado Maranhão, nosso conterrâneo, Fausto Nilo, meu parceiro, Geraldo Carneiro, grandes poetas, Cacaso, um poetaço, foram migrando pra canção, por que sentiram, pô, esse mundo é bacana, a comunicação é mais direta. A música é onipresente. Você está em qualquer lugar e pode ouvir, no aeroporto, num táxi, num ônibus, num trem. A literatura é outro tipo de público, de impulso, você precisa de certo silêncio, de recolhimento. A música é mais mundana nesse sentido. Mas é maravilhosa a combinação. Uma vez eu ouvi o Wado, num programa que eu fiz do Baile do Baleiro, para o Canal Brasil, o Wado que é um parceiro querido, um compositor que eu adoro, ele falou: “imagina se um alienígena vem aqui e descobre que a gente se comunica através de uma coisa chamada canção”, por que é uma coisa muito subversiva, pode ser muito transgressora, pode ser muito transformadora, você ouvir aquilo ali, aquela combinação de melodia, ritmo e poesia, o poder que aquilo tem. Às vezes a gente acha, mesmo a gente que faz, que chegou a um certo limite, parece que se esgotou. O próprio Chico Buarque há um tempo falou no fim da canção, eu acho que ele quis falar outra coisa, as pessoas achavam que era um fim derradeiro, um fim terminal, acho que ele quis falar numa transformação de linguagem, de era, de sensibilidade. Mas ela não acaba, você vê aí cada vez mais forte. Hoje eu já estou com 52 anos, já tenho 21 anos de carreira, eu vejo agora pessoas, antigamente eram jovens, de 19, 20 anos, agora é gente de 35, 1,80 metro, chega assim: “pô, bicho, te ouço desde a infância”.

ZR – É estranho?
ZB – Gente casada, com filho, “você embalou nosso namoro”. Hoje mesmo encontrei um cara na padaria. É estranho. Mas é bom [risos].

ZR – Eu te ouço desde a adolescência [risos].
ZB – Eu já ouvi, “pô, Stephen Fry [título da música; abrevia o título do disco, Por onde andará Stephen Fry?, de 1997] é o disco da minha infância”. Realmente, faz 21 anos, se o cara tinha 10 anos, hoje ele tem 31. Faz parte, é história. Imagino que outros compositores ouvem coisas parecidas. É estranho por causa dessa consciência do tempo passando, mas também é muito, vou usar uma palavra que é chata, mas não tem outra, é muito gratificante, é muito recompensador você ouvir. Às vezes tem uns depoimentos emocionados, gente que se curou de depressão, de doença, parou num câncer e ficou ouvindo um disco meu. Uma vez um garoto em Natal, um garoto cinematográfico, aquela cara de desadaptado, umas espinhas no rosto, uma coisa deprimida, assim meio Renato Russo, ele chegou, ficou hesitante, se aproximou e falou: “eu só queria dizer uma coisa”. Eu: “diga”. “Aquele disco, Pet shop mundo cão, salvou a minha vida”. Eu falei: “tá tudo certo, não precisa dizer mais nada”. Não foi feito com essa intenção, mas a música tem várias serventias, ela se presta a tudo. Tem gente que se suicida ouvindo música, tem um caso clássico…

ZR – O Ian Curtis
ZB – É, o Ian Curtis, tem um cara que se matou com a música Fracasso, do Fagner, tem o Judas Priest, lá, Beyond the Realms of Death, o cara se matou ouvindo. Serve pra tudo, serve pra morrer, serve pra viver, serve pra se encantar. Música ainda tem um poder muito grande.

ZR – Quando eu nasci estava tocando Aparências, com Márcio Greyck, no radinho de pilha das enfermeiras.
ZB – É mesmo? Porra! Que é música de um compositor maranhense, o Cury.

ZR – Essa coisa de ouvir desde a infância. Você tem um leque muito amplo de parceiros, que vai de Wado, que você já citou, Kléber Albuquerque, Lúcia Santos, e acabou se tornando parceiro de Fagner, que é um cara que você deve ter ouvido desde a infância. Como é que se dão essas parcerias, como é lidar com tanta gente diferente? Talvez hoje você faça música recebendo letra por whatsapp.
ZB – Sim, bastante. É meio inusitado, por que às vezes é difícil de acreditar que aquele cara, que eu também ouvia com 10 anos [risos].

SS – Os papéis invertidos.
ZB – Os papéis invertidos. Eu lembro que quando eu ouvi a primeira música que tocou no rádio lá em São Paulo do nosso disco, Palavras e silêncios, tocava no rádio do carro, eu levando as crianças na escola, eu parava o carro e ficava: “puta que pariu!”. A minha voz e a voz do Fagner na mesma canção, uma música que a gente fez. Aquilo era muito estranho, diferente, fui fã do cara e agora a gente está aqui lado a lado, eu ficava meio deslumbrado com aquela sensação. Aconteceu que eu acabei me tornando parceiro de muita gente que eu admirava. Frejat, o disco novo tem outra parceria nossa [Te amei ali]. Chico César, que é contemporâneo, é diferente a relação mas eu também sou fã do cara, tenho uma relação de fã-ídolo, além de amigo. Zé Ramalho, com quem já compus. Muita gente. Eu sou muito promíscuo, tenho mais de 100 parceiros. Eu até tava tentando listar outro dia, é muita gente, não é só gente conhecida, é gente também que às vezes está num estágio de carreira diferente, mais inicial, mas eu tenho muitas parcerias bacanas. E tem essa coisa de alcançar um cara que estava em outra. O próprio Márcio Greyck, tenho duas canções lindas com ele, eu não sei tocar, perdi um pouco o contato com ele, mas preciso recuperar. E também essa coisa de poder se movimentar em vários territórios. Gravei agora recentemente no disco do Fernando Mendes, um artista que eu adoro, acho um puta compositor, um puta cronista suburbano. E ao mesmo tempo eu ambiciono, sei lá, fazer música com o Erasmo Carlos, se houver possibilidade de um dia abordá-lo, vou querer fazer [risos]. Então poder transitar, o universo da música brasileira é muito abrangente, da música popular de maneira geral. Às vezes a gente se perde em pequenezas de pertencer a uma tribo. Eu nunca tive isso de antemão. Eu sou colocado em prateleiras específicas, às vezes mpb, às vezes pop rock, às vezes alternativo, por que hoje a música dita mpb virou marginal. O mainstream é Wesley Safadão, é Thiaguinho, é Mano Walter, e a música brasileira virou meio marginal, voltou a ser marginal, voltou à origem, de certa maneira. Eu gosto de estar nesse lugar. Mas me relaciono com pessoas do rock, do brega, do samba, eu tou preparando um disco de sambas, com produção de Swami Jr., faz cinco anos que a gente produz, eu vou finalizar agora. Poder transitar, isso pra mim é fundamental, não ficar acomodado num certo nicho, num certo rótulo.

ZR – Acho que foi isso que acabou te levando…
ZB – A essas parcerias. Sem dúvida.

SS – Isso de estar nas prateleiras. Hoje você não lança mais discos físicos, só streaming. Isso é um caminho sem volta? Vai lançar de novo discos físicos?
ZB – Eu estou agora gravando esse disco, se chama O amor no caos, que a gente fez um caminho inverso, fizemos uma temporada de cinco shows, BH, São Paulo, Rio, Curitiba e Porto Alegre, testamos o repertório ao vivo e agora a gente está em estúdio. Quero lançar em março, eu vou fazer vinil, cd, uma tiragem pequena, por que realmente hoje vende pouco, e jogar nas plataformas, é um caminho inevitável. Essa coisa que envolve tecnologia é sempre um caminho sem volta, o avanço tecnológico vai ser cada vez maior. Eu não sou muito nostálgico no sentido de “ah, como era bom no tempo”… Eu adoro vinil, por exemplo, mas eu sei que é impossível hoje que as pessoas tenham disponibilidade de ouvir um vinil, de virar o lado, isso é para quem quer fazer um ritual, como de vez em quando eu faço na minha casa, boto pras crianças ouvirem coisas que eles nunca ouviram, mas é fantástico essa ferramenta, eu fui um pouco resistente, eu estou há um ano e sou viciado no spotify, por que descobri que é um dos melhores lugares, talvez depois do youtube, pra fazer pesquisa, pra ouvir coisa que você não ouve. Outro dia eu fiquei ouvindo a discografia do Chico Anysio e do Arnauld Rodrigues, que eu adoro, inclusive as masters são bem ruins, o som é bem ruim, mas tá tudo lá. Coisas incríveis, um repertório perdido, meio esquecido, mas que é fantástico.

SS – E não estraga, o físico às vezes vai deteriorando com o tempo. E lá fica para a posteridade.
ZB – Para a eternidade. Deteriora mas eu gosto de ter o objeto [risos]. Sou meio fetichista. Eu acho que tem um público aí entre 30 e 40 anos que reclama. Eu sou mais velho mas estou na fila.

ZR – O spotify não te dá informação de quem compôs, quem toca.
ZB – Agora já tem o intérprete, já tem um espaço lá que você põe, mas ainda é falho nesse sentido. Um vinil, por exemplo, apalpar aquilo, ler as letras com gosto, é muito bacana. Acho que tem que conciliar as mídias todas que estão disponíveis. O k7 tá tendo uma volta, que eu acho que é uma coisa de moda, por que é um som ruim, diferente do vinil que é um som bom, tem grave, é cheio, o k7 é mais uma modinha, o pessoal da eletrônica está fazendo muita master em k7, no Canadá, e tal. Eu acho que tem que jogar com todas as ferramentas. Em termos profissionais, financeiros, as plataformas são um terror para o autor. A arrecadação ainda é muito precária, o que se ganha é migalha perto do que se ganhava com a venda de cd físico ou do lp. Mas a praticidade, eu fiz esses dois singles, terminei hoje, duas semanas depois estava na plataforma, sem aquela espera da fabricação do cd, tem uma agilidade também pro artista, principalmente para quem está começando, é muito bacana, é maravilhoso você poder produzir hoje e daqui a uma semana estar na plataforma.

SS – Falando em rentabilidade ainda é maior a receita do disco físico?
ZB – Sim. Comparativamente sim. Mas como expansão, como forma de propagação, as plataformas são maravilhosas.

ZR – Quando a gente pensa no Quem tem medo de curupira?, no Zoró e no Zureta, que são trabalhos feitos para crianças, embora adultos também se interessem, gostem, ouçam, leiam. Tem alguma diferença entre quando você vai criar para criança e para adulto? Algum cuidado?
ZB – Eu acho que tem um despojamento que toma você quando você está criando para criança. Tem que ser mais direto, criança é um público muito honesto, não tem duas conversas, é gostei, não gostei, é feio, é bonito, então você tem que ser muito habilidoso nessa hora. Acho que eu ganhei uma certa cancha fazendo música para teatro aqui no Maranhão. Depois que eu fui para São Paulo também fiz umas trilhas para teatro, infantil, sempre. Quando meus filhos nasceram, há 20 anos, eu tive muita matéria prima. Todo dia um insight. Lembro uma vez viajando com meu filho no avião, ele olhou, bem pequeno, e disse: “pai, olha lá! É uma árvore de nuvem”. Era uma nuvem em forma de árvore, mas ele disse de uma forma poética à maneira dele. Cada vez que falava uma coisinha eu ia pro violão. Compus mais de 60 canções. Desovei algumas nesses dois volumes, Zoró e Zureta, e tenho material para mais um disco.

ZR – José Antonio, meu filho, tem três anos, e adora teus videoclipes.
ZB – São bonitinhos, né? A maioria ali é feita pelo Marcos Faria, que é um animador de mão cheia.

SS – Isso de produzir muita coisa, de produzir em forma de música, em forma de poesia. Tem algum fator determinante, o livro de crônicas, essas composições, o que vira disco e o que vira livro?
ZR – O que vai pro livro ou pro disco e o que fica no cofo em casa.
ZB – Eu não sei explicar muito bem por que esse critério é muito subjetivo. Por exemplo, esse livro aí não seria livro. Ele foi uma peça, mas aí teve uma coleção da Companhia das Letrinhas, a curadora quis incluir o livro, me entrevistou, tem um bate-bola no final, eu achei ótimo. Eu fui recentemente visitar a escola onde estuda a filha de uma amiga e eles estavam trabalhando, todos os meninos da sala tinham um exemplar, a escola comprou. Foi muito bacana, depois a gente foi conversar, foi muito rico. Eu tenho feito visitas a escolas, tanto de periferia quanto das zonas mais abastadas de São Paulo para saber as impressões. Geralmente eu recebo convites, mas esse ano eu quero fazer por minha própria iniciativa, fazer um tour pelas escolas, se for possível eu quero fazer aqui também, e conversar sobre a vida, sobre tudo, mas sobre a criação artística também, por que essa resposta da criança é muito valiosa. No caso do disco era específico, era um projeto, um sonho. Eu compus muito, botava pra dormir cantando, quando eles estavam dormindo eu já tinha uma, duas ideias de música, no dia seguinte desenvolvia. Foi assim que esse repertório foi acumulado. Já era um projeto específico, um dia eu vou fazer um disco pra criança. Demorei muito. Eu queria que eles fossem ainda crianças, quando eu fiz eles estavam com vergonha de fazer vocal, já estavam quase adultos, agora eu chamei eles para finalizar cantando uma vinheta que eu fiz, chama Vidinha, para os homenageados participarem, estarem presentes no disco. Essas canções que eu fiz recentemente eu senti que era hora de fazer um novo disco, embora às vezes a gente fique desanimado com o destino do disco hoje, a gente trabalha pra caramba e a repercussão é tão pouca. Mas a gente precisa continuar fazendo, pelo público e por nós mesmos, por nossa sobrevivência artística. Então eu reuni aí um magote de canções, estou até pensando em fazer um duplo, o volume um agora, isso eu vou resolver na próxima semana, eu gravei mais de 15 canções, vou gravar mais umas cinco e dá para fazer dois volumes, lanço um agora e outro no segundo semestre. E quero usar telas de autores maranhenses nas capas.

ZR – Você falou das crianças, seus filhos, que já estão com 20, 20 e poucos anos, e uma coisa que é muito bacana para quem acompanha tua carreira como eu acompanho particularmente desde o Por onde andará Stephen Fry? é a preservação, não sei como é que tu operacionaliza isso, a gente nunca viu uma foto de um filho teu numa revista de fofoca, numa Caras. Como é que você lida com isso nesse tempo de superexposição?
ZB – Eu não vejo muita necessidade. Eu também não sou o tipo de artista que interessa ao Nelson Rubens [risos]. Eu já recebi convites pra ilha de Caras, mas eu tenho mais o que fazer [risos]. Não tenho muito o que fazer [], não é meu mundo, as pessoas acham que artista é tudo uma coisa só, mas a gente vive em mundos muito diferentes. Não tem por que eu abrir minha casa pra um revista, sabe? Não faz sentido. É meio vazio isso aí. Se for uma coisa que me traga muita vantagem [gargalhadas], de alguma maneira, a gente faz. Eu acho que preservar os filhos é importante, eles lidam bem com isso, de o pai ser artista, de ter uma profissão um pouco estranha. A filha contou recentemente um diálogo que ela teve no passado com um colega. Ele perguntou: “você é classe alta?”. Ela falou: “não, sou classe média”. Isso ela era pequena. O garoto falou: “eu sou classe média alta, meu pai tem isso, tem aquilo. Mas você é filha de artista, não é? Teu pai não tem avião?” [gargalhadas]. Isso é uma bobagem, associar o artista com esse mundo de opulência. O glamour é 0,01 por cento, quando você lança um disco e bebe um champanhe, um uísque com os amigos. No mais das vezes é um trabalho operário, tem que dormir cedo, dormir bem, o suficiente para descansar a voz, para estar inteiro, passar som, começo de carreira então tem que se dividir em mil, pra dar entrevista, ir na rádio, ir não sei aonde, no mesmo dia passar som, fazer o show e receber o público depois. Tanto que tem gente que se prepara mesmo, não é o meu caso, eu prefiro jogar futebol, tem gente que vai, malha, fica horas. Pra mim é uma atividade atlética, aeróbica, no começo de carreira a gente fazia shows de terça a domingo, só tinha a segunda para passar em casa. É duro, aeroporto, avião… É bacana, não está viajando de fusca pelas estradas do interior da Bahia, mas é uma vida de dureza, não tem jatinho na história. Não é como nos Estados Unidos, que os caras fazem turnê em ônibus, as estradas são maravilhosas, o país é grande, mas as estradas são maravilhosas. Eu adoraria, por que detesto avião. Eu gosto mesmo de tirar o velho carro, parar, tomar um café, comer um doce, fumar um cigarro, o melhor da vida, tomar uma cerveja no meio do caminho [risos], mas aqui é impossível, com as estradas que a gente tem, com a dimensão do país. É uma vida de dureza. Tem uma coisa, que eu acho que artistas como eu, Chico César, especialmente, talvez pelo fato de a gente ser do Nordeste, de ter essa vivência de cidade do interior, a gente vai aonde chamar. Por exemplo, Macapá, eu fui quatro vezes a Macapá tocar. Tenho grandes amigos lá, inclusive um parceiro, poeta paraense, Joãozinho Gomes, é um poetaço, mora lá. Tenho certeza que nem Roberto Carlos foi tanto, é longe, é uma viagem internacional, seis horas e meia para chegar lá. Tem artistas que não vão, uma garota classe média de São Paulo não vai. Eu já dormi em motel, no Ceará, a cidade estava cheia, demoraram a fazer a reserva, e foi lindo, foi um show incrível. Tenho que escrever um livro, “Glamour zero”. Mas é lindo! Acaba também você tendo umas respostas de público, carinho, o cara se sente prestigiado de você ir na cidade dele, lá no grotão, lá no meio do sertão, umas coisas muito bonitas. Como diz a canção do Milton Nascimento e do Fernando Brant [Notícias do Brasil (Os pássaros trazem)], “o Brasil não é só zona sul, é muito mais, é muito mais”. É muito grande, esse Brasil profundo eu adoro tocar. Hoje tá difícil, por que as bandas de forró eletrônico meio que dominaram o pedaço. Num passado recente, 10 anos, essas bandas abriam pros shows da gente. Agora eles tomaram de conta.

ZR – Então vocês são os culpados [risos].
ZB – Não, cara, não [risos]. A gente fez a nossa parte, mas o mercado é cruel, é voraz.

ZR – Você deu a pista para Jotabê Medeiros, na biografia do Belchior, mas aconteceu que o irmão dele faleceu na semana em que ele estava de passagem comprada para encontrar o Belchior em Santa Cruz do Sul. Jotabê foi ao velório do irmão e Belchior faleceu em sequência. Você chegou a ler a biografia?
ZB – Li. Li logo que saiu. Gostei. Ficou um pouco triste, a questão é um pouco triste. Ninguém imaginava que fosse acontecer tão cedo. É uma situação delicada. Eu fiquei muito honrado quando eu cheguei na cidade e Adriana [Bueno, assessora de comunicação], que faz assessoria pra mim, ligou dizendo: “Zeca, uma bomba, uma história. Belchior tá aí na cidade e quer te encontrar”. Eu fiquei naquela, orgulhoso, envaidecido e ao mesmo tempo preocupado [risos], o que é que eu vou falar com o cara? Era fã dele, a gente já tinha se encontrado, inclusive uma vez, curiosamente, à saída de um show de Bob Dylan, do qual somos fãs, lá em São Paulo. Sempre muito afável, “vamos nos encontrar, vamos tomar um vinho, a gente mora na mesma cidade”, eu falei “vamos”, trocamos contato e logo depois ele sumiu. A gente foi, uma coisa de segredo, motorista me levou, levei um vinho, achei ele muito abatido, mas muito lúcido, normal. Dei todas as pistas para dizer que eu queria apoiá-lo se ele quisesse voltar a produzir. Inclusive pus à disposição dele um estúdio que eu tenho com um amigo, lá no Butantã, “olha, se quiser, tem um estúdio lá, com piano”, ele ficou assim, meio, “piano? Poxa!”, falei “se quiser você vai direto de Congonhas pra lá, ninguém te vê”, rapidinho, fui dando pistas. Ele se animou um pouquinho, tinha a mulher, junto com ele, que meio que ditava o ritmo do jogo. “Não, ele ainda não tá pronto pra voltar a gravar”, uma situação um pouco estranha. Eu saí de lá meio mortificado, com aquela sensação, de “pô, eu podia” [interrompe-se]. Quando eu li o livro e vi toda a descrição, a narração da história, aquela culpa que a gente sente, impotente. Eu fiz tudo que podia, falei pra ele de um produtor amigo nosso, de Fortaleza, que falou que se Belchior aparecesse e quisesse tocar, ele enriqueceria o Belchior e a ele, faria uns 10 shows arrasadores pelo Brasil e seria mesmo um evento. Mas ele parece que não estava mesmo mais disposto. Havia um desencanto qualquer, uma coisa muito amarga. Mas também uma tragédia talvez anunciada pelas próprias letras de música. Ele era um niilista, era um cara que não acreditava em muita coisa, apesar de ter um histórico de seminarista, um cara muito culto, muito profundo, leitor de muita filosofia. Enfim, uma pena, fiquei meio penalizado. Mas a vida é isso daí. Essa sensação de impotência me acompanhou por muito tempo: “e se eu tivesse acenado? E se eu tivesse feito isso e aquilo?”.

ZR – Você foi colunista da revista IstoÉ, algumas das crônicas publicadas lá estão nestes livros. Você acha que essa coisa da regularidade de colaborar com um veículo ajuda ou atrapalha? A coisa da obrigação, da disciplina? Você aceitaria o convite de um veículo para colaborar permanente hoje?
ZB – Rapaz, só se fosse o Jornal Pequeno [gargalhadas gerais]. Estou brincando. Eu saí na hora certa, uma intuição qualquer. Uma por que eu estava exausto, não conseguia mais dar conta de tantos projetos. Parece fácil escrever um texto de 60 linhas, mas às vezes eu esquecia. Eu estava indo para Alagoas, tocar em Maceió, e Adriana me ligando, “Zeca, é hoje. Você tem que mandar o texto até”, aí eu tinha que sacar um coelho da cartola em 40 minutos, sabe? É uma loucura! Isso começou a me exaurir, essa responsabilidade. Agora, durante um tempo foi importantíssimo pra mim. Eu sentia que o texto ia ficando mais fluente, era mais fácil começar e finalizar um texto. É igual um músico que toca, um atleta que treina à exaustão, vai ficando mais fácil. Foram cinco anos, foi intensíssimo, foi bacana, falei de tudo que eu podia falar, por que eu pedi permissão total, só escrevo se eu tiver liberdade de falar sobre tudo, política, dar minha opinião, e eles “não, tranquilo, porta aberta, a gente quer mesmo é… criar polêmica então, ótimo!”.

ZR – Foi hostilizado por Roseana Sarney.
ZB – Que bom!

ZR – Eu me lembro de uma campanha de Roseana em que aparecia na propaganda um recorte da IstoÉ com tua coluna, uma página de meu blogue, “o pessoal que só fala mal do Maranhão”.
ZB – Que bom estar nesse lugar.

SS – Falando em política, como você está vendo esse cenário em 2019.
ZB – Como toda pessoa de bom senso eu lamentei a eleição do Jair Bolsonaro. Hoje eu penso de uma forma diferente. Eu acho que é uma provação pela qual o povo brasileiro tem que passar. Eu até diria uma purgação, quando você tem que ir até o fundo do poço para poder voltar, acordar. Eu acho que vai ser bom, a gente está mais vigilante, mais atento. Fazer uma analogia: quando você tem uma casa onde tem muito conforto, empregada fazendo isso, motorista, jardineiro, as pessoas se acomodam. Quando você mesmo tem que ir à luta, lavar a louça, dar a comida do cachorro, você fica mais esperto. Eu acho que é exatamente isso, a gente está saindo de uma zona de conforto, de um tempo, a gente teve governos bons aí, Fernando Henrique Cardoso, Lula e mesmo o primeiro mandato da Dilma, foi um tempo de uma certa bonança no Brasil, depois veio esse redemoinho político e econômico, e a gente entrou nesse lugar. A gente estava surfando nesses ventos e agora a gente vai ter que ficar com os olhos mais arregalados, numa certa vigília do que vai acontecer para que a democracia não degringole. Então, acho que vai fazer bem pra gente. Vai ser uma reeducação política, cidadã do povo brasileiro. Esse governo é tão frágil, tão artificial, que ele vai se desfigurar em pouco tempo. Não vai precisar muita coisa não, eles vão…

SS – Se matar sozinhos.
ZB – Sozinhos, igual desenho animado, vão se autodestruir em cinco segundos.

ZR – A serpente se comendo pelo rabo.
ZB – Pelo rabo. E eu acho que isso vai acabar sendo também o anúncio de outro tempo, a gente vai virar esse jogo, o Brasil tem um destino bonito e a gente não pode ficar assim.

ZR – Você está sempre envolvido em mil coisas ao mesmo tempo, é o viciado em trabalho que além de carreira, de disco, de show, teu mesmo, você está sempre ajudando um amigo, produzindo alguém, fazendo participação especial, compondo, enfim. Você já falou do Amor no caos, para daqui a alguns meses. Projetos para 2019, o que o fã clube pode esperar de Zeca Baleiro?
ZB – Não é meu projeto mas estou envolvido, o segundo disco da Patativa, a gente está finalizando, direção artística minha, produção do Luiz Jr., breve aí, em março ou abril a gente deve estar lançando. Esses dois discos eu quero fazer. Estou com uns projetos interrompidos que eu quero finalizar esse ano, que é o disco de sambas, se chama O samba não é de ninguém, só samba autoral. Tem um disco de bregas, bregas psicodélicos que eu chamo, o disco se chama Churrascaria psicodélica, é só brega autoral também, com guitarras distorcidas, estética anos 1970, o Érico Teobaldo está produzindo, quero ver se eu finalizo. Se possível eu quero lançar uns cinco, seis discos esse ano.

ZR – Ô coisa boa!
ZB – É. E aí correr com a aposentadoria, que eu estou cansado. Daqui a uns três anos eu quero ir para meu sítio na Maioba ou no sul de Minas e ficar lá compondo. Eu gosto muito de estúdio, estúdio é um negócio que não me cansa. Gosto de tocar ao vivo também, é um tipo de energia muito particular, muito única, não se consegue aquilo em outro lugar a não ser ali, no palco, naquela relação direta com o público, com a energia, a emoção do público. Mas a rotina, todo artista depois de certa idade fala isso, não tem como. É como um jogador de futebol que pudesse perdurar até os 50, 60 anos, por que a carreira é mais rápida, morreria de exaustão. Por isso que o cara quando acaba a carreira ele fica logo pançudo [risos], por que ele vai tirar todo atraso dos churrascos e dos chopes que deixou de tomar ao longo do tempo. No nosso caso não tem essa proibição, a gente pode beber nossa biritinha enquanto passa o som. Mas é muito exaustivo, você deixa muita coisa pra trás, deixa de presenciar muita coisa importante na vida dos filhos, dos familiares, dos amigos. É uma coisa que faz falta. Outro dia eu vi um depoimento do Zico, que é um workaholic também, trabalha o tempo todo, e ele falando, “pô, perdi muita festa de aniversário dos meus filhos quando era jogador, e agora não quero perder a dos netos”, então eu estou preparando minha aposentadoria para poder [interrompe-se]. Isso faz falta, é uma coisa aparentemente tola, mas faz falta na vida da gente. O estúdio não, o estúdio é um parque de diversões, você pode fazer de tudo. Eu passaria o tempo todo criando. Mas isso não enche barriga [risos], a principal receita do artista da música ainda é o palco, os shows. Mas eu sinto muito prazer. Eu não faria isso só por dinheiro, só para sobreviver, eu usaria de outros expedientes. É muito bom também.

SS – E livro novo? Previsão?
ZB – Olha, eu tenho umas ideias. Estou querendo esse ano também me dedicar um pouco a isso, tirar um tempo pra escrever. Quero fazer um livro sobre a produção feminina no Brasil, até já comecei, chamei uns dois amigos para me ajudarem na pesquisa, enumerar todas as autoras femininas, todas ou quase todas, desde o começo do século passado, é um trabalho que me interessa, esse de escavação, essa arqueologia. Estou exercitando umas coisas, uns contos, não sei. É preciso muita coragem para lançar um livro de literatura, com pretensão literária num país de tantos bons escritores. Mas quem sabe? [risos]. Quem sabe um dia, depois dos 60?

Obituário: João Gilberto

Reprodução
Reprodução

João Gilberto Prado Pereira de Oliveira (10/6/1931-6/7/2019), baiano de Juazeiro, revolucionou a música popular brasileira ao inventar sua batida característica ao violão, que se configurou como marco inaugural da Bossa Nova. É graças à existência de João Gilberto que o Brasil viria a ter artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre muitos outros, gente que decidiu seguir a carreira artística após o arrebatamento que significou ouvir Chega de saudade (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), faixa que batizou o marco zero do movimento que fundiu o samba brasileiro ao jazz americano.

Certa vez, entrevistando Turíbio Santos, perguntei ao maranhense, referência internacional em se tratando de violão, se “João Gilberto era mesmo tudo isso que se dizia”. O maior divulgador da obra de Villa-Lobos mundo afora não hesitou: “é tudo isso e mais um pouco”.

Gênio foi adjetivo sempre atrelado ao nome de João, de quem disse Caetano: “melhor do que o silêncio só João”. Excêntrico foi outro. O jornalista alemão Marc Fischer, que suicidou-se antes de lançar Ho-ba-la-lá: à procura de João Gilberto [Companhia das Letras, 2013], nas páginas de sua grande reportagem, urdida em uma viagem ao Brasil com o sonho de encontrar o ídolo, fez um verdadeiro inventário de justificativas para um e outro adjetivo.

Por exemplo, a obsessão que acabou levando-o a inventar a batida revolucionária no banheiro de uma casa em Diamantina, interior de Minas Gerais. Ou no episódio em que se apresentando com Caetano Veloso, e reclamando da acústica do local da apresentação, começou a ouvir vaias da plateia e retrucou: “vaia de bêbado não vale”, levando o também baiano Tom Zé a escrever (em parceria com Vicente Barreto) uma crônica musical sobre o episódio – lançada em seu ep “Imprensa cantada”, de 2003.

Perfeccionista também. O lançamento de uma compilação reunindo sucessos de seus três primeiros discos, pela EMI, levou o artista a travar uma longa batalha judicial contra a companhia, alegando mudanças nos fonogramas originais, que chegaram a ser compactados para caber o máximo possível em um cd. Entre as várias histórias (reais e inventadas) acerca de sua persona é conhecida a do costume de passar até 12 horas no apartamento ensaiando a mesma música.

O último retrato. Sofia Gilberto/ Reprodução
O último retrato. Sofia Gilberto/ Reprodução

Recluso foi outro adjetivo que se colou a João, sobretudo nos últimos anos. A última vez em que anunciou uma turnê, com que comemoraria seus 80 anos, cancelou alegando uma gripe. O último retrato, em que aparecia elegantemente trajando um terno e segurando o violão, companheiro inseparável, foi postada por sua neta, Sofia Gilberto, em uma rede social.

Dono de uma obra irretocável, João Gilberto faleceu hoje (6), aos 88 anos, em seu apartamento no Leblon. Há algum tempo ele já apresentava um quadro de saúde debilitada – o falecimento foi confirmado pela família, mas a causa mortis ainda não foi divulgada, nem informações sobre velório e sepultamento. Deixa os filhos João Marcelo, Bebel e Luiza.

Buscas e reflexões

Reprodução
Reprodução

 

Em determinada altura do espetáculo, já não sabemos se Orlando é homem ou mulher. E isto pouco importa. Uma das facetas desta peça do repertório do Grupo Expressões Humanas, de Fortaleza/CE, é justamente fazer o espectador se perguntar onde mora, onde guarda seu preconceito.

Três atores em cena e um músico (ou eu deveria dizer quatro atores?) – Juliana Veras, Marina Brito e Murilo Ramos, mais Zéis –, um cenário enxuto, com cabides com roupas que serão usadas ao longo do espetáculo – e oito figurantes, previamente escolhidos pela produção. Acompanhamos a jornada da protagonista, do protagonista, em busca dos sentidos da vida, da arte, do amor. Do sexo.

O espetáculo é baseado em Orlando: uma biografia, de Virginia Woolf, que se inspirou parcialmente na vida íntima de Vita Sackville-West, amante da escritora. O texto já teve também adaptação cinematográfica. Esta, de fôlego (são cerca de duas horas de espetáculo), em cartaz em São Luís de ontem (6) a amanhã (8), sempre às 20h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro), leva assinatura de Rafael Barbosa e Herê Aquino, que a dirige.

A trilha sonora é um espetáculo à parte, acompanhando as viagens da quixotesca personagem, nascida homem na Inglaterra, acordada mulher na Turquia, atravessando mais de três séculos, com elementos do barroco, da música medieval, pitadas de canto gregoriano e ecos de vanguarda paulista.

Orlando tem ares de comédia, sobretudo quando o grupo tira sarro com a arte contemporânea, experimental, e com o seu próprio fazer artístico e a própria circulação, patrocinada pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura – aprovada ainda antes dos sistemáticos ataques e cortes do governo neofascista de Jair Bolsonaro.

Para rir (para não chorar) e pensar, como tem sido sempre necessário, num Brasil novamente respirando ares militares.

Serviço:

Divulgação
Divulgação

O Maranhão investe 144 milhões de reais no Centro de São Luís

A decoração junina no Centro Histórico se tornou uma atração à parte. Foto: Zema Ribeiro
A decoração junina no Centro Histórico se tornou uma atração à parte. Foto: Zema Ribeiro

Há alguns dias a Praia Grande, bairro do Centro Histórico de São Luís, tornou-se uma espécie de Torre Eifel, Estátua da Liberdade, Cristo Redentor: um lugar onde todos querem tirar fotos. Além da beleza do conjunto arquitetônico do lugar, a decoração para o período junino chama a atenção: as tradicionais bandeirinhas formam diversas imagens ligadas aos folguedos, num enorme mosaico colorido.

O fluxo de turistas cresceu, a partir também da inauguração de espaços como o Museu do Reggae do Maranhão (que completa um ano e meio em funcionamento em junho) e o Museu da Gastronomia, recém-inaugurado, ambos na Praia Grande. A isto, somam-se eventos já fixados no calendário cultural da cidade, como a Feirinha São Luís e o Choro na Tralha, que acontecem aos domingos, respectivamente na Praça Benedito Leite e nas imediações do Teatro Arthur Azevedo, também no Centro.

No último dia de São João (24 de junho) o governador Flávio Dino, em solenidade no auditório do Palácio dos Leões, assinou um decreto criando o Programa Nosso Centro, iniciativa ousada que pretende injetar um total de R$ 143,7 milhões na área, em diversas frentes, algo mais abrangente que o inacabado projeto Reviver, realizado durante o governo de Epitácio Cafeteira, que teve tanta repercussão que até hoje é como parte da população chama o bairro da Praia Grande.

Durante a solenidade Dino revelou que a inspiração é o PAC Cidades Históricas, lançado no governo de Dilma Rousseff – cujas ações alcançaram a ilha maranhense. Os investimentos se darão em várias frentes: habitação (moradia popular), tecnologia (incentivo à instalação de startups no local), cultura (ações permanentes), turismo, lazer, comércio, gastronomia e institucional (com a região voltando a ser ocupada por órgãos públicos), além de ações de infraestrutura e segurança.

O Programa Adote um Casarão pretende reformar prédios e destiná-los à habitação e comércio, através de incentivos tributários – empresas que se dispuserem a participar poderão deduzir a totalidade dos recursos investidos em tributos estaduais, notadamente o ICMS.

“Vivemos um momento em que a conjuntura econômica é desfavorável, mas o Maranhão está na moda. São Luís hoje é a prova viva disso. Inclusive aqui no Palácio dos Leões, onde recordes de visitação são sucessivamente quebrados. Teremos, com este programa, uma convergência de esforços, feito pelo Governo Federal, representado pelo Iphan, pela Prefeitura de São Luís e pelo Governo do Estado, o que transcende o governo, numa interação com a sociedade. É um ótimo negócio investir no Centro Histórico de São Luís. O Programa Nosso Centro vai fortalecer vocações já instaladas na região”, afirmou o governador durante a solenidade, quando antecipou o anúncio que deverá fazer, nas próximas semanas, da revitalização do Largo do Carmo e da Praça João Lisboa, dois cartões postais da capital maranhense.

​Denis Cutrim de Lima, diretor da Associação de Moradores do Centro Histórico, se mostrou otimista: “Esse diálogo com a comunidade é importante. Há um déficit habitacional no Centro Histórico. Não se pode construir nem ampliar [determinados prédios tombados] por conta da legislação. É importante falar do patrimônio humano, as pessoas que fazem a história fluir. Não é só pedra e cal. Só assim se dá vida ao Centro Histórico. Sem o elemento humano não há vida, que dirá preservação, manutenção desse patrimônio. O principal fator é estabelecer nesse projeto essa perspectiva de tanto crescer em matéria econômica, com o desenvolvimento do turismo, que é a terceira maior indústria do mundo, mas preservando seus moradores”, afirmou.

[textinho nosso originalmente publicado na revista CartaCapital, edição nº. 1.061]

O “On the road” de Bob Dylan

Rolling Thunder Revue. Cartaz. Reprodução
Rolling Thunder Revue. Cartaz. Reprodução

 

Martin Scorsese volta a esquadrinhar Bob Dylan em Rolling Thunder Revue [documentário, Netflix, 2019, 142 minutos; classificação indicativa: 16 anos]. Não à toa o subtítulo do filme, em tradução livre, é “Uma história de Bob Dylan por Martin Scorsese”. Em No direction home [2005] abarcava do início de sua carreira até a guinada eletrificadora, em 1966, quando trocou o violão  acústico pela guitarra elétrica. O novo documentário acompanha uma turnê no mínimo inusitada, realizada a partir de 1975, às vésperas do bicentenário da independência americana.

Dylan resolve excursionar pelos Estados Unidos de ônibus – ele mesmo dirige –, acompanhado de amigos. Ao longo das cenas aparecem Allen Ginsberg, Joan Baez, Patti Smith, Joni Mitchell e muitos outros. A estrutura do giro mambembe, que antecedeu o álbum Desire (1976), um dos pontos altos da discografia de Dylan, é comparada pelo próprio com os italianos da Comedia Dell’Arte.

No palco, Dylan tem a cara pintada, entre Kiss e Kabuki, e um chapéu com flores. Canta sobretudo o repertório de Desire, ali ainda não registrado em disco. A Larry “Ratso” Sloman, jornalista da revista Rolling Stone que acompanhou a turnê, chega a responder, quando questionado sobre não cantar canções mais conhecidas, que “não se deve ter expectativa, para que esta não seja quebrada”, em relação aos anseios do público, atestando sua própria liberdade. Ainda assim aparecem versões desconcertantes de A hard rain’s a-gonna fall e Knockin’ on heaven’s door, entre outras.

Enquanto o empresário reclama de estar perdendo dinheiro – poderiam estar tocando em locais para 30 mil pessoas e o fazem onde cabem no máximo 5 mil –, Bob Dylan faz o que quer. Há várias lições no filme. Uma delas tem a ver com dignidade artística, algo cada vez menos na moda no circo da indústria. Dylan é peça da engrenagem, mas desdenha dela. “Não podemos medir o sucesso em termos de lucro”, diz o Nobel de literatura.

Não soa falsa modéstia a afirmação inaugural do bardo de que “foi só uma coisa que aconteceu há 40 anos”, sobre a turnê. “Eu nem lembro direito”, diz, como a querer desencorajar o documentarista do feito. Além de imagens de arquivo, Scorsese conseguiu uma entrevista inédita com o ídolo e coloca os Dylans de ontem e hoje lado a lado, numa interessante perspectiva.

Dois personagens ganham centralidade em Rolling Thunder Revue: Joan Baez e Rubin “Hurricane” Carter, ambos também entrevistados para o documentário. A primeira, de quem foi namorado, aparece como um amor irrealizado de Dylan, algo que parece ter ficado no meio do caminho, um travo amargo de “se”. Diálogos mais íntimos são emocionantes, como a demonstrar certo arrependimento de não terem tido um final feliz juntos. “A gente podia cantar juntos até dormindo. Aliás, muitas vezes, dormindo, eu ouvia a sua voz”, ele revela, comovente.

Durante a turnê Dylan visita Rubin Carter na prisão. Sobre sua injusta condenação escreveu a antológica Hurricane. Divulgação. Netflix
Durante a turnê Dylan visita Rubin Carter na prisão. Sobre sua injusta condenação escreveu a antológica Hurricane. Divulgação. Netflix

O segundo é o pugilista injustamente condenado por um homicídio que não cometeu, visitado por Dylan na prisão durante a turnê, “o homem que as autoridades passaram a culpar por algo que ele nunca fez”, como diz a letra do épico de Dylan (em parceria com Jacques Levy), em tradução livre. O homem que poderia “ter sido o campeão do mundo” (dos pesos médios), como continua a letra, cuja gravação (e performances durante a turnê) é lindamente emoldurada pelo violino de Scarlet Rivera.

O julgamento de Carter foi comprovadamente motivado por racismo. Diz ainda Dylan em seu protesto quilométrico: “Rubin Carter foi falsamente julgado” e “Não posso deixar de me sentir envergonhado por viver em uma terra onde a justiça é um jogo”. Obviamente Rolling Thunder Revue não é um filme (apenas) sobre política, mas é impossível não traçar um paralelo com o Brasil de 2019.

*

Veja o trailer:

Num país sem memória a ficção refaz a história

Legalidade, de Zeca Brito e Léo Garcia, terá estreia nacional hoje (20), às 19h, no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande) na programação (gratuita) do Festival Guarnicê de Cinema. A estreia mundial aconteceu em abril, no Festival Latino de Chicago, nos Estados Unidos.

O filme costura, a partir de um triângulo amoroso fictício, uma narrativa que remonta ao episódio histórico com que Leonel Brizola, no fim das contas, conseguiu adiar em cerca de três anos o golpe militar de 1964, que acabou por jogar o Brasil numa ditadura militar por 21 anos.

Homem de vícios antigos conversou com exclusividade com os diretores e com Sapiran Brito, pai de Zeca, um dos atores que interpreta Brizola, personagem central na trama.

Léo Garcia, Sapiran Brito e Zeca Brito. Foto: Juliana Costa

Como é que foi a receptividade do filme no festival de Chicago?
Zeca Brito – Surpreendente. Incrível como um filme que conta uma história brasileira pode ser universal e pode encontrar reverberações em outras culturas, outras visões de mundo. Chicago é uma cidade muito cosmopolita, então o público que assistiu o filme era de americanos e estrangeiros, pessoas que foram morar nos Estados Unidos, mas que vêm de outras histórias geopolíticas, por exemplo, do Oriente Médio, ou da própria América Latina, a gente pode conversar com uruguaios, com argentinos que residem em Chicago e por conta de ser um festival latino foram assistir o filme, e todos dizem a mesma coisa: algo muito parecido aconteceu em meu país. Que é o reflexo de como o mundo se movimenta, de como os interesses [acentua os dois primeiros “e”, imitando o sotaque de Brizola], de que o Leonel Brizola falava são reais, e é um pouco o que o filme tenta estabelecer. O filme se passa em 1961 e é sobre esse ambiente de guerra fria, onde Estados Unidos e União Soviética e distintas vontades políticas dominavam o mundo e muito daquilo que a gente vivia como história, como processo histórico era influenciado por esses interesses externos. Em Chicago foi muito interessante como isso passou pela percepção do público, essa identificação de como a história se repete, de como a história é parecida. Por outro lado, foi uma questão também que me surpreendeu, eu tava contando pro Léo esses dias, a gente vem, a gente fala muito no filme sobre o aspecto histórico, os personagens históricos. Mas o público mais desinformado da história do Brasil, que é grande parte do público norte-americano, não sabe nada do que aconteceu aqui, primeiro por que nossa cinematografia não chega lá, segundo por que não há muito interesse dos Estados Unidos de olhar para outras culturas, por que já trabalha a sua também como um produto, foi a questão do romance. É um filme que tem um romance que costura a narrativa histórica e esse romance tocou no coração do público e isso também me surpreendeu.

O diretor Zeca Brito. Foto: Juliana Costa
O diretor Zeca Brito. Foto: Juliana Costa

Por que a opção de estrear aqui?
ZB – Interessante. Acho que o Festival Guarnicê é um festival com uma história muito bonita, diferente de outros festivais, sem querer fazer uma crítica específica, ele não é um festival monárquico, de um dono, de uma empresa, ele é um festival que se liga muito com a comunidade civil organizada, partindo de uma universidade [o festival é promovido pelo Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão], há 42 anos. Isso no Brasil é muito bonito e importante de ser celebrado nesse momento histórico. A função do cinema tem que ser essa, se aproximar da sociedade civil, cumprir um papel também educativo, falar mensagens importantes, provocar discussões, aproximar nossa memória histórica e também do tempo contemporâneo do que está acontecendo no mundo, mas da nossa realidade cultural, trazer esses debates pra sociedade. Esse festival, nesse sentido, já é muito sério, por estar ligado, a uma instituição do saber. E segundo, a gente vive um momento político, não foi à toa que a gente escolheu Chicago, que é uma cidade ligada à causa operária, aos direitos trabalhistas, e é uma cidade que recentemente elegeu uma mulher, negra, LGBT, prefeita [Lori Lightfoot]. De alguma maneira isso pontua que a gente está num território que tem espaço para as discussões que a gente está propondo no nosso filme e acho que o mesmo se revela no tempo contemporâneo com o Flávio Dino, que é uma referência para um pensamento aberto, de como deve ser a construção da cidadania, do encontro humano, principalmente partindo da luta contra as desigualdades sociais. A gente tem que trabalhar também essa questão de como a sociedade se traduz politicamente. Estar num território com um pensamento tão aberto a questões da história, questões que nosso filme trata, questões da sociologia que nosso filme trata, isso a gente vê publicamente que há uma sinalização de política pública mesmo, que vem a calhar com o que a gente está querendo discutir.
Léo Garcia – A gente começou a escrever essa história em 2007, 2008, mais ou menos, e naquela época era impensável falar em ditadura militar. Tu encontrava dois ou três malucos, mas era algo “ah, já passou”, e aí quando a gente está lançando o filme pairam no ar nuvens cinzentas e o filme ganha outra importância, tem, digamos, outra virtude, que é lembrar um passado recente, que as pessoas já esqueceram, o que foi a ditadura militar. Apesar de o filme se passar antes da ditadura, o Brizola já estava combatendo um princípio de golpe, ali em 1961. Ele consegue, mas depois em 1964, infelizmente…

O diretor Léo Garcia. Foto: Juliana Costa
O diretor Léo Garcia. Foto: Juliana Costa

Dá até pra dizer que o golpe foi adiado por essa ação.
LG – Foi, com certeza!
Sapiran Brito – O golpe era contra ele. Ele tava na rua, tava na boca do povo, “cunhado não é parente, Brizola presidente!”, não tinha outro. Era o grande nome entre os progressistas, não tinha outro. Estava praticamente eleito pelo povo. Pelas ações, pelas atitudes, pelo momento. A CIA [Agência Central de Inteligência do governo americano, na sigla em inglês] tentou, não conseguiu a primeira vez, mas na segunda… por detrás de tudo sempre está a CIA. Sempre estão os interesses norte-americanos, através da CIA, que me desculpe a expressão, mas costumeiramente compra os nossos deputados. Costumeiramente. Ele conseguiu segurar o golpe, conseguiu evitar o golpe, mas terminou o mandato como governador, foi ser deputado, e não tinha os meios físicos e materiais e o poder que tinha como governador para tentar deter os golpistas de 1964. Por que infelizmente o nosso país é construído de golpe em golpe. Agora tivemos o golpe branco contra a presidenta Dilma e tivemos um complô da mídia e do parlamento contra o presidente Lula, nada mais que outro golpe branco. E de golpe em golpe nós vamos. E Leonel de Moura Brizola significa o anti-golpe, a voz da resistência, a voz do progressismo, a voz daqueles políticos corretos que ainda resistem. Cinco por cento, mas ainda temos, na classe política, uns cinco por cento de homens retos, honestos e verdadeiramente brasileiros, sem nacionalismo, sem xenofobia, questão de amar o Brasil. Quero lembrar só uma coisa: Brizola não era um gaúcho. Darcy Ribeiro escreveu uma bela crônica sobre o Brizola, dizia “Brizola, um filho do povo brasileiro”, por que ele era preocupadíssimo e envolvido com toda a questão. Um grande problema nacional é o problema da dominação do Brasil. O Brasil é dominado. E nós sabemos por quem. Dominado pelo capital, que se organiza basicamente em Wall Street. E o Brizola representa essa voz de rebeldia contra isso. O Brizola, que foi tachado de comunista, não tinha nada de comunista. O Brizola era um progressista, um socialista embrionário. Tanto que a Internacional Socialista o elegeu vice-presidente, ele não sendo presidente do país. E esse cargo, em memória dele, ainda está na mão do partido dele, o PDT, hoje representado pelo Carlos Lupe. O PDT tem cadeira na Internacional Socialista, mesmo o Brizola não sendo declaradamente um socialista, mas era um socialista, por que era um progressista e um nacionalista sem xenofobia.

O ator Sapiran Brito. Foto: Juliana Costa
O ator Sapiran Brito. Foto: Juliana Costa

O que significou para o senhor interpretar o Brizola no filme?
SB – Ah, uma grande emoção. Primeiro que eu vi o negócio nascendo, pelas mãozinhas deles, pelas cabecinhas deles [aponta para Léo e Zeca]. Aí quando eles notaram que eu tinha alguma semelhança com o velho, que eu conhecia muito, por ser amigo dele, de frequentar a casa, falar ao telefone, abraçar e conversar com ele com intimidade em diversas ocasiões, eu ajudei a construir o que o Léo e o Zeca roteirizaram. E que fique claro o seguinte: eu não estou no filme por que sou filho do Zeca [risos] ou amigo do Léo, é que eles viram uma semelhança com o Brizola, que eu não posso negar: é uma espécie de osmose, de tanto eu gostar, eu acabei ficando parecido com o velho e tento pensar e agir como ele, por que eu também sou político. Além de artista, ator, diretor de teatro, eu também sou político. Me honra, sobremaneira, representar, mesmo eles me dando pouco espaço [risos], mas é simbólico honrar a memória do velho. E é uma satisfação saber da oportunidade do lançamento desse filme. Eles não previram, eles não têm bola de cristal, nenhum dos dois é Nostradamus, mas parecia que estavam prevendo: “ah, vamos lançar durante o outro golpe”. E estamos aqui honrando a memória de Leonel Brizola.

É curioso que o filme anterior de vocês é sobre Tarso de Castro [A vida extra-ordinária de Tarso de Castro], que é outro combatente da ditadura e também um brizolista.
ZB – E que estava na Legalidade.
LG – De certa forma influenciou um pouco o roteiro do Legalidade. Ele não só estava na Legalidade, como ele foi, a gente conta no filme, um episódio, uns 20 dias antes da Legalidade, o Brizola conheceu o Che Guevara em Punta del Este, um encontro da OEA [Organização dos Estados Americanos] e o Tarso cobriu isso. Várias coisas acabaram se mesclando, a gente estava rodando o Tarso e acabando de escrever o roteiro.
ZB – Quando a gente terminou de filmar o Tarso e foi filmar o Legalidade, o que acontece é que eu acho que tanto personagens que são personagens do filme do Tarso inspiraram personagens do Legalidade. O Flávio Tavares, o Carlos Bastos, pessoas que estão no filme do Tarso de Castro e que são a síntese do Tom e do Luís Carlos, que são os personagens fictícios que a gente criou. São muitos personagens reais, a gente fez uma pesquisa, até interessante, tu vai assistir o filme e vai ver, a gente colocou nos créditos finais todos os livros que a gente pesquisou para criar essa história de ficção. Ela é toda costurada por episódios reais, mas cabe a cada um de nós ir a fundo para ver a veracidade daquela coisa no sentido de que a costura é poética. É uma obra poética, como se fosse o [poeta grego] Hesíodo estar contando a guerra e não estar falando da guerra como ela é, mas está se baseando em fatos que aconteciam e que aconteceram para poder sintetizar de forma poética a guerra. O que a gente fez no Legalidade foi isso. A gente leu muito sobre tudo o que havia sido produzido em termos de pesquisa científica, da academia, e bibliografia, livros sobre episódios históricos, depois entrevistamos autores, o Juremir Machado, o Flávio Tavares, mas primeiro a gente partiu do livro deles, mas entrevistamos, e entrevistamos familiares, amigos, o Carlos Araújo, que inspira nosso personagem comunista, mas vai acabar sendo trabalhista. O próprio [Luís Carlos] Prestes foi ser presidente de honra do PDT, tem essa costura histórica e a gente coloca esses elementos no filme. Tem o personagem trabalhista, que é o Brizola, tem o personagem comunista, que é o Luís Carlos, como essas ideologias vão se encontrar com o campo oposto, que é alguém que está corrompendo a constituição. Alguns deputados, no campo do poder legislativo, e alguns militares, o chefe da Marinha, o chefe da Aeronáutica, que não queriam permitir o Jango [João Goulart] voltar ao Brasil e assumir a presidência, porém, aí é interessante como a história é complexa, a Legalidade só foi possível com a adesão do Terceiro Exército, que era a maior força militar brasileira: 120 mil homens, que estavam no Rio Grande do Sul. Brizola foi tão persuasivo, conseguiu levar tão profundamente a mensagem, mobilizar a população civil, que aqueles soldados que estavam no Rio Grande do Sul aderem à Legalidade, rebelando-se à ordem inclusive de bombardear o Palácio [Piratini, sede do governo gaúcho], que partiu de Brasília, então acontece esse contragolpe. Aí o Jango vem, aí o que acontece: a coisa estava tão inflamada que era mais conveniente que o Jango viesse pra apaziguar, por que o Brizola ia sim subir e tomar o poder. Aí o Tancredo [Neves] vai até Punta del Este, faz uma negociata básica, histórica, e resolve, para que não haja derramamento de sangue, “vamos estabelecer um pacto de silêncio você volta e assume o parlamentarismo, não fala nada, não faz discurso, fica quietinho, acalma o Brizola, silencia o Brizola, a gente vai silenciar o Exército lá em cima, Aeronáutica, Marinha”… Nisso os navios de guerra já estavam no porto do Rio Grande, toda a frota aérea já estava mobilizada para bombardear o Rio Grande do Sul e acontece esse acordo de paz, que foi um desfecho, pro Brizola foi um pouco frustrante, mas um ano depois, através de um plebiscito, se reconstitui a democracia, que dura dois anos e acaba com o golpe, em 1964.
LG – É legal por que tem todo esse aspecto político, mas nosso roteiro tem camadas. Uma pessoa que, digamos, não tem nenhum conhecimento de história pode assistir o filme e vai acabar desfrutando pelo menos da história de amor, vai entender o enredo, vai saber que existiu esse momento tão importante da história. Eu acho que tem essa virtude o roteiro que a gente trabalhou. Quando essa história começou, em 2007, mais ou menos, eu e Zeca bem jovens, Zeca estava acabando o primeiro longa dele, O guri, eu ainda não tinha nem um longa filmado, e o Zeca veio com essa história: “ah, o meu pai sempre falou que a Legalidade renderia um filme”, eu nem conhecia o Sapiran, nem lembrava da Legalidade, eu tinha estudado no colégio, assim [estala os dedos] talvez numa tarde… aí eu comecei: que Legalidade é essa? Li um livro e falei: “cara, rende um filme, vamos escrever?”. “Vamos!” E começou, naquela época a gente tinha o sonho de lançar em 2011, nos 50 anos da Legalidade. Ledo engano. Cinema no Brasil nada é tão fácil. Um dia eu quero convidar o Zeca pra fazer umas quatro, cinco horas, pra gente mostrar nosso roteiro desde o início. Do primeiro argumento o tanto que mudou, a gente foi enxugando personagens, mudando, tinha um circo, quatro irmãos viraram dois. Um roteiro tinha um diálogo de 15 páginas entre dois palhaços, eu falei: “Zeca, não sei se a gente vai ter tempo pra isso” [risos], queríamos fazer uma coisa mais [o cineasta italiano Federico] Fellini, mas enfim, a gente foi se acertando.
ZB – Esteticamente é um filme bem atemporal. Interessante o fato de a gente ter achado que ele deveria ter sido lançado em 2011 e não conseguimos, só filmamos em 2017 e estamos lançando agora em 2019, mas a construção do roteiro, apesar de se passar em 1961, é um filme que joga com a história, com o fato de ter essa construção poética, personagens fictícios. De algum momento essa história já aconteceu em outros momentos antes, aconteceu depois. A gente diz: é a prévia de 1964, depois 1964 aconteceu mesmo. Mas pode ter acontecido agora, em 2016.
SB – Já tinha acontecido antes, com Getúlio [Vargas].
ZB – E esteticamente ele flerta com o melodrama, tenta buscar essa raiz brasileira, que às vezes o cinema olha com certo preconceito, essa matriz que vem da televisão, da telenovela, como elemento estético, para se trabalhar a história, ela se relaciona muito com a história, no sentido de que a história brasileira é um pouco uma telenovela. A narrativa histórica. Às vezes a realidade é tão engenhosa, que parece surpreender, daqui a pouco cai o avião do desembargador, do primeiro ministro, coisas que não existem no Brasil, mas estão aí toda hora.
LG – Alguém viu um corte do filme e falou: “não, os militares nunca iam fazer isso”, mas está ali, foi assim que aconteceu.
ZB – Exatamente. É por isso que a gente bota todos os elementos históricos sem citar, mas lá no final, para que essas pessoas tenham o trabalho de ler esses livros.
SB – Enfrentamos um grande problema: é um país sem memória. Todos nós enfrentamos, jornalistas, todos nós. Ninguém lembra o que aconteceu há cinco anos. Não vai lembrar o que aconteceu há 50. Não tem a mínima informação. O filme contribui pra isso. Não chega a ser um filme histórico, mas pode chamar a atenção para que a juventude desperte para esse tema e vai encontrar outras histórias de muitos e muitos golpes que esse país sofre.

Essa abordagem de algum modo é curiosa por que a gente vive a era das fake news, que ao fim e ao cabo foram responsáveis pela eleição de Bolsonaro. E vocês viram o jogo ao contar um capítulo da história do Brasil através de uma ficção, o que é uma solução supercriativa.
ZB – É uma coisa que está aí desde que o mundo é mundo, que se chama romance histórico. Quem não leu O tempo e o vento [do gaúcho Érico Veríssimo] ou E o vento levou… [da norte-americana Margaret Mitchell]. Ambos são romances históricos que viraram filmes e que contam uma história. A história do Rio Grande do Sul foi contada em O tempo e o vento, a história da guerra de secessão nos Estados Unidos foi contada em E o vento levou… Estou dando dois exemplos, mas poderiam ser outros.
LG – Ao fazer isso a gente altera alguns detalhes, a gente cria personagens fictícios que fazem coisas importantes, mas isso é normal de qualquer dramaturgia.
ZB – A dramaturgia histórica é assim. É a síntese da história. A gente tem a responsabilidade de esperar 50 anos do episódio, poder ler todos os livros, poder comparar as perspectivas históricas, poder colocar diferentes pontos de vista em cena. Por isso é um romance. A gente tem a visão dos Estados Unidos, a visão da CIA, que parte de uma jornalista do Washington Post, de alguma maneira…
LG – Olha o spoiler… [risos].
ZB – A gente não tem o personagem real por que a CIA não revelou esses documentos, mas hoje a gente sabe que a CIA espionava o Brizola.
SB – Já revelou.
ZB – Já, mas a gente não sabe quem era o espião, a gente tem o relatório.
SB – Daqui a 50 anos vamos saber.
ZB – Daqui a 50 anos vamos saber, talvez. Mas a questão é que depois do Che Guevara o Brizola era o homem mais vigiado na América Latina. Como é que a gente vai construir isso historicamente? A gente tem essa informação, mas tem que ser através de personagens fictícios, a própria questão da Legalidade, como a gente tem muitos personagens reais, você precisa sintetizar cinco personagens reais em um personagem fictício. O que aconteceu é real. Essa que é a questão do Legalidade. Você tem compromissos históricos com personagens históricos. Tudo que o Brizola diz no filme são falas do Brizola durante a vida que estão ali na boca dele. Claro, tem uma ou outra cena de intimidade que a gente consultou a família: “isso aqui ele falaria dessa maneira?”. “Ah, sim”. É uma síntese de um discurso, colocado de uma maneira mais coloquial, mais íntima, como ele falava com a esposa, coisas assim. Mas os personagens históricos, os discursos do Brizola são os discursos que ele fez na época. Então tem essa costura entre personagens históricos com discurso histórico real e uma construção poética que é o lirismo da dramaturgia clássica que está aí desde a Grécia antiga.
SB – Uma coisa a ser ressaltada na ação do Brizola é que foi a primeira vez no mundo que alguém usou a comunicação para organizar um levante. Nos dias que correm é a maior barbada, mas naquele tempo, o grande veículo era o rádio. Tevê não tava ainda em cadeia, não tinha as afiliadas, tevê era uma coisa muito incipiente ainda. Ele foi o cara que despertou pra comunicação, pra fazer um levante através da comunicação, quando ele criou a Rede da Legalidade, que começou lá no porão [do Palácio Piratini], depois foi pra Goiás, Paraná, foi crescendo, crescendo, só não entrou em São Paulo, mas no resto do país se formou a Rede da Legalidade. Então, esse fator, o tino desse cara, de se dar conta do uso da mídia, da comunicação, a seu favor, a favor da sua ideia, do seu projeto, é fundamental, pouca gente observa isso.
ZB – É muito interessante. Ele tinha o dom da oratória. Toda sexta-feira ele falava num programa de rádio, ele se comunicava quatro, cinco horas, as pessoas às vezes dormiam, de tanto que ele falava, dormiam, acordavam e ele tava falando.
SB – Que nem o Fidel [Castro] e o Mao [Tsé Tung].
ZB – Quando ele se dá conta de que tinha um golpe em curso ele escreve um comunicado e manda pra todas as rádios. Aí acontece um fato, que era sintomático do golpe, que o exército imediatamente manda fechar todas as rádios que haviam lido o manifesto, em que ele dizia: “Jango está na China, está sendo impedido, temos que nos mobilizar para que seja respeitada a constituição”. As rádios são fechadas, a única que não é fechada é a Rádio Guaíba, por que era um pouco mais conservadora, de alguma maneira tinha uma outra visão política, não aceitou ler o manifesto, não foi fechada. No dia seguinte ele confisca o transmissor da Rádio Guaíba, traz pro palácio e transforma a secretaria de comunicação na secretaria de segurança, digamos assim. Ele bota todo aparato da brigada militar a serviço do resguardo da comunicação. Resguardar a torre da Ilha da Pintada, transforma o palácio num grande forte de comunicação, onde ele bota os transmissores na rua pro povo que tava na frente ouvir o discurso dele, começa a discursar, discursar, produção artística, poesia, jogral, em torno disso, os dias vão passando e só discurso não dá, [o ator Paulo César] Pereio, [a poeta] Lara de Lemos, fazem o Hino da Legalidade, aquilo começa a ser tocado ininterruptamente.
LG – Vai mobilizando todo o Brasil, “olha não vamos deixar ter esse golpe”.
ZB – Mobiliza a sociedade civil inteira no sentido de dizer: “o que temos aqui?”. “A brigada militar”. “Quantos contingentes?”. “Tantos”. “Isso aqui não dá nada”. “O que a gente tem?”. “O povo na rua”. “Quantas mil pessoas estão na rua?”. “As pessoas precisam se armar”. Aí ele estabelece um jogo de guerra civil pela constituição. Quem tem arma pega sua arma e vem pra rua. Ninguém tinha tanta arma, ele pega todas as armas de estoque do palácio e distribui pra sociedade civil. Vai na Taurus, pega todo estoque de armas da Taurus, a Taurus que hoje tá com as ações lá em cima, distribui pra população todas as armas e “nós vamos enfrentar o exército brasileiro, vai ser brasileiro contra brasileiro, por que a gente tem que preservar a única coisa que a gente tem que é o voto democrático popular”. Jango Goulart havia sido eleito com mais votos que Jânio Quadros, numa época que as eleições eram separadas, vice e presidente.
SB – Não podia ser mais legítimo.
ZB – Só que na verdade isso tudo era um jogo de cena, as armas do palácio não tinham balas, as balas eram da revolução de 30, estavam todas estragadas. Ele vai jogando com o limite, pra ver o que ia acontecer, e tentando segurar, segurar, segurar, pro Jango voltar e o Jango não vinha.
LG – Não tinha informação direito de onde é que ele tava, tava em Nova York, ele vinha a conta-gotas, parava em Lima…
ZB – Até começar a guerra eles não precisam saber que elas não atiram [risos].
LG – Triste pensar que tem uma avenida em Porto Alegre chamada Castelo Branco. Fizeram uma votação, vereadores conseguiram mudar pra Legalidade. Aí quiseram mudar, “não, por que tem uma pracinha chamada Legalidade”. Aí virou avenida da Legalidade e da Democracia. Agora, em tempos [de] Bolsonaro voltou a se chamar Castelo Branco.

Sério?
LG – Agora vamos recomeçar, pra voltar a ser Legalidade, é sintomático, não?
ZB – Se a gente quer lutar, tem que lutar por educação, no Brasil hoje.
SB – O Castelo era o menos golpista deles. O Castelo saiu do Ceará pra detonar o golpe, o AI-5 do Costa [e Silva], por que o compromisso moral do Castelo com a nação era da eleição em dois anos. Ele saiu, teve que sair, passou pro Costa e Silva e o Costa e Silva deu um golpe dentro do golpe. E ele decolou e caíram o avião dele.

A personagem da Cléo Pires é jornalista.
SB – É uma espiã disfarçada.
ZB – Spoiler!
SB – Apaga, apaga [risos]. Quem sabe ele não é um espião da CIA? [gargalhadas].

Ou pelo menos da Abin [risos]. Recentemente houve esse episódio do The Intercept vazando as conversas do Sérgio Moro. Queria saber a opinião de vocês sobre a importância do jornalismo e da liberdade de imprensa no mundo e principalmente no Brasil sob a égide de Bolsonaro.
LG – Estou aguardando o episódio de hoje da Vaza Jato.
SB – O filme deles sobre o Tarso reflete muito bem isso. O Tarso sempre disse que não tínhamos uma imprensa livre, é uma imprensa submissa, uma mídia submissa, infelizmente. Claro, tem CartaCapital, tem Caros Amigos, tem umas revistas, uns jornais que não estão no topo do consumo, que são as vozes resistentes. Agora os demais? [Fala com desdém:] Folha, Estadão, O Globo, Rede Globo, Record, tudo isso está a serviço do capital. O jornalista de um desses órgãos que quiser ser libertário, da grande mídia, que quiser falar a verdade, está desempregado. Não só desempregado como o chefe liga pras outras redações e diz: “não contrata fulano, que ele complica”. Nosso jornalismo, infelizmente, está amordaçado. O que salva agora? As redes sociais, as agências independentes.
LG – Pro bem e pro mal. Hoje em dia as pessoas recebem notícias pelo celular e ninguém quer saber se é verdade, se não é. Mas fake news passa.
SB – Passa. O cara vai quebrar tanto a cara dando mancada, que uma hora ele vai procurar uma fonte confiável. E existem fontes confiáveis. A própria grande mídia agora está ficando responsável [risos], está sentindo a concorrência. Desde o tempo do [Assis] Chateaubriand que a grande mídia é golpista, que derruba, se apropria, e manda no presidente.
LG – A gente aborda, no próprio Legalidade, não só a Cléo Pires é uma brasileira que mora em Washington. A gente tem um triângulo amoroso, são dois irmãos, um deles trabalha no [jornal] Última Hora. Todo envolvimento dos jornalistas naquela época na Legalidade é fundamental. Eles fazem parte do plano do Brizola, era um jornalismo muito mais ativista, digamos.
ZB – Tem duas questões, fazendo relação com The Intercept. Primeiro, a questão da investigação e dessa responsabilidade que o jornalismo brasileiro talvez precise retomar, de depender menos do release, das notícias prontas, mas de ir atrás não só da visão oficial. Até no filme isso é engraçado, por que de alguma maneira os meios de comunicação de nosso filme estão a serviço do Brizola, eles são a voz do Brizola, a voz de uma liderança, mas de uma liderança que eles conheciam intimamente. Isso é uma questão. Ele não tinha como governante, esse distanciamento que os governantes costumam ter da imprensa. O Brizola tomava café todos os dias com os jornalistas para falar sobre o que estava acontecendo, chamava, não se negava a responder nenhuma pergunta, não era uma pessoa que fugiria de uma pergunta. Ele sabia a importância da imprensa para se manter ligado ao povo, ele tinha essa relação com o povo. “A grande massa, as pessoas que estão muito distantes, todos precisam saber do que estou fazendo”, pra ser cobrado também. Ele dava a cara a tapa, deu grandes exemplos em vida pra poder fazer as coisas que fez. Ele fez a reforma agrária, mas ele doou uma fazenda que ele tinha, foi a primeira fazenda, que ele doa, da família. Mas ele soube jogar, no episódio da Legalidade, com a imprensa como um elemento de guerra.
LG – Isso o Brizola jovem, por que o Brizola mais velho, depois…
ZB – Vai comprar briga com a imprensa.
LG – E o fato de o Brizola ter brigado com a Globo significou que ele nunca foi presidente do Brasil. O exílio também fez muito mal pra ele.

Como é que vocês têm acompanhado esse ataque sistemático às artes, à cultura e ao pensamento pelo governo Bolsonaro?
SB – É o que se esperava dum fascista. Não pode esperar do fascismo outra coisa a não ser isso. O [ministro da propaganda da Alemanha nazista Joseph] Goebells, o número um do [Adolph] Hitler, dizia: “quando eu ouço a palavra cultura tenho vontade de sacar da pistola”. Indiretamente, eles odeiam, eles também têm vontade de sacar a pistola e matar todos os artistas, por que o artista é rebelde, o artista fala, o artista é independente, além do quê a cultura e a arte servem para o esclarecimento do povo, e eles não querem, querem o povo burro.
LG – Ignorante como eles.
SB – Eles não têm carinho nenhum, têm profundo desprezo pela cultura. E é aí que está o nosso papel: resistirmos. Por que isso passa. Essa onda de fascismo, de direitismo, existe em todo o mundo, não é só no Brasil, eles estão surfando na onda, a direita botou as garras de fora e está tendo seu momento. Até por culpa da esquerda, vamos aprofundar, que fracassou em muitas coisas. Acontece que a hora é deles, não é a nossa hora, não é a hora dos progressistas, não é a hora dos esquerdistas. Nesse momento nós temos que resistir, aguentar, por que muda, claro que muda, não sei se vai durar 10 ou 20 anos. Mas de repente alguém pode cair do cavalo.
LG – Vale falar que o filme é em memória de nosso ator, que acabou falecendo, infelizmente, que interpreta o Brizola, o Leonardo Machado.
SB – Foi o último trabalho dele.
ZB – O Léo é o protagonista, junto com o Sapiran ele faz o Brizola, a maior parte do filme ele conduz a trama, é um grande ator do Rio Grande do Sul, deixa um legado importante. Todos os diretores dos últimos 20 anos em algum momento trabalharam com ele. Não chegou a ver o filme pronto, viu um corte, enfrentou um câncer e nos deixou precocemente. Mas fez o filme com uma entrega absoluta, com paixão, buscou o papel, a gente estava buscando um ator, estávamos caindo no canto da sereia de que para chamar público tínhamos que ter atores do eixo Rio-São Paulo, em grande evidência na televisão.
LG – Mas tu tinha uma pulguinha, queria um Brizola gaúcho.
ZB – É, num primeiro momento a gente achava. Mas ele buscou o papel, me procurou, chegou ao teste caracterizado, era mais forte do que o próprio filme a vontade dele de fazer o filme. Fez lindamente, conduz o filme com uma baita responsabilidade, as falas reais do Brizola, teve um processo de caracterização, mudou o cabelo, colocou lente de contato, engordou um pouco para fazer o filme, é um ator muito completo, tanto pelo aspecto físico, disposto a transformações, quanto pela parte de equipamento vocal, tinha uma voz muito bonita, muito volume, pros discursos do Brizola isso foi muito importante, uma capacidade também de ser muito generoso, conviveu muito com o Sapiran, foi pra Bagé, fez um laboratório de um mês antes, saiu um pouco da cidade, para buscar essa raiz do Brizola, que era um homem rural, um colono, um homem do campo. Foi conviver com o Sapiran para os dois criarem o mesmo personagem. O filme, agora que eu falei esse negócio do campo, tem uma outra questão importante que a gente foi buscar: o filme se passa todo em Porto Alegre, mas estabelece um relação histórica com São Borja, com a raiz desse trabalhismo brasileiro que nasce com Getúlio Vargas num território que é Brasil mas que tem como origem de colonização a cultura espanhola, a figura do caudilho, e principalmente a questão da justiça social que fez parte da utopia jesuítica guarani. São Borja é uma cidade que nasce da colonização espanhola jesuítica, e foi o grande centro da justiça, os tribunais guaranis aconteciam em São Borja. Em 1680 já existia a ideia de reforma agrária, de divisão igualitária da terra, isso vai estar no subconsciente do Getúlio, do Brizola, e o filme tenta também flertar com esse passado espanhol que fez o Rio Grande do Sul, que está nas missões, tem um elemento do nosso filme que é inspirado no Darcy Ribeiro, antropólogo, que está na região das missões, em São Miguel das Missões, trabalhando com os indígenas, e vai pra Porto Alegre, mobilizado pela Legalidade, também mostrando essa mobilização que o Brizola fez no interior do estado. Então, pra falar um pouco das raízes do Brasil, que passa pelo elemento indígena, pelo elemento negro, pelo elemento português e pelo elemento espanhol, também no caso do Rio Grande do Sul.

Foi todo rodado em Porto Alegre?
ZB – O filme teve locações em São Miguel das Missões, também em Torres, mas representando Punta del Este, mas a história em si se passa em Porto Alegre.

No começo da entrevista você fez um elogio ao Guarnicê. Nesta edição foi inaugurada uma mostra chamada Cinema Político. O que você achou da iniciativa?
ZB – Eu achei fantástico, o festival tem que ter um compromisso com a sociedade. A gente vive um momento no Brasil onde as instituições, onde o próprio sistema político, como a sociedade vê a política, precisa ser discutido, pensado, a gente precisa repactuar com a sociedade, com a política. Há hoje uma ojeriza, um preconceito muito grande do cidadão com a classe política, por conta do desgaste da corrupção, que é real e que é histórico. A gente esteve no Museu de Arte Sacra hoje à tarde e há uma frase de Padre [Antonio] Vieira, numa de suas pregações, falando de como a corrupção está presente e é genuína do ser humano e é preciso combatê-la, não é questão apenas de ser brasileira, ela existe em toda parte, mas de alguma maneira no Brasil, por conta de nosso processo histórico, a mancha da corrupção se tornou maior do que a vontade civilizatória de fazer política por parte do cidadão. A gente precisa reaproximar o cidadão da política. A sociedade, no seu mais alto grau de caminhar, de pacto social, precisa da política, precisa da participação política. Mas não necessariamente da figura do grande líder, e é essa que é a questão que o Brizola entende, que aquilo tudo só seria possível envolvendo todos os cidadãos e fazendo com que as pessoas se apropriassem daquela causa, lessem a constituição, entendessem por que estavam lutando por aquilo. Como artista a gente também tem um compromisso de aproximar a política da discussão cidadã. A política é estrutural na sociedade, voltamos pra Grécia antiga. Há sociedades que conseguiram avançar, inclusive pra que a gente pudesse ter um processo civilizatório que deu origem ao renascimento, que deu origem à modernidade, ela se baseia na política.
SB – Há um preconceito contra a política em essência. Quando tem um festival que abre uma janela importante para um filme político, é importante, é um avanço. O Guarnicê tem conteúdo, tem pensamento, é um festival de pensamento. O festival que ele [aponta para Zeca] é coordenador tem isso também. É arte, mas é arte para pensar.

Qual é o festival que você coordena?
ZB – Tanto eu quanto Léo, de alguma maneira nós criamos janelas para poder propagar a arte cinematográfica brasileira, mas também refletir sobre nossas áreas, eu na minha atuação na faixa de fronteira e o Léo como roteirista. O Léo criou em Porto Alegre, o Frapa, o Festival do Roteiro Audiovisual, que é hoje um dos maiores, acho que é o maior da América Latina, e eu criei em Bagé e Livramento o Festival de Cinema da Fronteira, que já tem 11 edições. Ano que vem eu não vou participar, vou assistir. Mas fui o idealizador. O Frapa está chegando à sétima edição.

Qual a previsão de estreia do Legalidade no circuito exibidor?
ZB – Dia 12 de setembro ele vai estrear no Brasil. [Distribuição da] Boulevard Filmes, que distribuiu o Tarso também, distribuiu o Glauco do Brasil, meu outro filme.

Como vocês avaliam o atual momento do cinema brasileiro em que filmes como Bacurau, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dorneles, e Marighela, de Wagner Moura, têm concorridas estreias internacionais, com ampla repercussão, mas não estreiam no Brasil?
LG – Eu acho que o Bacurau vai acabar estreando. O Marighela tá complicado, eu estou lendo, está complicado, a distribuidora ficou com medo da repercussão. O Marighela é diretamente contra o Bolsonaro. Eu não vi o Bacurau, mas imagino que seja uma coisa não tão direta, é óbvio que o discurso está ali, mas uma pessoa tosca não vai se sentir agredido, como o Bolsonaro, diferente do Marighela, que é um cara que combateu a ditadura. Eu acho que o Bacurau vai entrar em cartaz, deve entrar bem, espero que faça um bom público.
ZB – Eu acho que ambos os filmes escolheram estrear em festivais estrangeiros, é uma política que os realizadores brasileiros têm tido, não agora, mas há muitos anos, por que muitos desses festivais exigem que seja première mundial. Estreiam fora por que não têm espaço no Brasil? Não é verdade. Estreou fora por que os realizadores brasileiros preferem estrear fora, criar expectativas, ganhar prêmios fora, e depois estrear nos festivais nacionais. Acho difícil que ambos os filmes, de realizadores de prestígio, com os elencos que têm não sejam selecionados em festivais brasileiros. Provavelmente a gente vai ver agora no segundo semestre, os dois filmes em Gramado, Brasília, em algum desses festivais, Rio, São Paulo, eles vão estar nesses festivais. A questão do lançamento comercial, hoje no Brasil, tem dois caminhos: ou é investimento de uma grande distribuidora, e aí isso não é uma questão de perseguição política, é uma questão de capital. A gente vê que o capital pode, por exemplo, como a Netflix, lançar um filme sobre o impeachment da Dilma, por que o capital não tem esquerda nem direita, ele vende pra esquerda e pra direita.
LG – A Netflix fez O mecanismo [de José Padilha].
ZB – A mesma Netflix que fez O mecanismo faz Democracia em vertigem [de Petra Costa]. Então o capital é um grande balaio, que tem uma oferta que é o comunismo, o neoliberalismo, está tudo ali em oferta. O outro mecanismo é o Fundo Setorial do Audiovisual. O Legalidade é um filme financiado pelo Fundo Setorial do Audiovisual, o Marighela também. O Fundo Setorial do Audiovisual, na medida em que você aprova o financiamento da realização, a distribuição é suporte automático. Se eu quiser recorrer, eu posso ter recursos do mesmo fundo pra distribuir o filme.
LG – Até o ano passado. Agora tá tudo meio turvo.
ZB – Qualquer filme que está sendo lançado esse ano comercialmente teve que fazer esse processo ano passado. Imagino que qualquer filme que tenha optado pelo Fundo Setorial do Audiovisual ele terá o lançamento, imagino, garantido. A sociedade civil organizada que lutou pelo Fundo Setorial do Audiovisual, que lutou pela transparência, pela governança de um fundo que é gerido por um banco público, aliás, o BRDE foi criado pelo Brizola [risos]. O que existe é uma dominação estrangeira das salas. Vingadores estreou em 800 salas. Há um preconceito contra o cinema nacional, isso existe e isso o Bolsonaro está fazendo questão de acentuar, é uma questão que a gente já vêm lutando há muitos anos e é função nossa, como imprensa, como artistas, formar público, lutar contra essa dominação estrangeira.

Serviço

Divulgação
Divulgação

O Brasil na lama: um retrato

Foto: Marla Batalha

 

Uma peça é uma peça é uma peça. Caranguejo Overdrive, de Pedro Kosovski, encenada pela companhia carioca Aquela Cia. de Teatro, com direção de Marco André Nunes, é uma peça impactante. Por vários motivos, a começar pelos caranguejos para além do título – também há areia e lama –, a princípio em uma gaiola, depois interagindo com os sete atores em cena.

Vi a peça em São Paulo, em março do ano passado, e poderia dizer tratar-se da mesma peça, antenadíssima com o atual momento político vivido no Brasil – naquela ocasião já trazia à cena o assassinato da vereadora Marielle Franco, ocorrido poucos dias antes. Agora acompanha a tragédia brasileira até o governo Bolsonaro.

Com um power trio em cena fazendo ao vivo a trilha sonora do espetáculo, evocando a memória e grandeza de Chico Science, Caranguejo Overdrive conta a história de Cosme, ex-catador de caranguejos num mangue aterrado que vai à Guerra do Paraguai, nas fileiras do exército brasileiro. Quando volta, ajuda a explicar o falso patriotismo que rege o atual governo militar/izado. “Éramos uma multidão de famintos, analfabetos, sem disciplina”, diz ele, já sem saber se é homem ou caranguejo, ave, Josué de Castro!

Cosme tem distúrbios mentais, decorrentes da violência aprendida no campo de batalha e da fome. O Rio de Janeiro não é mais o mesmo, é um resumo do Brasil: não há mais mangue, aterrado, não há mais alimento para os miseráveis, que têm que se contentar com excrementos, até a inanição e a consequente morte.

O ex-combatente é um deles, que tem que sucumbir a constantes e vexatórias abordagens policiais, um estranho em sua própria pátria. Através de sua figura e de uma prostituta, personagens comuns em zonas portuárias, Caranguejo Overdrive perpassa a história do Brasil a partir do que de mais ridículo e caricato há em cada governante, desde Getúlio Vargas, passando pelos militares até os eleitos após a redemocratização, chegando novamente ao militar, com a prostituta que serve de guia ao homem-quase-caranguejo, cujo fio de humanidade aos poucos se esvai. Ela narra diversos episódios em espanhol – foi arrancada violentamente do Paraguai natal.

Caranguejo Overdrive ironiza ainda a eterna insuficiência de recursos para a área cultural, agravada no presente governo com a extinção do Ministério da Cultura – a circulação da peça, que se encerra em São Luís, após passar por Belém e Teresina, é apresentada por um genérico Ministério da Cidadania, com patrocínio da Petrobras.

O texto debate temas que parecem ser eternos no Brasil, apesar de muita gente fingir acreditar que a corrupção é uma invenção recente no país. Uma miríade de assuntos que torna a peça atual e necessária: obras superfaturadas e inacabadas, megaprojetos sem discussão e planejamento necessários, remoções forçadas de populações, violência urbana, saúde mental, ausência do Estado.

Para quem não está dando conta de acompanhar as notícias do hospício nacional, uma curiosidade: o tempo todo, ao longo de hora e meia de espetáculo, há sempre pelo menos duas ações se desenrolando simultaneamente no palco, o que convida o espectador a um processo de edição (“a memória é uma ilha”, ave , Wally Salomão!): só assim se pode tentar dar conta do Brasil.

Serviço

Caranguejo Overdrive tem última sessão hoje (6), às 20h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro). Somente 100 ingressos – a plateia assiste ao espetáculo no palco do teatro, disposta em meia lua. Os ingressos custam R$ 10,00 (R$ 5,00 meia) e podem ser adquiridos na bilheteria do teatro uma hora antes da apresentação.

Tralha musical na trilha da cidade

[a convite de Ronaldo Rodrigues escrevi o release oficial do Chorinho da Tralha, grupo que vem fazendo e acontecendo na cena musical da ilha]

Foto: divulgação

Tralha é como costumeiramente chamamos tudo aquilo que não serve mais, que está ali pelos cantos apenas ocupando espaço. A expressão empresta nome à Feira da Tralha, charmoso misto de sebo e bar instalado no Edifício Colonial, pela Rua Godofredo Viana, quase esquina com Sol, nas imediações do Teatro Arthur Azevedo, no Centro de São Luís do Maranhão.

Ali, a tralha que já não serve a alguém pode passar a servir a outros interessados, entre livros, cds, dvds e vinis. Na mão de outro, a tralha de um pode virar ouro puro. Foi neste ambiente, entre paralelepípedos, gente e histórias que floresceu o Regional Chorinho da Tralha.

A partir do retorno de Ronaldo Rodrigues (bandolim) à ilha natal, após temporada no Rio de Janeiro, se aperfeiçoando no instrumento, ele reuniu na mesma formação os talentos de João Eudes (violão sete cordas), João Neto (flauta) – que cursou mestrado em Belo Horizonte/MG –, Gabriela Flor (pandeiro) – paulista radicada na Ilha – e Gustavo Belan (cavaquinho) – mineiro que fixou residência na capital maranhense. Os três primeiros constam da galeria da Chorografia do Maranhão, que compila 52 entrevistas com instrumentistas de Choro nascidos ou radicados no Maranhão, livro de Ricarte Almeida Santos, Rivânio Almeida Santos e Zema Ribeiro.

O grupo começou a sentar praça por ali aos domingos, na virada da manhã pra tarde. Não tardou para o lugar virar point, parada dominical obrigatória. Lugar de re/encontro de amigos, familiares, de conhecer gente nova, de fazer novos amigos, na comunhão que só a música proporciona.

Correndo o chapéu, ajudando a superar o velho clichê de que “choro é música de velho” – portanto, “tralha” –, o Chorinho da Tralha renova o repertório de nomes como Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim, Chiquinha Gonzaga, Honorino Lopes e muitos outros, em programa regado a cerveja gelada, mocotó, feijoada, sururu e bode no leite de coco.

O Chorinho da Tralha, formado em sua maioria por músicos que acabaram por se tornar maranhenses por sua paixão pelo lugar, ou que saíram e voltaram ao Maranhão de origem, renovam a importância de uma autêntica roda de Choro, com sensibilidade na escolha do repertório, qualidade na execução e gentileza no atendimento aos pedidos por vezes embriagados.

Do palco original, a calçada do misto de sebo e bar que acabou por lhes emprestar o nome, o Chorinho da Tralha começa aos poucos a alçar outros voos. A depender da soma dos talentos individuais, do carisma e da devoção aos grandes mestres desta grande música, certamente vão longe. É pelo que torcem os habitués da Feira da Tralha. Com uma condição: que sempre estejam de volta aos domingos!

Solo e bem acompanhado pelo público

Foto: Zema Ribeiro

 

Quando Geraldo Azevedo, trajando uma camisa de listras e estrelas em tons acinzentados, subiu ao palco do Teatro Arthur Azevedo ontem (30), levou na esportiva um problema técnico que impedia a amplificação de seu violão. Superado o percalço, abriu seu show com Ê minha vida (Geraldo Azevedo/ Capinan), antes de brincar, referindo-se ao sobrenome comum: “posso dizer que é meu tio-avô, Arthur Azevedo”, para risos da plateia.

Agradeceu por estar de volta à ilha e continuou: “a inspiração deste espetáculo é o disco que eu fiz em 1995, Ao vivo contigo; mais recentemente eu pensei em registrar em vídeo”, disse, referindo-se ao dvd recém-lançado Solo contigo, no formato voz e violão. Para gargalhada do público, arrematou: “essa é a segunda sessão. Amanhã vai ser a primeira”, anunciou, referindo-se ao fato de a apresentação de ontem ser uma sessão extra, pois a de hoje, para quando o show estava originalmente marcado, ter esgotado os ingressos.

O roteiro seguiu com Inclinações musicais (Geraldo Azevedo/ Renato Rocha). Depois, o pernambucano enalteceu alguns parceiros, citando a honra de ter feito música com, por exemplo, Mário Lago. “Ele dizia que para falar de amor não precisa falar correto, basta falar ao coração”, lembrou, antes de cantar a hilariante Amor de gramática, parceria de ambos.

“Com ele eu não fiz música, mas a gente era parceiro de vida, dividimos palcos no Brasil e fora”, revelou, antes de cantar Estácio, eu e você, e terminar de punho erguido: “viva Luiz Melodia!”.

O desfile de parceiros continuou. “Esse anda comigo há muito tempo; é meu técnico de som, mas descobri que é também um ótimo compositor. Vou cantar uma dele: Sérgio Peres”, anunciou antes de A saudade me traz.

No ano do centenário de Jackson do Pandeiro não podia faltar uma homenagem a ele, que Geraldo Azevedo revelou ser uma de suas referências. “Ainda tive a honra de dividir o palco com ele”, reverenciou, antes de cantar Já que o som não acabou (Geraldo Azevedo/ Geraldo Amaral/ Alceu Valença).

“A partir desse momento é Solo contigo”, anunciou, ficando em pé e trocando de violão. “Vocês têm que participar”, convocou o público. É literalmente uma antologia, um desfile de clássicos: O principio do prazer (Geraldo Azevedo), Canta, coração (Geraldo Azevedo/ Carlos Fernando), aplaudida desde a introdução, Veja (Margarida) (Vital Farias) – em que o verso “gasolina vai subir de preço” virou “gasolina já subiu de preço”, numa crítica sutil ao governo de Jair Bolsonaro.

É impressionante a comunhão entre o artista e seu público ludovicense, mesmo sendo Geraldo Azevedo um habitué da ilha. Tanto querer (Nando Cordel/ Geraldo Azevedo), Pensar em você (Chico César), Caravana (Alceu Valença/ Geraldo Azevedo) – “bonito o coro, obrigado!”, agradeceu o cantor – Chorando e cantando (Geraldo Azevedo/ Fausto Nilo), outra aplaudida desde a introdução, Você se lembra (Geraldo Azevedo/ Pippo Spera/ Fausto Nilo).

Após quase quatro minutos de introdução, com o público já acreditando que a música ficaria em sua versão instrumental, diante dos efusivos aplausos, o artista convertido numa espécie de guitar hero, tirou o chapéu em agradecimento ao público antes de começar a cantar Bicho de sete cabeças (Geraldo Azevedo/ Zé Ramalho/ Renato Rocha), que acabou emendada com Dona da minha cabeça (Geraldo Azevedo/ Fausto Nilo).

Em Dia branco (Geraldo Azevedo/ Renato Rocha) transformou o “pedaço de qualquer lugar” em “um pedacinho de São Luís do Mará”, antecipando o clássico de Carlos Fernando que não pode faltar a seu set list em se tratando de shows na “ilha bela” – a citada comunhão era tanta que nem houve os tradicionais chatos pedindo “aquela”. Ontem souberam esperar e pareciam estar satisfeitos com a seleção.

“Eu fiz esse dvd, mas eu estou cheio de músicas novas. Estou fazendo um disco, quem sabe no segundo semestre eu termine e venha mostrar outro disco diferente”, aventou, para delírio da plateia, antes de cantar Um paraíso sem lugar (Ela e eu) (Geraldo Azevedo/ Fausto Nilo).

Para Moça bonita (Geraldo Azevedo/ Capinan) a plateia bateu palmas marcando o ritmo e nela Geraldo Azevedo emendou Sabor colorido (Geraldo Azevedo), lembrando a gravação do Cantoria 2, e Sabiá (Luiz Gonzaga/ Zé Dantas).

Na gravação de Canção da despedida no LP A luz do solo (1985), Geraldo Azevedo registra a saga para gravar a música: antes, havia colocado em várias relações de repertório para discos novos e a censura vigente na ditadura militar impedia a gravação; finalmente ele gravava ali a parceria com Geraldo Vandré, de letra atualíssima nestes tempos bicudos, de presidente homofóbico: “um rei mal coroado não queria/ o amor em seu reinado, pois sabia/ não ia ser amado”. Ontem, afirmou, antes de cantar: “meu parceiro nessa é complicado, eu não consegui a liberação para gravar nesse dvd mas ela sempre está com a gente”, disse, referindo-se ao sucesso, do verso “amor não chora, eu volto um dia”, que anunciava que o show estava se aproximando do fim.

“Eu não podia sair sem cantar essa canção”, afirmou antes de Terra à vista (Carlos Fernando), composta em homenagem a São Luís do Maranhão, certamente um ponto de identificação forte entre o artista e seu público local – na década de 1980, muita gente por aqui achava que Geraldo Azevedo era maranhense.

“Eu faço há muito tempo carnaval em Pernambuco, continuo fazendo. Eu fiz um EP de frevos, está nas redes sociais para quem quiser ouvir”, convidou, antes de Quatro dias de amor (Geraldo Azevedo/ Maciel Melo), cujos versos finais cantou se retirando do palco: “o amor de carnaval/ chega quarta-feira vira cinza e tchau”.

Aos gritos de “mais um!” voltou para atender com Táxi lunar (Geraldo Azevedo/ Alceu Valença/ Zé Ramalho), com a iluminação – impecável – simulando, em tons de vermelho, uma espécie de abdução e seu violão magistral fazendo as vezes do motor de uma nave espacial. Sai de cena aplaudido de pé, com o público – que cantou junto quase o show inteiro – a confirmar que as canções de Geraldo Azevedo fazem parte do imaginário coletivo, ajudando a contar as histórias de que são trilha sonora.

Artesania poética

Celso Borges na Virada Cultural em São Paulo. A camisa tem estampa de Cláudio Lima. Foto: Fernanda Castello Branco

De Celso Borges já disse o poeta Marcelo Montenegro: “faz os livros mais bonitos que já vi”. O paulista não exagera: para além da beleza dos poemas, cada objeto-livro que lança é único, a começar pela trilogia de livros-cds que lançou entre 2000 e 2010: XXI, Música e Belle Epoque.

Mal lançou a segunda edição de O futuro tem o coração antigo [Pitomba!, 2019], o maranhense já inventa outro artesanato: a caixinha Carimbocarinho [Ed. do autor, 2019], em que os 15 poemas, curtos, minutos, haicais, chistes, são acondicionados em uma caixinha e carimbados página a página.

“No meio do caminho tinha um carimbocarinho”, brinca com o Drummond num dos poemas do volume. “Tambor batendo/ tambor/ fazendo meu/ coração/ tambor tremendo”, diz outro, em possível diálogo com a Balada do amor em chamas, parceria gravada por Zeca Baleiro em O amor no caos – volume 1, recém-lançado novo disco do cantor e compositor. “Com esse sol maior que se acendeu/ um tambor dentro de mim bateu/ e o desejo de viver em mim aflora”, diz a letra.

Uma das páginas de Carimbocarinho. Reprodução

Os poemas de Celso Borges são emoldurados pelo projeto gráfico e ilustrações de Cláudio Lima, numa espécie de publicidade afetiva: é como se ele traduzisse em ícones o conteúdo dos poemas.

“Cláudio além de ser um grande cantor, é um grande parceiro, um grande amigo, uma pessoa que percebe algumas coisas da forma como eu percebo. Tem uma delicadeza. A gente tem uma cumplicidade musical e a começamos a trabalhar juntos no livro-cd Música, de 2006, ele fez um projeto gráfico lindo, naquela época. Ele gravou algumas canções minhas, Boi da tarja preta, parceria com Alê Muniz, e São Luís, baseada naquela abertura do [programa de rádio] Reggae Point [Shaperville, de Michael Rilley], e faz uns projetos gráficos fantásticos. Ele tem uma facilidade muito grande em pegar tua ideia, teu verso, teu conceito poético e transformar aquilo numa coisa gráfica, desde a escolha da fonte. Ele tem o olhar muito cuidadoso, tem a velocidade dele, fica amadurecendo na cabeça aquelas ideias, ouve muito o que a gente fala, eu também o escuto muito. Estou tendo a felicidade de fazer esse projeto com ele, já fiz O muro, já fiz Ponta d’Areia é Ponta d’Areia, vamos fazer agora O drible, sobre o Garrincha, com ilustrações de Fernando Mendonça, vamos fazer o lançamento em breve também. É um parceirão e se identifica muito com essa série da poética afetiva. Até o final do ano lançaremos outras coisas e outras parcerias virão”, declarou o poeta sobre a parceria.

Celso Borges atualmente prepara um livro em que conta a história por trás de mais de 100 composições musicais que têm a capital maranhense como tema ou paisagem. Enquanto este livro de maior fôlego não fica pronto, diverte-se fazendo livrinhos artesanais, de tiragens pequenas, exercitando o ofício de poeta e enveredando pelo de contista – caso do citado O muro, em que conta a resistência da mãe diante da violência urbana e da insistência dos filhos em subir um muro ao redor de sua casa e, em nome da segurança, perder a visão do bairro e da vizinhança. Um ato de rebeldia. E poesia.

Serviço

A noite de autógrafos de Carimbocarinho acontece sábado (1º. de junho), às 17h, no Café Guará/ Chico Discos (Rua de São João, 289-A, esquina com Afogados, Centro).

Lições de um biógrafo

Francisco Gonçalves e Fernando Morais. Foto: Zema Ribeiro

 

O jornalista e escritor Fernando Morais deu uma aula de jornalismo, ontem (21), no auditório do Palácio Henrique de La Rocque. Sua palestra integrava a série Diálogos Insurgentes, promovida pela Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular do Maranhão (Sedihpop).

Autor de Olga, Chatô – O rei do Brasil e Corações sujos, para citar os que foram adaptados ao cinema, sua bibliografia inclui ainda A ilha, Os últimos soldados da guerra fria (também prestes a chegar às telonas, dirigida por Olivier Assayas, coprodução França/Estados Unidos, com Wagner Moura, Penélope Cruz e Elijah Wood no elenco), e O mago – A incrível história de Paulo Coelho. Ele atualmente trabalha num livro sobre o ex-presidente Lula; a história deve abarcar o período entre sua primeira prisão, em 1980, à atual.

Morais foi deputado estadual e secretário estadual da Cultura [1988-1991] e da Educação [1991-1993] em São Paulo.

A conversa foi mediada pelo Secretário de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular Francisco Gonçalves, que apresentou o escritor, lembrando sua relação com os livros dele, desde sua época de estudante.

Fernando Morais, hoje editor do blogue Nocaute, iniciou sua fala lembrando a primeira vez em que esteve no Maranhão: no final da década de 1960, escrevendo uma matéria para o Jornal da Tarde baiano, sobre a Transamazônica – a rodovia de mais de 4 mil km de extensão liga Cabedelo/PB a Lábrea/AM, cortando o Maranhão na altura do município de Balsas. O jornalista e sua equipe, que rodavam num jipe adaptado para enfrentar as péssimas condições das estradas da época, acabaram presos. A reportagem acabou lhe rendendo o primeiro dos três prêmios Esso de jornalismo que recebeu.

“Foi uma noite de cana, nada mais grave. É que quando viram a gente barbudo, cabeludo, num jipe, pensaram que éramos guerrilheiros comunistas”, divertiu-se. Bom humor e críticas ao governo de Jair Bolsonaro marcaram a palestra. Tomei notas, as aspas a seguir. As falas de Morais, uma verdadeira lição, contêm preciosos conselhos a profissionais e estudantes de jornalismo – e de algum modo a brasileiros em geral.

“O Nordeste ensinou o Brasil a votar. O país vive um momento conturbado, o Brasil está à beira do vulcão. O Nordeste reagiu a Jair Bolsonaro”.

“Um dos pré-requisitos para eu escolher um personagem para biografar é através da história dele poder contar um pedaço da história do Brasil não escrita nos livros oficiais”.

“Comecei a trabalhar como contínuo em uma revista de banco aos 14 anos. Comecei na profissão servindo café aos jornalistas”.

“Não conheço ninguém que saiba escrever que não seja um leitor compulsivo. Pode fazer o curso de jornalismo que for, onde for, Harvard, qualquer lugar, seja escritor de livros, de jornalismo, o que for: tem que ler”.

“O jornal, como a gente conhece, de papel, acabou. Essa vaca já foi pro brejo. Livro também, está com os dias contados. A internet substituiu o jornal com uma vantagem muito grande. Vou tomar como exemplo o linchamento e empalamento do [ditador libanês Muammar] Kadafi [1942-2011]. Vi ao vivo no dia, e no dia seguinte nenhuma novidade nos jornais. Houve a migração do jornalismo de papel para o eletrônico. Não estou decretando a morte do jornalismo, mas prevendo a morte do jornal de papel e do livro. A televisão também vai pro brejo: vai virar monitor de internet. Em vez de ver internet numa coisinha desse tamanho, vai ver em 80 polegadas”.

“Há um ditado mineiro que diz: “Chove na frente, chove atrás”. A internet boa e revolucionária é também terreno de crimes. A eleição de Bolsonaro foi fraudada por uma corrente de fake news. Isso está provado. Não é uma fantasia de um cara de esquerda. A Folha de S. Paulo comprovou que uma empresa ofereceu [o serviço sujo] aos tucanos, a Folha publicou a fatura. A empresa vendia por 8 milhões de reais disparos de fake news para 120 milhões de adultos e você podia escolher os filtros: região, renda etc. [Nos Estados Unidos] Milhões de pessoas receberam notícias de que Hillary Clinton fazia orgias quando era casada com o então presidente Bill Clinton. Atualmente é preciso um esforço permanentes para não ser enganado. As pessoas precisam, sobretudo os mais jovens, aprender a distinguir origem e veracidade do que se lê todo dia”.

“Depois da escolha do personagem ou assunto vem um trabalho braçal de pesquisa. Fiz 230 entrevistas para escrever Chatô. Desde entrevistas de uma hora a entrevistas de uma semana de duração. Dona Alzirinha Vargas, a única [filha de Vargas] viva na época, faleceu pouco depois da entrevista. Fumou um maço de continental sem filtro, parecia uma chaminé, uma locomotiva, um cigarro que não existe mais. Falou comigo cinco horas. Falou sobre o pai, coisas saborosíssimas”.

“Recomendo a trilogia sobre Getúlio Vargas escrita pelo Lira Neto. Ele me dá o crédito, por coisas que eu passei pra ele”.

“A gente vai aprendendo a selecionar as coisas. Toda profissão atribui ao profissional uma natureza adicional. Um bom alfaiate é capaz de, pegando no pano, dizer se dá ou não uma boa camisa; um pedreiro, pegando o tijolo, pode dizer se vale fazer uma casa com ele ou se a casa vai cair. O jornalismo acaba nos dando, sobretudo aos mais experientes, a possibilidade de ver coisas que pessoas de outras profissões não veem. Eu sou casado com uma historiadora com pós-doutorado na França e nós temos divergências sobre o que é e não é importante”.

“Não basta empilhar e publicar. Escolher bem o tema, o personagem, ser rigoroso com as informações, mas tem que escrever com elegância, prender a atenção do leitor. Seduzir. Ou você escreve assim ou pode mudar de profissão”.

“Não pode ter preconceito de natureza ideológica. Você não pode virar o autor da esquerda ou da direita, se não você perde o crédito com o seu próprio leitor. Quando eu anunciei que iria escrever a biografia do Antônio Carlos Magalhães [1927-2007, político baiano], as pessoas perguntavam o que eu bebi, o que eu fumei. Mas é o único personagem que ficou no poder de Getúlio a Lula; se você é jornalista e não se interessa, vá vender ações na bolsa, vai ganhar dinheiro e ser muito feliz”.

“Depois de Olga eu ia fazer a biografia do [delegado Sérgio Fernando Paranhos] Fleury [1933-1979], um dos piores torturadores da ditadura militar brasileira. Mas o Percival [de Souza, jornalista] foi antes e fez [Autópsia do medo – vida e morte do delegado Sérgio Paranhos Fleury].

“Fui o único jornalista brasileiro a entrevistar Julian Assange [ativista, fundador do WikiLeaks]. Contou coisas cabeludíssimas sobre Michel Temer e suas relações com Chevron e Exxon Mobil já visando o pré-sal. Ele ainda era vice da Dilma. Agora, eu sou contra a forma como o Temer foi preso. A polícia avisou a Globo antes da vítima. Não estou defendendo o Temer. Se você acha que pode isso para o inimigo, não reclame quando for contra você”.

“Não pode ter preconceito ao fazer livros de não-ficção. O autor quer ser lido, não por dinheiro nem por vaidade. Eu quero ser lido por muita gente. Eu escrevo para pagar o condomínio, a mercearia, o açougue…”.

“Quem tinha razão era Darcy Ribeiro: o Brasil é uma maravilha. O que falta é gente pra contar isso. Aqui em São Luís, se alguém se dispuser a contar, desde a história de um anônimo a alguém que influenciou os rumos do país. Tem que fuçar, tem que gostar. Tem muita história. Tem história que não acaba mais: dá livro, filme, minissérie. Se a Netflix soubesse o que tem na minha cabeça eles me contratariam. Muita coisa que eu não vou ter tempo de fazer”.

“Minha biblioteca, modesta, de cinco mil volumes será doada à Mariana [cidade mineira em que Morais nasceu]. Junto à biblioteca o acervo de cartas e de fitas com todas as entrevistas. Está sendo montado um centro em Mariana para tornar público esse acervo. Depois de isto anunciado, já recebi doações de cartas de Carlos Lacerda [jornalista e político brasileiro, fundador da Tribuna da Imprensa], depois do Sérgio Mota [1940-1998, ex-ministro das Comunicações]. O Zé Dirceu [José Dirceu, político e advogado, ex-ministro-chefe da Casa Civil] como eu é um guardador de papel: guardou desde o movimento estudantil até a cadeia. Ele doou quatro caminhões baú com os acervos dele. Tudo vai ser catalogado, digitalizado e disponibilizado à população pela internet: o cara acessa em Tóquio ou em São Luís ou em Alcântara. Que agora querem entregar pros gringos na faixa, 0800”.

“Recuperação judicial é o nome tucano da concordata [referindo-se aos calotes de grandes livrarias em editoras – e autores]. Eu estou recebendo direitinho por que a minha editora, a Companhia das Letras, é grande, não está repassando os prejuízos aos autores”.

“[Percebendo que a palestra se aproxima do fim:] Se me deixar eu fico 15 dias [falando], tomando água, tomando remédio, daqui a pouco eu peço para fumar um charutinho escondido”.

“O que seduz o leitor é o humano. Melhor que escrever sobre uma fábrica é escrever sobre um cachorro atropelado na esquina, o dono do cachorro, o motorista que atropelou. A essência do humano está aí nessas histórias”.

“Há três biógrafos muito bons, que eu recomendo: Mário Magalhães [autor de Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo], Lira Neto e Lucas Figueiredo [autor de O Tiradentes: uma biografia de Joaquim José da Silva Xavier].

“Quando eu divulguei que estaria aqui, o Eric Nepomuceno, o tradutor do Gabriel García Márquez, disse: “eu quero ir, diz para me convidarem, eu pago minha passagem!”” [risos].

Para reconhecer nossa identidade

A fotógrafa Marcela Bonfim revela outra Amazônia em 33 imagens impressas em madeira. Abertura da exposição acontece hoje (22), na Galeria de Artes do Sesc Deodoro

A fotógrafa Marcela Bonfim conversou com Homem de vícios antigos durante a montagem da exposição. Retrato: Zema Ribeiro

Marcela Bonfim formou-se em Economia na PUC-SP em 2008. Vivia numa bolha, como ela mesma conta a Homem de vícios antigos, em entrevista concedida durante a montagem de sua exposição, (Re)conhecendo a Amazônia negra: povos, costumes e influências negras na floresta, cuja vernissage acontece hoje, às 18h30, na Galeria de Artes do Sesc Deodoro (Praça Deodoro, Centro). Na ocasião haverá apresentação da performance Corporeira, de Ana Regina Arcanjo, com participação de Shamach Pacheco.

“Eu acreditava na meritocracia, eu achava, por estar naquele lugar [a PUC-SP], aquele lugar é uma redoma, você se sente aceito. Nessa saída pro mercado de trabalho meu castelo começou a ruir, os conceitos que eu tinha. Eu nem abordava minha negritude, era uma questão muito delicada para mim”, lembra. “Eu cheguei a participar de um debate com o [hoje vereador em São Paulo Eduardo] Suplicy, ele a favor das cotas e eu contra. Ali podia ter surgido um novo [o também vereador Fernando] Holiday, olha o perigo!”, confessa, arrependida.

Após formada, Marcela ficou durante um ano procurando trabalho e esbarrando no racismo. “Você se inscreve pela internet; quando chega, tem um grupo de pessoas e quem vai contratar fica falando apenas para algumas, não adianta você mudar de lugar. As pessoas diziam que eu era uma pessoa capaz, mas eu fui descobrir isso quando eu fui para Rondônia: uma amiga percebeu que eu já não me sustentava em São Paulo, não tinha emprego, não conseguia nada, e ela falou: “meu pai tem passagem de ida e volta; você vai; se gostar, fica, se não gostar, beleza!”. E eu fui, em 2010. Chegando lá enfrentei uma terra que eu nunca imaginei visitar. Rondônia não existia no meu imaginário. Chegando lá enfrentei o que todo mundo enfrenta, o fluxo migratório, era uma nova coisa. Eu não esperava que a fotografia fosse surgir. Eu comprei uma câmera fotográfica por que eu comecei a perceber que tinha muitos negros e a questão mais central dessa história é que eu andava nas ruas e as pessoas perguntavam se eu era barbadiana. E eu perguntei: o que é barbadiana? E começaram a perguntar se eu era Johnson, e a perguntar por vários sobrenomes em inglês, quando me disseram que eram as famílias negras tradicionais de Rondônia. Na hora eu entrei em parafuso: família tradicional não combina, nesse esteio social, com negro. Isso começou a me trazer uma autoestima, até eu conhecer um barbadiano de verdade. Foi um choque. Os barbadianos são os negros do Caribe”, ela relembra sua ida a Rondônia, onde acabou fixando residência à beira do Rio Madeira.

Algumas imagens da exposição. Fotos: Marcela Bonfim. Reprodução

Em 33 fotografias, Marcela Bonfim registra diversas diásporas, migrações internas e externas, a fotografia funcionando também como um espelho para a paulista de Jaú. A exposição fica em cartaz até 18 de junho e integra a programação do 12º. Sesc Amazônia das Artes.

“Na verdade, houve uma diáspora muito grande, não só de Barbados, como de Granado, várias ilhas, lá por 1909, 1910, eles começaram a chegar à Amazônia. Uns ficaram no Pará, outros no Amazonas, e um grande contingente em Rondônia. Esse grande contingente foi aproveitado pela [estrada de ferro] Madeira Mamoré. Isso são teses: uns dizem que foram para trabalhar na Madeira Mamoré, outros dizem que já era uma diáspora e quando esses negros chegam, de colonização inglesa, eles já chegam engenheiros, professores, telégrafos, na época era uma profissão necessária para aquele empreendimento. Segundo as pessoas dizem, pode ser a primeira mão de obra assalariada negra, com dignidade, os barbadianos. Antes de eu conhecer um barbadiano, uma amiga minha, artista plástica, me pintou uma barbadiana. O mais interessante é que é um pescoço gigante, o que você percebe a princípio é o pescoço. Eles têm um senso de pertencimento muito grande em relação à história deles. Eles mesmos se diferenciam por ter a forma de colonização inglesa e a nossa que foi a portuguesa. Isso me trouxe uma coisa aos olhos que nunca tinha trazido: esse aspecto de beleza. Pela primeira vez eu acho que achei um negro bonito. Eu comecei a me sentir, poxa, se estão me chamando de barbadiana, isso me trouxe uma autoestima muito grande, e também me trouxe uma dignidade. A partir desse momento eles me levaram para a casa deles, da família Johnson, eu pude participar da família. E quando eu entrava, eu me sentia diferente do que eu me sentia em São Paulo. Eu me sentia um pouco reduzida na PUC, me protegia”, comenta sobre ressignificar sua própria negritude.

“Quando eu comecei a andar na cidade, conheci o primeiro barbadiano, senti a autoestima elevada, comecei a sentir o trânsito de muitos negros: esse aqui é maranhense, a família é do Maranhão, paraense, eu comecei a olhar as configurações da imagem dessas pessoas, e junto com tudo isso me trouxe uma necessidade de conhecer a própria história de Rondônia: o fluxo da seringa, da Madeira Mamoré, os ciclos econômicos, o garimpo, a hidrelétrica”, comenta o processo de aproximação com aqueles que retrata.

Homens e mulheres, velhos e crianças em sua vida cotidiana: os vincos do tempo no close de um rosto, sorrisos, pés que caminham, mãos que preparam uma farofa de tartaruga. As fotografias de (Re)conhecendo a Amazônia negra são impressas em madeira.

Marcela continua: “Uma questão que ficou na minha cabeça: o que você quer fazer com isso? Transformar isso num produto? Isso me trouxe uma relação: onde é que eu posso expor essas pessoas? A gente está numa terra onde a madeira é fundamental e, além disso, onde ela diariamente é consumida de forma predatória. Isso é muito parecido com nosso próprio corpo dentro da Amazônia. É muita gente, em Guaporé [rio que deu nome ao extinto território, hoje Rondônia], é incrível, o número de maranhenses, o Maranhão também está lá. Eu conheci o Maranhão em Rondônia. Era outra terra que eu não tinha acesso. Quando a gente está em São Paulo a gente pensa no Rio de Janeiro, até Minas, ou mais pra baixo. Só! Eu ralei quando eu comecei a me colocar na parede”.

A ideia de imprimir em madeira veio da fala de uma de suas personagens. “Tinha uma cidade chamada Barbadian Town, onde os barbadianos se aglomeraram, a população local começou a hostilizar: bonito era um francês falando francês, um negro falando inglês era bastante desafiador na época. Uma pessoa que eu estava querendo fotografar, o pai dizia que era barbadiano, mas não era. Era um status dos negros, ser barbadiano naquela época. A mãe era branca. A primeira pergunta que eu faço para a pessoa que eu estou interessada em fotografar é como ela se reconhece. É essa pergunta que o Brasil tem que começar a se fazer. Ela disse: “ô, minha filha, eu sou negra [imita seu gesto, batendo a palma da mão direita no braço esquerdo], isso aqui é madeira de bater em doido! São 300 anos e nós ainda estamos aqui, plantados e de pé”. Começou a me dar essa onda: vou botar isso na madeira. Estou aprendendo esse processo de expor essa montagem agora. Essa aqui é a 16ª. abertura. Nós já caminhamos por 10 estados. A escolha tem esse significado, perto da minha realidade”, revela.

Para Marcela, “não tem como pedir desenvolvimento de um país, não tem como pedir prosperidade, não tem como pedir “chega de violência!” se a gente não reconhecer nossa identidade e ela é muito negra e muito indígena. É um processo de militância, eu me sinto uma militante”, se identifica.

Ela continua, situando o lugar do negro ao longo do tempo, a resistência e as lutas pela superação do racismo: “é um processo de invisibilização. O meu corpo é invisível. A sociedade só me enxerga nas situações em que eu esteja vulnerável, para me apontar, me culpar. O negro no Brasil nasce negro e embranquece para ser aceito. Hoje faz três anos que a mostra está circulando. A população negra brasileira, em sua maioria, vai embranquecendo, é uma questão de necessidade. Antigamente, na colônia, quando eles alforriavam o negro, praticamente eles assinavam um termo de negação de cor. Você via o uso de pó de arroz, hoje não se usa mais, mas nosso comportamento é como se fosse um pó de arroz na cara. Isso é uma coisa natural no Brasil, a criança nasce no Brasil com 300 anos, nasce num corpo destruído, praticamente se anula, se invisibiliza, passa a ter comportamentos que não são seus. A cultura do capitão do mato está enraizada na sociedade brasileira como um todo, não é uma questão do negro, como uma vez um certo candidato proferiu, até o Holiday. A história do capitão do mato é uma cultura brasileira, do oprimido oprimir o próprio oprimido. Isso é um movimento muito complicado. A gente chegou onde chegou por que esse processo ainda existe, está enraizado, esse momento é a oportunidade de a gente olhar para isso”.

Rondônia segue sendo um aprendizado para Marcela Bonfim. “Nós estamos falando de uma terra onde nasceu Teresa de Benguela. Aliás, ela foi deslocada. Ela é como se fosse um Zumbi, mas mulher. A história de Teresa de Benguela aconteceu em Rondônia. Para você ver como não era qualquer negro que eles traziam. Ela organizou um quilombo com regime de parlamento, organizou a questão da produção, tinha tudo muito organizado, é uma figura que poderia estar nos livros, poderia estar me ajudando a me sentir melhor na minha própria pele. A gente não tem referência, acaba ignorando nossa própria história. Aí vêm falar que negro é racista? Não existe: ele pode ser ignorante. Ele foi condicionado a essa ignorância”, ensina.

“Ocupar o lugar de economista, ocupar esse outro lado, o lado de trás da fotografia, me ajuda a dignificar meus pares. Se você for olhar a fotografia de 500 anos atrás no Brasil e a de hoje é praticamente a mesma. A própria história da violência dos nossos corpos foi chancelada por esse processo fotográfico. Ninguém sabia que Machado de Assis era negro. A história do capitalismo é a própria história da fotografia, de botar o negro num lugar bem longe desse lugar de protagonista. Nossos corpos sempre estiveram expostos da maneira que a branquitude quis: na favela, morto. As condições de exposição do negro continuam sendo as mesmas. É um corpo jogado para quem quiser ver, mas nas piores condições. Estou falando com meus pares, me reconheço nisso. Por mais que existam histórias tristes, vou dar dignidade. É onde me encontro comigo todo dia”, finaliza.