Alma e sentimentos

Uma irmã. Capa. Reprodução

 

Uma irmã [Une soeur; tradução: Fernando Scheibe; Nemo, 2018, 212 p.; R$ 55,00; leia um trecho] é uma metáfora para falar de amizade e das descobertas da adolescência. O francês Bastien Vivès conta a história de Antoine e Hélène, que se encontram durante um período de férias e passam a fazer tudo juntos – apesar de Titi, irmão mais novo dele.

É um período de grandes curiosidades e descobertas, em que álcool e fumos (no plural) se juntam ao desejo de desobediência aos pais, aventuras em que o par de protagonistas mergulha junto, com mais ou menos experiência.

Antoine e Hélène são, um para o outro, o grande achado daqueles dias, iniciados com uma tragédia e encerrados com outra. Entre os dois adolescentes, lições de companheirismo, confiança e cumplicidade.

Belo e delicado, o traço de Vivès tem um quê de abstrato, como se o autor quisesse captar e passar aos leitores a alma e as sensações de seus personagens – no que atinge seu objetivo. É uma graphic novel bastante sensual, nunca vulgar.

Os sentimentos que povoam os personagens de Vivès são absorvidos por seus leitores, comovidos cúmplices.

Documentário joga luz sobre vida e obra de Henfil, necessário e atual como nunca

Henfil. Cartaz. Reprodução

 

“Chamar Henfil de cartunista é reduzi-lo. Ele foi multimídia, atuou em jornal, televisão, cinema, teatro, literatura, fez tudo o que existia na época”, nos alerta Tárik de Souza, um dos entrevistados de Henfil [Brasil, 2018, 75 minutos], documentário de Angela Zoé, lançado no fim do ano passado, quando se completaram 30 anos de seu falecimento.

“Na verdade, Henfil, Chico Mário e Betinho [o sociólogo Herbert de Souza] foram assassinados pelo Brasil”, completa Tárik, um dos maiores críticos musicais brasileiros em atividade, seu colega dos tempos de Pasquim, referindo-se à falta de fiscalização nos bancos de sangue brasileiros à época: os três irmãos eram hemofílicos e tornaram-se soropositivos em transfusões de sangue.

O mote do documentário leva em conta uma reunião de cartunistas (entre os quais o grande Aroeira), em fins de 2016, admiradores do trabalho de Henrique Souza Filho, o Henfil, que manifestaram o desejo de realizar uma animação utilizando personagens que se confundem com a própria história do Brasil, e particularmente, da luta contra a ditadura militar e a campanha pelas Diretas Já!, nomes como a Turma da Caatinga, entre os quais a Graúna, Zeferino e o Bode Orelana, os fradinhos, o Caboco Mamadô, entre muitos outros.

Imagens de Henfil em super8, depoimentos seus a programas de tevê e suas aparições na TV Homem (quadro que apresentou dentro da atração global TV Mulher) dão conta de retratar a importância do artista para o humor e a redemocratização do país – embora esta frágil, curta e já descartada.

Há um permanente exercício de imaginação no ar: 30 anos depois, o que Henfil estaria fazendo se estivesse vivo? Certamente se valendo das tecnologias (e facilidades) proporcionadas pela internet e contra esse estado de coisas em que se transformou o Brasil, golpe após golpe.

Henfil tinha um traço rústico e certeiro, sem firulas. Jaguar, outro colega de Pasquim, revela que ele mesmo nunca conseguiu imitá-lo, o que parece ser um dos maiores elogios possíveis a um artista de seu naipe.

Henfil soube tocar em nervos expostos, captando e ajudando a entender e explicar um momento crucial da história do Brasil. É conhecido o episódio em que não poupou a cantora Elis Regina por ter cantado nas olimpíadas do exército – o que ninguém sabia à época é que ela fora obrigada. Depois fizeram as pazes e mais tarde a gaúcha imortalizaria os versos “e sonha com a volta do irmão do Henfil/ com tanta gente que partiu num rabo de foguete”, da dupla Aldir Blanc e João Bosco em O bêbado e a equilibrista.

Em livros como Cartas da mãe (reunindo colunas publicadas na revista Isto É), Henfil na China e Diário de um cucaracha, tirava onda com a síndrome de vira-latas rodrigueana: as coisas no Brasil podem ser boas como forem, mas a gente só dá valor se sair no The New York Times – que acabaria publicando seu obituário –, brincalhona obsessão que intitulou sua incursão pelo cinema: Henfil dirigiu Tanga – Deu no New York Times, que Jaguar considera ruim mesmo para os padrões do cinema brasileiro da época. “A única coisa que presta em teu filme é minha atuação”, chegou a tirar onda, tudo entre amigos.

O mote do filme passa pelo jornal americano: em uma ilha imaginária o ditador de plantão acabou com a imprensa, mas continua a receber exemplares do NYT, queimados logo após a leitura, pois quem detém informação detém o poder. Apesar do fracasso, Tanga tem música do conterrâneo Wagner Tiso e presenças do próprio Henfil, Chico Anysio, Elke Maravilha, Jaguar e Tom Jobim no elenco.

Henfil tinha urgência de viver e criar, pois sentia desde cedo a doença que o vitimou pisando-lhe os calcanhares, ela personagem secundária no documentário, que se equilibra entre o bom humor e a genialidade de seu retratado, que nele se confundem, e sua disposição em lutar por um Brasil justo e livre de qualquer tipo de censura.

“A esperança somos nós” é o recado sutil, dado na animação dos créditos. Infelizmente, Henfil nunca foi tão necessário e atual.

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Veja o trailer:

Amores e mistérios

O seu amor de volta (Mesmo que ele não queira). Cartaz. Reprodução

 

O seu amor de volta (mesmo que ele não queira) [documentário, Brasil, 2018, 82 minutos], de Bertrand Lira, estreou em dezembro passado, durante o 13º. Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro, um dos mais importantes festivais de cinema da Paraíba, terra do cineasta, realizado na capital João Pessoa. O catálogo do festival adverte: “esta produção é “Hors-concours Première Parahyba” – não participa da mostra competitiva”. Caso concorresse, as chances de prêmio seriam grandes, aposta Homem de vícios antigos.

Em sua atmosfera vermelha, remetendo a salas de cartomantes, cabarés e pés-sujos, o novo filme de Bertrand Lira é um documentário que o espectador pensa que é ficção, sobretudo pela presença de histórias reais de gente ligada ao cinema e ao teatro. Em geral, búzios e cartas são buscados diante de desilusões amorosas, embora esta opinião seja mera especulação, já que desconhecemos estatísticas de institutos de pesquisa sobre o assunto.

Dados à parte, é no amor, em suas idas e vindas, e na confiança na magia para trazê-lo de volta e mantê-lo ao lado, que foca o documentário, desde o bem-humorado título.

Se “a vida imita o vídeo”, como cantaram os Engenheiros do Hawaii, ou “a arte existe por que a vida não basta”, como sentenciou Ferreira Gullar, é na dúvida entre se as histórias são reais ou ficção, se os personagens estão interpretando ou não, na astúcia do diretor e roteirista Bertrand Lira, que residem alguns dos trunfos de Seu amor de volta (mesmo que ele não queira), ao adentrar um universo que desperta paixão e ódio, entre quem acredita no poder do mistério e quem acha que tudo não passa de bobagem, quando não charlatanismo.

Há histórias dolorosas, em que a rima mais clichê, amor e dor, segue aparecendo, em ambientes enfumaçados e movidos a álcool, das salas em que videntes e cartomantes atendem aos bares, e há quem ria da própria dor, como a senhora que canta versos hilariantes e bebe uísque direto na boca da garrafa.

Professor doutor do Departamento de Comunicação em Mídias Digitais e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGC) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Bertrand Lira realiza documentários desde 1981. Ele conversou com exclusividade com o blogue.

Retrato: Rodrigo Barbosa

 

O seu amor de volta (Mesmo que ele não queira) aparece com a tarja de documentário no catálogo do 13º. Fest Aruanda, de João Pessoa/PB, onde ele estreou em dezembro passado, sem competir. Todas aquelas histórias são reais?
Meu filme é indexado como um documentário porque ele trabalha personagens reais contando suas histórias de desilusões amorosas. A pesquisa envolveu mais personagens, inclusive cinco prostitutas que na edição definitiva ficaram de fora. De certa forma, foi uma coincidência que no corte final ficaram quatro personagens que trabalham com cinema e teatro: um ator e maquiador, uma professora e atriz travesti, e duas atrizes de renome nacional, Zezita Matos e Marcélia Cartaxo. Claro que tem momentos do filme que a fronteira entre ficção e não ficção está nebulosa, mas o que tem de ficção é a carga de subjetividade e imaginário desses atores sociais que o documentário representa em cenas criadas para ilustrar sentimentos, emoções etc.

Qual a sua relação anterior com cartas, búzios e esse universo mágico em geral anunciados em papéis colados em postes?
Para a pesquisa ainda muito embrionária de O seu amor de volta eu procurei uma cartomante para conhecer o universo retratado, mas ela não aceitou participar do filme. Os personagens que aceitaram participar (dois pais de santo e uma cartomante) eu os encontrei apenas duas vezes, a primeira para explicar o projeto e a segunda já nas gravações.

Histórias trágicas e uma diversidade incrível de personagens: como foi chegar a este recorte? Quanto de pesquisa e quanto de sorte, feito a bola que procura o craque?
A realização deste filme foi fruto de duas ideias: uma a partir do filme de Woody Allen Você vai conhecer o homem dos seus sonhos (2010), que me levou a pensar um documentário sobre cartomantes, videntes etc. E a outra foi do personagem Williams Muniz, ator, maquiador e figurinista de teatro e de cinema, que nas horas vagas escreve crônicas sob [o pseudônimo] Laura de Jezebel, seu alter ego. Williams é o fio condutor desta narrativa.

As presenças das atrizes paraibanas Marcélia Cartaxo e Zezita Matos despistam a atenção do espectador: são atrizes e parecem interpretar. Como foi a descoberta de suas histórias e encaixá-las no roteiro do filme?
A atriz Marcélia Cartaxo já estava no projeto desde a sua origem, pois a conheço desde a infância vivida na rua onde nascemos, a Higino Rolim, em Cajazeiras, interior da Paraíba, e tenho acompanhado sua trajetória pessoal e profissional. A atriz Zezita Matos foi incorporada ao projeto por acaso. A presença de duas atrizes forçosamente leva as pessoas a imaginar que tudo é ficção.

Você tem uma vasta carreira no cinema, é professor universitário e também autor de livros sobre a sétima arte. Na sua opinião, esse currículo todo aumenta a responsabilidade na hora de realizar?
Como professor e pesquisador investigamos o cinema documental durante quatro anos no grupo de pesquisa que coordeno na UFPB, o Gecine (Grupo de Pesquisa em Cinema e Audiovisual). Isso me levou a conhecer a trajetória do gênero desde a sua origem. Claro, a responsabilidade só aumenta. As pessoas acham que os acadêmicos são apenas teóricos. Eu faço documentário desde 1981, a partir dos estágios de cinema dos ateliês Varan da França, criados pelo renomado etnógrafo e cineasta Jean Rouch em diversos países do mundo. Tive a chance de me especializar duas vezes na Association Varan de Paris.

Gildomar Marinho faz duas apresentações em São Luís

Cantor e compositor se apresenta hoje (9) no Talkin’ Blues (Cohajap) e sexta (11) no Buriteco Café (Praia Grande)

 

Gildomar Marinho e Luiz Cláudio durante ensaio. Foto: Otávio Costa/ A discoteca do veterinário

 

Maranhense radicado em Fortaleza/CE, Gildomar Marinho aproveita uma passagem pela ilha para fazer duas apresentações, reencontrando-se com o público conterrâneo. Com três discos lançados – Olho de boi (2009), Pedra de cantaria (2010) e Tocantes (2013) – o artista tem outros dois gravados, desde 2015, e ainda não lançados: Porta sentidos e Mar do Gil. “Vendi um carro para fazê-los”, revelou-me, bem humorado, numa conversa ainda àquele ano.

Gildomar Marinho (voz e violão) será acompanhado pelo percussionista Luiz Cláudio. O repertório passeará pela obra autoral de Gildomar Marinho, de temas assinados solitariamente a parcerias com nomes como os poetas Ely Cruz e Samara Volpony (dela ele musicou Contramaré, que dá título ao livro de estreia da arariense), o radialista Ricarte Almeida Santos e o jornalista Zema Ribeiro (que tem parcerias gravadas nos cinco discos de Gildomar). Ele também deve revisitar nomes como Erasmo Dibell (de quem gravou Navegante em Tocantes) e figuras da mpb como Belchior, Carlinhos Brown, Gilberto Gil e Noel Rosa.

“Serão apresentações descontraídas, em clima de confraternização”, promete. Hoje (9), às 21h, no Talkin’ Blues (Rua Auxiliar II, quadra 9, nº. 16, Cohajap), ele sobe ao palco às 21h, e terá como convidados Tutuca e Elizeu Cardoso; na sexta-feira (11), às 20h, no Buriteco Café (Rua Portugal, 188, Praia Grande), Gildomar terá como convidados, além de Tutuca e Elizeu Cardoso, Marconi Rezende, Chico Neis e Gabriela Flor. Em ambas as apresentações o couvert artístico individual custa R$ 10,00.

Uma rara oportunidade de prestigiar o talento de Gildomar por estas bandas. Após as apresentações em São Luís ele volta à Fortaleza, onde tem comandado a temporada pré-carnavalesca do bloco Hospício Cultural, no bairro do Benfica – o equivalente à nossa Madre Deus –, que tem reunido cerca de 10 mil foliões a cada ensaio, aos domingos. A música que puxa o bloco é dele e versa de maneira bem humorada sobre os desmandos da vida política nacional.

Dinastia musical

Caetano Veloso ladeado pelos filhos Tom, Zeca e Moreno. Foto: Marcos Hermes/ Divulgação

 

Quando terminaram as gravações de Tropicália 2, em 1993, Moreno Veloso presenteou o pai com um samba de roda. O detalhe é que a letra era uma frase em inglês, o próprio título da música, que Caetano Veloso só viria a gravar quatro anos depois, em Livro: How beautiful could a being be?

Em Tropicália 2, dividido com Gilberto Gil, Caetano Veloso celebrava os 25 anos da Tropicália, contando com Moreno entre violoncelo e percussão. Ano passado, junto com o parceiro, celebrou os 50 anos de carreira, a dele iniciada em disco dividido com Gal Costa, Domingo, de 1967.

Ofertório. Capa. Reprodução

Este ano, por ocasião do meio século do movimento tropicalista, Caetano Veloso se reuniu com os filhos Moreno, Zeca e Tom Veloso e deu ao público Ofertório, um dos melhores discos lançados no país em 2018.

Outro elo com a Tropicália é o cenário de Hélio Eichbauer, que em 1967 assinou o cenário de O rei da vela, peça de José Celso Martinez Corrêa baseada no livro de Oswald de Andrade, que teve uma imagem utilizada na capa de O estrangeiro, disco que Caetano Veloso lançou em 1989. A mim, particularmente, o círculo na capa remeteu ainda a Todos os olhos (1973), de Tom Zé.

A história do presente recebido de Moreno há 25 anos se justifica: é a relação familiar que conduz o show de atmosfera idem. Estão tão à vontade que Tom se apresenta de chinela e Moreno convida o pai à dança.

Os Veloso são, de longe, uma das famílias mais musicais do Brasil, cuja história se confunde com a própria música do velho baiano, sendo às vezes explicada por ela.

Referências a parentes são explícitas desde as regravações de sucessos do compositor na voz da irmã Maria Bethânia, casos de Reconvexo e Ela e eu. Ou nas citações e homenagens diretas do próprio pai aos filhos, em Força estranha, Oração ao tempo e Boas vindas. Ou de Caetano aos pais, em Genipapo absoluto e, novamente, Reconvexo.

Ou dos filhos aos pais: a citada How beautiful could a being be?, de Moreno, e a inédita Todo homem, de Zeca.

Dignos da linhagem, os filhos de Caetano Veloso esbanjam talento, compondo, cantando e tocando. O pai ao violão vê o trio se revezar entre piano, baixo e violão (Zeca), violão e baixo (Tom) e violão, violoncelo, baixo e percussão (Moreno).

Lançado em cd e dvd, Ofertório tem 28 faixas no segundo formato e apenas a metade em cd – o único problema do lançamento: merecia um cd duplo para caber o áudio completo do show.

2018 foi um ano difícil, mas se há algo a se comemorar, o lançamento deste disco está entre o que valeu a pena. Inclusive pelo fato de parte do repertório ter sido composta e lançada no auge da ditadura de 1964, garantindo a ponte com a sucessão de golpes que temos atravessado: Alegria, alegria e O seu amor, esta de Gilberto Gil, do repertório dos Doces Bárbaros, outro quarteto com que Caetano Veloso gravou disco, a única não composta por um dos quatro cavaleiros de Ofertório.

Pedro Luís Melodia

Vale quanto pesa. Capa. Reprodução

 

Antes de falecer, Luiz Melodia deu aval a Pedro Luís para um show em homenagem ao repertório de Pérola negra, disco de estreia do artista descoberto por Gal Costa, que quebrou diversos paradigmas ao ser lançado, em 1973.

Pedro Luís circulou com o espetáculo então intitulado Pérolas negras, expandindo o repertório a outros clássicos de Luiz Melodia e a canções gravadas por ele, de compositores como Getúlio Cortes e Zé Keti.

O artista, que ganhou projeção à frente de grupos como A Parede e Monobloco, disponibilizou nas plataformas digitais na última sexta-feira (14), Vale quanto pesa [Deck, 2018], álbum que dedica ao repertório do filho de Oswaldo Melodia.

Pedro Luís regravou 80% do repertório de Pérola negra e acresceu músicas como Juventude transviada, Cara a cara e A voz do morro (Zé Keti), a única do repertório não assinada pelo homenageado, equilibrando-se entre um molho a la Melodia, reforçado pelo naipe de metais, e sua própria personalidade musical, não convencional qual o tributado.

O resultado é um disco-tributo feito por um fã confesso que certamente teria aprovação do ídolo homenageado. Por telefone, de São Paulo, Pedro Luís falou com exclusividade a Homem de vícios antigos.

Retrato: Nana Moraes

Vale quanto pesa começa com um deslocamento: você tira uma música da condição de integrante do repertório do Pérola negra e ela passa a dar título a teu álbum. O que motivou essa escolha?
Vale quanto pesa é uma das canções do Pérola negra, que é o primeiro álbum do Melô, que eu resolvi homenagear pela importância que ele tem não só pra mim, como para a história da música brasileira, onde está se fundando um momento, final dos anos 60, começo dos anos 70, onde os autores começam a assumir um protagonismo como intérpretes da própria obra, junto com a coisa da MPB, está se formando isso. Até os anos 50, especialmente, intérpretes eram intérpretes e autores eram autores, basicamente. Era difícil que tivesse as mesmas funções uma mesma pessoa. Então esse disco é fundante nesse sentido de ser dessa época e também de revelar um senhor compositor, muito peculiar na sua maneira de fazer poesia na canção e também um grande intérprete, com uma voz muito agradável, muito única, e que pra mim chegou muito cedo, na minha casa, no começo da adolescência. Meu cunhado, que trabalhava na indústria fonográfica, sempre trazia as novidades pra gente, antes delas chegarem às lojas, os vinis, os k7s, e foi um espetáculo, uma surpresa muito agradável ouvir esse disco tão variado e com tanta personalidade. Variado no sentido até de gêneros musicais, soluções de arranjos, o que na hora pra mim não foi decodificado, a não ser pelo embevecimento de estar vendo uma obra tão interessante que depois eu fui entender que era por que era tão variada e intensa e linda musicalmente. Ano passado eu resolvo homenagear esse disco, peço permissão a Melodia, que me perguntou o quê que eu estava esperando para fazer isso, e quando eu vou montar de fato um show, começo a pensar numas versões daquelas canções de forma a lhes reverenciar, mas que não estivesse fazendo cover delas. Reverenciar na estrutura, alguns riffs, algumas coisas dos arranjos são importantíssimas e marcantes, e quando eu vou montar isso definitivamente para apresentar então no show, marcado no Blue Note em abril desse ano, era muito pequeno, mesmo com o repertório todo e até ampliando um pouco as formas, botando algumas partes, botando solos dos músicos que eu convoquei para fazer essa missão comigo, não dava o tempo de um show. Dava o tempo de uma performance de 35 minutos no máximo. Então eu comecei a puxar outras canções do Luiz que pra mim eram importantes ou canções de outras pessoas que ele tivesse interpretado de uma maneira definitiva e comecei a montar esse repertório e comecei a chamar de Pérolas negras, esse show chamou assim, por contemplar não só o disco Pérola negra, mas também outras pérolas do Luiz. Andou a história e quando eu encontro o Rafa da [gravadora] Deck, e resolvo contar do projeto pra ele, ele acolhe imediatamente o projeto na Deck, marcamos, convenço ele que faríamos de maneira objetiva e conseguiria lançar esse ano ainda, e começamos a trocar ideias e fazer. Fomos pro estúdio, gravamos as bases muito rápido, depois fomos só fazendo detalhes nas duas, três semanas seguintes, gravando as vozes. Simultaneamente a Jane Reis, que foi companheira do Luiz durante 40 anos, está relançando a obra do Melodia, se tornou uma amiga minha, parceira na  realização disso no sentido de aprovar e me dar as devidas bênçãos e informações preciosas que eu uso até no decorrer do show como textos de histórias do Luiz. Eu achei, na verdade, que a Jane relançando a obra do Luiz, não seria muito elegante eu chamar de Pérolas negras, tendo o Pérola negra original, e resolvo buscar com o Rafa, com a Bianca Ramoneda, que é diretora não só do show, comigo, mas é também parceira da concepção visual, diretora artística, resolvemos buscar uma outra história e essa canção acabou tomando um peso tão interessante no arranjo que a gente fez, ela já vinha ao vivo muito interessante, no estúdio ganhou um corpo bem bacana, que a gente achou que era um nome forte, que traria peso e leveza, que é um pouco da concepção visual das pipas, o lance da bicicleta, que são referências das nossas origens de Zona Norte e ao mesmo tempo crianças de uma época em que a pipa e a bicicleta eram das principais brincadeiras. Vale quanto pesa virou um pouco definitivo disto.

Você falou um pouco da importância, da surpresa, do embevecimento que foi ouvir Pérola negra na época do lançamento. Você credita a esse disco alguma responsabilidade por você ter abraçado a música como profissão?
É um dos responsáveis, com certeza, apesar de ali eu não saber ainda. Mas ali eu começo a mergulhar na música. Talvez as primeiras canções que eu comecei a tocar no violão estejam nesse álbum. Estácio, eu e você é uma música que eu toco desde muito jovem, Pérola negra também, Estácio holly Estácio, são canções que fizeram parte de meu primeiro repertório no violão, para tocar nas festinhas, reuniões de amigos, reuniões de escola. E ali funda no meu imaginário uma possibilidade de fazer, de compor, de ser compositor de uma obra muito diversa sem amarras de gênero e que a poesia e a inspiração levassem para onde fosse necessário e não virar um compositor e cantor de samba ou de rock, ou do que quer que seja. Eu passeio por isso toda vez que eu quero. Acho que nesse disco é muito bacana, o Luiz era um fã da jovem guarda, um fã confesso, inclusive está em cartaz um espetáculo [Música romance – uma homenagem à Jovem Guarda] que ele concebeu sobre isso e a Jane conseguiu fazer acontecer, infelizmente ele não esteve para realizar, mas ela pegou a concepção e está conseguindo realizar. Então ele era fã disso, mas ao mesmo tempo fazia um choro como Estácio, eu e você que é uma estrutura de choro super bonita, choro-canção, e na verdade quando ele lança o Pérola negra ele foi questionado por alguns críticos mais xenófobos: “pô, mas um negro do Morro de São Carlos que não faz samba?”, ao que ele respondeu “tudo me interessa”, e esse “tudo me interessa” pra mim é um exemplo, é uma inspiração.

Você acha possível traçar um paralelo entre Luiz Melodia, esse negro que vem do Morro de São Carlos e se recusa a fazer o samba convencional, que seria, digamos assim, a gaveta que o mercado e a crítica reservavam para os negros, com o Pedro Luís, que é também um carioca, mas que faz um samba, um rock, tudo acaba interessando, mas sem ser convencional, por exemplo, nA Parede. Você enxerga isso assim?
Com certeza! Na Parede, no Monobloco, em todas as coisas que eu tenho feito, também em projetos individuais, a gente se dá essa liberdade. Quando a gente estava promovendo o primeiro disco da Parede, a gente fazia umas caminhadas, que a gente chamava de invasões pelas ruas, com percussão e megafone. A gente estava promovendo uma série de shows que a gente ia fazer no Ballroom, aliás, onde eu conheci pessoalmente o Melodia, no show dele, que foi a estreia da casa, eu fui apresentado a ele lá. Eu já era fã há muitos anos, eu já era músico, já estava trabalhando com isso. A gente estava divulgando essa temporada do Astronauta Tupy [1997] e um gringo abordou a gente na praia, a gente panfletando, e perguntou: “what kind of music you play?” [“que tipo de música vocês tocam?” em tradução livre] e o Sidon [Silva, percussionista] prontamente respondeu: “brazilian batucada with rock’n roll pressure” [“batucada brasileira com pressão rock’n roll” em tradução livre] e isso virou uma espécie de conceito, um jargão. Essa expressão aparece no encarte do Zona e progresso [2001], o terceiro disco da gente, uma foto feita num camarim no Japão, “brazilian batucada with rock’n roll pressure” pixada assim num camarim japonês, depois a gente fotografou e botou no encarte do Zona e progresso.

Você gravou o disco com uma banda enxuta, mas tem um rol de convidados bastante extenso, e isso garante, por exemplo, no uso de metais, um molho bem a la Melodia, mas com a cara de Pedro Luís. Por outro lado, você acaba regravando canções que, vamos dizer, têm versões talvez definitivas, nas vozes de Elza Soares, Gal Costa e Maria Bethânia. Qual foi a maior dificuldade de equilibrar tanta influência, tanta referência e reverência e manter tua identidade ao refazer esse repertório?
Eu acho que quando a gente vai regravar canções clássicas e canções que ficaram clássicas em determinadas interpretações, a gente vai ser sempre desafiado, a gente tem que estudar, ir buscar o que reverenciar e o que diferenciar. Foi uma busca. Como a gente foi fazendo muito ao vivo também, os meninos são ótimos, tanto o Élcio [Cáfaro, bateria e percussão], que é um cara super experiente, que tocou com Melodia, tocou também numa banda clássica da Cássia Eller, é meu amigo há muitos anos, quanto os dois meninos bem jovens, o Pedro Fonseca, nos teclados, e o Miguel Dias, no contrabaixo. Eu dei a ideia que a gente fizesse algumas reverências a coisas clássicas dos arranjos, mas buscando uma pegada mais ali desse quarteto que a gente montou, eu na guitarra, às vezes no banjo paraense [e violão], e esse trio enxuto ali de teclado, baixo e bateria. Isso já dá uma coisa diferente, dá uma coisa meio rock, meio jazz, os meninos são bem versáteis nessas linguagens. A gente já tinha uma estrutura, até conversando com o Rafael Ramos, que me convidou para fazer o disco na Deck, e eu o convidei para ser o produtor, e foi um acerto, ele se dedicou muito, encontrou naquele caminho que a gente estava indo, o jeito de fazer aquilo potente. Ao mesmo tempo a gente foi batendo bola dos músicos convidados. Já que a gente estava fazendo um disco de estúdio, a gente podia pegar aquelas estruturas, mas poder se valer de também chamar outros músicos. Quando você está vendo o show, acontece uma interação plateia-música; quando você está ouvindo um disco, se você oferece outras atmosferas, outras texturas, é quase que um cinema, você vai dar outros elementos e esses músicos convidados vieram completar uma coisa muito potente que já tinha nas concepções que a gente criou para essas canções. A gente ficou muito feliz com o resultado. Aqui no Rio a gente conseguiu que quatro dos músicos que foram convidados estejam com a gente nesse show de segunda-feira [o lançamento de Vale quanto pesa acontece amanhã (17), às 21h, no Teatro Net Rio]: o Milton Guedes [gaita], o Marlon Sette [trombone], o Felipe Ventura [violinos] e também o Paulo Rafael [guitarra]. Vai ser bacana, vamos fazer uma costura diferente do show. A gente começa sozinho, vai recebendo, vai acumulando convidados pro final. A gente está bem feliz também de poder entregar nesse show de estreia, para o público, um pouco desse privilégio que a gente teve de ser brindado com o talento desses super músicos que foram lá engrandecer o projeto.

Luiz Melodia já tinha recebido homenagens em vida das quais ele acabou participando das gravações. Lembro, particularmente, de Quem é cover de quem? [do álbum Bicho de 7 cabeças – volume 1, de 1993], de Itamar Assumpção, e Doce Melodia [do álbum Sinceramente, de 1982], de Sérgio Sampaio, que são artistas que como ele acabaram carregando esse rótulo midiático de malditos. O que você acha dessas canções e desse rótulo?
Sensacionais [as canções]. O Sérgio também foi uma grande referência pra mim. O Melodia, o Itamar e o [Jards] Macalé chegaram a fazer um show juntos, dos três malditos. Eu cheguei a ver esse show lá no Rio, numa casa chamada Rio Jazz Club, que era no subsolo do Meridian Hotel, foi muito bom, foi quando eles lançaram Quem é cover de quem?, que é sensacional, bem humorada, daquele Itamar que tinha um humor meio ácido. Eu não sei, eu acho que isso é um título ao mesmo tempo cruel, mas ao mesmo tempo curioso, por que são pessoas que não se entregam àquelas regras muito rígidas do mercado, de terem que se enquadrar num determinado lugar. São muitos caras que são assim.  Se a gente pensar, o [Gilberto] Gil e o Caetano [Veloso] são caras super diversificados também, que podem flertar lá com o rock, com o reggae e com o que se entende mais como MPB clássica, com o samba, só que não sei por que cargas d’água, eles não ficaram com esse estigma, e alguns ficam com esse estigma. Acho que eles souberam lidar bem com isso também. Uma coisa que eu acho que é ruim nisso é não dar a devida dimensão que um poeta, um compositor como Luiz Melodia merece. Ele ficou algum tempo fora do mercado, eu vejo numa geração mais jovem não entender muito quem é o Luiz Melodia, mas ao mesmo tempo reconhecem determinadas canções que estão no inconsciente coletivo, que foram ouvidas por pais ou por avós dessas pessoas mais jovens. Lamento isso, um cara tão precioso, com imagens poéticas tão fortes e originais, seja menos conhecido do que ele merecia pelas gerações mais jovens e espero poder contribuir um pouco com isso, no sentido de entregar essas canções nesse projeto de novo, já nesse mundo dos aplicativos, das plataformas virtuais, e também dos nichos, a gente fez vinil, o cd vai sair também no começo do ano que vem. Então eu espero poder ajudar o Melodia a ter o devido merecimento, que eu acho que outras pessoas estão preocupadas com isso também, a Jane com o cuidado da obra dele, vários projetos em homenagem a ele, o Prêmio da Música [Brasileira] do [Zé Maurício] Machline homenageou ele esse ano, e eu tive o privilégio de cantar Fadas dividindo o palco com Yamandu [Costa, violonista sete cordas] e Hamilton de Holanda [bandolinista] que são meus parceiríssimos. Acho que as reverências que podem vir e projetos podem dar luz a um Melodia que é fundamental. Uma coisa que me impressiona muito são as imagens poéticas das letras do Luiz. Quando eu isolo uma expressão como “vale quanto pesa”, que por acaso é título do disco, ou “devo de ir”, que é de Fadas, ou “se alguém quer matar-me de amor” [risos] e por aí, você vai tirando expressões… em Fadas então, todas as expressões poéticas que você tira dariam nomes a um disco, a um livro, a um projeto, a um filme. É impressionante a força poética que têm as expressões que o Luiz escolhe, e são muito particulares, às vezes você acha meio nonsense, mas se você acha ou não acha não importa, são muito fortes as imagens poéticas, isso é muito bonito de ver.

São literalmente pérolas.
Pérolas, pérolas.

Quando Luiz não se contenta em se fazer o que era esperado, quer dizer, o samba tradicional, e esse gesto acaba contribuindo para o rótulo de maldito, mas isso acaba sendo também, mesmo que inconscientemente, um protesto contra o racismo. Qual é o papel do negro? Naquela época era fazer samba, se a gente olhar as novelas, ainda hoje, é fazer o empregado, o subalterno. Então, infelizmente, após décadas de carreira de Melodia e após seu falecimento, o racismo continua vigente no Brasil. A gente está caminhando para um governo que parece que não vai contribuir com o combate a nada nesse sentido. Você poderia fazer um exercício de imaginação de como o Luiz Melodia se colocaria diante disso? E também qual a sua avaliação desse momento turbulento por que o Brasil passa?
O Luiz era um cara muito discreto no posicionamento político, mas ao mesmo tempo, eu acho que a própria atitude dele de escolher fazer do jeito que ele queria, quando ele quisesse, isso é uma atitude política, de certa maneira. E ter se firmado como um autor, antes mesmo do disco Pérola negra já foi reconhecido por duas das maiores intérpretes da época que continuam a ser duas das maiores intérpretes que o Brasil tem, que são a Gal Costa e a Bethânia, eu acho que isso é que dá força. Depois Zezé [Motta] também, uma cantora negra, que teve uma expressão bizarra ali nos anos 70 e 80, era uma atriz, cantora, personalidade, sex symbol, essas coisas são assim, são fundamentais para que se tire um pouco esse imagem e esse insistente racismo e evidente racismo estrutural, que é aquele que você às vezes não vê, mas que existe, que é no jeito de falar, na condescendência pela metade. O Luiz estaria sofrendo, mas com certeza ele daria uma rajada poética como resposta a isto, como Elza [Soares] nos dá, que se tornou a maior voz política, talvez, artística que nós temos no Brasil no momento, que eu tive o privilégio de fazer a direção musical do espetáculo em homenagem a ela com sete atrizes negras no palco e seis mulheres na banda, que está rodando o Brasil, espero que chegue aí. Foi uma direção musical que acabou dividida com duas das mulheres, uma que é minha assistente de direção já há algum tempo, que é a Antonia Adnet [violonista], que é integrante da banda que a gente montou, e a Larissa Luz, que é atriz convidada, que também tem uma carreira muito interessante, em franca ascensão e que tem uma voz política muito interessante, uma mulher inteligente, ligada. Isso foi muito importante justamente nessa época bizarra em que a gente está mergulhando, ver que ao mesmo tempo espetáculos como esse, onde é política, a voz do negro, das mulheres, está sendo tão bem acolhido, já quase 60 mil pessoas assistiram o espetáculo Elza, que estreou no meio do ano. Com todo esse vendaval que a gente está vendo pela frente, eu até disse esses dias, o Brasil não tem terremoto, não tem maremoto, não tem furacão, mas quem disse que precisa? A gente está vendo essas atrocidades acontecendo pela própria mão do ser humano, a gente não precisa disso. Ao mesmo tempo eu acho que são épocas em que a criatividade, a resistência, a inspiração da gente precisam estar mais ativas pra que a gente continue construindo um país que, em relação ao universo e ao mundo, é jovem e que ainda tem muito que aprender. A gente talvez tenha dado muito por garantido que tinha chegado num lugar razoável de civilidade, mas está vendo que não. Então, nós artistas, você escritor, jornalista, o bancário, o padeiro, o recepcionista do hotel onde eu estou, todos vamos ter uma missão de autoeducação e educação de nossos círculos de convivência e achar o nosso jeito. Ninguém pode achar o nosso jeito a não ser a gente. A gente vai entrar numa época mais complexa agora, onde as forças conservadoras estão aparentemente muito empoderadas, a gente não sabe até quanto, mas estão no momento. Mas como disse o Mujica [Pepe Mujica, ex-presidente uruguaio], logo após o segundo turno: “não há triunfo que seja eterno nem derrota que seja definitiva”. O mundo vai andando assim, um pouco pra lá, um pouco pra cá, e quem tem que garantir uma média legal pra todo mundo somos nós, cidadãos. Por mais que essa escolha não tenha sido a minha é a escolha que a maioria dos eleitores fez. Triste. Mas vambora, é com isso que vamos ter que lidar e vamos com força, jogando com as armas possíveis pra gente, pra neutralizar as barbáries, as coisas mais radicais, eu acho que tem muita bravata também, a gente precisa entender o que vai acontecer. No que for atroz a nossos olhos e nas práticas de quem está chegando, a gente tem que descobrir as formas de resistência e de impedimento dessas coisas avançarem demais.

*

Veja o clipe da faixa-título:

Das escritas do Choro

Chorografia do Maranhão. Capa. Reprodução

 

Quando José Antonio deixou a maternidade, aos 18 dias, a primeira música que ele ouviu foi a Suíte Retratos, na execução da Camerata Carioca em Tributo a Jacob do Bandolim, de 1979. Não a ouviu completa, pois o percurso da maternidade até em casa, de carro, era menor que o tempo de duração dos quatro movimentos (os “retratos”), que homenageiam Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e Chiquinha Gonzaga.

Não foi por acaso: a homenagem é uma espécie de síntese do Choro, ou pelo menos de suas origens e entre os bambas que tocam no disco está o maranhense João Pedro Borges, o que me enche de orgulho. O disco foi escolhido intencionalmente, redundo.

Sábado que vem (15), às 19h, na Praça Gonçalves Dias, durante o último sarau de RicoChoro ComVida na Praça em 2018, Ricarte Almeida Santos, Rivânio Almeida Santos e este que vos perturba lançaremos – finalmente! – o livro Chorografia do Maranhão, que reúne as 52 entrevistas com 54 instrumentistas de Choro nascidos ou radicados no Maranhão que publicamos como uma série no jornal O Imparcial, entre março de 2013 e maio de 2015.

O lançamento acontecerá em noite especial, não apenas por se tratar da despedida do projeto este ano de seus fiéis seguidores e frequentadores eventuais, mas por que teremos o fino do Choro, a começar pelo DJ Franklin, mais o encontro do Regional Tira-Teima com a cavaquinhista carioca Luciana Rabello – e a participação especial da cantora Alexandra Nicolas.

“Um lance de dados jamais abolirá o acaso”, nos ensina Mallarmé. Sorte ou acaso, esta celebração é também fruto de bastante trabalho: do trio de autores e do editor Bruno Azevêdo – o livro sai pela Pitomba!, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema), com a chancela do Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (PGCult) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

Mas voltemos a alguns acasos, chamemos assim. Domingo passado, em conversa no Chorinhos e Chorões, patrimônio do Maranhão e programa bastante citado pelos entrevistados – que os chororrepórteres chamamos chorografados –, o último antes do lançamento, Ricarte Almeida Santos levou dois discos de Luciana Rabello para tocar enquanto conversávamos sobre a Chorografia do Maranhão. Um deles era o lendário Os Carioquinhas no Choro [1977], do grupo homônimo que tinha entre os integrantes a cavaquinhista e seu saudoso irmão Raphael Rabello, ambos então adolescentes. O grupo era uma espécie de embrião do que viria a ser a Camerata Carioca, sob o comando do gaúcho Radamés Gnattali. Quando Serra de Almeida (flautista do Tira-Teima) concedeu a primeira entrevista da série (publicada em março de 2013, mas realizada bem antes, o que dá ainda mais tempo de trabalho, melhor deixar essa conta pra lá), no extinto Kumidinha de Buteko, a capa do elepê decorava a parede e apareceu em uma das fotografias publicadas no jornal.

As pontas se ligam: Luciana Rabello assina a produção musical de Festejos [Acari Records, 2013], estreia de Alexandra Nicolas no mercado fonográfico, ela que fará uma participação especial durante a apresentação da amiga, um reencontro que promete arrepiar quem conhece o disco e se arrepender quem porventura ainda não (ou correr atrás do tempo perdido, nunca é tarde!).

As pontas se ligam: se, de meu lado, dedico o livro a José Antonio, afinal de contas para quem escrevo tudo o que escrevo, por outro, os irmãos Almeida Santos o dedicam a Raimundo Juruca, seu pai, que lhes ensinou a mais que gostar, a amar o Choro – o que tento fazer com José Antonio, que frequentou sua primeira roda aos nove meses de idade, com as presenças de ninguém menos que Zé da Velha e Silvério Pontes, na edição inaugural de RicoChoro ComVida na Praça, em agosto de 2016, na mesma Gonçalves Dias em que agora o Chorografia do Maranhão será lançado.

Ligam-se as pontas deste emaranhado, com texto de Chico Saldanha nas orelhas, apresentação de Luciana Rabello e posfácio de Cesar Teixeira. São muitas histórias, inclusive as nossas, já que o editor Bruno Azevêdo e o poeta Celso Borges, “testemunha de muito do que o livro diz”, nos entrevistaram para o volume.

Chorografia do Maranhão cumpre uma importante tarefa de mapear e contar as histórias dos personagens que desfilam por suas páginas, mas não só: também de toda uma geografia e afetividade que permeiam o Choro no estado.

Seu lançamento é, ao mesmo tempo, sinônimo de alegria e emoção, de um lado, e, de outro, a sensação de tirar um enorme peso das costas. Foram mais de cinco anos de trabalho entre a entrevista inicial e o livro. Que, convenhamos, com o constante interesse de jovens músicos e a consequente renovação da cena Choro, o que não é privilégio apenas do Maranhão, ainda bem, já nasce defasado: diante do surgimento de novos talentos, um volume dois já se insinua necessário, embora os chororrepórteres não prometam nada, ao menos por enquanto.

Grande parte das entrevistas do livro foi realizada em bares, redutos chorísticos por excelência. É hora de passar a régua, mas insistimos em pedir mais uma e mais um choro, por favor!

Um corpo estendido no chão

Uma lembrança por ocasião do aniversário de 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, hoje

Foto: Zema Ribeiro

Vi o corpo estendido no chão, coberto por um lençol ou coisa que o valha. Um engarrafamento estava se formando, passei em marcha mais lenta que o normal, curiando a cena, como o faziam todos os motoristas. Havia um ônibus parado e uma motocicleta encostada no canteiro central me fez imaginar em um motoqueiro morto num acidente, mais um para as estatísticas. Embrutecido pelo dia a dia e pela pressa, segui adiante.

Na volta de um compromisso, ouvi o comentário de outros flanelinhas. Inclusive dos conselhos dados por estes a familiares da vítima, quando ouviram falarem em “se vingar” do motorista, convencendo-os da inocência do chofer e evitando outra tragédia.

Não sabia seu nome, mas quem havia morrido era um dos mais simpáticos entre estes moleques aos quais a gente dá tanta atenção que, mesmo encontrando-os praticamente todos os dias, sequer sabe o nome.

Nunca o vi de mau humor ou praguejando contra quem não dispunha de moedas para pagar-lhe o serviço: a limpeza dos vidros dianteiro e traseiro do carro e, de cortesia, um “cheirinho”, como ele chamava o “bom ar” ou equivalente que fazia invadir o carro – ao menos aos que se dispunham a baixar o vidro e encarar o sorriso que a lida não havia sido capaz de sequestrar, apesar da dureza.

Ele sofria de epilepsia e num ataque caiu e o ônibus passou sobre seu corpo, levando-o a óbito. Ninguém conhece o histórico familiar, se era beneficiário de algum programa social e, em caso positivo, se o valor a que fazia jus era suficiente para não precisar encarar sol e chuva em busca de moedas para inteirar a renda. Ninguém sabe e na real pouca gente se importa.

Hoje a senhora Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 70 anos e eu lembro do flanelinha, cujo nome eu não sabia, não sei, que ficava no semáforo em frente ao Corpo de Bombeiros e penso nele como um símbolo, uma síntese daqueles que têm seus direitos negados e violados.

E lembro-me da história bonita de um motorista de ambulância do Samu que, ao socorrer-lhe durante um de seus ataques epiléticos, guardou 50 centavos que caíram do bolso do flanelinha, devolvendo-lhe a moeda na primeira ocasião em que tornou a encontrá-lo.

No local de sua morte foi improvisada uma cruz, como a simbolizar sua via crucis terrena. Que a homenagem tenha melhor sorte que a placa com o nome da vereadora carioca Marielle Franco, brutalmente assassinada em março. Requiescant in pace.

Espetáculo “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro” terá quatro apresentações em São Luís

[release]

Circulação do grupo cearense Nóis de Teatro tem patrocínio da Petrobras e acontece de 6 a 9 de dezembro em praças da capital. Apresentações têm tradução simultânea em Libras.

Foto: Luiz Alves
Foto: Luiz Alves
Foto: Augusto Oliveira
Foto: Augusto Oliveira

A discussão sobre a criminalização e perseguição da juventude negra nas periferias brasileiras dá o tom do espetáculo “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”, com que o grupo Nóis de Teatro, de Fortaleza/CE, circula por São Luís, com quatro apresentações gratuitas em praças da capital maranhense. A circulação tem patrocínio da Petrobras e Ministério da Cultura/ Governo Federal. As apresentações têm tradução simultânea em Libras.

O espetáculo é dividido em três atos e conta a história de Natanael, uma espécie de anti-herói nascido na periferia, inserido num brutal sistema de opressão e violência, realidade comum a muitos brasileiros, que, aos 18 anos, resolve ingressar nas fileiras da polícia militar. Este ator-narrador é o grande foco de “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro” e sua dramaturgia épica, algo como uma “tragédia afro”, é cerzida por elementos alegóricos e representativos do movimento negro no Brasil e no mundo, além de diversas referências à mitologia dos orixás.

A montagem do espetáculo do Nóis de Teatro se baseia em visitas realizadas a comunidades quilombolas do Ceará e do Maranhão, além de terreiros de umbanda e candomblé, e dialogando com movimentos sociais que pautam questões da população negra. O grupo tem sede na periferia da capital cearense, na Comunidade de Granja Lisboa, Território de Paz do Grande Bom Jardim.

Trajetória – Com 16 anos de fundação, o grupo Nóis de Teatro tem construído uma ação continuada no que diz respeito à circulação de espetáculos, oferta de cursos, intercâmbios e oficinas de teatro e percussão, contribuindo de forma significativa para a formação de plateia, incentivando crianças e jovens ao fazer artístico e à reflexão, contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa e menos violenta.

“Todo camburão tem um pouco de navio negreiro” venceu o Prêmio Funarte de Arte Negra, o que garantiu o trabalho de pesquisa, construção e montagem do espetáculo. Dirigida por Murilo Ramos, a peça tem concepção geral, dramaturgia e assistência de direção de Altemar Di Monteiro, que também integra o elenco, que se completa com Jefferson Saldanha, Doroteia Ferreira, Kelly Enne Saldanha, Henrique Gonzaga, Amanda Freire e Maurício Rodrigues. A produção local é de Andressa Cabral, da Mará Cult Produções.

Serviço

Em São Luís, o espetáculo será apresentado dias 6 (Praça Nauro Machado, Praia Grande), 7 (Praça dos Catraieiros, Casa do Maranhão, Praia Grande), 8 (Praça da Ressurreição, Anjo da Guarda) e 9 de dezembro (Largo do Desterro), sempre às 19h. Todas as apresentações são gratuitas. Dias 6 e 7 de dezembro, das 9h às 13h, o grupo realiza uma oficina para artistas da cidade, no Teatro Itapicuraíba (Anjo da Guarda). Dia 8, no mesmo local e horário, acontece um encontro com um grupo local, para intercâmbio e oficina.

FICHA TÉCNICA

Coordenação Geral – Altemar Di Monteiro
Direção ­– Murillo Ramos
Dramaturgia e Assistência de Direção – Altemar Di Monteiro
Elenco – Doroteia Ferreira, Kelly Enne Saldanha, Altemar Di Monteiro, Henrique Gonzaga, Amanda Freire, Carlos Magno Rodrigues e Maurício Rodrigues
Contrarregragem – Bruno Sodré, Nayana Santos e Edna Freire
Cenografia – Jefferson Saldanha
Figurino ­– Miguel Campelo
Bonecos – Carlos César
Adereços – Pádua Oliveira
Maquiagem – Kelly Enne Saldanha
Preparação Vocal – Danilo Souto
Preparação Canto – Juliana Veras
Produção – Nóis de Teatro

O homem-tambor volta à terra do tambor de crioula

Carlos Pial se apresenta amanhã e depois em São Luís. Percussionista conversou com o blogue com exclusividade

Ano passado, o percussionista Carlos Pial fez um dos melhores shows do ano, conforme modestamente elegi, na votação anual para o site Scream&Yell, a que compareço a convite do editor Marcelo Costa.

Foi no circuito São Luís do Lençóis Jazz e Blues Festival, na Concha Acústica Reinaldo Faray, na Lagoa da Jansen. Em um show de música instrumental, Pial botou literalmente o povo para cantar e bater palmas, com o fascínio que exerce sobre a plateia – à qual literalmente adentrou, enquanto fazia soar seus instrumentos.

Bruxo, mago, alquimista. Para além de clichês, estas são palavras que traduzem a atuação de Pial no palco. Maranhense radicado em Brasília, costumeiramente se referem a ele como homem-tambor. Não é à toa.

O músico se reencontra com o público maranhense amanhã (5) e depois (6), com o show Alquimia dos Sons, título do dvd que gravou em Brasília/DF, e com o qual tem percorrido o Brasil, com patrocínio do edital do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) da Secretaria de Cultura do Governo do Distrito Federal.

Os shows acontecem às 21h, na Galeria Valdelino Cécio (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com entrada franca. Pial será acompanhado por Hamilton Pinheiro (contrabaixo), Misael Silvestre (piano e teclados), Westonny Rodrigues (trompete), Agilson Alcântara (violão) e Pedro Almeida (bateria). Quarta-feira (5) o instrumentista terá como convidado o Henrique Duailibe Trio; quinta (6) é a vez do Jayr Torres Trio.

Por e-mail, Carlos Pial conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Marcia Foizer

Pial, onde você nasceu e quais são as suas primeiras lembranças musicais? Quando você começa a se interessar por percussão e decidiu que dedicaria a vida a isso?
Nasci em Tocoíra, um lugarejo ribeirinho entre Viana e Cajari, baixada maranhense. Sou de família tradicional de músicos de sopro, onde até hoje continua a tradição repassada de pai pra filhos. Minha vó por parte de mãe era folclorista e tocava caixa do divino. Nasci no dia 30 de junho, dia de São Marçal, um dia fortíssimo e importante em nossa cultura. Daí imagino que, apesar de toda influência dos metais, o que aflorou mesmo em mim foi a caixa e as catracas que minha vó tocava.

Maranhense radicado em Brasília, você acabou por construir uma das mais sólidas carreiras como percussionista no Brasil, seja em seu trabalho como artista solo, seja como músico a serviço de outros músicos ou ministrando oficinas. Mas a gente sabe que chegar até este ponto nunca é fácil. O que você gosta de destacar nessa trajetória?
Vida de músico sabemos que é difícil, e a do percussionista termina ficando mais difícil por ficar sempre no plano de fundo nos palcos, onde só aparecem os guitarristas, tecladistas, enfim [risos]. Com todo respeito a todos os colegas músicos eu tive uma atitude arriscada e que depois ficou prazerosa demais: a coisa de sair da cozinha e vir pra sala. Mostrando a cara mesmo! Onde comecei a desenvolver minhas composições e ideias que eu vinha desenvolvendo e observando meus ídolos maiores: [os percussionistas] Papete e Naná Vasconcelos. Brasília pra mim foi e está sendo um portal para outros povos, por ser uma cidade super cultural e de bom gosto. Através dela estou nesta turnê e consequentemente em minha cidade, claro!

Alquimia dos Sons tem muito de misturas, mas há uma coerência em teu trabalho, não é um cozinheiro maluco jogando qualquer ingrediente na panela. Como foi conceber este espetáculo?
[Risos] Boa! Mencionei cozinha na resposta anterior. O lugar mais gostoso de minha casa, adoro cozinhar e de repente isso me ajudou a usar os ingredientes certos na hora certa. Desde o início do meu trabalho solo sempre misturei ritmos, ideias, foi realmente resultado de pesquisas de trabalhos de alto nível no decorrer desses anos musicais. Alquimia dos Sons tem um pouco de cada momento que venho percorrendo ao longo de minha carreira.

Títulos como Somambembe, Salsamba, Samba candango e Norjazzteando já dão pistas de algumas fusões que comparecem a tuas composições. O que te inspira?
Então, falei um pouco disso na resposta anterior [risos]. Eu nunca gostei da coisa tradicional, ritmo tal, ritmo tal. Uma coisa é um arroz branco muito bom, outra coisa é um arroz de cuxá. Com a mistura dos ingredientes fica melhor o arroz. Penso assim nas minhas músicas.

Vi sua apresentação na edição de São Luís do Lençóis Jazz e Blues Festival ano passado, que elegi na ocasião como um dos melhores shows do ano. Ali, pode-se perceber o domínio que você tem da plateia, botando o público para fazer coro em um show de música instrumental. A que você credita essa empatia?
Muito obrigado por esse elogio. Respondendo sua pergunta, eu brinco com os amigos que sou um cantor frustrado [risos]. Brincadeira! Assisti muitos shows instrumentais, de jazz e outros, onde o músico sola meia hora e na maioria das vezes o público não entendia nada, ficava bocejando e muitas vezes até ia embora. Eu via muitas vezes as pessoas falando mal da música instrumental, até por não conhecer. Via muito o Naná Vasconcelos interagindo e eu via resultados. Achei que poderia fazer isso também. Terminei fazendo com um estilo próprio, e por onde ando percebo que venho agradando públicos de todas as idades.

Uma coisa que também chama a atenção em teus espetáculos é o uso da tecnologia. Você está ao vivo no palco e já vai gravando e usando essas bases gravadas, dialogando consigo mesmo. Como foi desenvolver essa linguagem?
Dando sempre os créditos do que faço sempre, confesso que aprendi muito bem as dicas do saxofonista maranhense Sávio Araújo [radicado em Portugal], com que dividi o palco durante muitos anos. Ele e novamente o mestre Naná Vasconcelos, com quem tive a honra de passar alguns dias em São Luís, num trabalho. Ele me deu muitos toques e foi pioneiro nessa coisa de um percussionista usar tecnologia. Terminei desenvolvendo minha própria forma de usar esta faceta.

Você já citou Papete e Naná Vasconcelos. Quem são os percussionistas fundamentais para tua formação? Por quê?
Papete, Naná Vasconcelos, Jeca [Jecowski], Erivaldo [Gomes], Airto Moreira, Paulinho da Costa. Por quê? Por que eles são os melhores!

Qual a sensação de voltar a tocar em casa, recebendo como convidados amigos de longa data? O que o público pode esperar destas duas apresentações?
A sensação é maravilhosa! Tocar com Henrique Duailibe, um músico extraordinário, com quem toquei muitos anos. Foi ele quem deu a maior força e gravei meu primeiro CD em seu estúdio. Jayr Torres, um dos melhores guitarristas do mundo em minha opinião, somos amigos de adolescência eu vi todo seu crescimento musical. Foi no trabalho dele que eu toquei pela primeira vez num show instrumental e isso foi fundamental para meu crescimento no gênero. O que o público pode esperar? Muito suingue, quebradeira e muita emoção. Porque estou levando aqui de Brasília os melhores músicos da cidade e alguns dos melhores do Brasil.

*

Assista Mãe Natureza (Carlos Pial):

O trompetista e o palhaço

Foto: Zeqroz Neto

 

Reencontro [2016] é uma bolachinha delicada. Biscoito fino, eu diria, se não fosse fazer merchandising de outra gravadora, que, afinal de contas, não o lançou.

“É como se Chet Baker tocasse choro”. Dizer isto seria uma boa síntese do disco, o jazzista norte-americano influência confessa do niteroiense.

É o disco solo de estreia de Silvério Pontes, trompetista que faz par com o trombonista Zé da Velha na assim chamada “menor big band do mundo”.

Figura fácil em fichas técnicas de incontáveis discos de artistas brasileiros de qualquer matiz, o músico teve ontem seu reencontro com o público ludovicense, num sarau do projeto RicoChoro ComVida Pra Luta, realizado na sede recreativa do Sindicato dos Bancários do Maranhão (Av. General Arthur Carvalho, 3.000, Turu).

Teve como anfitriões Marquinhos Carcará (percuteria), Rui Mário (sanfona), Wendell de la Salles (bandolim) e Júnior Maranhão (violão sete cordas), reunidos no Quarteto Crivador, recepcionados pelo dj Joaquim Zion.

Por diversas vezes brincou: “a gente ensaiou uma semana para chegar a isso aqui”, disse ele, obviamente há menos de uma semana na cidade, tirando onda com a facilidade com que desfilaram juntos um repertório que foi de Jacob do Bandolim (Receita de samba) à parceria de Chico Buarque e João Bosco (Sinhá, em versão instrumental em que o trompetista botou a plateia para cantar o lamento “êêê” do refrão).

Da plateia, convidou a cantora Fátima Passarinho, que topou o desafio e mandou Sem compromisso (Geraldo Pereira). Ao longo da apresentação, com pegada de gafieira, fez dois concursos de dança, sorteando discos da dupla Zé da Velha e Silvério Pontes, para os casais ganhadores continuarem a dança em casa.

“Eu não queria tocar músicas minhas. É chato esse negócio de ficar ouvindo música nova”, afirmou, modesto, para gargalhadas da plateia. Acabou tocando temas como De Niterói à Vacaria, parceria com o gaúcho Bebê Kramer – “fizemos a música e não tinha título, e resolvemos batizar com os nomes de nossas cidades”, revelou – e Piazzolla no Choro, parceria com Marcelo Caldi que imagina o bandoneón do argentino numa roda brasileiríssima, com citações de Libertango.

“Quem aqui se lembra do Carequinha?”, perguntou obtendo uns poucos braços para cima como resposta. “Tem várias músicas com o Altamiro Carrilho”, lembrando o acompanhamento da bandinha do flautista em discos do palhaço. “O bom menino não faz xixi na cama/ o bom menino não faz malcriação”, cantarolou, imitando a voz.

Contou a tragicômica história de um encontro seu com o ídolo, antes de tocar Hoje tem marmelada, com que homenageia o saudoso artista. “Uma vez eu fui ao circo e me deixaram entrar no camarim do Carequinha. Ele estava se maquiando, botando aquela pintura. Deve ser um horror para um palhaço ser pego nesse momento. Quando ele me viu, perguntou: “meu filho, o que você está fazendo aí?”. E continuou se pintando. Eu era muito fã. Aí eu perguntei por algumas pessoas que trabalhavam com ele. Ele virou e me disse: “fizeram a maior besteira que alguém pode fazer na vida”. Eu perguntei: “o quê?”. E ele: “morreram!”.

Os personagens gigantes de um quadrinhista idem

Duas vidas. Capa. Reprodução

 

Tragicomédia é o termo que bem poderia definir Duas vidas [Les deux vies de Baudouin; tradução de Fernando Scheibe; Nemo, 2018, 272 p.; leia um trecho], nova graphic novel de Fabien Toulmé, autor da ótima Não era você que eu esperava [Nemo, 2017, 254 p.] – sua estreia, em que transforma um drama particular em matéria-prima de uma baita hq, citada sutilmente neste volume mais recente –, mas a palavra não aparece na capa ou na ficha catalográfica do álbum.

Francês com passagem pelo Brasil (morou em João Pessoa), Toulmé abandonou a profissão de engenheiro civil para se dedicar exclusivamente aos quadrinhos. Seu traço tem influência confessa de Hergé, o pai de Tintim.

Como a profissional do autor, uma guinada na vida é o mote de Duas vidas, para o qual escolheu uma epígrafe de Confúcio: “Você tem duas vidas. A segunda começa quando você percebe que só tem uma”.

O drama acompanha o reencontro dos irmãos Baudouin e Luc, cujos estilos de vida são absolutamente distintos. O primeiro enterrou o sonho de ser líder de uma banda de rock para se dedicar a um seguro (e monótono) emprego em um grande escritório de advocacia. O segundo viaja pelo mundo inteiro, levado pelo ofício da medicina. O recurso do flashback ajuda o leitor a entender a formação de personalidades tão diferentes, diante da relação com o pai.

De passagem por Paris, Luc ajuda Baudouin a elaborar uma lista de coisas que deseja fazer antes da morte que se avizinha com a descoberta de um câncer terminal. O sofrimento é amenizado por doses de bom humor na medida exata. A viagem agora é em busca do tempo perdido e de perceber o que realmente vale a pena na vida, emoldurada por traços e cores de amor e altruísmo. A habilidade de Toulmé na condução da trama deixa o resenhista absolutamente tranquilo em relação a qualquer possibilidade de spoiler.

Há quadrinhistas que sabem apenas desenhar. Definitivamente não é o caso de Fabien Toulmé, sempre além, com seus personagens, que se agigantam diante das peças que a vida lhes prega.

Prata da casa

Retrato: Silvia Zamboni

 

O maranhense Zeca Baleiro fecha a primeira noite do BR 135, no palco da Praça Nauro Machado (Praia Grande), na próxima quinta-feira (29). É a primeira vez que o autor de Telegrama participa do festival, cuja programação, de 29 de novembro a 1º. de dezembro, é completamente gratuita. Sua apresentação está marcada para as 23h.

Zeca Baleiro disse ter sentido a resposta do público “com muita alegria. Vi o entusiasmo das pessoas nas redes [sociais], isso é bom, estimula a gente. Estamos “turbinados”, vamos fazer um belo show, tenho certeza”, prometeu.

A última vez que o cantor e compositor se apresentou em sua terra natal já tem quase dois anos: foi no carnaval de 2017, quando comandou o Bloco do Baleiro, sucesso absoluto de público. “Será um reencontro com o público maranhense. E se dará da melhor forma possível, no já célebre BR 135”, festejou.

Ele classificou como “grande” a importância de festivais como o produzido por Alê Muniz e Luciana Simões, o duo Criolina: “Precisamos muito de festivais dessa natureza, com programação diversa, acesso livre, na rua… São eventos importantes não só pro mercado da música, mas pra nossa vida diária”, afirmou.

Como um técnico supersticioso, o torcedor do Maranhão Atlético Clube não adiantou muito sobre a escalação de seu repertório: “Alguma música do novo disco, que está em obras, e alguma surpresa, claro, por isso não conto [risos]”.

Mas deu uma pista ao ser indagado sobre ter algum recado em especial para o público: “Sim. O cara mais underground que eu conheço é o diabo [risos]”, mandou, lembrando o verso de Heavy metal do Senhor, hit que abre Por onde andará Stephen Fry? (1999), seu disco de estreia.

Academia da Berlinda, Maglore, Rubel e Tássia Reis são outros nomes de destaque da programação do BR 135 este ano. (Com informações da assessoria do festival)

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Assista Funk da lama (Zeca Baleiro):

Em primeira mão: conheça os vencedores do Maranhão na Tela 2018

Mavi Simão anuncia os vencedores do Maranhão na Tela 2018. Foto: Ascom/ Maranhão na Tela

 

Terminou ontem o 11º. Maranhão na Tela. Este ano o festival concentrou suas atividades de exibição em duas salas do complexo Kinoplex, no Golden Shopping, Calhau, em cuja praça de alimentação aconteceram debates, como “Lugar de mulher é no cinema”, de que participaram a atriz e diretora Aurea Maranhão, a diretora e produtora Mavi Simão, e a diretora Rose Panet, sob mediação da jornalista e escritora Andréa Oliveira, e o bate-papo com os diretores Lírio Ferreira e Paulo Caldas, mediado pelo poeta e jornalista Celso Borges, após a sessão que exibiu versão remasterizada de Baile perfumado (1996).

Esse deslocamento geográfico gerou críticas ao festival nas redes sociais. De minha parte, gosto de pensar em duas questões: a comprovada qualidade das exibições e a possibilidade, a um estudante de escola pública ou a um morador de periferia, sobretudo quem nunca esteve em um cinema, fazer sua estreia logo em uma sala luxuosa, sem pagar ingresso, o que se tornou realidade para muita gente.

Idealizadora e produtora do Maranhão na Tela, Mavi Simão canta uma vez por ano, justamente na festa de encerramento do festival, que ontem ocupou o Fanzine, na Av. Beira-Mar, Centro. Antes, ela mesmo anunciou e entregou os troféus aos vencedores das mais diversas categorias.

Fiz um esforço para tuitar em tempo real, mas por lerdeza, algum grau de mouquidão, lentidão na internet, por vezes, e às vezes tudo isso junto, vacilei na cata de alguns nomes.

A atriz e diretora Patrícia Niedermeir e o diretor e montador Christian Caselli formaram o júri para longa-metragem; videoclipes foram julgados pelo diretor Lírio Ferreira e a produtora cultural Luciana Adão; e curta-metragem pelo curador e produtor Breno Lira Gomes e o técnico Carlos Henrique Santos, da equipe de formação audiovisual do Centro Técnico Audiovisual (CTav), órgão vinculado à Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura (MinC).

Além dos troféus, baseados na obra do artista Walter Sá, em que se apoiou toda a identidade visual do festival este ano, os melhores filmes e videoclipes ganharam horas de aluguel de equipamentos e mixagem no CTav. Eis a relação completa dos vencedores:

MOSTRA NOSSO CINEMA

Longa-metragem

Melhor atriz: Keila Gentil, Para ter onde ir

Melhor ator: Aldo Leite (homenagem póstuma), No palco com Aldo Leite

Melhor atriz coadjuvante: Joelma Maestrini, Aurora – O encontro dos pólos

Melhor direção de fotografia: Beto Martins, Para ter onde ir

Melhor ator coadjuvante: Fabio Lima, Aurora – O encontro dos pólos

Melhor som: João Simas, A tribo do reggae

Melhor roteiro: Rose Panet, Manuel Bernardino: o Lénin da Matta

Melhor direção de arte: Dida Maranhão e Geovane Camargo, Aurora – O encontro dos pólos

Melhor montagem: André Garros, Manuel Bernardino: o Lénin da Matta

Melhor filme: Para ter onde ir

Melhor direção: Jorane Castro, Para ter onde ir

Curta-metragem

Melhor direção: Al Danúzio e Thiago Kistenmacker, Aquarela

Melhor filme: Foi-se

Melhor roteiro: Adriano Pinheiro, Foi-se

Melhor som: Foi-se

Melhor direção de fotografia: Roman Lechapelier, Farol

Melhor direção de arte: Jeff Cecim, Raimundo Quintenela – O caçador de vira porco

Melhor montagem: Arturo Saboia, Farol

Melhor ator: Diego Bauer, Obeso mórbido

Melhor atriz: Luna Gandra, Aquarela

Melhor ator coadjuvante: Francisco Gaspar, Raimundo Quintenela – O caçador de vira porco

Melhor atriz  coadjuvante: Rosa Ewerton Jara, Aquarela

Videoclipe

Melhor videoclipe: Cabelo, Liége

Melhor direção: Arthur Rosa França, A menina do salão, do Criolina

Melhor direção de fotografia: Thiago Pelas, Deusa da lua perigosa, de Sammliz e Dona Onete

Melhor montagem: Lucas Domires e Alexandre Nogueira, por Lança (Até morrer), de Juliana Sinimbú

Melhor direção de arte: Neile Albertina, Frimes – Fadinha

Melhor performance: Pratagy, Búfalo

Premio especial do júri: Lucas Sá, Boy, de Butantan e Only Fuego

MOSTRA MARANHÃO DE CINEMA

Melhor filme: 3x melhor

Prêmio especial do júri: Alberto Greciano, Divino Pato

Menção honrosa: Roberto Augusto, Cantiliana e os herdeiros do mal de Lázaro

Menção honrosa: Maria Thereza Soares, José Louzeiro – Depois da luta

Black friday talk show

Foto: Zema Ribeiro

 

Era uma sexta-feira de black friday e estávamos na praça de alimentação de um shopping center. Por conta de uma das promoções típicas da data, a fila do Burger King era enorme e obviamente não passou despercebida a Lírio Ferreira, um dos diretores do clássico Baile perfumado, lançado há 22 anos, em Pernambuco. Com ele, no bate-papo, seu par de direção do filme Paulo Caldas, e o mediador, o poeta e jornalista Celso Borges.

Película importante da chamada fase de retomada do cinema nacional, após o desmantelo da Embrafilme no governo Collor, Baile perfumado foi o precursor de tudo o que viria depois em se tratando de cinema pernambucano, o Árido movie, que não à toa intitulou outro filme de Lírio Ferreira 10 anos depois, o estado nordestino um dos mais importantes celeiros do cinema nacional desde então.

Uma versão remasterizada de Baile perfumado foi exibida ontem (23) na programação do Festival Maranhão na Tela, em uma sala do Kinoplex Golden, no Golden Shopping, Calhau. “É interessante estarmos aqui. Embora seja estranho fazer isso em um shopping center. Mas quem diria, 22 anos depois do Baile perfumado, nós estarmos debatendo o filme aqui, em uma praça de alimentação, diante da fila enorme do Burger King”, disparou Lírio Ferreira.

Na plateia eu pensava que rever Baile perfumado na ocasião era uma espécie de atestado afetivo de velhice: eu tinha visto o filme na finada MTV Brasil. A trilha sonora, impactante, funciona como uma espécie de coletânea do MangueBit, o último movimento musical organizado de grande repercussão no Brasil, à época então se firmando: Chico Science, Fred 04, Mestre Ambrósio, Stela Campos e companhia.

“Quando gravamos o filme, já tínhamos 80 por cento da trilha sonora gravada”, revelou Lírio. “É muito bom poder ouvir o filme antes de rodá-lo”, repetiu Paulo Caldas.

Com Luís Carlos Vasconcelos e Duda Mamberti interpretando respectivamente Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e Benjamim Abrahão, Baile perfumado tinge de ficção vermelho sangue a história real do fotógrafo libanês que conseguiu fazer imagens do cangaceiro em vida. Ao filme, aliás, comparecem as imagens em preto e branco da época de Lampião e seu bando.

“Havia várias imagens de vários arquivos. A gente juntou, recuperou, e está tudo na Cinemateca Brasileira”, comentou Paulo Caldas, revelando uma espécie de contrapartida histórica da dupla ao país – são imagens fabulosas, um documento valioso, sobretudo num tempo em que museus pegam fogo e pouca gente se importa.

O cangaço é algo muito forte no imaginário coletivo nordestino. “Lampião é, ao lado de Padre Cícero e Antonio Conselheiro, um dos maiores símbolos do Nordeste”, provocou Celso Borges. “E Luiz Gonzaga”, completou Lírio.

O nome de Luiz Inácio Lula da Silva não foi dito, talvez por terem citado apenas os que já se foram. Mas o descontentamento com os rumos do país ficou claro em suas falas. “Fazer cinema não é fácil, mas imagino que ser professor de escola pública também não seja fácil”, atacou Lírio. “Ainda mais num espaço sem liberdade, escola sem partido ou escola de partido único”, emendou Caldas.

“Uma coisa fica evidente, se estamos aqui 22 anos depois falando desse filme: o que fica é a arte, a coisa mais importante de um país é sua arte, sua cultura, não é a política”, completou, para aplausos dos poucos que assistiam ao bate-papo, infelizmente menos gente sentada que em pé na fila da citada lanchonete.