Lições de um bandido

Coringa. Frame. Reprodução
Coringa. Frame. Reprodução

 

Dizer que Coringa [Joker, EUA, 2019, 122 min.] é uma obra-prima pode soar redundante. Roteiro bem amarrado, atuação exuberante de Joaquin Phoenix, fotografia caprichada, trilha sonora impecável e a memória afetiva de um personagem que todos sabemos bandido, mas que sempre teve o atenuante de sua maquiagem e sua gargalhada sui generis.

É um filme de formação: de algum modo explica ou joga luz sobre como Coringa se tornou o assassino implacável e a sangue frio que é. Para matar, vale o que estiver às mãos: um revólver, uma tesoura, as algemas, as próprias mãos.

Tomando o Coringa como um microcosmo da bandidagem em geral, é possível perceber nele o reflexo do passado, como se cair na criminalidade fosse uma reação (natural, automática) aos maus tratos em casa (violência doméstica) e na rua – a violência social a que estão submetidos os menos favorecidos, seja pelo descaso de governantes inescrupulosos, seja pela invisibilidade a que estão submetidos, com a pressa dos transeuntes.

É lógico que, por si só, isso não justifica e nem explica completamente, nem o personagem, nem qualquer criminoso. A questão é muito mais complexa.

Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) é um pobre-diabo com transtornos mentais, que toma(va) remédios controlados (até o dia em que o governo decide cortar a verba destinada ao programa social que lhe garantia medicação e atendimento psicológico) e vive sozinho com a mãe, velha e doente, num apartamento decadente. Seu emprego é um bico de palhaço, ajudando o comércio a vender, de onde será demitido.

Tomando Gotham City/Nova York como um microcosmo do planeta – ou do Brasil: é impossível não pensar num paralelo com o Brasil sob a ditadura bolsonarista –, nota-se uma crítica feroz ao consumo desenfreado, marca do capitalismo selvagem/neoliberalismo que pouco se importa com os que não podem consumir sequer o básico para sobreviver (para usarmos aqui um eufemismo) e uma crítica à política que governa (apenas) para as elites. E o caos, entre revolta popular e a greve do serviço de coleta de lixo.

É lógico que, por si só, isso não justifica sair por aí matando os que compõem essas elites, os que com elas simpatizam. A questão é muito mais complexa e não é possível enxergar Coringa como uma espécie de Robin Hood, deveria ser eticamente impossível enxergar o protagonista como herói.

Esta é, aliás, uma das lições do filme, sobretudo aos espectadores brasileiros: não se deve, seja lá qual for a motivação, tomar canalhas e psicopatas como heróis, mitos e que tais. No final, todo mundo sai perdendo e o troféu pela bravata pode ser uma espécie de delírio e suicídio coletivo. A outra lição que devemos aprender durante a sessão do filme de Todd Phillips, mas não só, é que a falta de empatia, alteridade, solidariedade está nos transformando em uma sociedade adoecida. No final, ninguém se salva sozinho.

Coringa. Cartaz. Reprodução
Coringa. Cartaz. Reprodução

Veja o trailer de Coringa:

Acontece hoje (29) última sessão de show de Zeca Baleiro para crianças

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

 

Zoró Zureta é um espetáculo comovente. Um show para crianças de todas as idades, com o perdão do clichê. Reúne canções dos dois álbuns infantis – que dão nome ao show – de Zeca Baleiro, numa apresentação interativa, entre parlendas, trava-línguas e preferências no universo das histórias infantis.

Ainda em São Luís, antes de se mudar para São Paulo e ganhar o merecido reconhecimento nacional, o cantor e compositor começou a carreira compondo para trilhas de teatro infantil. Zoró Zureta é, portanto, uma volta às origens.

Quando se tornou pai, Baleiro não ninava os dois filhos com cantigas tradicionais. Compunha suas próprias cantigas, a partir de observações, por vezes poéticas, dos próprios filhos.

“Uma vez a gente estava viajando e no avião meu filho apontou: “olha, pai, uma árvore de nuvem”. Era uma nuvem em forma de árvore, mas ele viu de um modo poético. Aliás, a única fase em que as pessoas podem ser malucas sem correr o risco de internação é na infância”, disse o artista em entrevista coletiva, quinta-feira passada.

A música infantil produzida por Baleiro irmana-se em conteúdo e qualidade às experiências de artistas como Adriana Partimpim (a Adriana Calcanhotto para crianças), o grupo Pequeno Cidadão (que reúne pais e filhos artistas, entre nomes como Arnaldo Antunes, Edgar Scandurra e Taciana Barros), Palavra Cantada (Paulo Tatit e Sandra Peres) e a “música de brinquedo” do Pato Fu.

Alguns dos citados, no entanto, não necessariamente compõem para crianças, mas dão uma roupagem infantil a um repertório consagrado, casos, particularmente de Partimpim e Pato Fu – estes últimos tocam um repertório que vai de Tim Maia a Roberto Carlos, passando por Ritchie e Queen, entre muitos outros, com instrumentos de brinquedo.

“O problema da música produzida para crianças, em geral, é tratar as crianças como seres desprovidos de inteligência, débeis mentais”, afirmou Zeca Baleiro, que cita entre suas preferências na produção musical para a petizada discos como Vila Sésamo (trilha sonora do programa televisivo), Os Saltimbancos (versões de Chico Buarque para músicas do argentino Luis Enriquez Bacalov e do italiano Sergio Bardotti) e Arca de Noé (composições de Vinicius de Moraes), “eu sou antigo”, diverte-se.

A música de Baleiro passeia entre bichos esquisitos – tema de Zoró, primeiro álbum infantil de sua carreira –, brincadeiras, e temas menos infantis, como a questão ambiental (tema de Pula canguru, que “quer ir pro Tibete/ pra virar guru”, mas acaba virando gari para ajudar a limpar “este mundo imundo”), além de personagens – Coitado do lobo mau homenageia “um personagem por quem eu tenho muito carinho; ele é malvado, mas sempre se dá mal no fim das histórias”, revelou.

Com pouco mais de uma hora, Zoró Zureta tem coreografias, algumas músicas são executadas com a exibição dos videoclipes e um capricho cênico-visual: quando vai cantar A filha do ogro, ele senta-se numa poltrona, toma nas mãos um livro enorme em cuja capa se lê “Histórias que a vovó contava” e é cercado pelas vocalistas com quem divide o espetáculo; quando cantam Girafa rastafári usam toucas com as cores da bandeira jamaicana e dreadlocks postiços.

Três das vocalistas – Simone Julian (flauta, flautim e saxofone), Tata Fernandes (percussão) e Vange Milliet (percussão) – cantaram com Itamar Assumpção, o que aproxima a experiência de Zoró Zureta de Zeca Baleiro (violão e contrabaixo) da Vanguarda Paulista, sua sonoridade algo próxima de discos como os três volumes de Bicho de sete cabeças (1993), do autoapelidado Nego Dito. A banda se completa com Nô Stopa (vocal e percussão), Pedro Cunha (teclado, sanfona e programações) e Rogério Delayon (violão, guitarra, contrabaixo, bandolim e cavaquinho).

Parte da renda de Zoró Zureta será revertida em favor do projeto Canhoteiro, desenvolvido pelo Instituto de Estudos Sociais e Terapias Integrativas (Iesti), que trabalha a inclusão social de crianças e jovens por meio do esporte, na Vila Tamer, região do Araçagy, em São Luís. Zeca Baleiro é padrinho do projeto, que leva o nome de um pouco conhecido jogador de futebol maranhense, a quem ele já dedicou música (em parceria com Fagner, Fausto Nilo e Celso Borges). A quarta e última sessão do espetáculo, apresentado desde ontem (28) no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro), acontece hoje (29), às 18h.

Rock de Balsas na ilha

A cantora Amanda Soulthier. Foto: divulgação
A cantora Amanda Southier. Foto: divulgação

 

Em 2014, quando completou 40 anos de carreira, o paulista Edvaldo Santana meteu o pé na estrada. Com o case do violão às costas percorreu, de ônibus, todas as capitais nordestinas, apresentando em cada uma delas um show de voz e violão. Em São Luís, cantou para pouco mais de 30 pessoas, no Teatro da Cidade de São Luís, o antigo Cine Roxy. Quem estava lá, até hoje lembra do show, memorável.

Mês passado, em Teresina, cobrindo a Balada Literária e vendo, por exemplo, o show do parnaibano Teófilo Lima, antes de Rita Benneditto, na última noite do evento, tornei a me perguntar: por que é que o Maranhão não consegue, ou o faz raramente, dialogar com seus vizinhos Pará e Piauí? Por que não vemos com mais frequência artistas paraenses e piauienses se apresentando em São Luís e vice-versa?

Todo artista tem de ir aonde o povo está, já cantou o poeta, e às vezes ir aonde o povo está é uma questão de cara e coragem, glamour zero, artista igual pedreiro, como no título do álbum do Macaco Bong.

Digo tudo isto para dizer que quem está na ilha é Amanda Southier, cantora brasiliense radicada em Balsas, no sul do Maranhão. Ela se apresenta hoje (20), às 21h, no Talkin Blues (Cohajap), e amanhã (21), no mesmo horário, no Velho John Music Pub (Holandeses, Calhau). Em ambos os shows ela será acompanhada por Joabi Nalvi (contrabaixo), Marcio Glam (guitarra) e Bruno Montechese (bateria).

A vinda de Amanda à ilha tem a ver com um sentimento de gratidão de Wilson Zara, que abre o show de hoje. “A gente percorre o Maranhão e é sempre tão bem recebido por onde passa, mas é raro conseguir trazer artistas de outras cidades para tocar em São Luís e dar a recíproca do mesmo tamanho. Começa que trazer muita gente é caro, a coisa já esbarra no preço das passagens de ônibus. Mas conseguimos firmar algumas parcerias e realizar essa microturnê”, afirma. A pequena turnê ilhéu de Amanda Southier tem apoio da JR 4000, empresa de ônibus de Balsas que faz a linha até a capital, churrascaria Barriga Verde e Adventure Hotel.

A cantora já é um nome reconhecido da cena pop, tendo aberto shows de Biquini Cavadão e Detonautas, com quem dividiu o palco em julho passado, em Balsas, no encerramento do Festival de Verão da cidade.

O repertório de Amanda Southier passeia por clássicos do pop nacional e internacional e músicas autorais – Raul Seixas, Adele, Bruno Mars, Black Sabbath, Iron Maiden, Led Zeppelin, Nirvana, Rolling Stones. Vã realidade, seu ep de estreia, lançado em 2017, tem seis faixas, sendo quatro autorais, além de Se você fosse do mal, de Nosly, e um cover de Dream on, do Aerosmith.

O público de São Luís tem duas oportunidades de conhecer ou prestigiar ao vivo a música de Amanda Southier. Torço para que a vereda aberta por ela faça chegar à capital mais artistas do interior e que mais artistas da capital consigam se apresentar em municípios do interior.

Rumos, Maranhão na Tela e Ilha do Amor têm inscrições abertas

Caminhada Rumos acontece hoje em São Luís

A Caminhada Rumos Itaú Cultural encosta hoje (12) em São Luís. O encontro, que tem por objetivo divulgar o edital do programa e tirar dúvidas de artistas e produtores culturais, acontece das 18h30 às 20h30, no Teatro Sesc Napoleão Ewerton (Condomínio Fecomércio, Av. dos Holandeses, Jardim Renascença II), com entrada franca. Estarão presentes Ana de Fátima Sousa, gerente do núcleo de Comunicação, e Valéria Toloi, de Educação e Relacionamento do Itaú Cultural.

As inscrições para o Rumos Itaú Cultural estão abertas desde o dia 3, exclusivamente no site do programa, e a Caminhada percorrerá as 27 capitais brasileiras, já tendo chegado a Cuiabá/MT, Porto Velho/RO, São Paulo/SP e Teresina/PI.

Sobre o assunto, Homem de vícios antigos conversou com exclusividade com Ana de Fátima Sousa.

Ana de Fátima Sousa, gerente do núcleo de Comunicação do Itaú Cultural. Foto: Denise Andrade
Ana de Fátima Sousa, gerente do núcleo de Comunicação do Itaú Cultural. Foto: Denise Andrade

Zema Ribeiro – A Caminhada Rumos tem o objetivo de desburocratizar o acesso do artista ao edital e programa? Por que às vezes um artista que se preocupa menos com a burocracia acaba perdendo espaço para um artista que tem produção por trás. O que o Itaú Cultural tem feito no sentido de corrigir essa distorção?
Ana de Fátima Sousa – A Caminhada é uma oportunidade de aprendermos juntos. Nós como instituição buscamos estar presentes e abertos para entender as demandas de cada lugar e melhorar o programa a partir dessas trocas. E para o artista é uma chance, sim, de tirar dúvidas sobre o edital e sobre políticas culturais e também melhorar suas práticas. Acreditamos muito no poder desses encontros.

Nos últimos anos tem sido mais difícil manter um programa da envergadura do Rumos? Quais as principais dificuldades?
O Itaú Cultural tem no Rumos um de seus principais programas estruturantes. E, por isso, tem caráter de perenidade. Nosso desafio é sempre manter neste programa um processo de escuta ativa em relação aos diferentes territórios do país, às necessidades da arte e da produção contemporâneas.

Como se dá o financiamento do programa Rumos Itaú Cultural?
O programa Rumos conta com verba direta. Não faz uso de leis de incentivo.

Como tem sido a participação, a presença do Nordeste no programa Rumos? Há uma preocupação do programa em regionalizar a seleção de projetos apoiados?
O Nordeste tem excelente participação no programa Rumos tanto em quantidade quanto em qualidade dos projetos artísticos e de pesquisa. No ano passado tivemos dois maravilhosos projetos selecionados vindos do Maranhão. O que queremos é tornar esta presença ainda mais potente.

O jornalismo brasileiro passa por uma crise. O Rumos apoia projetos na área, sobretudo o jornalismo cultural, mais afeito às pautas do Rumos?
Sim, o Rumos acolhe, apoia e aposta em projetos de jornalismo cultural. Acreditamos na relevância de nossos jornalistas e críticos na produção de conteúdo e de reflexão sobre nossas artes e nossa cultura.

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MARANHÃO NA TELA ESTÁ COM INSCRIÇÕES ABERTAS

Colagem de Silvana Mendes. Reprodução
Colagem de Silvana Mendes. Reprodução

Estão abertas desde o último dia 10 as inscrições para a mostra competitiva e as rodadas de negócios do Festival Maranhão na Tela, que este ano será realizado entre os dias 5 e 14 de dezembro.

As inscrições para a mostra competitiva são gratuitas e para as rodadas de negócios variam de R$ 100,00 a R$ 120,00. O Maranhão na Tela foi idealizado pela cineasta e produtora Mavi Simão em 2006 e este ano chega a sua 12ª. edição, realização da Mil Ciclos Filmes. A artista visual Silvana Mendes venceu o concurso e assina a identidade visual do festival em 2019.

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FESTIVAL ILHA DO AMOR RECEBE INSCRIÇÕES ATÉ O DIA 20

Até o próximo dia 20 de setembro artistas nascidos ou radicados há pelo menos três anos no Maranhão podem se inscrever para o I Festival Ilha do Amor, que acontecerá no dia 23 de novembro na Concha Acústica Reinaldo Faray, na Lagoa da Jansen.

As inscrições são gratuitas, pelo site do festival. As 12 músicas selecionadas para a final serão gravadas em um cd. O resultado da seleção será anunciado pela coordenação do festival no próximo dia 30 de setembro. Haverá premiações para o primeiro, segundo e terceiro lugares, além de melhor intérprete.

Adriana Calcanhotto gravará dvd em São Luís

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

 

Tudo remete ao mar em Margem, show que Adriana Calcanhotto apresentou ontem (7), no Teatro Arthur Azevedo, em São Luís. Do cenário, um grande pano azul pendurado, fazendo às vezes de uma grande onda, a uma espécie de grande echarpe que lhe cobria o vestido preto, remetendo a uma rede de pesca – durante o show ela se desfaria de parte dela.

Margem, o novo disco, encerra a trilogia marítima de Adriana Calcanhotto, iniciada com Maritmo (1998) e continuada com Maré (2008).

Um roadie espalhafatoso, trajando uma espécie de capa amarela e gorro vermelho, lembra um personagem de filme litorâneo estrelado por Ricardo Darín. Ele entra e sai de cena a servir Adriana Calcanhotto do violão com que toca algumas músicas e instigando a plateia a acompanhar determinadas músicas batendo palmas ritmadas.

Além das nove faixas de Margem, em cerca de hora e 15 minutos de show, a gaúcha (que muita gente pensa ser carioca), repassou ainda grandes êxitos de sua carreira, como Devolva-me (Renato Barros/ Lilian Knapp), Vambora (Adriana Calcanhotto), Esquadros (Adriana Calcanhotto), Mais feliz (Dé Palmeira/ Bebel Gilberto/ Cazuza) e Quem vem pra beira do mar (Dorival Caymmi). Também exaltou o Chico Buarque de Futuros amantes.

Quando cantou Maritmo, apresentou a banda, borrifando-lhes um líquido. Enquanto eles tocavam incidentalmente Bananeira (João Donato/ Gilberto Gil), ela prestou as devidas reverências a grandes brasileiros de saudosa memória: “evoé, João Gilberto! Evoé, Marielle Franco! Evoé, Anderson [Gomes]! Evoé, Ferreira Gullar!”. E disparou, borrifando o líquido na plateia: “salvemos a Amazônia!”. Foi bastante aplaudida.

Nem os pequenos deslizes ao cantar a letra de O príncipe das marés (Péricles Cavalcanti) afastou o show do status de sublime: som e luz perfeitos, a banda irretocável, três quartos da Tono, com que Jorge Mautner gravou Não há abismo em que o Brasil caiba (2019): Bem Gil (guitarra), Bruno di Lullo (contrabaixo) e Rafael Rocha (bateria, percussão, percussão eletrônica e kazoo), “o bico doce”, como a cantora se referiu a ele, dada a qualidade de seus assovios.

O espetáculo atesta por que Adriana Calcanhotto nasceu grande ao estrear em disco com Enguiço em 1990 e consegue se manter entre os grandes da música popular brasileira quase 30 anos depois. Exuberante.

Antes de terminar, um anúncio pegou a plateia de surpresa: a cantora gostou tanto da energia ludovicense que voltará para gravar o dvd ao vivo de Margem no Teatro Arthur Azevedo. A previsão é que o novo show aconteça em dezembro.

Older than time celebra 10 anos da Canyon

Completamente autoral e cantado em inglês, álbum é recheado de referências

Older than time. Capa. Reprodução
Older than time. Capa. Reprodução

Inteiramente cantado em inglês Older than time (2019), disco de estreia da banda maranhense Canyon, tem ecos de hard rock setentista e progressivo, suas grandes influências – o lançamento do álbum celebra os 10 anos da banda.

Jobson Machado (guitarra, voz e teclado), Léo Vieira (contrabaixo), Ramon Silva (voz, guitarra, teclado e synth) e Ítalo Silva (bateria) realizaram um disco vigoroso, que será lançado neste sábado (7), em show na Fanzine (Av. Beira-Mar, Centro), a partir das 20h – na noite se apresentarão também as bandas Evil Machine e Gallo Azhuu.

“Não há montanha alta o suficiente para mim”, manda a positividade de Fight them, que abre o disco. Todas as músicas são assinadas pela banda, com letras de Ramon Silva, que assina também o projeto gráfico de Older than time.

A quilométrica Hard life é realista: “bem vindo à vida difícil: lute ou caia/ bem vindo à vida difícil: sua dor é minha dor”, diz o refrão, de recado solidário, tão necessário nestes tristes tempos.

Sorceress trata de uma mulher misteriosa, “ela é o diabo/ não chame seu nome”, nas mãos de quem um homem é apenas um peão no xadrez da vida. Sleeping lady retrata uma desilusão amorosa, como se Lupicínio Rodrigues fizesse rock – ou a Canyon abolerasse. Seus mais de oito minutos são divididos em sete partes.

Iron giant debate a robotização do homem, transformado em máquina, despido de sentimentos e pensamentos. “Obsoleto, o futuro é meu passado”, diz um verso, situando o som e a poesia da banda no triste e desesperançoso Brasil de 2019.

O tema instrumental Lunar eclipse antecede a faixa-título, que parece deslocar o som da banda a uma espécie de limbo no espaço-tempo: “o futuro não guia meus passos”, diz verso que dialoga com o Millôr Fernandes de “o Brasil tem um enorme passado pela frente”. “Eu estou aqui desde antes de todos os deuses”, diz verso que conversa com o Raul Seixas de Eu nasci há 10 mil anos atrás.

Questions no answers fecha o disco com um convite que evoca o Paulo Leminski de Distraídos venceremos: “por favor, feche seus olhos/ liberte sua mente/ momento de distração”, começa a letra, que tem trecho cantado em falsete, de uma delicadeza comovente.

Um disco à altura da merecida festa pela década de existência da banda. Merece celebração.

Serviço

Show de lançamento de Older than time, da banda Canyon. No Fanzine (Av. Beira-Mar, Centro). Dia 7 de setembro (sábado), às 20h. Na ocasião se apresentarão também as bandas Evil Machine e Gallo Azhuu. Ingressos – R$ 20,00 (inteira) e R$10,00 (meia) – à venda nas lojas Over All (Tropical Shopping) e no Bar Beco 129 (Praia Grande).

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Ouça Older than time:

Amor ao mar

Margem. Capa. Reprodução
Margem. Capa. Reprodução

 

Adriana Calcanhotto aparece mergulhada num mar de lixo – plástico, sobretudo garrafas pet – na capa de Margem (2019), disco que encerra sua trilogia “do mar” – iniciada com Maritmo (1998) e continuada em Maré (2008).

O disco dialoga com os demais dedicados ao mar – que comparece a sete das nove faixas –, entre ondas de amor, compositores de sua predileção e repertório autoral, escoltada por banda base formada por Rafael Rocha (bateria, percussão e bases eletrônicas), Bruno di Lullo (contrabaixo e synth) e Bem Gil (guitarra, guitarra acústica, violão, tres cubano, flauta).

Os ilhéus (Antonio Cicero e Zé Miguel Wisnik) provoca uma reflexão sobre certa desesperança com o futuro que paira no Brasil que devasta a Amazônia impunemente: “uma onda pode vir do céu/ imponderável como as nuvens/ e cair no dia feito um véu/ ou a tampa de um ataúde/ e nada impede que se afundem/ neo-Atlântidas e arranha-céus/ ou que nossas cidades-luzes/ submersas se tornem mausoléus”, diz a letra.

Dessa vez (Adriana Calcanhotto) e Era pra ser (Adriana Calcanhotto) têm ecos do conterrâneo Lupicínio Rodrigues, a cujo repertório a cantora dedicou Loucura (2015).

Um dos destaques do álbum, Tua (Adriana Calcanhotto) é séria candidata a hit radiofônico, algo corriqueiro para a gaúcha, desde que lançou Enguiço (1990) e ganhou os dials brasileiros com Naquela estação (Caetano Veloso/ João Donato/ Ronaldo Bastos). A música passeia por referências e autorreferências: os versos “dentro da noite voraz” e “dentro da noite feroz” ecoam o Dentro da noite veloz de Ferreira Gullar, tornado verso de Vambora, faixa de Maritmo. O “breu das noites brancas de hotel” ecoa o Caetano Veloso de Noite de hotel. “Dentro da noite fulgás” lembra a parceria dos irmãos Marina Lima e Antonio Cicero. A faixa tem reforço da guitarra portuguesa de Ricardo Parreira e do flugel e trompete de Diogo Gomes.

Ogunté (Adriana Calcanhotto) dialoga com o candomblé, homenageando o orixá-título e Iemanjá/Odoyá, denunciando os flagelos da migração, da ostentação e do consumo desenfreado (de petróleo, mas não só). O funk Meu bonde (Adriana Calcanhotto) encerra o disco dialogando diretamente com Remix século XX (Adriana Calcanhotto), faixa de Público (2000), e Pista de dança (Adriana Calcanhotto e Wally Salomão), faixa de Maritmo.

Serviço

Reprodução
Reprodução

Adriana Calcanhotto apresenta o show Margem em São Luís neste sábado (7), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro). Os ingressos custam entre R$ 80,00 e R$ 160,00, à venda na bilheteria do teatro e no site Ingresso Digital. A produção é de Moraes Jr.

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Ouça Margem:

Alexandra Nicolas trouxe troféu Gonzagão ao Maranhão

A cantora maranhense Alexandra Nicolas foi agraciada com o Troféu Gonzagão, considerado o Oscar do Forró. A artista levou o prêmio na categoria Revelação da Música Nordestina.

Alexandra atualmente integra o Fórum Nacional do Forró, lançou ano passado seu segundo disco de carreira, Feita na pimenta, inteiramente dedicado aos gêneros abrigados sob o guarda-chuva do forró: coco, baião, xote, xaxado, chamego, entre outros.

A premiação aconteceu no último dia 21 de agosto, em Campina Grande/PB. Sobre o feito, ela conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Alexandra Nicolas se apresenta durante o Troféu Gonzagão. Foto: divulgação
Alexandra Nicolas se apresenta durante o Troféu Gonzagão. Foto: divulgação

Alexandra, ano passado você esteve no Troféu Gonzagão, considerado o Oscar da Música Nordestina Este ano volta na condição de homenageada. Como você recebeu o convite e qual a sensação?
Na hora que eu recebi o convite eu chorei muito e a sensação era que acima de tudo isso havia um amor muito maior e uma convicção de estar no caminho certo, uma sensação de gratidão e de certeza diante da verdade que eu acredito.

Sua entrada no universo do forró se deu de forma avassaladora. Você dedicou o segundo disco ao gênero e vem colhendo o merecido reconhecimento, de algum modo coroado com a premiação desta quarta-feira [21], em Campina Grande. O que você pretende para o futuro?
Agora mais do que nunca continuar trilhando o mesmo caminho. Quando se tem reconhecimento, o trabalho é dobrado e a responsabilidade com a causa só aumenta. Também compreendi que alinhar o que eu faço com as crianças é uma missão que me toma com um amor profundo e reitero que pra mim, não basta só cantar, é preciso fazer a nova geração ter orgulho de ser nordestino, uma região rica, musical, colorida e multicultural e com criança é assim, eles são os mais puros e apaixonados que podemos ter, e plantar essa semente cedo só reforça as grandes possibilidade de termos mais nordestinos extraordinários.

Neste ano celebra-se o centenário de Jackson do Pandeiro e você trabalhou em projetos para homenageá-lo. Qual a importância dele para sua trajetória?
Toda! Quando ouvi Jackson pela primeira vez eu fui ao delírio, principalmente pela habilidade sagaz na divisão no seu canto, pela irreverência e astúcia de cantar a rima, a malemolência e a brejeirice me tomaram quando o vi na televisão pela primeira vez. A partir daquele momento ele se tornou um desafio, queria saber fazer o que ele fazia, queria cantar como ele cantava, virou uma referência e um objeto de estudo. Mergulhei nas suas canções e nos seus vídeos e mais na sua biografia e visitei a cidade onde ele nasceu e a cidade onde ele cresceu. Achei tão interessante sua história de vida que fiz um projeto para as escolas e foi aceito e quando vi mais de cem crianças cantando a Cantiga do sapo [de Jackson do Pandeiro e Buco do Pandeiro] em uníssono, tinha a certeza que tinha feito um belíssimo trabalho.

Nos bastidores do Troféu Gonzagão,trocando tietagem com Genival Lacerda. Acervo pessoal de Alexandra Nicolas
Nos bastidores do Troféu Gonzagão,trocando tietagem com Genival Lacerda. Acervo pessoal de Alexandra Nicolas

Também em 2019 completam-se os 30 anos do falecimento de Luiz Gonzaga, outro pilar da música nordestina, o primeiro artista pop desta região do país. Qual a importância de Gonzagão e que outros nomes da música nordestina você poderia destacar entre suas principais referências?
Gonzaga me ensinou a louvar o Nordeste, a agradecer e contemplar tudo que ele tem. A comemorar as coisas simples e as mais belas. A chorar de alegria e a fazer das tristezas aprendizado. Outras referências que eu tenho são a Marinês, pela força do seu canto, a Elba Ramalho, pelo bailado e alegria com a qual interpreta os grandes compositores. E minha maior inspiração de força é o nosso João do Vale. Meu próximo trabalho irei dedicar todo a sua obra, que já ganhei material de sobra pra continuar os estudos

Outra coincidência: outro nordestino que completa 30 anos de falecido, justamente neste 21 de agosto em que você recebe a homenagem, é Raul Seixas, em cuja obra fica demonstrada a fusão do rock de Elvis Presley com o baião de Luiz Gonzaga, seus maiores ídolos. Você tem alguma proximidade com a obra de Raul?
Claro, qualquer cantora que se preze se não ouviu Raul ainda não pode se considerar cantora. Raul é a maior referência de irreverência nesse país, alguém que foi pra além das fronteiras do baião, se é que isso existe, mais ele foi além.

Você integra o Fórum Nacional do Forró, que está buscando a titulação do forró como patrimônio cultural imaterial brasileiro. A quantas está o processo? Você acredita que essa premiação colabora para o avanço desse reconhecimento?
Estamos no início da pesquisa e temos até 2020 pra fazer o forró virar patrimônio. Temos ainda muito chão pela frente, diversos estados envolvidos e catalogar tudo será um desafio grande. O Troféu Gonzagão é a maior premiação da música nordestina e com certeza vem a coroar nossa música com toda nobreza que ela carrega. E o Maranhão está presente nesta premiação só reforça que aqui também tem música nordestina de qualidade.

Fale um pouco mais sobre a noite do Troféu Gonzagão.
Mais de 175 artistas que fazem a música nordestina registrados no evento. Essa premiação faz parte de um amor muito maior, o prazer de fazer o que se ama, a entrega ao gênero, assumir e reverenciar minhas origens. Cantar o Hino Nacional com arranjo de forró é avassalador, o coração transborda. Essa festa é puro reconhecimento disso, a gente se encontra, se afina, se entrega e se recicla, troca música, se admira e se refaz. Agradeci o prêmio cantando João do Vale. E fiz no palco o que eu fiz com as crianças, coloquei quase mil adultos pra cantar o refrão da Cantiga do sapo comigo.

Antenado, afiado e político

Hibernar na casa das moças ouvindo rádio. Capa. Reprodução
Hibernar na casa das moças ouvindo rádio. Capa. Reprodução

 

O veterano Odair José foi desde sempre associado à dita música brega, ou antes, cafona. Poucos sabem que foi um dos compositores mais censurados pela ditadura militar que se instalou no Brasil em 1964, tema de Eu não sou cachorro, não – Música popular cafona e ditadura militar (Record, 2002), de Paulo César de Araújo.

Poucos conhecem também a porção roqueira de Odair, cuja ópera rock O filho de José e Maria (1977), hoje cult, foi censurada pelos generais de plantão e pela Igreja Católica.

Em Hibernar na casa das moças ouvindo rádio, de repertório completamente autoral, ele volta ao front. É disco roqueiro e político, o título a junção dos títulos das três primeiras faixas.

Em Hibernar, se propõe uma fuga da realidade, da realidade fabricada destes tristes tempos, em que “o mundo está de ponta-cabeça”. “Tem conspiração na terra do sol”, diz a letra, que continua: “é pão e circo com marmelada/ tem mais um atrito trazendo perigo/ não dá pra saber quem é o inimigo”. E arremata: “tem um falso profeta anunciando/ que pra semana Deus está chegando”.

No blues Na casa das moças, emoldurado pela gaita de Lucas Martini, Odair volta a falar de prostituição, tema que lhe rendeu o hit Vou tirar você desse lugar. A letra fala que “tem uma casa no bairro/ onde moram umas moças”, um lugar em que os homens que ajudam a lavar a louça ganham recompensas. Um jeito bem Odair José de pautar a divisão das tarefas domésticas.

Ouvindo rádio é sobre o universo mágico a que este meio de comunicação, de morte tantas vezes anunciada, ainda nos conduz. O disco é cerzido por vinhetas, a simular uma transmissão radiofônica (com textos e locução de Thunderbird), e esta faixa traz “a música dos Beatles, os dribles do Mané/ nos campos pelo mundo Pelé”.

É um disco que não se furta aos debates atuais. Em Rapaz caipira, por exemplo, a crítica tem endereço certo, as mentiras que elegeram Jair Bolsonaro e pautam seu modo desastroso de governar: “aquilo que era mentira/ passou ser verdade”. E continua: “está vivendo no centro/ de um furacão/ onde a realidade/ é mera ilusão”. O tema volta à pauta em Fora da tela: “quanto mais eu olho/ menos posso ver/ a verdade insiste/ em se esconder”.

“Incrível liquidação de armas de fogo! Você pediu, agora chupa!”, manda Thunderbird na abertura de Chumbo grosso, outro petardo certeiro no discurso beligerante do neofascista que ocupa a presidência da república: “o assunto agora é a cultura da bala/ na falta de argumento a solução é uma vala”. A faixa tem participação especial de Raquel Virginia e Assucena Assucena, do grupo As Bahias e a Cozinha Mineira.

Imigrante mochileiro é outra a trazer um tema quente, o drama mundial da imigração, para o centro do debate promovido pelo som de Odair José. A faixa tem participação do Nação Zumbi Jorge du Peixe (voz e órgão).

Amor e sexo comparecem a Fetiche, Gang bang e Liberado, as três que encerram o disco de 11 faixas. Na última ele canta: “hoje tudo está liberado/ em nome do amor” – assim seja, contra o fascismo reinante.

A vinheta que encerra Pirata urbano sintetiza: “este disco é indicado para estupidez coletiva. Se persistirem os sintomas, procure um psiquiatra”.

Um retrato do Brasil do futuro

Bacurau. Cartaz. Reprodução
Bacurau. Cartaz. Reprodução

 

Kléber Mendonça Filho realizou dois dos mais importantes filmes brasileiros dos últimos 20 anos: O som ao redor (2012) e Aquarius (2016), obras-primas que discutem, a fundo e no calor da hora, graves problemas sociais brasileiros – segurança pública e especulação imobiliária, entre outros. Pelo segundo, vem sendo deliberadamente perseguido pelos governos instalados a partir do golpe que depôs a presidenta Dilma Rousseff (contra o que protestou em Cannes), num caso clássico de aspirantes a ditadores que jogam contra seu próprio país.

Um recado explícito é exibido em tela: Bacurau gerou mais de 800 empregos, o cinema é a imagem de um país e a cultura também é indústria, questões ainda não percebidas pelo projeto de destruição empreendido pelo atual governo federal, através do desmonte do Ministério da Cultura e das ingerências junto à Agência Nacional de Cinema (Ancine).

Seu novo filme, escrito e dirigido com o cineasta Juliano Dornelles, embora gestado antes da tragédia que se abate cotidianamente no país, no governo neofascista de Jair Bolsonaro, é uma distopia que profetiza no que o Brasil pode se transformar muito em breve, se o autoritarismo instalado por aqui não for barrado imediatamente.

Batizado por pássaro de hábitos noturnos, arisco, espécie de coruja, Bacurau é um povoado fictício, cravado no oeste pernambucano, um microcosmo brasileiro – quantos são os Bacuraus espalhados pelo país? Ali, além de energia elétrica, não chegam serviços essenciais. A população vive por sua própria conta e risco.

A nova obra cinematográfica de Juliano Dornelles e Kléber Mendonça Filho, vencedora do prêmio do júri em Cannes este ano, é um misto de policial, faroeste, terror, suspense e ficção científica. Nada muito distante da realidade brasileira sob a égide do bolsonarismo. Há inclusive um político canastrão (Tony Jr., interpretado por Thardelly Lima) que joga contra o lugar. Ele está em campanha pela reeleição e num dos recados sutis (mas nem tanto) do filme, seu número é 150 – outro é a distância, em quilômetros (17), que um caminhão pipa precisa percorrer a partir de determinado ponto até chegar ao povoado.

Bacurau. Frame. Reprodução
Bacurau. Frame. Reprodução

Em meio ao cenário de destruição, com direito a uma gangue de nazistas – o filme se passa no futuro, convém lembrar –, há delicadeza, em homenagens prestadas pelos diretores a grandes artistas em cena: Sônia Braga (protagonista de Aquarius), no papel de Domingas, uma enfermeira alcoólatra, Lia de Itamaracá (no papel da matriarca Carmelita, orgulho do povoado) e Rodger Rogério, nome do Pessoal do Ceará, que interpreta o violeiro Carranca.

Há também uma sutil homenagem a Lampião e seu bando de cangaceiros e seu Lunga (Silvero Pereira) não é um velho mal-humorado de respostas desconcertantes. Num país em que grande parte da população brasileira não costuma frequentar (ou nunca pisou em) cinemas, teatros e museus, outro recado sutil dado pelos diretores é a existência (e a necessidade e o orgulho da população) de um museu histórico no lugar, algo a que parecíamos mais próximos, ao menos em utopia, num passado não muito distante.

Politicamente retrocedemos. Cinematograficamente, Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles propõem uma reflexão e ação sobre este retrocesso. Um filme doloroso, bonito, necessário e urgente.

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Veja o trailer:

Um filme é um filme é um filme

Era uma vez... em Hollywood. Cartaz. Reprodução
Era uma vez… em Hollywood. Cartaz. Reprodução

 

​Quem ainda faz faroestes hoje em dia? Quem gosta de faroestes? A revolta​​ de Rick Dalton, personagem de Leonardo DiCaprio, um ator decadente e alcoólatra, é uma das chaves para entendermos o nono filme de Quentin Tarantino, Era uma vez… em Hollywood [Once upon a time… in Hollywood, drama, Estados Unidos, 2019, 161 min.].

O diretor traça uma espécie de documentário ficcional, um falso documentário, remontando as trajetórias de Dalton e Cliff Booth (Brad Pitt), seu dublê, faz tudo e amigo íntimo. Estamos em 1969 e com vários papeis e alguma glória, Dalton está em vias de cair no ostracismo, quando recebe um conselho-convite para fazer westerns na Itália.

A cena em que ele chora ao relatar o enredo de um livro que lê no intervalo das gravações a uma atriz mirim, revelando o próprio destino (e o futuro que ele lhe prevê, sem que ela entenda) é tocante, ao mesmo tempo que é um dos sarros de Tarantino com a indústria, além, provavelmente, de um sábio conselho a iniciantes (ou, pior, aspirantes a celebridades fast food). A confusão entre os filmes (dentro do filme) e a vida de Dalton é ainda maior (mais real?) quando ele usa um artefato cênico (tarantinesco) para salvar a própria vida, durante o ataque de uma gangue à sua residência.

Filmes dentro do filme, Tarantino expõe as vísceras da indústria, numa grande tiração de onda. Sobra, obviamente, até para a publicidade (não só de cigarros, à moda antiga).

Coalhado de referências (e reverências, ao modo Tarantino), a começar pelo título que evoca os clássicos Era uma vez no Oeste (1969) e Era uma vez na América (1984), ambos de Sergio Leone.

Para além do cinema, estão lá gibis de Kid Colt, um personagem chamado Tex (Austin Butler), discos de Paul Revere (a trilha sonora é um espetáculo à parte), o cineasta Roman Polanski (Rafal Zawierucha) e sua esposa Sharon Tate (brutalmente assassinada quando grávida pela gangue de Charles Manson nos anos 1960, interpretada por Margot Robbie, num episódio reinventado por Tarantino) e Bruce Lee (Mike Moh), tornado um idiota em cena hilariante – não são poucas.

Tarantino é um iconoclasta que remonta a história a seu bel prazer para fazer grande cinema. Licença poética não é fake news, o objetivo aqui é nobre, não deseja, por exemplo, influir em resultados eleitorais, nem mesmo a votação do Oscar. Durante as quase três horas de Era uma vez… em Hollywood é possível esquecer o noticiário e o governo, ao menos os espectadores brasileiros, sem se tratar de anestesia.

No meio de tudo isso há uma cadela, que acaba tendo papel central na trama. “Quanto mais conheço o homem, mais eu gosto do meu cão”, cantaria Ataulfo Alves. “É preciso estar atento e forte”, advertiriam antigos compositores baianos. Em Tarantino, “tudo é maravilhoso”.

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Veja o trailer:

Canto é dança é reza

O grupo Nóg Gã do Povo Kaingang. Foto: Francisco Colombo
O grupo Nóg Gã do Povo Kaingang. Foto: Francisco Colombo
O grupo Teko Guarani do Povo Mbyá - Guarani. Foto: Francisco Colombo
O grupo Teko Guarani do Povo Mbyá – Guarani. Foto: Francisco Colombo

 

Um bom público compareceu ontem (26) ao Anfiteatro Beto Bittencourt, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande), para prestigiar o penúltimo dia de apresentações do circuito Sesc Sonora Brasil, que em 2019 tem como tema “A música dos povos originários do Brasil” – a programação se encerra hoje, com a apresentação do Grupo Wiyae, “que significa canto na língua Tikuna” e “foi criado especialmente para o projeto”, conforme o material de divulgação do Sonora Brasil.

O formato semicircular da chamada “ágora do Odylo” favorece a interação entre os artistas indígenas e o público, lembrando que a grande maioria das aldeias dispõe suas ocas em círculo, garantindo a existência de uma espécie de praça pública para o convívio comunitário e as celebrações.

Ontem, primeiro se apresentou o grupo Nóg Gã do Povo Kaingang, de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Eram cinco homens, de cocares e saias, empunhando lanças e maracás, e uma pintura corporal que não obedece padrões, mas que, segundo um deles explicou, serve para evitar o casamento entre parentes e, consequentemente, o incesto.

O canto e a dança do Nóg Gã têm características ritualísticas: cantam e dançam como quem reza, sacudindo maracás e empunhando suas lanças, transformadas em instrumentos de percussão, batidas no chão. Depois são depositadas em círculo, com as pontas convergindo para o centro, em gesto diametralmente oposto a qualquer incitação a violência – apesar de o repertório trazer temas como a Dança da guerra e 500 anos de resistência.

“Somos todos irmãos, independente de raça, se cor, somos todos seres humanos”, afirmou um dos integrantes, numa sutil referência à violência perpetrada contra o povo Wajãpi, cujo cacique Emyra foi assassinado no oeste do Amapá, no último dia 22 – e ao pouco caso do presidente da república Jair Bolsonaro e seu primeiro escalão mentalmente indigente.

“A mídia só sabe discriminar os povos indígenas, só fala daqueles políticos corruptos que vivem lá em Brasília, ninguém lembra dos povos indígenas”, continuou, mais explícito.

Na sequência foi a vez do grupo Teko Guarani do Povo Mbyá – Guarani, também gaúchos, de Lomba do Pinheiro, na capital Porto Alegre. São 10 pessoas, sendo seis mulheres, incluindo uma criança. O cacique é o único a usar cocar – e também o único calçado, usando tênis; os demais trajam roupas brancas com motivos indígenas e se apresentam descalços – e faz as vezes de mestre de cerimônias: não toca nem canta. Homens tocam violão (por eles chamado de “mbá’epú”, com cinco cordas, cada qual representando “uma divindade Mbyá: Tupã, Kuarany, Karaí, Jakairá e Tupã Mirim”), violino (“ravé”, com três cordas) e chocalho (“mbaraká miri”, revezado com um tambor, “angu’á pú”), as mulheres fazem coro.

O violonista usa a mão esquerda para rasquear as cordas do instrumento sem armar qualquer acorde, a mão direita apenas segurando o braço do violão. O violino é tocado da mesma forma, o arco indo e vindo, o instrumento apoiado nas costelas do violonista.

Algumas divindades são saudadas no repertório do grupo, formado por músicas tradicionais do povo Guarani: Ñe’ë í (Pequeno espírito) e Ñamandu mirim (Pequeno sol).

A certa altura o cacique revela, aos 46 anos, nunca ter ficado doente. “Não conheço hospital”, diz. A apresentação se encerra com os dois grupos se encontrando em Tangará (Brincadeira em roda), diante de uma plateia emocionada.

O Grupo Wiyae, que se apresenta hoje, reúne músicos de diversas procedências: a cantora amazonense Djuena Tikuna, a paulista Magda Pucci (cantora, arranjadora, compositora, educadora musical e pesquisadora das músicas de vários povos há 23 anos), o maranhense Diego Janatã e o acordeonista paulista Gabriel Levy. A apresentação acontece às 18h, no Anfiteatro Beto Bittencourt (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). A entrada é gratuita.

Tássia Campos e Ana Marques reverenciam Adriana Calcanhotto e Marisa Monte em “Onde andarás”

[release]

O show no Clube do Chico passeará por diversas fases das obras de duas das mais importantes cantoras e compositoras surgidas no Brasil nos últimos 30 anos

Desde o final da década de 1980, Marisa Monte e Adriana Calcanhoto consolidaram-se como duas das mais talentosas cantoras e compositoras surgidas no Brasil em todos os tempos. A carioca estreou em disco em 1988, com a explosão do hit Bem que se quis, versão de Nelson Mota para E po’ che fa’ (Pino Daniele); a gaúcha, dois anos depois, com Enguiço, disco do hit Naquela estação (Caetano Veloso/ João Donato/ Ronaldo Bastos), a que compareciam ainda regravações de nomes tão diversos como o conterrâneo Lupicínio Rodrigues, além de Eduardo Dussek e Roberto Carlos.

Não é exagero dizer que influenciaram todo mundo que veio depois, como o fizeram Gal Costa e Maria Bethânia mais de 20 anos antes. Versáteis, Adriana Calcanhotto e Marisa Monte seguiram trilhas distintas, mas com obras com traços em comum: a permanente qualidade de seus discos e shows, as carreiras paralelas (Marisa com os Tribalistas e Adriana com o Partimpim, voltado ao público infantil, mas também encantando adultos), a constante presença na programação do rádio e o permanente diálogo com a poesia – Marisa trouxe Eça de Queiroz para sua Amor, I love you (parceria com Carlinhos Brown), Adriana musicou Ferreira Gullar e Mário de Sá-Carneiro e é parceira de Antônio Cícero.

Adriana Calcanhotto e Marisa Monte serão lembradas em um show dedicado a seus repertórios. As talentosas Tássia Campos e Ana Marques irão passear por várias fases de suas carreiras, entre grandes sucessos e músicas menos conhecidas. Na ocasião serão acompanhadas por Jhoie Araújo (violão sete cordas), Rui Mário (sanfona e teclado) e Richard (bateria).

Tássia Campos tem seu nome reconhecido como uma das cantoras mais requisitadas da cena MPB de São Luís. Tem no currículo, entre outros, os troféus “Revelação” e “Show do ano” (com o Trio 123), do extinto Prêmio Universidade FM, então a maior honraria da música produzida no Maranhão. Ana Marques, sócia-proprietária do Clube do Chico, reservava seus dotes artísticos apenas para amigos, em jam sessions após os shows da casa, mas resolveu, agora, colocar seu talento a serviço do público em geral. Já não era sem tempo.

Onde andarás, que dá título ao show, é parceria de Caetano Veloso com o poeta maranhense Ferreira Gullar (1930-2016). A música já foi gravada por ambas, além de pelo próprio Caetano e pela irmã Maria Bethânia. Outros números do repertório da homenagem a Adriana Calcanhotto e Marisa Monte são Clandestino (Mano Chao), Esquadros (Adriana Calcanhotto), Inverno (Adriana Calcanhotto) – gravadas por Adriana Calcanhotto –, Balança pema (Jorge Benjor), Dança da solidão (Paulinho da Viola) e Na estrada (Carlinhos Brown/ Marisa Monte/ Nando Reis) – gravadas por Marisa Monte. No fim das contas, o show, além de uma homenagem a elas, é também um tributo a seus parceiros e a compositores eternizados em suas vozes.

Serviço

Divulgação
Divulgação

O show Onde andarás – Homenagem a Adriana Calcanhotto e Marisa Monte acontece no Clube do Chico (R. Uirapuru, 17, Parque Shalon), dia 2 de agosto (sexta), às 21h. Os ingressos custam R$ 20,00 (antecipados; R$ 25,00 na hora). Reservas pelo telefone: (98) 98113-5547.

Em nome dos mineiros

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

 

O mineiro Toninho Horta subiu ao palco do Teatro Arthur Azevedo com um papel na mão, que colocou sobre a mesa onde já repousava um copo d’água, com as bordas cobertas por um guardanapo.

Sentou-se, empunhou o violão e agradeceu por estar ali, “em nome dos mineiros, Lô Borges, Beto Guedes, Bituca, é muito bom estar aqui, abrindo a 11ª. edição do Lençóis Jazz e Blues Festival, num tempo em que é grande a representatividade da música instrumental brasileira lá fora”, apontou.

Revezando-se entre temas cantados e instrumentais, começou o show com Durango Kid (parceria dele com Fernando Brant), gravada por Milton Nascimento na década de 1970. Em Aqui ó (da mesma dupla) citou o tambor de crioula, elogiando a grandeza da cultura popular do Maranhão.

Seguiram-se Igreja do Pilar, dedicada a Ouro Preto, e Meu amor infindo,  homenagem a mãe, falecida em 2013. “Ela foi a primeira a reconhecer meu talento, tocava bandolim na banda ​​de meu avô”, lembrou.

Ainda sozinho ao violão tocou Ville kids friends, que compôs durante um curso que ele ministrou na Escandinávia. Em seguida convidou Marcelo Carvalho para assumir um dos dois teclados dispostos no palco. Com ele tocou Waiting for Angela.

Na sequência, somam-se ao duo Israel Costa (violão), anunciado como guitarrista, e Renato Serra (teclado). O quarteto toca Diana (outra parceria com Fernando Brant), sucesso do Boca Livre. “Se tiver alguma Diana na plateia, peço desculpa, mas essa música foi feita para uma cachorrinha. Já que Manuel era um jipe”, lembrou, fazendo a plateia rir, antecipando outro hit que não faltaria ao set list.

Leonel Almeida (contrabaixo) e Ronald Nascimento (bateria) acabaram de completar o grupo enquanto Toninho Horta troca o violão pela guitarra. Atacam de Voo dos urubus, com Horta a princípio tocando de costas para a plateia, a reger o grupo. Depois é a vez de Summertime (Ira e George Gershwin), “já que a gente está num festival de jazz e blues”.

A banda sai e Horta torna ao violão. Presta uma homenagem a João Gilberto. Lembra que influenciado pelo baiano fez uma música aos 13 anos, O barquinho vem, “embora mineiro não tenha mar”, brincou. Canta Desafinado (Tom Jobim e Newton Mendonça), acompanhado pelo coral da plateia.

Ao elogiar novamente o Teatro Arthur Azevedo, lembra-se do dia em que foi ao Carnegie hall ver a Filarmônica de Viena regida por Leonard Bernstein. “Eu fiquei no sétimo ou oitavo andar, vendo os músicos lá embaixo. Esse Teatro Arthur Azevedo não brinca em serviço”, afirmou, antes de tocar um tema de Henry Mancini.

A banda volta e Toninho Horta troca o violão pela guitarra no meio da música, enquanto cita Josias Sobrinho, Nosly e Papete. Lembrou-se de Leandro Gomes, “meu primeiro produtor em São Luís na década de 1980, há quase 40 anos. Essa eu dedico aos grandes talentos do Maranhão”, oferece antes de tocar Beijo partido.

Já em clima de bis, mandou Manuel, o audaz (mais uma parceria com Fernando Brant), para delírio da plateia. E agradeceu: “Quero saudar o Tutuca”, o produtor já havia tentado trazê-lo em outras edições do festival. “Minas agradece vocês pelo bom gosto. Esse estado é um país”, finalizou.

Serviço

O 11º. Lençóis Jazz e Blues Festival acontece dias 16 e 17 de agosto (Circuito São Luís, Concha Acústica Reinaldo Faray, Lago da Jansen); e dias 23, 24 e 25 de agosto (Circuito Barreirinhas, Av. Beira-Rio). Entre os destaques da programação – acesse completa – estão Paula Santoro, Trio Corrente, Bebê Kramer, Zé Paulo Becker (com participação especial de Roberta Sá), Blues Etílicos, Afrôs, Mahmundi, Gildomar Marinho, Elizeu Cardoso, Quarteto Buriti (com participações especiais de Gabriela Marques, Célia Maria e Milena Mendonça), Dani Black, Rita Benneditto e Wilson Zara (que encerra a programação com seu tradicional Tributo a Raul Seixas).

O rei da guitarrada

Retrato: Zema Ribeiro
Retrato: Zema Ribeiro

​Mestre Solano tem o acentuado sotaque paraense que coloca Hs depois de Ls (diz “elhe” em vez de “ele”, por exemplo) e que troca Ss por Xs. Ele visitou a sala de ensaios da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo, ontem (19), num bate-papo mediado por Ricarte Almeida Santos, idealizador e produtor do projeto RicoChoro ComVida na Praça, que traz o guitarrista à ilha. Usando chapéu, um enorme relógio dourado e grossos anéis idem, ele falou para uma plateia pequena, mas interessada.

Ainda criança, Mestre Solano aprendeu sozinho a tocar banjo. “Eu podia estar brincando do que fosse, com quem quer que fosse, quando papai pegava no banjo, e ele só pegava aos sábados e era coisa rápida, eu ia pra perto, fingia que estava brincando, e ficava olhando, prestando atenção na posição dos dedos”, lembra.

Quando o pai saía, ele pegava o banjo escondido. “A mamãe pedia para ele me ensinar, mas ele dizia que não, que música não dava futuro”. Um dia o pai voltou e achou-o tocando o instrumento. “A casa era grande, ele deu a volta e entrou por trás. Eu estava no quarto, a porta trancada. Quando eu vi a porta abrir, eu larguei o banjo. “Ah, és tu que está aí?”, ele me perguntou. E mandou eu continuar. Eu toquei mais um pouco, ele perguntou: “quem te ensinou?”. Aí mamãe gritou lá de fora: “quem ensinou ele foi Deus, eu pedi pra você ensinar, você não quis, Deus ensinou”.

Incentivado pela mãe, prestou concurso para o Corpo de Bombeiros, para sargento músico. “Você fazia o concurso, passava três meses num curso e já virava sargento. Eu não queria fazer, achava que não ia passar, aí mamãe disse: “ou você faz ou vai levar uma surra””, lembra da ocasião em que se mudou da Abaetetuba natal para a capital Belém e conheceu Pinduca, conterrâneo ilustre.

“Ele tocava bumbo e eu tocava caixa. Depois eu o ajudei a fundar a primeira banda dele”, relembra. “Foi nessa época do quartel que eu comprei minha primeira guitarra. Havia um presidiário que fabricava objetos e um dia o diretor do presídio me chamou e perguntou se eu estava precisando de algo e eu disse, uma guitarra. Dei todas as características, quero isso, isso, assim, assado. Ele deu lá o prazo e no dia marcado a guitarra estava pronta, exatamente como a descrevi. Até hoje me arrependo de ter vendido aquela guitarra, ela é vinho, parecida com a outra”, disse, referindo-se não a Ibanez que repousava em seu colo, mas à guitarra que deixou no hotel.

Mestre Solano lembrou-se de sua paixão por rádio, de como, em Abaetetuba, não conseguia sintonizar as rádios de Belém, mas conseguia captar as ondas vindas do Caribe. Daí ter se apaixonado por ritmos como a salsa, a cumbia e o merengue, todos, afinal, ao lado do carimbó, também nas origens da guitarrada, a qual demonstrou, na prática, do que se tratava, com exemplos diversos tocados em seu instrumento.

Elogiou o violonista Sebastião Tapajós, “talvez o músico brasileiro que mais tenha viajado para a Europa”. Tocou um choro de sua autoria, não revelou o título, mas a inspiração: “fiz para minha netinha, ela não ouve nem fala”. A mim parecia algo como se João Pernambuco compusesse tocando guitarra.

Aos 65 anos de carreira, Mestre Solano se apresenta em instantes, na Praça da Fé (Casa do Maranhão, Praia Grande), acompanhado pelo Regional Caçoeira, no palco de RicoChoro ComVida na Praça, na noite que inaugura a temporada 2019, que terá ainda o DJ Franklin e performance poética com o mímico Gilson César. A programação é gratuita e tem início às 19h. Ao repertório de Mestre Solano não faltará o clássico Americana, regravado por, entre outros, Arnaldo Antunes.